XIV

Eis em resumo as regras necessarias,
Afim de conseguir femineo affecto:
D'ellas aprendereis, destros mancebos,
A serdes cautos, prevenindo os laços
Armados por Amor á inexp'riencia;
Pendurando assim trophéos innumeros
Ao carro triumphal da vossa gloria.


[ CARTAS
DE
OLINDA E ALZIRA.]

[EPISTOLA I.
OLINDA A ALZIRA.]

Que extranha agitação não sinto n'alma
Depois que te perdi, querida Alzira!
De meus olhos fugiu, sumiu-se o fogo,
Que a tua companhia incendiava!
Por uma vez se foi minha alegria,
Nem a mesma já sou, que outr'hora hei sido!
Minhas vistas ao céo languidas se erguem,
E a mim propria pergunto d'onde venha
Tão novo sentimento assuberbar-me?
Não se aquieta o coração no peito,
Não cabe n'elle, e viva chamma no intimo
Das entranhas ardente me devora,
Sem que eu possa atinar a causa, a origem.
Aquelles passatempos, que na infancia
Tão do peito queria, em odio os tenho.
Das mesmas sup'rioras a presença,
Que d'antes para mim era indiff'rente,
Se me torna hoje dura, intoleravel!
Aonde, aonde irão estes impulsos
Precipitar a malfadada Olinda?
Será, querida Alzira, a tua ausencia,
Que me faz derramar tão agro pranto?
Debalde a largos passos solitaria
Vago sem norte: ignoro o que procuro;
Ah! minha chara! os males que tolero
Expressal-os não posso, nem soffrel-os.

[EPISTOLA II.
ALZIRA A OLINDA.]

Conheço de teus males a vehemencia,
Prezada Olinda! Eu propria os hei soffrido,
Quando da mesma edade que hoje contas
Próvida a Natureza começava
A preencher em mim seus fins sagrados.
Marcha ella por graus em suas obras;
Precede ao fructo a flor já matizada,
Que fôra antes de flor botão mimoso.
Assim a sabia mão da Natureza
A passos insensiveis caminhando
Maravilhas em nós produz, que assombram.
Somos na infancia apenas um bosquejo
Do que nos cumpre ser annos mais tarde.
N'aquella edade a Natureza attenta
Em conservar-nos só, não desenvolve
Sentimentos, que então superfluos foram:
Inactivas nos tem, e nos conserva,
Bem como as plantas no gelado hynverno.
Porém depois que o sol da primavera
Fecundos raios sobre nós dardeja,
Então de novas fórmas animado
Pula nas vêas affogueado sangue,
E sem perder da infancia os attractivos
Da puberdade o lustre desfructamos.
Então sentimos commoções insolitas,
Que origem são dos males, que te opprimem;
Do amor, que te domina, melancolico;
Da forte agitação, que em ti presentes.
Mas tem tudo remedio; eu hei de dar-t'o,
Feliz serás, se o trilho me seguires.

[EPISTOLA III.
OLINDA A ALZIRA.]

Quanto gratas me são as tuas letras
Querida Alzira! Ao coração me falas!
As tuas expressões meigas occultam
Em si virtude tal, que apenas lidas
D'ellas a alma se apossa sequiosa:
Tu és, presada amiga, unico archivo
Aonde os meus segredos mais occultos
Eu vou depositar: em ti encontro
O refrigerio a males, que tolero,
Sem poder conhecer a sua origem.
Se bem me lembro, outr'hora de ti mesma
Ouvi eguaes queixumes, não sabendo
Nem eu, nem tu, donde elles procediam.
Uniu-te a sorte a Alcino, e venturosa
Sempre te ouvi chamar desde esse tempo.
Cessaram os teus males, eu os sinto…
A edade é (dizes tu) a causa d'elles;
Ah! Que extranha linguagem! Não concebo
Porque falas assim; pois traz a edade
Males, nos tenros annos não provados?
Tres lustros conto apenas: tu tres lustros
Antes de te esposar tambem contavas;
Poz o consorcio a teus lamentos termo,
Limitará os meus? Ah! dize, dize
Tu, que desassocego egual soffreste,
O seu motivo, e como o apaziguaste:
Revela á tua amiga este mysterio
D'onde sinto pender o meu repouso.
Eu não exp'rimentava o que exp'rimento:
Os meus sentidos todos alterados
Uma viva emoção põe em desordem.
Cala-me activo fogo nas entranhas:
O coração no peito turbulento
Pula, bate com ancia extranhamente:
O sangue, pelas vêas abrasado
Parece que me queima as carnes todas:
A taes agitações languidez terna
Succede, que a meus olhos pranto arranca,
E o coração desassombrar parece
Do peso da voraz melancholia.
Té mesmo a natureza tem mudado
A configuração, que eu d'antes tinha:
Vão-se augmentando os peitos, e tomando
Uma redonda fórma, como aquelles
Que servem de nutrir-nos lá na infancia.
D'outros signaes o corpo se matiza
Antes desconhecidos: alvos membros,
Lisos té'qui, macúla um brando pello,
Como o buço ao mancebo, á ave a penugem.
Sobresalta-me d'homens a presença,
Elles, a quem té agora indifferente
Tenho com affouteza sempre olhado!
Ao vêl-os o rubor me sobe ao rosto,
A voz me treme, e articular não posso
Sons, que emperrada a lingua não exprime.
Sinto desejos; que expressar me custa;
Amor… E como a idéa tal me arrojo?
Será talvez amor isto que eu sinto?
Já tenho lido effeitos de seus damnos;
Mas esses, que o seu jugo supportaram,
Tinham com quem seu peso repartissem,
Tinham a quem chamavam doce objecto,
Quem a seu mal remedio suggerisse.
Isto era amor; mas eu amor não sinto;
A doce inclinação, que dous amantes
Um ao outro consagram, desconheço.
Sim; dos homens a vista lisonjeira
É para mim; nenhum porém me prende;
Não sei que chamma interna me affoguêa…
Amor isto será? Alzira, fala,
Fala com candidez á tua amiga;
Ensina-me a curar a funda chaga,
Que internamente lavra por mim toda:
D'estas agitações, que me flagellam,
Mostra-me a causa, mostra-me o remedio:
Tu tiveste-as tambem, já não te avexam,
Mostra-me por que modo as terminaste.
Talvez do que te digo farás mofa…
Ah! vê que por meus labios a innocencia
Comtigo é quem se exprime; tem dó d'ella,
E se os meus sentimentos são culpaveis,
Dize-m'o, que abafados em meu peito
Serei victima d'elles; se extinguil-os
Os meus exforços todos não podérem,
Comigo hão de morrer, findar comigo.

[EPISTOLA IV.
ALZIRA A OLINDA.]

