NOTAS DE RODAPÉ:

[1] Na copia que temos presente falta o seguinte verso.

[Pag. 47] — Arte de Amar.

No anno 1822 appareceu em Lisboa impressa (anonyma) em um pequeno folheto de oitavo esta peça, miseravelmente deturpada em muitos versos, e mutilada em alguns outros, como facilmente poderá verificar o leitor curioso, que possuindo por ventura o citado folheto, quizer confrontal-o com a presente edição. Aquelle que for versado no conhecimento de estylos terá talvez aventado que o d'esta composição se affasta notavelmente da elocução propria de Bocage. E na verdade, segundo a asseveração de pessoas competentes, a obra é de Sebastião Xavier Botelho; mas tambem nos certificaram que tendo-a seu auctor submettido á correcção e censura de Bocage, este emendara e polira muitos versos, introduzindo-lhe outros totalmente seus, pelo que nos pareceu que de justiça devia achar cabida na presente collecção.

[Pag. 61] — Cartas de Olinda e Alzira.

Estas famosas cartas gosam desde muitos annos da posse de andarem encabeçadas no nome de Bocage em diversas collecções manuscriptas, que temos tido presentes. Se por ventura não são d'elle, ao menos (que nós saibamos) não foram ainda attribuidas a outro auctor.

As seis primeiras epistolas têm sido já impressas, e por mais de uma vez, posto que mais ou menos correctas, conforme os diversos transumptos que os editores poderam haver á mão para as suas edições. Quanto á setima (pag. 93) devemos declarar que não sómente julgamos ser esta a primeira vez que se imprime, se não que estamos persuadidos de que poucas pessoas haverão noticia da sua existencia. Pelo menos na immensa multidão de opusculos e papeis d'esta natureza, que no decurso de muitos annos temos revolvido, apenas uma unica vez deparámos com esta epistola junta ás suas companheiras. D'essa copia extrahimos a que nos serviu para a presente edição; onde, pela impossibilidade de fazer a necessaria confrontação com outras copias, deixamos ir alguns logares, que nos parecem viciados, mas que nos não atrevemos a emendar de motu proprio.

[Pag. 109] — Sonetos.

Se levassemos a mira sómente em engrossar o volume, ainda que á custa de obras suppositicias, teriamos sem duvida duplicado, ou triplicado a serie dos sonetos que apresentamos, admittindo ahi indistinctamente como de Bocage todos os que se lhe attribuem nas muitas e variadas collecções manuscriptas, que temos consultado, ou os que geralmente e sem exame se repetem como taes. Outro tanto dizemos no tocante a decimas, glosas, e outras similhantes composições. Mas entendemos que isto seria intoleravel em uma edição feita para leitores intelligentes, os quaes teriam justissimo direito para queixar-se de quem, como se diz, quizesse encampar-lhes gato por lebre. Assim resolvemos excluir tudo o que de proprio conhecimento, ou em resultado d'exame critico e comparativo, se mostrava evidentemente alheio; já porque contivesse allusões a pessoas, ou factos mais recentes; já porque sendo mal digerido ou ineptamente escripto, serviria de descredito para o poeta, e muito mais denunciaria a falta de siso e de critica em quem ousasse attribuir-lho; já finalmente porque muitas d'essas obras pertencendo aliás a auctores conhecidos, seria flagrante injustiça privar a estes da fama, ou do desar, que de taes producções deva provir-lhes.

Apezar da regra adoptada, alguns sonetos vão ainda incorporados neste volume, que supposto não desdigam do estylo do auctor, e tenham sempre corrido em seu nome, nem por isso nos julgamos auctorisados a dal-os por genuinos. Pelo que os marcámos respectivamente com a lettra (D) querendo com ella significar que os temos por duvidosos, não affiançando por modo algum a sua authenticidade.

[Pag. 111] — Soneto I.

Já a pag. 179 tocámos alguma cousa com respeito a este soneto, escripto na occasião em que o exercito francez commandado por Bonaparte invadira os estados ecclesiasticos (1797), chegando quasi ás portas de Roma, e ameaçando o solio pontificio.

O verso 9.°

D'elles em vão rogando um pio arrojo,

envolve uma especie de equivoco, ou como hoje se diria um calembourg; porque Pio VI era o papa, que então presidia na universal egreja de Deus.

O penultimo verso lê-se em algumas copias do modo seguinte:

Zumba, catumba; ficam-lhe em despojos etc.,

[Pag. 115] — Soneto V.

Bocage, o folgazão, rostia o França.

Se o soneto foi escripto, como parece, pouco antes das contendas com os Arcades, isto é, entre os annos 1791 e 1793, o França nascido em 1725, devia então contar os seus 67 de edade! — Rostir é verbo neutro, que em sentido figurado significa mastigar. Fazemos aqui esta observação, porque já notamos que alguem entrou em duvida ácerca da verdadeira intelligencia do vocabulo.

[Pag. 116] — Soneto VI.

Veja-se em geral a respeito dos sonetos marcados com a lettra (D) o que acima dizemos no fim da nota á pag. 109.

O de que ora nos occupamos, tem sido tão constantemente havido como producção de Bocage, e é tão popular, e conhecido, que não poderiamos dispensar-nos de aqui o reproduzir. Mas pede a verdade que se diga que Manuel Maria foi inteiramente extranho a esta composição. Conforme o testemunho irrefragavel dos contemporaneos mais bem instruidos n'estas particularidades, o seu verdadeiro auctor foi João Vicente Pimentel Maldonado. É certo que ainda em vida de Bocage muitos lh'o attribuiram; porém elle nunca o reconheceu por seu: ao contrario, diz-se-nos que consultando-o alguem a esse respeito, respondera que lhe não agradava, mas que se o tivesse feito, em logar do verso

O teu cono não passa por honrado

teria dito

Não passa o cono teu por cono honrado.

Outros mais reparos fez, que o sujeito de quem houvemos esta anecdota não nos pode repetir, por lhe faltara reminiscencia de caso passado ha tantos annos.

Este soneto ha sido parodiado em diversos tempos, e com differentes fins. Poremos aqui o seguinte, feito sobre pensamento analogo, e que se diz ser de José Anselmo Corrêa Henriques:

[Soneto.]

Não lamentes, Alcino, o teu estado,
Corno tem sido muita gente boa;
Cornissimos fidalgos tem Lisboa,
Milhões de vezes cornos tem reinado:

Sicheu foi corno, e corno de um soldado;
Marco Antonio por corno perde a c'rôa;
Amphitrião com toda a sua prôa
Na Fabula não passa por honrado:

Um rei Fernando foi cabrão famoso
(Segundo a antiga lettra da gazeta)
E entre mil cornos expirou vaidoso:

Tudo no mundo é subjeito á greta:
Não fiques mais, Alcino, duvidoso
Que isto de ser corno é tudo peta.

[Pag. 117] — Soneto VII.

Nas «Poesias Satyricas ineditas do M.M.B. du Bocage, colligidas pelo professor A.M. do Couto» (Lisboa 1840), vem este soneto a pag. 28, e tem ahi o seguinte titulo: — A um musico velho chamado L.F. — Não alcançámos alguma outra indicação, nem mesmo vimos outras copias d'este soneto, com as quaes podessemos conferil-o.

[Pag. 118] — Soneto VIII.

Diz-se que este soneto fora escripto em Gôa, e dirigido a um D. Francisco de Almeida, fidalgo de raça mestiça, cuja indole e costumes o poeta quiz assim escarnecer. Derramou por todo elle vocabulos da lingua canarina, cuja explicação debalde se procurará nos diccionarios. Pessoa que suppomos bem informada, nos assegura que tambió quer dizer tabaco; — fuscó, peido; — gu, trampa, etc. Valha a verdade!

[Pag. 120 e 121] — Sonetos X e XI.

Como a historia da composição d'estes sonetos se encontre amplamente descripta na «Livraria Classica» (tomo XXIII), para aqui a transcreveremos, em obsequio aos leitores, que não tiverem á mão aquelles folhetos.

«Era Santarem a mais chara residencia de Bocage. Tractado como irmão em casa do senhor Salinas de Benevides, ali se esquecia durante mezes. Era chegado o tempo da feira, em que, segundo o uso, grande multidão concorria áquella terra.

«Á hospitaleira porta de Salinas vão, sabedores do benevolo agasalho, batendo amigos e extranhos: são onze horas da manhan, quando pela centessima vez se toca a campainha! Dous varatojanos moîdos, e suados, mas o padre mestre herculeo e nedio, e o leigo moço e mirrado, entram para a sala commum. Trazendo-se-lhe dous copos, um de vinho, outro de agua, o mais velho, sem dar satisfações, precipitou-se sobre o do vinho, que o leigo viu com olhos de inveja emborcar até meio, resolvendo-se então humildemente a pegar no copo d'agua. Mal não era feito o movimento, quando irado o padre mestre por ver a audacia com que o seu subalterno, faltando ás regras da sancta obediencia, bebia a agua de motu proprio, volta-se, ainda em cima, para o estafado moço, berrando-lhe: O irmão já me pediu licença para beber isso?

«Bocage, que de toda a scena nem um meneio perdera, ergue-se furibundo, vai dentro, e apodera-se de um cajado, com que sái para a rua a desancar frades. Esteve divino: vociferações, epigrammas contra frades borbotavam em cachão.

«Quiz a fortuna que a um canto da feira lobrigasse um cardume de gente, ralhando, ameaçando, rindo, e gritando. Encaminhou-se para a multidão, que rodeava uma loja ambulante de bonecos de barro. E ahi lhe contaram como a mais rica peça da loja, era um frade de louça d'Extremoz, atacando uma freira; que passára aquelle frade de carne, que ainda lá ía ao longe, o qual encholerisado arrebatara o escandaloso grupo, o esmigalhara, e conculcara aos pés, impavido continuando em seu caminho.

«Imagina-se como Bocage ficaria! Entra a correr, clamando como possesso: — «Cerquem-me o frade!… agarrem-me o frade, que ahi vai uma saraivada de sonetos!…»

E com effeito, á queima roupa lhe desfechou uma duzia de sonetos (de que apenas se conservam como amostra os dous que dâmos no texto)....

Continuou ainda a disparar epigrammas a frades, taes como os seguintes, que nunca foram impressos:

Entre um frade, e entre um burro

Entre um frade, e entre um burro
Ha tanta conformidade,
Que ou o frade é pae do burro,
Ou o burro é pae do frade!


Casou um bonzo da China

Casou um bonzo da China
Co'uma mulher feiticeira;
Nasceram tres filhos gemeos,
Um burro, um frade, e uma freira.
etc. etc.

[Pag. 125] — Soneto XV.

O seguinte é o titulo d'este soneto na collecção de Couto, já citada:

«A um clerigo fulo, Deão de Angola, que aqui veiu a requerimentos, e era corcovado naturalmente; corria o anno de 1800.»

[Pag. 127] — Soneto XVII.

As horas do prazer voam ligeiras

foi motte dado, a que este soneto serviu de glosa, bem como o que adiante se transcreve sob numero XXX.

[Pag. 128] — Soneto XVIII.

É dirigido ao padre Domingos Caldas Barbosa (Lereno Selinuntino) no tempo das contendas com os Arcades (vejam-se para a historia d'esta guerra a: «Livraria Classica» tomo XXIII, e o «Estudo Litterario» no tomo VI da nova Edição das Poesias de Bocage a pag. 329 e seguintes).