Com que satisfação, com que alegria
Vejo da minha Olinda as ternas letras!
Retrato da innocencia, me affiguras
O que por mim passou, extranho effeito
De um coração sensivel, não manchado
Ainda pela mão da iniquidade.
Fala, não temas exprimir-te, Olinda,
Que se culpavel fores de outrem aos olhos,
Aos meus és innocente, e assim te julgo.
Da inviolavel lei da Natureza
A que sujeita estás, bem como tudo,
Nascem, querida amiga, os teus transportes:
Só provém d'ella, é ella que t'os causa;
Ella os mitigará em tempo breve,
Dando-te próvida um remedio activo.
A triste educação, que ambas tivemos,
Mais desenvolve os ternos sentimentos
Dos que amar só procuram, e não podem
Na solidão senão atormentar-se.
Do recato das filhas temerosos
Pensam os rudes paes, que em sopeal-as
Alcançam extinguir o voraz fogo
Que sopra a Natureza, e que ella atêa.
Nescios, de amor lhe formam attentados,
Que o coração desmente, e que não pode
Saber justificar a razão mesma.
Benignas emoções chamam flagicios,
Que infernaes penas castigar costumam;
Sem que atinem o modo por que devam
Tornal-as puras, e do crime alheias,
Porque do crime o amor não diff'rencêam,
Amor, e crime o mesmo lhes figuram.
Ah! que de um pae o emprego não tolera
Maximas impostoras, vís idéas
Que religião não soffre, e que forcejam
Para co'a religião auctorisal-as.
Saiba-se pois té onde o culto, a honra
De um Deus se estende, e quaes limites devem
Marcar-se ás impressões da natureza:
Em vez de afferrolhar as tristes filhas,
Busquem mostrar-lhes da virtude a senda,
Do vicio a estrada com desvelo attento.
Pois que impureza, e amor um rumo seguem
Consiste o mal ou o bem na escolha d'este.
Sim, chara Olinda: como tu, eu propria
Falta da sociedade, porque n'ella
Viam meus paes o escolho da innocencia,
As mesmas emoções senti outr'hora;
Nos tenros annos teus então zombavas
Do que nem mesmo decifrar podias.
Quantas vezes meu coração ás claras
Te descobri, querida; e quantas vezes
O meu desassocego não provando,
Rias dos sentimentos, que em minh'alma
Entranhados estavam, sem que a causa
D'elles jámais me fosse conhecida?
Agora os exp'rimentas, crês agora
O que falso julgaras, verdadeiro!…
A Natureza em ti o germen lança,
Que a ajudal-a te incita: Amor te inflamma,
Porque sensivel és; e bem que hesites
Sobre o objecto, que deve contentar-te,
Ella t'o mostrará em tempo breve.
Não te assustem do seu dominio as forças,
Porque de jugo seu o peso é leve.
Não mais soffres fervidos desejos,
Que o coração te ancêam, e bem podem
A languidez eterna victimar-te,
Se de amor o remedio os não sacia.
Attenta sobre mil louçãos mancebos,
Cheios de encantos: olha-os indulgente,
E d'entre elles escolhe um, cujo peito
Tão docil como o teu seja formado.
Olinda, ama; conhece que delicias
Amor encerra, amor, alma de tudo;
Amor, que tudo alenta, e que só causa
Os gostos de uma vida abbreviada.
Se contra amor dictames escutaste,
Que seus effeitos pintam horrorosos,
Não dês credito a maximas fingidas,
Que a lingua exprime, e o coração reprova:
Que mal provém aos homens, de que unidos
Dois amantes se jurem fé, constancia?
Que um ao outro se entreguem, e obedeçam
Da Natureza ás impressões sagradas?
Rouba a virtude acaso a paixão doce
Que beijos mil só farta, e que só pode
Nos braços de um amante saciar-se?…
Não; amor a virtude fortifica:
Mais a piedade sobre as desventuras
Que os outros soffrem, mais a humanidade
Em nós se augmenta, quando mais amamos.
Se desde o berço em nós força indizivel
Sentimentos de amor vai radicando;
Se, mal balbuciamos, quanto vemos
A falarmos de amor nos estimula;
Se a edade vai crescendo, e a natureza
Nossas feições altera; assignalando
Com marcas bem sensiveis, que chegámos
Ao prazo, em que é lei sua amar por força,
Ou desnegar então nossa existencia:
Se tudo a amar convida, e nos impelle,
Quem ousa amor chamar crime execrando?..
Ah! deixa, Olinda, deixa que alardêem
Virtude austera hypocritas infames:
Sabe que, em quanto amor horrivel pintam,
Em quanto aos olhos teus assim o afêam,
De uma amante venal nos torpes braços
Vão esconder transportes, que os devoram,
E, por castigo seu, sómente gosam
Emprestadas caricias, vís affagos.
Mas quando assim os homens dissimulam,
Para dissimulares te dão direito:
Finge, como elles; ama, e lh'o disfarça;
Que é mais um gosto amar ás escondidas.
Affecta, embhora, affecta sisudeza
Já que a affectar te obrigam, e em segredo
De instantes enfadonhos te indemnisa:
Zomba dos seus ardís, e estratagemas;
Dize, entre os braços de um amante charo,
Que mais credulos são, do que te julgam,
Se crêem nos laços seus aprisionar-te.
Se os deleites de amor são só delictos
Quando sabidos são, com veo mui denso
A perspicazes olhos os encobre:
Vinga-te d'esses, que abafar procuram
As doces emoções, que n'alma sentes.
São estes os conselhos de uma amiga
Que os bens te anhela, que ella saborêa.
Sabe, por fim, que quanto mais retardas
Tão ditosos momentos, sem gosal-os;
Quanto mais tempo perdes ociosa
Sem às vozes de amor ser resignada,
Tanto mais tempo tens de lastimar-te,
Por não têl-o em amar aproveitado.

[EPISTOLA V.
OLINDA A ALZIRA.]

Alzira, sou feliz!.. Quanto te devo!…
Das tuas instrucções é tal o fructo.
Quanto encarava em torno era a meus olhos
De lugubres idéas feio quadro:
Tudo o que vejo agora alegres, vivas,
Imagens prazenteiras, me suscita.
Os ternos sentimentos, que provava,
Mil vezes combinando com dictames
Que desde a infancia sempre m'inspiraram;
Mil vezes reflectia que dos homens,
Ou de um tyranno Deus era ludibrio:
Conceber não podia que existisse
Para experimentar contínua lucta
Entre impressões da propria natureza,
E principios chamados da virtude.
No pélago de embates tão terriveis
Fluctuando implorei o teu auxilio;
Meu coração te abri: tu leste n'elle
O que eu nem mesma deslindar sabia.
Tu me ensinaste a ver quanto fingidos
Os homens são, nas vozes, e nos gestos:
Rasgaste aos olhos meus mascara infame
Com que têem de uso todos encobrir-se;
Das bordas me salvaste de um abysmo,
Onde a infeliz Olinda ia arrojar-se,
Perdôa, Deus immenso! Eu blasphemava
Contra a tua justiça; eu te suppunha
Auctor do mal, que os homens machinavam;
Cria-te inconsequente, e despiedado,
Pois sentimentos me imprimiras n'alma
Que ás tuas leis contrarios me pintavam!…
Tu foste, Alzira, foste a que lançaste
Um brilhante clarão ante os meus passos…
Finalmente aprendi que a singeleza
Do mundo era banida, e o seu imperio
Os homens tinham dado á hypocrisia.
Ruins!… Amor por crime affiguravam,
E nem um só de amor vivia isempto!…
Para elles não é crime um crime occulto,
Porque a simulação reina em sua alma,
Porque o remorso abafam em seu peito.
Amor um crime!… Os gostos mais completos,
E os mais puros deleites o acompanham:
Se a ventura maior se une ao delicto,
Quem ha que se não diga delinquente?
D'entre as delicias, que gosei, querida,
Com as tuas lições fugiu o crime.
Eu não senti no coração bradar-me
A voz d'esse pezar, sequaz da culpa:
No meio dos prazeres, que gostava,
Graças rendi a um Deus, que m'os concede:
Se elle troveja sobre os criminosos,
Nunca os seus raios menos me assustaram!…
Um amante acabou o que encetaste;
Elle, cujo olhar meigo me assegura
As doces qualidades, que o adornam,
Affastou-me do espirito receios,
Que de mau grado combatia ainda.
Reinava em seus discursos a franqueza,
E o fogo, que brilhava nos seus olhos,
Que o rosto lhe incendia, em seus transportes
Que eram nascidos d'alma, me dizia:
O labéo da impostura o não denigre;
Não é como o dos outros seu character;
Ingenuo, affavel, ah! prezada Alzira!
Se tão amavel é o teu Alcino,
Ninguem como eu e tu é tão ditoso!…
Pouco preciso foi para vencer-me:
Não teve que impugnar loucos caprichos,
Com que ufanas amantes difficultam
O mutuo galardão, que amor exige:
Se amor ambos int'ressa, e ambos colhemos
Seus mimosos favores, porque causa
Havia de indiff'rença dar indicios,
Quando o meu peito, ancioso, palpitava?
Se eu o levava da ventura ao cume,
Não me dava elle a mão para seguil-o?
Sim; nos seus braços, me arrojei sem custo;
E se o pudor as faces me tingia,
Inda as chammas d'amor mais me abrasavam.
Eu nadava em desejos indiziveis;
E quantos beijos recebia, tantos
Cheios de egual fervor lhe compensava:
Seus labios inflammados ateavam
As doces labaredas, em que ardia,
E meus labios, aos labios seus unidos,
Sensações recebiam deleitosas,
Que me filtravam pelo corpo todo…
Tão grandes emoções exp'rimentava,
Que a tanto gosto eu mesma succumbia!
Presa a voz na garganta, não sabendo
Nem já podendo articular palavra,
Respirando anciada, e com vehemencia,
Os meus sentidos todos confundidos,
Sem nada ouvir, nem ver, apenas dando
Signaes de vida, de prazer morria.
Excepto o meu amante, em taes momentos
Longe da idéa tinha o mundo inteiro:
O mundo inteiro então forças não tinha
Para do meu amante desprender-me.
Debalde ante meus passos furibundo
Monstro espantoso vira: em vão lançara
Do aberto seio a terra ondas de fogo;
Em vão coriscos mil o céo vibrara;
Dos braços do amante em taes momentos.
Nada, nada podia arrebatar-me.
Oh quem podéra, Alzira, descrever-te
Que extasi divinal veiu pôr termo
A taes instantes de suaves gostos!…
Isto pode sentir-se, e não dizer-se…
Agora, e só agora me parece
Que começo a existir: reproduziu-se
Uma total mudança na minha alma.
O mundo para mim já tem encantos;
Sob outras côres vejo mil objectos,
Que a phantasia me pintou tristonhos:
Propicio Amor abriu-me os seus thesouros,
A Natureza seus thesouros me abre:
Tudo te devo, amiga; em todo o tempo
A teus doces conselhos serei grata:
Oxalá ditas tantas saborêes
Quantas por ti, querida, eu propria góso!
Oxalá sintas com Alcino os gostos,
Que eu exp'rimento, de um amante ao lado!
Nem ventura maior posso augurar-te,
Porque maior ventura haver não pode.

[EPISTOLA VI.
ALZIRA A OLINDA.]