Como em qualquer das duas obras, nos logares que deixamos apontados, se encontram varias poesias satyricas, com que os contendores e rivaes d'Elmano o brindaram, em desforra e retribuição de muitas, que elle lhes dirigira (as quaes tambem podem ler-se no tomo I. da citada edição de Bocage de paginas 341 a 363) parece-nos que os leitores nos haverão em graça que lhes completemos a collecção d'essas obras, dando-lhes incorporadas não só algumas das já impressas, que por circumstancias e motivos obvios se haviam publicado com suas lacunas, restabelecendo-as aqui na sua integra, mas tambem outras, de que por ventura não terão conhecimento. Ahi vão portanto em seguida todas as que conservamos desta especie.

[Soneto.]

Em quanto a rude plebe alvoroçada
Do rouco vate escuta a voz de mouro,
Que do peito inflammado sái d'estouro
Por estreito bocal desentoada:

Não cessa a cantilena acigarrada
Do vil insecto, do mordaz bisouro;
Que á larga se creou por entre o louro
De que a sabia Minerva está c'roada:

Em quanto o cego athêo, calvo da tinha,
Com parolas confunde alguns basbaques,
Psalmeando a amatoria ladainha:

Eu não me posso ter; cheio de achaques,
Cançado de lhe ouvir — «Bravo! Esta é minha!»
Cago sem me sentir, desando em traques.

(Anonymo.)

[Soneto.]

Morreu Bocage, sepultou-se em Gôa!
Chorai, moças venaes, chorai, pedantes,
O insulso estragador dos consoantes,
Que tantos tempos aturdiu Lisboa!

Por aventuras mil obteve a c'rôa
Que a fronte cinge dos heróes andantes;
Inda veiu de climas tão distantes
Á toa vegetar, versar á toa;

Este que vês, com olhos macerados,
Não é Bocage, não, rei dos bregeiros,
São apenas seus ossos descarnados:

Fugiu do cemiterio aos companheiros;
Anda agora purgando seus peccados
Glosando aos cagaçaes pelos outeiros.

(B.M. Curvo Semedo.)

[Soneto.]

Esqueleto animal, cara de fome,
De Timão, e chapéo á hollandeza,
Olhos espantadissos, bôca accesa,
D'onde o fumo, que sái, a todos some:

Milagre do Parnaso em fama e nome,
Em corpo gallicado alma franceza,
Com voz medonha, lingua portugueza,
Que aos bocados a honra e brio come:

Toda a moça, que d'elle se confia,
É virgem no serralho do seu peito;
Janella, que se fecha, putaria!

N'este esboço o retrato tenho feito:
Eis o grande, o fatal Manuel Maria,
Que até pintado perde o bom conceito.

(Anonymo.)

[Soneto.]

Ha junto do Parnaso um turvo lago,
Aonde em rans existem transformados
Os trovistas de cascos esquentados,
Cerebro frouxo, ou de miolo vago:

Por mais infamia sua, e mais estrago,
Doou-lhes Phebo os animos damnados,
P'ra que exprimam em versos desazados
Os seus destinos vís, nos quaes eu cago;

Aqui Bocage vive, e d'aqui ralha,
E co'a tartarea lingua ponti-aguda
Bons e maus, maus e bons, tudo atassalha:

É vil insecto, e o genio atroz não muda,
Bem como a escura côr não muda a gralha,
E o hediondo fedor não perde a arruda.

(J. Franco.)

[Epigramma.]

De todos sempre diz mal
O impio Manuel Maria;
E se de Deus o não disse,
Foi porque o não conhecia.

(D. Caldas Barbosa.)

[Satyra.]

Impondo duração além das eras
Numen te eriges, fanfarrão Bocage,
Envesgando raivoso o vasto mundo
Ante o teu throno serpeando a medo:
Usurpador de louros soberanos,
Ah! não aviltes o Apollineo solio
Em que é dado reinar a augusto vate,
Que equilibrando na invenção madura
Potente phrase, se abalança aos astros,
Até c'os deuses practicar suberbo.
Os titulos sagrados me apresenta,
Com que alardêas profanando Apollo:
Esse idyllio, que tens em gran portento,
Pensas te salva da vorage eterna?
Fale o Tritão, que tu fizeste amphibio,
Pondo-o na terra, namorando a nympha.
Sonetos, glosas lhe attrahis louvores,
Cheios de vento, que empanturra o Paula;
Pêcco epigramma, que afugenta o riso.
Fabulas tuas, traducções franjadas;
Essas cantatas de Parny são roubos,
Em que sedento de invenção campêas.
Mas, Tantalo phebêo, em vão cubiças
Á custa alheia eternisar teu nome.
Busco debalde acção nas obras tuas,
Que o desejado fim demande altiva;
És emprestado vate: Italia o diga,
Fale a Gallia tambem, d'onde saquêas
Sem ter pejo os relampagos de gloria.
Tentas medir-te c'o suberbo Ovidio,
Na apoquentada epigraphe acoutado
D'essa sem par metamorphose eterna,
Aonde o triste pensamento enjôa,
Pela enfadonha somnolenta phrase!
Nas satyras não falo venenosas,
Em que impera a calumnia, socia tua,
Ou te divertes com tremendas caras,
Com trombas, que se vão sumindo em lenços,
Ou proferindo, como sempre, á tôa
Mais outros chochos palavrões ensossos,
Com que ha pouco louvaste o Ersaunio vérme,
Porque falar só d'elle é dar-lhe a vida.
Tu lhe mandas sequer desprenda um verso,
Um pensamento eu só te peço ao menos,
Que nas azas do metro e sentimento
Não toque ouvidos só, como os teus versos,
Mas subito alvorote o peito arfando;
Eccho de auctores, pequenino Elmano,
Sonoroso, monotono, apoucado,
Que não sabes tirar pulsando a lyra
Som, que arremede a voz da natureza,
Hyperbolico auctor desesperado
D'oucas repetições as obras matas,
Coalhas a podre, insupportavel massa.
Metrico impulso te flammeja a mente;
Mas olha inda o declive em que és por ora
De remontar á brilhadora esphera!
Para colhêr no Pindo egregio louro
Não basta deslizar canoro acento,
Soltando de improviso o dique ás vozes.
Mas debalde minha alma se afadiga,
Que os meus conselhos só te valem risos;
Porém desabafei, mostrei-te aos pangas,
Que embasbacados te lauream nume,
Qual o pastrano camponez papalvo,
Pasma, encarando da cidade os nadas.

[Pag. 129] — Soneto XIX.

A respeito da origem d'este soneto contou-se-nos que tendo Bocage sido iniciado em uma das LL∴ Maçonicas, que n'aquella epocha existiam em Lisboa (de que era Ven∴ Bento Pereira do Carmo, e Orad∴ José Joaquim Ferreira de Moura, ambos deputados ás Côrtes de 1821 e 1823, e bem conhecidos na historia politica dos nossos tempos modernos) frequentára durante alguns mezes aquella associação, assistindo ás suas reuniões, até que desavindo-se um dia com os II∴ por qualquer motivo que fosse, em um accesso do cholera rompêra extemporaneamente n'este soneto, que rasgou depois do escripto; mas alguem o tinha já copiado, aliás succeder-lhe-ia o mesmo que a tantas outras producções do auctor, irremediavelmente perdidas.

Doctor macaco — José Joaquim Ferreira de Moura tinha effectivamente uma physimiomia amacacada como ainda se mostra do seu retrato, e gaguejava algum tanto, segundo dizem os que o conheceram.

[Pag. 130] — Soneto XX.

Tanto este como os que se seguem, XXI, XXII, XXIII, e XXIV acham-se impressos no tomo I da já citada edição de Bocage; mas pareceu acertado reproduzil-os por conterem variantes, como se verá da respectiva confrontação de cada um d'elles com o que lhe corresponde. Lá se encontrará tambem a indicação dos seus assumptos, que por superflua deixamos de trasladar aqui.

[Pag. 135] — Soneto XXV.

Na collecção de Couto, já por vezes mencionada, vem este soneto com o seguinte titulo, que fielmente copiamos:

«Em dialogo, a certo Fidalguinho que, pedindo vir com licença a Lisboa da guerra do Russillon por cá se deixou ficar; até que o obrigaram a voltar: o estylo é rasteiro, attentas as pessoas que falam.»

[Pag. 136] — Soneto XXVI.

A proposito d'este soneto, ajuntaremos aqui outros de assumpto analogo, que todos têm sido em diversos tempos attribuidos a Bocage, mas que de certeza sabemos lhe não pertencem. O primeiro é de Fr. José Botelho Torrezão, frade paulista, fallecido em 1806; — o segundo de José Caetano de Figueiredo, official maior que foi da Junta do Commercio; — o terceiro de Francisco Manuel do Nascimento. Dos outros não podemos assignar ao certo os nomes de seus auctores.

Do throno excelso nos degraus sagrados

Do throno excelso nos degraus sagrados
D'Assiz o patriarcha ajoelhára;
E consta que d'esta arte se queixára
Ao Deus, que rege o céu, e move os fados:

«Grande Deus, com que pejo relaxados
«Vejo os filhos, que outr'hora abençoára!
«Já entre elles o vicio se descara,
«Já de Christo não são, da fé soldados!

«Eu te rogo, senhor, que aos loucos brades,
«E lhe avives a fé no paraiso!…»
Riu-se Deus, e lhe disse: — Não te enfades:

— Frades não fiz, de frades não preciso;
Quando o mundo souber o que são frades,
Ha de extinguil-os, se tiver juizo.


Encontrei certo Leigo franciscano

Encontrei certo Leigo franciscano,
Com os olhos no chão, pedindo esmola;
Dos hombros lhe pendia alva sacola,
Celeiro, que dá pão p'ra todo o anno:

Queria o leigo armar-me um bello engano,
E fazer-me cahir na corriola;
Mas eu, que sigo esta moderna eschola,
Só chicote darîa ao tal magano:

Como é possivel que a nação contente
Mantenha ufana, e liberal soccorra
A tão inutil, e ociosa gente?

Elles têm que comer á tripa-forra;
Eu, por mais que trabalhe, ando indigente:
Se o torno a encontrar, dou-lhe co'a porra!


Christo morreu ha mil e tantos annos

Christo morreu ha mil e tantos annos;
Foi descido da cruz, logo enterrado;
E inda assim de pedir não têm cessado
Para o sepulchro d'elle os franciscanos!

Tornou a resurgir d'entre os humanos;
Subiu da terra ao céu, lá está sentado;
E á saude d'elle sepultado
Comem á nossa custa estes maganos:

Cuidam os que lhes dão a sua esmola
Que ella se gasta na funcção mais pia.....
Quanto vos enganais, oh gente tola!

O altar-mór com dous cotos se allumia;
E o fradinho co'a puta, que o consola,
Gasta de noute o que lhe dais de dia.


Padre Frei Cosme, vossa reverencia

Padre Frei Cosme, vossa reverencia
Se engana, ou enganar-nos talvez tenta:
Quem as riquezas dá, quem nos sustenta,
Não é de Deus a summa providencia?

Pois logo com que cara ou consciencia
Esmola pede, e arrepanhar intenta
Para o Senhor da Paz, ou da Tormenta?
Tem Deus do home' acaso dependencia?