A temerosa Olinda é quem me escreve?
É este o seu pudor, sua innocencia?
Ah! Que as minhas lições tão bem acceitas,
Dão-me a ver que a discipula inexperta
Ha de em breve ensinar a propria mestra.
Olinda não sabia o que excitava
Dentro em seu coração ternos impulsos,
Que tanto a angustiavam… Não sabia
Qual d'extranha mudança em suas fórmas,
Em seus membros gentís a causa fosse!
A voluptuosa Olinda, devorada
Do mais activo fogo, ingenuamente
Consulta a sua amiga, e a um leve aceno
Corre a engolphar-se na amorosa lida.
Basta um momento a transtornal-a toda!
E porque de tão prospero successo
Pretendes, tu, querida, dar-me a gloria?
Não, não fui eu; sómente a natureza
Sabe fazer tão subitos prodigios:
Como depressa ao mal, que te inquietava,
Próvida suggeriu remedio activo!
Como de uma boçal, incauta virgem
Uma amante formou tão extremosa!
A agradavel pintura, que bosquejas,
Dos férvidos transportes, que sentiste
Entre os braços do amante afortunado,
Não é, querida Olinda, tão sincera,
Como sincera foi a que traçaste
De ignotas emoções a Amor sujeitas.
Já não te exprimes com egual candura:
Filha da reflexão nova linguagem,
Por artificio mascarada em lettras,
Vejo, que annunciar-me antes procura
Apoz do que se ha feito o que se pensa,
Do que por gradações d'acção o int'resse
Pouco a pouco esmiuçar, dar-me a ver todo.
Rasga o pudico véo, com que debalde
Aos olhos de uma amiga esconder buscas
Voluptuosas traças, que transluzem
Nas tuas expressões; quando innocente
Menos recato n'ellas inculcavas,
Eu lia com prazer dentro em tua alma
Os sentimentos, que a affectavam todos.
Tenho direito agora a exigir-te
A ingenua confissão d'esses momentos
Preludios do prazer, em que te engolphas.
Quero saber porque impensados lances
D'um amante nos braços te arrojaste;
Como o pudor fugiu, e o que sentiste
Quando, abrasada em férvidos desejos
Misturados com dôr indeffinivel,
De amor colheste attonita as primicias,
E provaste entre gostos, e agonias
O que uma vez, não mais, pode provar-se;
Tens um amante; eu sou a tua amiga;
Elle te dá prazer, d'ella o confia:
Gosta os momentos, que gosar não podes,
Do goso em recordar puras delicias:
Nem todo o tempo a amor pode ser dado.
A mór ventura, que o mortal encontra,
Seja embhora infeliz, ou desgraçado,
É lembrar-se que foi já venturoso;
E o não desesperar de sêl-o ainda,
Um termo aos males seus põe muitas vezes.
Alzira foi do teu prazer motora,
A gratidão te obriga a dar-lhe a paga.
É nobre o meu int'resse, e não mesquinho;
Pago-me d'escutar as tuas ditas,
E cedendo a meus rogos falso pejo,
Saiba eu teus momentos deleitosos.
Mas vê que o sacrificio, que te peço,
Eu propria generosa abro primeiro:
Primeiro eu quero timidos receios
Calcar aos olhos teus; entra em mim mesma,
Vê como reina Amor dentro em minh'alma!
Como só elle faz meus gostos todos!
Chamem embhora apathicos estoicos
Ardores sensuaes os que me inflammam;
Chamem-me torpe, chamem-me impudica;
Taes vilipendios valem o que eu góso!
Venha a rançosa, van theologia
Crimes fingir, crear eternos fogos;
Eu desafio os seus sequazes todos,
Eu desafio o Deus, que elles trovejam!
Nos mais puros deleitos embebida,
Bem os posso arrostar, posso aterral-os!
Não estremeças, não amada Olinda;
Longe do Fanatismo a turma odiosa,
Que infames leis, infames prejuizos,
Quaes cabeças fataes d'hydra indomavel
Para o mundo assolar tem rebentado:
Não ha para os christãos um Deus diff'rente
Do que os gentios têem, e os musulmanos:
Dogmas de bonzos são condignos filhos
Da fraude vil, da estupida ignorancia,
Da oppressora politica productos.
O que Razão desnega, não existe:
Se existe um Deus, a Natureza o off'rece:
Tudo o que é contra ella, é offendel-o.
A solida moral não necessita
De apoios vãos: seu throno assenta em bases,
Que firmam a Razão, e a Natureza.
Outra vez eu farei que estes dictames
Com seguros principios sustentados,
Destruam tua credula impericia;
Abafando illusões, que desde a infancia
Te lançaram na mente inculta, e frouxa,
Que Furias tem, que tem Dragões, e Larvas
Para os gostos da vida atassalhar-te,
Para a remorsos vís dar existencia.
Por ora segue o culto, que te apontam
As emoções da propria Natureza:
Sê religiosa e firme em pratical-as.
O meu Alcino, a quem eu devo tudo,
N'um momento desfez o que em tres lustros
Nescios paes procuraram suggerir-me.
Por habito adoptei de uns a doctrina,
Por gosto d'outro as maximas sem custo
Dentro em meu terno peito radicaram.
Tu sabes, minha Olinda, quam perplexa
Minha alma balançava entre os combates;
Que a rude educação, que recebera,
Dentro em mim mesma oppunha sentimentos
Cujo extranho poder toda me enleava.
Foi n'este estado de incerteza, e inercia,
Que Alcino desposei: occulta força
Me impellia a adoral-o; não sabendo
De deleites que fonte inexhaurivel
Se ia abrir para mim entre seus braços.
Do dia nupcial todo o apparato
Olhava com um sonho!.. É impossivel
A estupidez, o pasmo em que me via
Traçar aos olhos teus; lembra-me apenas
A inquietação d'Alcino em todo o dia,
E a avidez de prazer, em que enlevado,
Terminado o festim, já n'alta noute
Ao thoro nupcial foi conduzir-me.
Ficámos sós: eu timida, agitada,
Em sossobro cruel (qual branda pomba,
Que ao tiro assustador vôa, e revôa,
Aqui, e ali mal pousa, se levanta
Sem guarida encontrar, que ao p'rigo a salve)
Palpitava, tremia, e de meus olhos
Corria em fio inespontaneo pranto.
Eu sentia no rosto, e em todo o corpo
Espalhar-se o rubor, que gera o sangue,
Pelo fogo, que toda me abrasava.
Não sei que meigos termos n'este tempo
Soltava Alcino; eu nada percebia;
Porém vi que a meus pés, banhado em gosto,
Chorando de prazer, supplices votos,
Ardentes expressões balbuciava:
Pelo meio do corpo com seus braços
Cingindo-me ancioso sobre o leito
Me foi emfim lançar. Quando eu ardia
Em chammas de pudor, o mesmo incendio
Dava a Alcino soffregos transportes:
Suas trementes mãos me despojavam
Dos nupciaes ornatos; e seus beijos
Convulsivos exforços, que lhe oppunha,
Pagavam com furor; suas caricias
Amiudando affouto, e temerario.
Irosa quiz mostrar-me; mas os fogos
Que o pejo tinha acceso, então tomando
Mais activo calor, porém mais doce;
Minhas repulsas, de ternura cheias,
A maiores arrojos o excitaram;
Menos timido, quanto eu mais irada,
Meus olhos, minhas faces, e meu seio
Beijava Alcino: eu languida fitando
N'elle amorosas vistas, reclinei-me
Sem resistir-lhe mais, sobre o seu collo:
Importunos vestidos, que estorvavam
Seus inflammados beiços de tocarem
Occultos attractivos… longe arroja.
Então aos olhos seus (tu bem o sabes,
Quando outr'hora passavamos unidas
Em innocentes brincos… feliz tempo!)
Meus peitos, cuja alvura terminavam
Preciosos rubís, patentes foram.
Ao voluptuoso tacto palpitante
Mais, e mais se arrijaram, de maneira
Que os labios não podiam comprimil-os.
Meus braços nús, meu collo, eu toda estava
Coberta de signaes de ardentes beijos.
Os leves trajos, que ainda conservava,
Em vão eu quiz suster: rapido impulso
Guiava Alcino: d'Hercules as forças
Ali vencera… As minhas que fariam?
Co'as forças o pudor desfallecido
Deixei fartar seus olhos, e seus gestos.
«Que lindos membros!… Que divinaes fórmas!…
(De quando em quando extatico dizia)
«Ah! que mimosos pés!.. Oh céo!.. que encantos!..
«Que graças apparecem espalhadas!..
«Que thesouros de amor sobre estas bases!..
«Oh! que prazer!.. que vistas deleitosas!..
«Alzira, eu vejo em ti uma deidade!
«Deixa imprimir meus osculos aonde
«Entre fios subtís se esconde o nacar!..
«Deixa esgotar a fonte das delicias!..
«Ah! deixa-me expirar aqui de gosto!..
«Não mais rubor, Alzira, não mais pejo!..»
Eram brazas, que as carnes me queimavam,
Seus dedos, os seus beiços, sua lingua!
Sim; sua lingua, bem como um corisco,
Abriu rapida entrada, onde engolphadas
Todas as sensações luctavam juntas:
Pela primeira vez dentro em mim mesma
Senti gerar-se subita mudança,
Com que de envolta mil deleites vinham.
Communicou-me sua raiva Alcino,
E na lasciva acção, que proseguia,
Tal int'resse me fez tomar, que eu propria
A seus intentos me prestei de todo.
Entre incessantes gostos doces gotas
Brotavam sobre os toques impudicos:
Mas quando, ao crebro impulso, extasiada
Cheguei ao cume do prazer celeste,
Ardente emmanação de intimos membros,
Que electrisavam fogos insoffriveis,
Innundou o instrumento das delicias,
Como se ao crime seu vibrassem pena,
Ou antes dessem premio: affadigado
Na maior languidez, quasi em deliquio,
Alcino veiu ao meu unir seu rosto.
N'este instante, eu não sei que desejava;
Sei que o primeiro ensaio dos prazeres
Em vez de suffocar activas chammas,
Scentelhas transformou em labaredas,
Infundiu-lhes vigor inextinguivel.
A ardencia dos desejos combatia
Receio occulto, sem nascer do pejo.
N'um volver d'olhos se despiu Alcino,
E deu-me nú a ver quam bem talhado
D'hombros, e lados com feições formosas
Seu corpo era gentil: válidos membros
Cobria fina pelle; era robusto,
E delicado a um tempo; esbelto, airoso,
Mediocre estatura, olhos rasgados,
Mimosas faces, rubicundos beiços,
Cheio de carnes, sem que fosse obesso,
Egual nas proporções… Eis um mancebo
Digno de a Marte, e a Adonis antepôr-se,
Não tendo de um a rude valentia,
Nem tendo d'outro a feminil brandura.
Então lancei curiosa avidas vistas
Sobre ignotas feições: fiquei pasmada
Ao ver do sexo as distinctivas fórmas
Dobrando a extensão: dobrou meu susto,
Mormente quando, desviando Alcino
Meus pés unidos, entre meus joelhos
Seus joelhos encravou, e com seus dedos
Procurou dividir da estreita fenda
Pequenos fechos, sobre os quaes, de chofre,
Assestou o canhão, que me assustava.
Ao medo succedeu uma dôr viva,
Como se agudo ferro me cravassem....
Alcino impetuoso ía rompendo
A tenue fenda… Em vão, com mil gemidos
Em pranto debulhada, eu lhe pedia
Que não continuasse a atormentar-me:
O cruel, minhas lagrimas bebendo,
Respirando com ancia, e furibundo,
Com a bôca calada sobre a minha,
Meus gritos abafando, me rasgava:
Mais internos pruridos flagellavam
Intactos membros, mais ardor vehemente
Abrange a todos do que os outros soffrem.
Copioso suor ardente, e frio
O cançasso d'Alcino, a afflicção minha,
Inculcavam assás, que eram baldados
Seus exforços crueis para romper-me.
Tão ardua intromissão debalde havia
A custo do meu sangue repetido.
Se enorme corpo diminuta porta
Deve transpôr, carece de abater-lhe
Antes d'entrar, humbraes a que se encosta.
A violenta fricção traíu Alcino,
E o membro, que tentava traspassar-me,
Da propria sanha aos impetos rendido,
Succumbiu, espumando horrendamente.
Da electrica materia nas entranhas
Caíram-me faiscas derretidas;
Um vulcão se ateou dentro em mim toda.
O insoffrivel ardor, que me infundiu
Liquido tiro, ao centro já chegado
Por onde apenas o expugnado forte
Da inimiga irrupção indefensavel,
Podia receber patente damno,
Taes estragos causou, que mais valêra
A entrada franquear ao sitiante.
Já dor não conhecia: chammejava
Meu proprio sangue, com violencia tanta
Que lacerar-me as vêas parecia.
Na estancia do prazer lançára Alcino
Do Mont-gibello as lavas, e extinguil-as
Só torrentes mais fortes poderiam.
Improviso calor calou-me o peito:
Quizera eu já expor-me aos vivos golpes;
Quizera já no meio da carnagem
A batalha suster, ganhar a morte,
Ou a victoria, de triumphos cheia.
Tardava a meus desejos ver completa
D'Alcino a empreza; eu mesma o provocára
Se, em fim, refeito da ufanosa esgrima
O não visse ameaçar um novo assalto.
A um resto de temor maldisse affouta,
E comigo jurei de não dar mostras
De leve dor, bem que me espedaçasse.
Alcino sotopõe uma almofada
Para o alvo nivelar, e separando
Quanto mais pôde nitidas columnas,
O edificio tentou pôr em ruina.
Ao forte insano impulso eu respondendo,
(Ah! que o valor cedeu no transe afflicto!)
O muro se escallou!… Foi tal a força
Da agonia cruel, que esmorecendo
Semiviva fiquei; em quanto Alcino
Dobrando, e redobrando acerbos golpes,
Do reducto de amor o intimo accesso
Penetra entre meus ais, e os meus gemidos;
Outra vez attingiu supremo goso,
Goso celestial, cujos effluvios
Um balsamo espargiram deleitavel,
Que socegou a dor, chamando a vida.
Lethargicos alentos me abysmaram
N'um pélago de gostos indiziveis;
Elevaram-me a um céo d'immensas glorias:
Encadeei Alcino com meus braços,
Enlacei-o com os pés entre as espaldas;
Férvidos beijos dando, e recebendo
Com phrenetico ardor, com ancia intensa,
Chamando-lhe meu bem, minha alma, e vida;
Vozes, suspiros confundindo… tanto,
Tanto em fim apressei dos hirtos membros
Forçosa agitação, que n'um momento
Ineffaveis delicias destillando
Alcino em mim, e eu n'elle, ao mesmo tempo,
Libámos juntos quanto prazer podem
Os mesmos homens figurar deidades…
Minha Olinda, que instantes!… Eu não posso
Traçar-te a confusão de emoções novas
Que no extasi final me transportaram!…
Amarga, acerba dor succumbe ao goso
Da ventura sem par… Vitaes alentos
Saborear não podem tantos gostos…
É preciso morrer entre deleites,
E melhor fôra não tornar á vida,
Que conserval-a sem morrer mil vezes.
Sete vezes Amor chamando ás armas
Seus subditos fieis, travou peleja;
Sete vezes Amor bradou «Victoria!»
Da indefensa coragem conduzido
Morphêo veiu c'roar nossas proezas.
Eis de que modo a tua Alzira soube
D'Amor com as lições sublime vôo
Erguer affouta sobre o nescio vulgo;
Este odeia o prazer por van modestia,
E as pudicas vestaes, escravas do erro,
Não cessam d'embair-nos, affectando
D'uma virtude van mimicas fórmas,
Que o que se anhela mais a encobrir forçam;
Forçam em vão, que a Natureza brada,
E ao grito seu, queira, ou não queira o mundo,
Curvo depõe ficções, da insania filhas,
Tirando abrolhos, que da vida lança
Na aprazivel estrada impostor bando.
Assim ornei a fronte radiosa
De vicejante rama, que decóra
Victorias, que do erro heróes alcançam.
Toma das minhas mãos, amada Olinda,
Proveitosa lição; tu já começas
Triumphos a ganhar, cheios de gloria:
Docil tua alma a improbos dictames,
Docil será tambem de mais bom grado,
Ás piedosas leis da Natureza:
Retrocede, como eu, da inextricavel
Sinuosa Vereda, onde perdidas
Palpamos trevas, tacteando abysmos;
Desapprende a fingir: só quadra ao vicio
Acobertar-se com mendaces roupas.
A modestia, o pudor gera a ignorancia,
Ou do mal-feito um sentimento interno;
O mais é cobardia, ignavia rude,
Que só n'uma alma vil pode arraigar-se.
Cabe, a quem soube respirar, vencendo
Da impostura as traições, um ar mais puro;
Olhar d'em torno a si, ver quam distante
Pulverulenta jaz infame turba:
Cabe ostentar o garbo, e a louçania
Que espanta o vulgo, impondo-lhe o respeito
De que a nobre altivez se faz condigna.
Deixa-lhe os modos, toma o que te cumpre,
Sincera Olinda, tua amiga imita.
Eu não córo de dar-me toda a Alcino,
Nem eu córo tambem de confessal-o:
Instinctos naturaes se não são crimes,
Como crime será narrar seus gosos?…
Se é innocente a acção, a voz não pecca;
D'est'arte saborêa o que estudaste,
E d'est'arte falar, ah! não vacilles!…
Não te escuse o pensar que egual pintura
Objecto egual exige, minha Olinda.
Não; nos gostos de amor sempre ha mudança,
Amor sempre varía os seus deleites.
Eu mostrei-te o modêlo; em mim o encontras;
Usa da singeleza que te é propria,
E abre o teu coração, cheio de goso,
Qual, antes de o provar, ingenua abriste.
Se expôr da sorte infensa a crueldade
Dá lenitivo ao mal, que se exp'rimenta,
Sobre-eleva o prazer á extrema dita,
Quando de o confiar redunda interesse.
Eia, querida! annue aos meus desejos,
Rouba um instante a amor, dá-o á amizade.