Tire a mascara pois, largue a sacola,
E deixe o povo, a quem impunemente
Em nome do Senhor escorcha, e esfola:

Á viuva deixe a esmola, e ao indigente;
E não queira; hypocrita farçola,
Foder á custa da devota gente.


Lingua mordaz, infame, e maldizente

Lingua mordaz, infame, e maldizente,
Não ouses murmurar do bom prelado:
Inda que o vejas com Alcippe ao lado,
Amiga não será, será parente:

Geral da Ordem, prégador potente,
No jogo padre-mestre jubilado,
E tambem caloteiro descarado
Pode ser que o repute alguma gente:

E que te importa que fornique a moça?
Que pregue o evangelho por dinheiro?
Que em vez de andar a pé ande em carroça?

Talvez que n'isso seja um verdadeiro
Dos monges exemplar, da Serra d'Ossa,
Pois que dos monges é hoje o primeiro.

[Pag. 137] — Soneto XXVII.

Conforme a opinião de alguns, este soneto é do desembargador Domingos Monteiro d'Albuquerque e Amaral; — outros porém affirmam ser de Bocage. Os leitores assentarão o juizo que melhor lhes parecer.

[Pag. 139] — Soneto XXIX.

Tanto este, como o que adiante segue sob n.° XXXII, andam em algumas collecções attribuidos ao Abbade de Jazente.

[Pag. 144] — Soneto XXXIV.

Para perfeita intelligencia d'este soneto, que de outra sorte ficaria talvez impenetravel á percepção dos leitores, ajuntaremos aqui resumidamente a historia que forneceu o assumpto de tal composição, a qual não deixa de ser curiosa, e vae fielmente extrahida dos apontamentos, que a esse respeito nos foram communicados.

HISTORIA MARAVILHOSA DA INTITULADA BEATA D'EVORA.

Junto á porta de Alconchel, na cidade d'Evora, vivia em companhia de seus paes uma beata, moça de vinte e dous annos, e de muito bons bigodes, chamada Anna de Jesus Maria. Esta serva do senhor fora por algum tempo confessada de fr. João de Santa Euphrasia, da ordem dos Carmelitas descalsos, e morador no convento dos Remedios da mesma cidade; porém morrendo este, tomou-a debaixo da sua direcção espiritual um fr. Felix, que passados tempos teve de ausentar-se da cidade, e antes da sua partida traspassou a beata a outro masmarro da sua ordem. Este ultimo, satisfeito em extremo de tão bella acquisição, dava a Deus continuos louvores por tel-o ali enviado, a fim (segundo elle dizia) de dirigir e encaminhar para a bemaventurança aquella alma predestinada, cujas singulares virtudes apregoava por toda a parte á bocca cheia. Depois de terem ambos abusado por algum tempo da credulidade e fanatismo, não só do vulgo ignorante, mas até de individuos de mais elevada esphera, que por suas circunstancias deveriam julgar-se fora do alcance de tão ridiculas suggestões, entenderam o frade e a confessada que podiam levar a audacia mais longe, e concertaram entre si uma farça, de que esperavam colher um resultado maravilhoso. Começaram pois a assoalhar entre os seus conhecimentos que por divina revelação fora annunciado á beata que no dia de S. Miguel, 29 de Septembro de 1792, pelas nove horas e meia da noute havia de infallivelmente morrer; querendo Deus chamal-a a si no proprio instante em que completava os seus vinte e dous annos. A noticia d'esta especie de prophecia espalhou-se velozmente por toda a cidade; isso era o mesmo que os interessados desejavam; e grande numero de pessoas, preoccupadas pela opinião de virtude da sanctinha, aguardavam anciosamente o cumprimento da promessa divina. Chegado que foi o dia, em que devia realisar-se o vatecinio, o Arcebispo D. Joaquim Xavier Botelho de Lima, que era, ou fingia ser um dos que mais acreditavam nos embustes da beata, e do seu director, quiz authenticar o milagre, em modo que não ficasse logar para as duvidas dos incredulos. Mandou por tanto sahir da casa da sancta o padre confessor, e o prior do convento, seu fiel companheiro; e ordenou a quatro clerigos da sé que alternadamente assistissem dous e dous á beata, dia e noute, até chegar a hora prophetisada, para serem testemunhas do seu miraculoso transito.

Cumpriram os clerigos a determinação do prelado; e tudo correu na melhor ordem. Porém vendo que o praso promettido era passado, e que a sanctinha se conservava de perfeita saude, sem que apresentasse o mais leve indicio de uma morte proxima, entenderam que deviam retirar-se; despediram-se d'ella, e abalaram para suas casas. Ainda bem não tinham cruzado a porta, e já o pae da menina corria apoz elles, a annunciar-lhes que n'aquelle mesmo instante dera a alma ao creador! — Voltaram attonitos os bons clerigos, pezarosos sem duvida de não terem presenciado o prodigio; acharam-na com effeito já amortalhada no habito de Sancta Theresa; e para ser mais cabal o milagre, tinha as mãos e pés estigmatisados, com chagas similhantes ás do nosso divino redemptor! — Quem ousaria ainda duvidar da verdade, depois de tão claramente manifestada? Os clerigos promptamente se persuadiram, e correram logo a levar ao Arcebispo a noticia do successo.