[EPISTOLA VII.
OLINDA A ALZIRA.]

Tu não podes saber, querida Alzira,
Com que alegria as cubiçadas lettras
Da tua Olinda foram recebidas!
Não o podes saber, nem eu dizer-to.
Que pura locução, que Amor ensina!
Quam diff'rente linguagem da que falam
Os livros, que me dá o meu Bellino!
N'elles descubro o sensual estylo
Que a modestia revolta, e que não quadra
Ás puras sensações, que Amor excita.
Phrase brutal, sem arte, e sem melindre,
Qual despejada plebe usar costuma;
N'elles de Amor os gostos enxovalha
Mysterioso véo, que arrancar ousam
Com mão profana d'ante o sanctuario
Que Amor encerra, e d'onde o deus occulto
Manda aos mortaes um cento de venturas.
D'elles o numen foge, e por castigo
Leva apoz si deleites, que não provam:
Em vez de graças mil, de mil prazeres
Priapeo tropel impios incensam.
Dá-me tedio a lição de escriptos torpes,
Onde o prazer fugaz, lassos os membros,
Sob mil fórmas em vão se perpetua.
Lassos os membros, lassos os sentidos,
Debalde esgotam, soffregos de gostos,
De impudicicia innumeraveis gestos.
Morre a chamma, que amor mutuo não sopra;
Como é vil a expressão, e é vil o goso
Que uma Thereza, que outras taes francezas
Em impuros bordeis gabar se uffanam!
Foi-me preciso, Alzira, usar do imperio
Que a um fraco sexo deleitosos modos
Fagueiros, ternos emprestar costumam,
Para do amante meu obter a custo
De obscenas producções o sacrificio,
Que o coração corrompem, e devassam
Puros desejos, sentimentos doces.
Mostrei-lhe que o prazer esmorecia
De amavel illusão sem os preludios;
E que, apezar dos seus vivos protestos,
Se os sentidos assás lisonjeava,
Mil emoções gostosas embotando,
Impellido a gosar continuamente,
Escravo do prazer na sua amante
Não fartaria hydropicos desejos:
Ardentes Messallinas buscaria,
Entre os braços das quaes mais facil era
Á vida termo pôr, que saciar-se.
Cedeu às minhas supplicas, e agora
Grato me diz — que se elle da ventura
O caminho me abriu, eu n'elle o guio:
Assim, quando os sentidos fatigados
De amor se negam a esgotar delicias,
Mana do coração inexhaurivel
Prolifica virtude, que os alenta.
Assim de gostos perennaes correntes
Franquêa Amor, a quem o não profana:
De Amor os gosos são como o diamante,
Que, sem o engaste que tocar-lhe véda,
Perdera a polidez, perdera o brilho.
Ame o lascivo o mau, o torpe o obsceno:
Eu em tuas expressões aprendo, Alzira,
Como a ternura impera nos sentidos:
E d'um, e d'outro regulando as forças,
De amorosos tropheos requinta a gloria.
O sensual atolla-se nos vicios,
Cujo infesto vapor todo o corria
De lançar-lhe no tumulo o esqueleto;
D'outra arte aquelle, que libar suavisa
Nectar, que Amor esparge aos seus validos,
Das rugas, e das cans não teme o estrago;
Que nos ultimos annos pode ainda
Em seu transporte Amor beijar na face.
Mas que exiges de mim? Pensas, Alzira,
Que a rude Olinda como tu descreva
A emmanação dos gostos, que se provam
Quando o primeiro amor os desenvolve
Da terna virgem no innocente peito?
Reclamas a candura, de que usava
Antes de me illustrar de Amor o facho?
Ousas mesmo increpar-me de artificio,
Porque eu não sube delicada têa
Urdir aos olhos teus, porque eu não sube
As effusões de amor envolver n'ella,
E, qual me envias, dar-te digna offerta?
Basta, tu mandas; vou obedecer-te.
Tenho ante os olhos instrucções sobejas
Para pintar o quadro dos deleites
Que de dous entes n'um absortos brotam.
Tu me dás os pinceis, o molde, as côres;
E no meu coração, prezada amiga,
Fecunda o goso meigos sentimentos,
Que só acabarão, se amor acaba!…
Que chimericos ceos fórma a impostura!..
Aonde móres delictas se promettem
Que as de um amante, d'outro ao lado unido?
Eu sonhava illusões, antes que fosse
Nos mysterios de amor iniciada.
Errava de um em outro labyrintho,
D'onde os conselhos teus, amada Alzira,
E Amor, dando-me o fio de Ariadna
Me fizeram sair: deixam-me forças
Para abafar o monstro, que meus dias
Tinha de funestar com vãos temores,
Filhos do erro vil, da fraude abortos.
Qual vaguêa nas trevas sem acordo
Perdido o tino, afflicto o caminhante,
D'alta terra entre as faldas pedregosas,
Ou de invia selva na espessura vasta;
Aqui tropeça, ali se encontra, e bate,
Macera as mãos, o rosto, e tenteando
Um pé lhe escapa, cai, rola-se o triste,
E n'um barathro crê despedaçar-se;
Eis improvisa luz assoma ao longe;
Attenta o infeliz, toma-a por norte,
E dos p'rigos, que o cercam, se vê salvo:
Taes tuas lettras para mim brilharam
Na escuridão fatal, que me envolvia.
Não espaçou Amor ditoso prazo
Para no gremio seu a tua Olinda
Bemfazejo accolher. Vira eu Bellino
Passar uma, e mil vezes, attentando
Com interesse em mim, attentei n'elle,
Em seu terno olhar, e meigos gestos;
Vi que um amante o ceo me destinava:
Em breve os olhos meus lhe responderam
Ás mudas expressões, que os seus diziam:
Em breve as suas cartas, de amor cheias,
Fizeram dar egual calor ás minhas,
Accendendo os meus férvidos transportes.
N'uma cerrada noute, quando ao somno
Estava tudo entregue, Amor velando
No meu peito, e no seu, a vez primeira
Nos ajuntou em fim: elle exultava
De indizivel prazer: eu me sentia
Na agitação maior de gosto, e susto.
Ao dar-lhe a mão, para o guiar de manso
Té ao aposento meu, subito fogo
Calou-me as vêas, penetrou-me toda.
Mas quando, já fechados um com outro,
Vi que seus gestos, mais que suas vozes,
Sua ternura ousada me exprimiam,
Lembrou-me o p'rigo, a que me havia exposto.
Tarda lembrança, que cedia a embates
De ignoto medo, que o rubor gerava!
Queria eu impedir-lhe ardentes beijos,
Mas vedavam-no as chammas, que accendiam;
E ás primeiras caricias insensivel,
Luctando entre o pudor, e entre o desejo,
Em mil contrarias reflexões absorta,
Meu silencio e inacção a empresas novas
De maior valor, Bellino excitaram:
Confesso, que devéras quiz oppôr-me
A seus intentos no primeiro instante:
Porém pouco tardou que abrazeada
Em chammas voluptuosas, resistindo
A seus esforços, mais lhe franqueava
Facil accesso a proximos triumphos.
Sentado junto a mim, lançando um braço
Em redor do meu collo, até cingir-me.
E obrigar-me a chegar ao seu meu rosto;
Com a mão sobre os peitos inquieta,
Que ao crebro palpitar os apressava;
E os labios discorrendo os olhos, faces,
Té fixal-os nos meus, ou por entre elles
Confundindo os alentos, lançar chammas
Dentro em meu coração, qual facho acceso;
A ardente lingua sua unindo á minha,
Ou, sobre o seio meu calando a bôca,
N'elle impressos deixar seus proprios beiços.
Com mão mais temeraria, do vestido
Pela abertura a occultos attractivos
Indo o fogo atear… Ah! que eu não pude
Mais resistencia oppôr a seus desejos!
Apenas leve fisga separando
Um dedo seu, que um raio parecia,
Tocou o sitio onde os deleites moram,
Subito, alvorotados uns com outros
Travando estranha lucta, me levaram
Onde, fóra de mim, quasi sem vida,
Só quanto então gosei, gosar podia.
Dos membros todos foram engolphar-se
As sensações ali; e só tornaram
A ser o que eram, quando ao mesmo tempo
Sua potencia intrinseca exhalando;
Fiquei de todo languida, e abatida:
O perverso Bellino attentos olhos
Nos meus então fitando, quiz ler n'elles
De que ficções minha alma se occupava.
Foi extremo o rubor, que de improviso
Minhas faces tingiu: lancei-lhe os braços,
Escondendo meu rosto no seu peito,
Por não poder suster-lhe as doces vistas.
A minha terna acção atraiçoou-me:
Que o maligno, pegando-me do rosto
Com ambas suas mãos, mais me encarava;
De confusa me ver folga, e se ufana,
Com beijos mil parece devorar-me;
Entre os seus braços mais e mais me aperta,
E pouco a pouco sobre mim se inclina:
Minha cabeça no sophá encosta,
Meus pendentes pés trava, e os submette
Entre os seus mesmos té que, em fim, de todo
Senti do corpo seu o pezo grato.
Meu leito era defronte: mas Bellino
No largo canapé circ'lo bastante
Habil athleta achou para o combate.
Perplexa, em mil affectos engolphada,
Irada, enternecida, em cruel lucta,
Meus sentimentos todos labutavam:
Um timido pudor activos fogos
Contrariava em vão, em vão retinha
Ignotos medos, soffregos desejos:
Suspensa, e curiosa eu esperava
Gostosa scena, em que prolixas noutes
Pensando o que seria, despendêra.
Em quanto d'esta sorte embellezado
Me tinham taes idéas, já Bellino
No phrenesi maior de gráu, ou força,
Os meus secretos votos preenchia.
Em torno da cintura levantados
Meus trajos inferiores, sobre os joelhos
Sentindo os de Bellino desprendidos,
Alargando-me os pés, tomando entre elles
Vantajosa attitude a seus projectos,
Franqueando co'a mão facil entrada
Á chammejante lança, que tocava
O mesmo sitio, que invadíra o dedo:
Forcejou para ferir-me com seus golpes,
Com impeto tamanho, com tal raiva
Que nem dos gritos meus se commovia,
Nem podia o meu pranto apiedal-o;
C'o forte impulso as movediças carnes
Levava-me ás entranhas; da ferida
Corria o sangue, mas sem que podesse
Ao ferro assolador achar bainha.
Seus dedos sanguinarios finalmente
D'uma, e outra parte com vigor sustendo
Flexiveis membros, redobrando as forças
Da valente impulsão, a cruel lança
Rompeu cruento ingresso… traspassou-me.
Que dor, Alzira!… Dei tão alto grito
Que Bellino depois disse o assustára,
Bem que fosse de meus páes distante o quarto.
Sem sentidos fiquei, em quanto o amante
Os trophéos da victoria recolhia;
E só tornei a mim, quando ao meu sangue
Suave irrigação veiu mesclar-se,
A agitações de gosto a dor cedendo,
De gosto inexhaurivel, que provára.
N'um momento apertada com Bellino,
N'activa sensação toquei com elle
A meta das delicias, transportada
De muito mais prazer do que a dor fôra.
N'este instante convulsa, e delirante,
E como se um espasmo supportasse,
Intirissada toda, os meus alentos
Senti reconcentrar-se n'um só ponto.
Findava o meu amante, inda eu gosava
(Comprimindo-o comigo) altas venturas,
De que sedenta então não poderia
Fartar-me assás: meus braços exhauridos,
Meu collo, e pés, eu toda fatigada
Do vehemente tremor, em que lidára.
Caí prostrada, quasi semi-morta.
Quando a meus olhos (que caligens densas
Tinham coberto) a luz tornou de novo,
Volvi-os sobre o amante, de tal sorte
Que ao vêl-o já supplice o instigava:
Não ficava ocioso n'este tempo,
Que no exame gastou do entrado forte,
Pasmado dos estragos, que fizera,
E dos despojos, que lucrava alegre.
Da machina, que a praça expugnou firme,
A estructura e altivez eu divisando,
Custava-me a atinar como podéra
Plantar-se o obelisco no reducto estreito.
Bellino minhas vistas comprehendendo,
Fez-me sentir, forçando-me a tocal-o,
Marmorea rigidez, côr escarlate,
Fórma, e calor de obuz, que disparava.
Quando submisso, da peleja lasso,
O vi depois sem o estendido conto,
Brancas roupas trajava, mais humilde:
Mas agora, affrontado, arremeçando
Monarcha ufano, a purpura do collo,
Com furor ao combate se aprestava.
Reverberou seu fogo em minhas faces,
E a vêa e vêa d'ellas espalhado
De todo o corpo me filtrou os membros.
Da lascivia ao pudor jungindo o pezo,
Fez-me Bellino levantar, e tendo
Elle sentado unidos os joelhos,
Sobre elles me sentou, e franco accesso
Da lança abrindo á ponta, a foi de manso
No riste pondo, té que a meio conto
N'elle embebida, sobre si de todo
Levando o pezo meu, entrou de modo
Que fiquei té ás visceras varada.
A introducção tão forte pouco affeitos
Meus delicados membros se avexaram:
Mas curvando-me um pouco, e com justeza,
Achei convir ao estojo o instrumento;
Cuja palpitação, sem ajustar-nos,
Em cadencia reciproca alliada,
Bastava a provocar gosto indizivel,
De modo que sem mais fadiga eu pude,
Na grata posição Bellino immovel,
Attingir o prazer mais saboroso,
Nadar em mil deleites engolphada:
Aqui, amada Alzira, essa virtude
Que appellidam pudor, foi-me odiosa.
De seus grilhões liberta, possuida
De um venereo furor, impaciente
De comprimir a mim o charo amante,
Arranquei-me da lubrica attitude,
Sobre elle me arrojei, toda anciosa
De me identificar c'o meu Bellino;
Estreitada com elle, abandonada
De amor á raiva, que ambos incendia,
Sobre mim o arrastei junto do leito,
Onde ao meu peito o seu, aos seus meus labios,
Do corpo os membros todos enlaçados
Misturando nos osculos o alento,
Nos osculos libando doce nectar,
Em tal agitação, que aos ceos alçar-me,
E abater-me aos abysmos parecia;
Ávida de absorver a grossa lança,
De soffrer-lhe a rijeza diamantina,
E de arrostar-lhe os golpes incessantes,
Sentindo o instante em que violento impulso
De celeste effusão marcava o termo,
Nas mãos, e nos pés sós firmando o corpo,
Tanto me impertiguei, que o meu amante
Sustive sobre mim, suspenso, em quanto
Aos finaes paroxismos succumbindo
Ao meu uniu seu ultimo gemido,
E dentro das entranhas abrazadas
Lançando-me torrentes d'almo influxo,
submersa me deixou n'um mar de gosos.
Julgas, Alzira, que entre tanto gosto
Na assidua compressão me não doiam
As maceradas meliadrosas carnes?
Ah! que esta dor pelo prazer vencida
Irritava emoções deliciosas,
Sobre-elavava ás sensações mais gratas.
Qual sequioso cervo, repassado
Da calmosa avidez, suaves gotas
Rabido anhela, e quanto é mais soffrida
Ardente sêde, tanto mais ensopa
Uma, e outra vez insaciaveis fauces:
Não d'outra sorte flagellados membros
Da dor pungindos de crueis combates,
Balsamica emoção consoladora
Com avidez seccavam insoffridos:
A elluvião prolifica eu sentia,
Pruridos divinaes, e estremecendo
Á melliflua impressão, perennaes gosos
Bastante tempo apoz gosava ainda.
N'este instante expirou dentro em minh'alma
Temor nefando, que immolava ao culto.
Nova moral raiou de Olinda aos olhos;
Eu tive em pouco rispidos preceitos,
Ameaças crueis, com que ralavam
Meus annos infantís. Doeu-me, Alzira,
De ver tanta belleza definhada
Da hypocrisia victimas infaustas;
Aponta a edade, em que é d'amor forçoso
As delicias gosar; em que almo viço
Como nas plantas, n'ellas assignalam:
Grata reproducção comsigo abafam,
Envenena-se o germen da natura,
Infecção purulenta as vai minando,
Que seus dias termina, ou os condemna
A languida existencia: abate o corpo,
Abate o esp'rito corruído o alento.
Innovámos a acção, eu, e Bellino,
E eguaes em forças, sem perder coragem,
Nenhum de nós cedeu, bem que durasse
Algumas horas o combate acceso:
Mas da noute feliz o longo manto
Que os mysterios de amor commette ás trevas,
Com roseos dedos a invejosa Aurora
Cruel abrindo, faz dentro em meu peito
A escuridão entrar, que em torno tinha.
Foi-me odiosa a luz, que affugentava
De mim com o amor perennes delicias.
Uma e outra vez Amor tem facultado
Ao constante Bellino, á terna Olinda
Outros, como estes, prosperos momentos:
São de tormento para mim os dias
Que tel-o junto a mim debalde busco:
Para elle o tempo que sem ver-me gasta,
Figura-lhe de um seculo a distancia.
Já Hymenêo houvera de enlaçar-nos,
Se o mundo, Alzira, o mundo, que não cuida
Senão em machinar sua ruina,
De longo tempo não tivesse urdido
Iniquas tramas, horridas ciladas,
Que ao homem (digno premio de sua obra)
Barreiras põe na estrada da ventura.
Retrocede o infeliz d'um a outro lado,
Negras voragens abre ante os seus passos
Tropel de Furias, que comsigo arrasta,
Filhas do Erro, que animou insano.
A Fortuna que foi comigo larga,
Negou seus dons a meu querido amante.
Elle não conta nobres ascendentes,
De quem meus páes se dizem oriundos:
É quanto basta, para erguer muralhas
De alcance, entre elle e mim, inacessiveis:
O ditoso hymenêo não me é preciso,
O hymenêo, apparato de teus votos,
Para entre os braços seus tecer affouta
Indissoluveis nós c'o meu Bellino:
Sou d'elle, é meu: os homens que se ralem.
Alzira, tu, que a amor meu peito abriste,
Abre meus olhos á Natura inteira:
Eu quero n'ella ver os meus destinos;
Só n'ella eu quero divinaes verdades
Solicita explorar, viver só n'ella:
Cumpre as gratas promessas, que me fazes,
Deva a ti só a tua Olinda tudo.
Não ha para os christãos um Deus diff'rente
Do que os gentios teem, e os musulmanos?
O que a razão desnega, não existe:
Se existe um Deus, a Natureza o offerece;
Tudo o que é contra ella, é offendel-o.
Devo eu seguir o culto, que me apontam
As impressões da propria Natureza?
Tenho uma religião em pratical-as?
Que mundo é este pois, prezada Alzira?
Teem os homens levado o seu arrojo
Té forjarem um Deus na ousada mente,
Traçar-lhe cultos, levantar-lhe templos,
Attribuir-lhe leis, que a ferro, e fogo
Extranhos povos a adorar constrangem,
Immolando milhões á gloria sua?
Nos labios teem doçura, e probidade,
No coração o fel, a raiva: os monstros
São máus por condição, ou máus por erro?
Não, eu não posso, Alzira, d'este enigma
Romper o denso véo: minhas idéas
Jazem n'um cahos de horrida incerteza:
Hesitar me não deixes por mais tempo:
Minha instrucção confio aos teus cuidados;
D'amizade o esplendor dá-te a mim toda;
Acaba de fazer-me de ti digna.