Entretanto appareceu o padre confessor, declarando aos circumstantes, que já começavam a affluir, ter sido elle o que mesmo do convento impozera preceito á sancta para que morresse, logo que os clerigos sahissem; por quanto sem permissão d'elle o não podia fazer. Apresentou-se em seguida a communidade de cruz alçada, e começou a altercar com o parocho de S. Antonio ácerca de quem levaria aquelle bemdicto corpo para a sua egreja. O povo amotinado corria em chusma para a casa da beata; todos pretendiam ver com os proprios olhos tão estupenda maravilha… Eis que o frade começa a prégar com grande ancia, preconisando a defuncta pela maior de todas as sanctas nascidas em Portugal; narrou um milhão de suas virtudes, e milagres; affirmou a todos que Deus estava n'ella; disse-lhes que a adorassem; e finalmente, para mais enthusiasmar os pios ouvintes, volta-se para a bisbilhoteira, que jazia amortalhada, e diz-lhe: «Anna! Em virtude da sancta obediencia abre os olhos!» (E ella os abriu, tamanhos como duas cebollas). «Anna! Cruza os braços!» (E a defuncta, que os tinha estendidos, os cruzou effectivamente). «Anna! Abençôa os que aqui estamos!» (E ella assim o fez). — Mandou-lhe que declarasse onde estava: ella respondeu que já tinha ido ao céo, e que lá encontrara fr. João de Sancta Euphrasia, que estava dizendo missa, o qual lhe dera a chuchar metade do calix! — Finalmente satisfazia com presteza a tudo quanto o frade lhe ordenava. Os espectadores enternecidos á vista de tantos prodigios, e lavados em lagrimas, começaram humildes a beijar-lhe os pés, tocando lenços, contas, e veronicas nas suas chagas. Repicaram-se os sinos por todos os campanarios da cidade; começaram de affluir em tropel os coxos, cegos, e paralyticos, que vinham com muitas lagrimas implorar o remedio para seus males: mas infelizmente para elles, sahiam como entravam.

Crescia de ponto a devota multidão, e com ella a desordem, até que as auctoridades tractaram de providenciar, mandando vir tropa, que poz fora a todos, com promessa de voltarem, ficando a final sós na casa o pae, e a mãe com a supposta defuncta. O official que commandava a tropa, tendo-se retirado para baixo, chegou porém passado algum tempo casualmenle á porta: e como ouvisse rumor de vozes no quarto onde jazia a sancta amortalhada com tochas accezas, empurra a porta de repente, e acha-a sentada muito á vontade, conversando sem cerimonia com o pae e a mãe! — Ella mal que o viu, estendeu-se novamente, e deixou-se morrer outra vez, querendo sustentar a impostura; e os paes com toda a presença d'espirito contaram ao official que sua filha lhes estava declarando o logar em que no convento dos Remedios queria ser sepultada. Aquelle, que já desconfiava de tanta maranha, deu logo parte do facto ao Arcebispo. Vieram medicos, e acharam-na mais viva que o azougue!

Descoberta a impostura, o povo amotinou-se novamente; mas d'esta vez com o intento de dar cabo da beata, a quem não podiam perdoar a illusão em que haviam cahido. A final foi mandada presa para o recolhimento de Sancta Martha. O reverendo padre confessor fugiu, e todos os seus confrades foram suspensos das ordens, e degradados para um convento do Algarve. Tudo porém ficou impune; porque passado algum tempo a beata sahiu do recolhimento, e casou com um soldado, e os frades regressaram para o seu convento, não se falando mais em tal.

Se a devota pantomima tivesse ido para diante, é provavel que mudariam a moça para alguma cella, e que d'esta sahissem para a roda netos de Sancta Theresa: como o corpo havia necessariamente de desapparecer do logar do deposito, os frades fariam crer á pobre gente que ella subira ao céo em corpo e alma. Que novo ramo de commercio tão lucrativo para a communidade, e tão proveitoso para as beatas bonitas! E quantas d'estas se terão engolido no mundo!

Além do soneto de Bocage, que deixamos transcripto no texto, a que apresente nota serve de illustração, outros mais appareceram ao mesmo assumpto. Os seguintes, que não deixam de ter seu merecimento, attribuem-se a Miguel Tiberio Pedegache:

[I]

De c'rôa virginal a frente ornada,
Em lugubres mortalhas envolvida,
A beata fatal jaz estendida,
De assistentes contrictos rodeada:

Um se tem por já salvo em ter chegada
Ao lindo pé a bocca commovida;
Outro protesta reformar a vida;
Porém ella respira, e está corada!

Que é sancta, e que morreu, com juramentos
Affirma audaz o façanhudo frade,
E que prodigios são seus movimentos:

O devoto auditorio se persuade:
Renovam-se os protestos, e os lamentos;
Triste religião! Pobre cidade!

[II]

Acredite, sentado aos quentes lares
Nas noutes hynvernosas de Janeiro,
Lendo em Carlos Magno o sapateiro
As proezas crueis dos doze Pares:

Cream que vem as bruxas pelos ares
A chupar as creanças no trazeiro;
Comam quanto lhes diz o gazeteiro,
De casos, de successos singulares:

Porém que uma beata amortalhada,
Com a cara vermelha e corpo molle,
E sancta, por um frade apregoada;

Que respire, que os braços desenrole,
E seja por defuncta acreditada,
Isto sómente em Evora se engole!


Voltando ao soneto de Bocage, digamos aqui alguma cousa com referencia ás distinctas personagens n'elle commemoradas.

Heróe de bola chata, etc. — Era D. José da Costa, marechal de campo, e governador d'Evora, que por morte de seu irmão mais velho veiu a ser conde de Soure, e tenente general. Foi elle o primeiro que com sua filha bastarda D. Maria José tiveram a honra de ser abençoados pela sancta beata, e de lhe beijarem os pés, tocando seus lenços nas chagas, que ahi se offereciam á veneração dos fieis, feitas prodigiosamente por meio do nitrato de prata!

Falso pastor etc. — O Arcebispo D. Joaquim Xavier Botelho de Lima, do qual acima falámos.

O respeitavel Cunha etc. — Antonio da Cunha Souto-maior, sargento mór do regimento de cavallaria d'Evora, que não obstante ser tido por homem instruido e desabusado, foi o segundo que teve a alta ventura de beijar o pé á sancta!