[SONETOS.]


[I]

Tendo o terrivel Bonaparte á vista,
Novo Annibal, que esfalfa a voz da Fama,
«Oh capados heróes! (aos seus exclama
Purpureo fanfarrão, papal-sacrista):

«O progresso estorvai da atroz conquista
«Que da philosophia o mal derrama!…»
Disse, e em férvido tom saúda, e chama,
Sanctos surdos varões por sacra lista:

D'elles em vão rogando um pio arrojo,
Convulso o corpo, as faces amarellas,
Cede triste victoria, que faz nojo!

O rapido francez vai-lhe ás canellas;
Dá, fere, mata; ficam-lhe em despojo
Reliquias, bullas, merdas, bagatellas.

[II]

Lá quando em mim perder a humanidade
Mais um d'aquelles, que não fazem falta,
Verbi-gratia — o theologo, o peralta,
Algum duque, ou marquez, ou conde, ou frade:

Não quero funeral communidade,
Que engrole sub-venites em voz alta;
Pingados gatarrões, gente de malta,
Eu tambem vos dispenso a charidade:

Mas quando ferrugenta enchada idosa
Sepulchro me cavar em ermo Outeiro,
Lavre-me este epitaphio mão piedosa:

«Aqui dorme Bocage, o putanheiro:
Passou vida folgada, e milagrosa;
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro.»

[III]

Esse disforme, e rigido porraz
Do semblante me faz perder a côr;
E assombrado d'espanto, e de terror
Dar mais de cinco passos para traz:

A espada do membrudo Ferrabraz
De certo não mettia mais horror:
Esse membro é capaz até da pôr
A amotinada Europa toda em paz:

Creio que nas fodaes recreações
Não te hão de a rija machina soffrer
Os mais corridos, sordidos cações:

De Venus não desfructas o prazer:
Que esse monstro, que alojas nos calções,
É porra de mostrar, não de foder.

[IV]

N'um capote embrulhado, ao pé de Armia,
Que tinha perto a mãe o chá fazendo,
Na linda mão lhe fui (oh ceos!) mettendo
O meu caralho, que de amor fervia:

Entre o susto, entre o pejo a moça ardia:
E eu solapado os beiços remordendo,
Pela fisga da saia a mão crescendo
A chamada sacana lhe fazia:

Entra a vir-se a menina… Ah! que vergonha!
«Que tens? — lhe diz a mãe sobresaltada:
Não pode ella encobrir na mão langonha:

Suffocada ficou, a mãe corada;
Finda a partida, e mais do que medonha
Á noute começou da bofetada.

[V]

No canto de um venal salão de dança,
Ao som de uma rebeca desgrudada,
Olhos em alvo, a porra arrebitada,
Bocage, o folgazão, rostia o França:

Este, com mogigangas de creança,
Com a mão pelos evos encrespada,
Brandia sobre a roxa fronte alçada
Do assanhado porraz, que quer lambança:

Veterana se faz a mão bisonha;
Tanto a tempo menêa, e súa o bicho,
Que em Bocage o tezão vence a vergonha:

Quiz vir-se por luxuria, ou por capricho;
Mas em vez de acudir-lhe alva langonha
Rebenta-lhe do cú merdoso esguicho.

[VI]

Não lamentes, oh Nise, o teu estado;
Puta tem sido muita gente boa;
Putissimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas teem reinado:

Dido foi puta, e puta d'um soldado;
Cleopatra por puta alcança a c'rôa;
Tu, Lucrecia, com toda a tua prôa,
O teu cono não passa por honrado:

Essa da Russia imperatriz famosa,
Que inda ha pouco morreu (diz a Gazeta)
Entre mil porras expirou vaidosa:

Todas no mundo dão a sua greta:
Não fiques pois, oh Nise, duvidosa
Que isto de Virgo e honra é tudo peta.

(D.)

[VII]

Tu, oh demente velho descarado,
Escandalo do sexo masculino,
Que por alta justiça do Destino
Tens o impotente membro decepado:

Tu, que em torpe furor incendiado
Soffres d'impia paixão ardor maligno,
E a consorte gentil, de que és indigno,
Entregas a infructifero castrado:

Tu, que tendo bebido o menstruo immundo,
Esse amor indiscreto te não gasta
D'impia mulher o orgulho furibundo:

Em castigo do vicio, que te arrasta,
Saiba a inclita Lysia, e todo o mundo
Que és vil por genio, que és cabrão, e basta!

[VIII]

Vai cagar o mestiço, e não vai só;
Convida a algum, que esteja no Gará,
E com as longas calças na mão já
Pede ao cafre canudo e tambió:

Destapa o banco, atira o seu fuscó,
Depois que ao liso cú assento dá,
Diz ao outro: «Oh amigo, como está
A Rita? O que é feito da Nhonhó?»

«Vieste do Palmar? Foste a Pangin?
Não me darás noticias da Russu,
Que desde o outro dia inda a não vi?»

Assim prosegue, e farto já de gu,
O branco, e respeitavel camarim
Deita fora o cachimbo, e lava o cú.

[IX]

Arreitada donzella em fofo leito
Deixando erguer a virginal camisa,
Sobre as roliças coxas se divisa
Entre sombras subtís pachocho estreito:

De louro pello um circulo imperfeito
Os papudos beicinhos lhe matiza;
E a branda crica, nacarada e liza,
Em pingos vérte alvo liquor desfeito:

A voraz porra as guelras encrespando
Arruma a focinheira, e entre gemidos
A moça treme, os olhos requebrando:

Como é inda boçal perde os sentidos;
Porém vai com tal ancia trabalhando,
Que os homens é que vem a ser fodidos.

[X]

Esquentado frisão, brutal masmarro
Girava em Santarem na pobre feira;
Eis que divisa ao longe em couva ceira
Seus bons irmãos seraphicos de barro:

O bruto, que arremeda um boi de carro
Na carranca feroz, parte á carreira,
Os sagrados bonecos escaqueira,
E arranca de ufania um longo escarro:

N'alma o sancto furor lhe arqueja, e berra;
Mas vós enchei-vos de intimo alvoroço,
Povos, que do burel soffreis a guerra:

Que dos bonzos de barro o vil destroço
E presagio talvez de irem por terra
Membrudos fradalhões de carne e osso!

[XI]

N'esta, cuja memoria esquece á Fama,
Feira, que a Santarem vem de anno em anno,
Jazia co'uma freira um franciscano;
Eram de barro os dous, de barro a cama:

Co'a mão, que á virgindade injurias trama,
Pretendia o cabrão ferrar-lhe o panno;
Eis que um negro barrasco, um Frei Tutano
O espectaculo vê, que os rins lhe inflamma:

«Irra! Vens-me atiçar, gente damnada!
Não basta a felpa dos bureis opacos,
Com que a carne rebelde anda ralada?

«Fora, vís tentações, fora, velhacos!..»
Disse, e ao rispido som de atroz patada
O escandaloso par converte em cacos.

[XII]

Amar dentro do peito uma donzella;
Jurar-lhe pelos ceos a fé mais pura;
Falar-lhe, conseguindo alta ventura,
Depois da meia noute na janella:

Fazel-a vir abaixo, e com cautela
Sentir abrir a porta, que murmura;
Entrar pé ante pé, e com ternura
Apertal-a nos braços casta, e bella:

Beijar-lhe os vergonhosos, lindos olhos,
E a bocca, com prazer o mais jucundo,
Apalpar-lhe de neve os dous pimpolhos:

Vêl-a rendida em fim a Amor fecundo;
Ditoso levantar-lhe os brancos folhos;
É este o maior gosto, que ha no mundo.

(D.)