[Pag. 146 a 162] — Sonetos XXXVI a LII.

Todos os sonetos comprehendidos nas paginas e sob os numeros indicados, foram por nós trasladados ha quasi trinta annos de um quaderno, que continha promiscuamente obras de Bocage, e de Pedro José Constancio, mas sem a devida separação; tornando-se por isso difficultoso, se não impossivel, discriminar com certeza entre ellas as que pertencem a um ou outro dos dous poetas; muito mais quando os estylos de ambos offerecem ás vezes tal similhança, que deixa indeciso o juizo mais experimentado.

Por conseguinte pareceu preferivel a idéa de os reproduzir aqui na sua totalidade; o leitor poderá fazer a respeito de cada um as observações que a sua critica lhe suggerir, e estremal-os-ha como for do seu agrado.

Pedro José Constancio, a quem indubitavelmente pertencem alguns dos sonetos a que nos referimos, foi bacharel formado em canones pela universidade de Coimbra, filho de Manuel Constancio, cirurgião da camara da Rainha D. Maria I, e conseguintemente irmão do nosso conhecido escriptor Francisco Solano Constancio. Falleceu antes de 1820, e conviveu no seu tempo com a maior parte dos poetas contemporaneos, particularmente com Bocage, e José Agostinho. Homem de vida extravagante, e desregrada soffria por vezes ataques de alienação mental, chegando a apresentar-se nú em pleno dia ás janellas da casa onde morava, no deserto da rua larga de S. Roque! Compoz grande numero de poesias, quasi todas licenciosas, e entre estas um poema allusivo á fornicação dos cães dentro nas egrejas, que sendo denunciado ao Intendente Geral da Policia por Pedro Alexandre Cavroé, deu logar á reclusão do poeta por alguns dias na cadêa do Limoeiro; e poderia ter peores consequencias, se não interviessem os rogos e empenhos de alguns amigos, que se interessaram por elle para com o Intendente. Enfermidades geradas pelos excessos venereos a que se dava, sem escolha nem reserva, o levaram a um estado valetudinario, attenuando-lhe as faculdades, e tornando-o incapaz de toda a applicação. Victima de seus desregramentos falleceu antes de completar quarenta annos de edade.

Entre as poucas composições suas, que se imprimiram, ha um soneto, que por engano foi inserido como de Bocage pelo editor do 4.° tomo das Obras poeticas d'este poeta, que sahiu á luz em 1812; posto que, mais bem aconselhado, o mesmo editor o expungisse depois na segunda edição do referido volume feita em 1829. Crêmos que os leitores não desgostarão de aqui o verem, pois que n'outra parte se não encontra.

[Soneto]

Para illudir o suspirado encanto,
Por quem debalde ha longo tempo ardia,
«Um ninho achei, oh Lesbia (eu lhe dizia)
«Como é dos páes delicioso o canto!»

Assim doloso me expressava, em quanto
Um alegre alvoroço em Lesbia eu via;
«Ah! onde o deparaste?» (ella inquiria)
«Vem (lhe torno) comigo ao pé do acantho:»

Por um bosque me fui c'os meus amores,
Pergunta aos ramos pelo implume achado,
E respondendo só vão meus furores:

Conhece… quer fugir ao laço armado,
Na encosta a vérgo, que afofavam flores,
Beijo-lhe as iras… fique o mais calado.

[Pag. 165] — Decimas a um Tabellião.

Serão estas decimas effectivamente de Bocage! Ha quem o affirme, e quem o negue. Na duvida as deixamos ir; mas persuadimo-nos de que em qualquer dos suppostos, os leitores não nos levarão a mal a insersão d'ellas no presente volume.

[Pag. 169] — Decima II.

Para intelligencia do equivoco em que o poeta fundou o pensamento d'estes versos, ahi vai copiado o titulo, ou explicação, que lhes poz A.M. do Couto ao inseril-as na collecção, a que por vezes temos alludido.

«Feita por occasião de Bocage estar hospede em casa de um amigo, e trazendo-lhe a criada para seu almoço um prato de papas de milho.»

[Pag. 170] — Decima I.

Diz o referido Couto, que esta decima — «fôra improvisada a certo rancho de feias, que se iam banhar no Tejo em maré vazante.»

[Pag. 171] — Improviso.

Deu occasião a este improviso o facto de ter sido o Saunier preso em certa noute pela ronda do bairro como suspeito. No que toca a este individuo, e á sua historica gravata, veja-se o que se diz no tomo III da nova edição das Poesias de Bocage a pagina 414.

Alguem quiz, não sabemos com que razão, attribuir estes versos a Bersane; mas outros, que se dizem bem informados, sustentam que são de Bocage. Não achamos que o assumpto valha a pena da discussão; para ahi os lançamos, e os leitores ajuizem d'elles o que lhes parecer.

[Pag. 172] — Elegia etc.

Dizemos a respeito d'esta peça o mesmo que dissemos das «Decimas ao Tabellião» (pag. 165) isto é, que não ha certeza de que Bocage fosse o seu auctor; mas achamos-lhe merito sufficiente para que os leitores não desestimem encontral-a aqui impressa pela primeira vez.

FIM.


[Índice Exaustivo dos Poemas Contidos Neste Volume]

[Ribeirada: poema em um só canto.]
[A Manteigui: poema em um só canto.]
[A Empreza Nocturna.]
[Epistola a Marilia.]
[Fragmento De Alceu, Poeta Grego: traduzido da imitação franceza de Mr. Parny.]
[Arte de Amar, ou Preceitos, e Regras Amatorias para Agradar ás Damas. Imitação de Ovidio.]
[Cartas de Olinda e Alzira.]
[Epistola I. Olinda a Alzira.]
[Epistola II. Alzira a Olinda.]
[Epistola III. Olinda a Alzira.]
[Epistola IV. Alzira a Olinda.]
[Epistola V. Olinda a Alzira.]
[Epistola VI. Alzira a Olinda.]
[Epistola VII. Olinda a Alzira.]
[Sonetos.]
[Soneto I. Tendo o terrivel Bonaparte á vista]
[Soneto II. Lá quando em mim perder a humanidade]
[Soneto III. Esse disforme, e rigido porraz]
[Soneto IV. N'um capote embrulhado, ao pé de Armia]
[Soneto V. No canto de um venal salão de dança]
[Soneto VI. Não lamentes, oh Nise, o teu estado]
[Soneto VII. Tu, oh demente velho descarado]
[Soneto VIII. Vai cagar o mestiço, e não vai só]
[Soneto IX. Arreitada donzella em fofo leito]
[Soneto X. Esquentado frisão, brutal masmarro]
[Soneto XI. N'esta, cuja memoria esquece á Fama]
[Soneto XII. Amar dentro do peito uma donzella]
[Soneto XIII. É pau, e rei dos paus, não marmelleiro]
[Soneto XIV. Bojudo fradalhão de larga venta]
[Soneto XV. Aquelle semi-clerigo patife]
[Soneto XVI. Porri-potente heróe, que uma cadeira]
[Soneto XVII. Dizem que o rei cruel do Averno immundo]
[Soneto XVIII. Nojenta prole da rainha Ginga]
[Soneto XIX.Turba esfaimada, multidão canina]
[Soneto XX. Magro, de olhos azues, carão moreno]
[Soneto XXI. Na scena em quadra tragico-hynvernosa]
[Soneto XXII. Não tendo que fazer Apollo um dia]
[Soneto XXIII. Rapada, amarellenta cabelleira]
[Soneto XXIV. Pilha aqui, pilha ali, vozêa auctores]
[Soneto XXV. Não chores, chara esposa, que o Destino]
[Soneto XXVI. Se quereis, bom Monarcha, ter soldados]
[Soneto XXVII. Veiu Muley-Achmet marroquino]
[Soneto XXVIII. Uma noute o Scopezzi mui contente]
[Soneto XXIX. Cagando estava a dama mais formosa]
[Soneto XXX. Quando do gran Martinho a fatal Parca]
[Soneto XXXI. Dizendo que a costura não dá nada]
[Soneto XXXII. Piolhos cría o cabello mais dourado]
[Soneto XXXIII. Se o gran serralho do Sophi potente]
[Soneto XXXIV. Não te crimino a ti, plebe insensata]
[Soneto XXXV. Se tu visses, Josino, a minha amada]
[Soneto XXXVI. Cante a guerra quem fôr arrenegado]
[Soneto XXXVII. Fiado no fervor da mocidade]
[Soneto XXXVIII. Eu foder putas?.. Nunca mais, caralho!]
[Soneto XXXIX. «Ora deixe-me, então… faz-se creança?]
[Soneto XL. Pela rua da Rosa eu caminhava]
[Soneto XLI. «Apre! Não mettas todo… Eu mais não posso…»]
[Soneto XLII. Vem cá, minha Maria, tão roliça]
[Soneto XLIII. Dormia a somno solto a minha amada]
[Soneto XLIV. Eram oito do dia; eis a creada]
[Soneto XLV. Pela escadinha de um courão subindo]
[Soneto XLVI. Eram seis da manhan; eu acordava]
[Soneto XLVII. «Mas se o pae acordar!.. (Marcia dizia]
[Soneto XLVIII. Quando no estado natural vivia]
[Soneto XLIX. Levanta Alzira os olhos pudibunda]
[Soneto L. Uma empada de gallico á janella]
[Soneto LI. Com que magoa o não digo! Eu nem te vejo]
[Soneto LII. Que eu não possa ajuntar como o Quintella]
[Decimas.]
[A um Tabellião Velho, que Casou com Moça Nova.]
[O inferno do Ciume.]
[Venha cá, sô Boticario]
[P'ra que viva a cosinheira]
[Dialogo entre o Poeta, e o Tejo.]
[São uns cornos mui bem feitos]
[Improviso.]
[Elegia. Á Morte de uma Famosa Alcoviteira.]
[Anti-pavorosa — Parodia Christan.] (Manuel Thomás Pinheiro de Aragão)
[Epistola ao Auctor da «Pavorosa»] (Anonymo.)
[Soneto. Não lamentes, Alcino, o teu estado] (José Anselmo Corrêa Henriques)
[Entre um frade, e entre um burro]
[Casou um bonzo da China]
[Soneto. Em quanto a rude plebe alvoroçada] (Anonymo)
[Soneto. Morreu Bocage, sepultou-se em Gôa!] (B.M. Curvo Semedo.)
[Soneto. Esqueleto animal, cara de fome] (Anonymo.)
[Soneto. Ha junto do Parnaso um turvo lago] (J. Franco)
[Epigramma. De todos sempre diz mal] (D. Caldas Barbosa.)
[Satyra. Impondo duração além das eras] (autor desconhecido)
[Do throno excelso nos degraus sagrados] (Fr. José Botelho Torrezão)
[Encontrei certo Leigo franciscano] (José Caetano de Figueiredo)
[Christo morreu ha mil e tantos annos] (Francisco Manuel do Nascimento)
[Padre Frei Cosme, vossa reverencia] (autor desconhecido)
[Lingua mordaz, infame, e maldizente] (autor desconhecido)
[Soneto I. De c'rôa virginal a frente ornada] (Miguel Tiberio Pedegache)
[Soneto II. Acredite, sentado aos quentes lares] (Miguel Tiberio Pedegache)
[Soneto. Para illudir o suspirado encanto] (Pedro José Constancio)