[XIII]

É pau, e rei dos paus, não marmelleiro,
Bem que duas gamboas lhe lombrigo;
Dá leite, sem ser arvore de figo,
Da glande o fructo tem, sem ser sobreiro:

Verga, e não quebra, como o zambujeiro;
Occo, qual sabugueiro tem o embigo;
Brando ás vezes, qual vime, está comsigo;
Outras vezes mais rijo que um pinheiro:

Á roda da raiz produz carqueija;
Todo o resto do tronco é calvo, e nú;
Nem cedro, nem pau-sancto mais negreja!

Para carvalho ser falta-lhe um u;
Adivinhem agora que pau seja,
E quem adivinhar metta-o no cú.

[XIV]

Bojudo fradalhão de larga venta,
Abysmo immundo de tabaco esturro,
Doutor na asneira, na sciencia burro,
Com barba hirsuta, que no peito assenta:

No pulpito um domingo se apresenta;
Préga nas grades espantoso murro;
E acalmado do povo o gran susurro
O dique das asneiras arrebenta:

Quatro putas mofavam de seus brados,
Não querendo que gritasse contra as modas
Um peccador dos mais desaforados:

«Não (diz uma) tu, padre, não me engodas:
Sempre me ha de lembrar por meus peccados
A noute, em que me déste nove fodas!»

[XV]

Aquelle semi-clerigo patife,
Se eu no mundo fizera ainda apostas,
Apostára comtigo que nas costas
O grande Pico tem de Teneriffe:

Celebre traste! É justo que se rife;
Eu tambem prompto estou, se d'isso gostas;
Não haja mais perguntas, nem respostas;
Venha, antes que algum taful o bife:

Parece hermaphrodita o Corcovado;
Pela rachada parte (que appeteço)
Parece que emprenhou, pois anda opado!

Mas d'esta errada opinião me desço:
Pois que traz a creança no costado,
Deve ter emprenhado pelo sesso.

[XVI]

Porri-potente heróe, que uma cadeira
Sustens na ponta do caralho tezo,
Pondo-lhe em riba mais por contrapezo
A capa de baetão da alcoviteira:

Teu casso é como o ramo da palmeira,
Que mais se eleva, quando tem mais pezo:
Se o não conservas açaimado e preso,
É capaz de foder Lisboa inteira!

Que força tens no horrido marsapo,
Que assestando a disforme cachamorra
Deixa conos e cús feitos n'um trapo!

Quem ao ver-te o tezão ha não discorra
Que tu não podes ser senão Priapo,
Ou que tens um guindaste em vez do porra?

(D.)

[XVII]

Dizem que o rei cruel do Averno immundo
Tem entre as pernas caralhaz lanceta,
Para metter do cú na aberta greta
A quem não foder bem cá n'este mundo:

Tremei, humanos, d'este mal profundo,
Deixai essas lições, sabida peta;
Foda-se a salvo, coma-se a punheta;
Este o prazer da vida mais jucundo:

Se pois guardar devemos castidade,
Para que nos deu Deus porras leiteiras,
Senão para foder com liberdade?

Fodam-se, pois, casadas e solteiras:
E seja isto já; que é curta a edade,
E as horas do prazer voam ligeiras.

(D.)

[XVIII]

Nojenta prole da rainha Ginga,
Sabujo ladrador, cara de nico,
Loquaz saguim, burlesco Theodorico,
Osga torrada, estupido resinga:

Eu não te accuso de poeta pinga;
Tens lido o mestre Ignacio, e o bom Suppico;
De occas idéas tens o casco rico,
Mas teus versos tresandam a catinga:

Se a tua Musa nos outeiros campa,
Se ao Miranda fizeste ode demente,
E o mais, que ao mundo estolido se incampa:

É porque sendo, oh Caldas, tão sómente
Um cafre, um goso, um nescio, um parvo, um trampa,
Queres metter nariz em cú de gente.

[XIX]

Turba esfaimada, multidão canina,
Corja, que tem por Deus ou Momo, ou Baccho,
Reina, e decreta nos covís de Caco
Ignorancia d'aqui, d'ali rapina:

Colhe de alto systema e lei divina
Imaginario jus, com que encha o saco;
Textos gagueja em vão Doctor macaco
Por ouro, que promette alma sovina:

Circulo umbroso de venaes pedantes,
Com torpe astucia de maligno zorra
Usurpa nome excelso, e graus flamantes:

Ora mijei na sucia, inda que eu morra!
Corno, arrocho, bambu nos elephantes,
Cujo vulto é de anões, a tromba é porra!

[XX]

Magro, de olhos azues, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de faxa, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno:

Incapaz de assistir n'um só terreno,
Mais propenso ao furor do que á ternura,
Bebendo em niveas mãos por taça escura
De zelos infernaes lethal veneno:

Devoto incensador de mil deidades,
(Digo, de moças mil) n'um só momento,
Inimigo de hypocritas, e frades:

Eis Bocage, em quem luz algum talento:
Saíram d'elle mesmo estas verdades
N'um dia, em que se achou cagando ao vento.

[XXI]

Na scena em quadra tragico-hynvernosa
Zaida se impingiu (fradesco drama!)
Appareceu depois, com sede á fama,
Tragedia mais egual, mais lastimosa:

O auctor prantêa em phrase apparatosa
Esfaqueado arraes, pimpão d'Alfama;
Corno o protagonista, e puta a dama,
O macho é Simeão, e a mula é Rosa:

Espicha o rabo (eu tremo ao proferil-o!)
Espicha o rabo ali o heróe na rua,
Qual Muratão nos areaes do Nilo!

Elmiro na tarefa continúa,
Já todos pela escolha, e pelo estylo
Rosnam que a nova peça é obra sua.

[XXII]

Não tendo que fazer Apollo um dia
Ás Musas disse: «Irmans, é beneficio
Vadios empregar; dêmos officio
Aos socios vãos da magra Academia:

«O Caldas satisfaça á padaria;
O França d'enjoar tenha exercicio,
E o auctor do entremez do Rei Egypcio
O Pegaso veloz conduza á pia:

«Vá na Ullysséa tasquinhar o ex-frade;
Da sala o Quintanilha accenda as velas,
Em se juntando alguma sociedade:

«Bernardo nenias faça, e cague n'ellas:
E Belmiro, por ter habilidade,
Como d'antes trabalhe em bagatellas.»

[XXIII]

Rapada, amarellenta cabelleira,
Vêsgos olhos, que o chá, e o doce engoda,
Bôca, que á parte esquerda se accommoda,
(Uns affirmam que fede, outros que cheira:)

Japona, que da ladra andou na feira;
Ferrujento faim, que já foi moda
No tempo em que Albuquerque fez a poda
Ao suberbo Hidalcão com mão guerreira:

Ruço calção, que espórra no joelho,
Meia e sapato, com que ao lodo avança,
Vindo a encontrar-se c'o esburgado artelho:

Jarra, com appetites de creança;
Cara com similhança de besbelho;
Eis o bedel do Pindo, o doctor França.

[XXIV]

Pilha aqui, pilha ali, vozêa auctores,
Montesquieu, Mirabeau, Voltaire, e varios;
Propõe systemas, tira corollarios,
E usurpa o tom d'emphaticos doctores:

Sciencia de livreiros e impressoras
Tem da vasta memoria nos armarios;
E tractando os christãos de visionarios,
Só rende culto a Venus, e aos Amores:

A mulher, que a barriga lhe tem fôrra
Do jugo da vital necessidade,
Deixa em casa gemer como em masmorra:

Este biltre, labéo da humanidade,
É um tal bacharel Leitão de borra,
Lascivo como um burro, ou como um frade.

[XXV]

Não chores, chara esposa, que o Destino
Manda que parta, á guerra me convida;
A honra prézo mais que a propria vida,
E se assim não fizera, fôra indigno.

«Eu te acho, meu Conde, tão menino
«Que receio…» — Ah! Não temas, não, querida;
A franceza nação será batida,
Este peito, que vês, é diamantino.

«Como é crivel que sejas tão valente?…»
Eu herdei o valor de avós, e paes,
Que essa virtude tem a illustre gente.

«Porém se as forças forem desiguaes?…»
Irra, Condessa! És muito impertinente!
Tornarei a fugir, que queres mais?

[XXVI]

Se quereis, bom Monarcha, ter soldados
Para compôr lustrosos regimentos,
Mandai desentulhar esses conventos
Em favor da perguiça edificados:

Nos Bernardes lambões, e asselvajados
Achareis mil guerreiros corpulentos:
Nos Vicentes, nos Neris, e nos Bentos
Outros tantos, não menos esforçados:

Tudo extingui, senhor: fiquem sómente
Os Franciscanos, Loios, e Torneiros,
Do Centimano asperrima semente:

Existam estes lobos carniceiros,
Para não arruinar inteiramente
Putas, pivias, cações, e alcoviteiros.

[XXVII]

Veiu Muley-Achmet marroquino
Com duros trigos entulhar Lisboa;
Pagava bem, não houve moça boa
Que não provasse o casso adamantino:

Passou a um seminario feminino,
Dos que mais bem providos se apregôa,
Onde a um frade bem fornida ilhôa
Dava d'esmola cada dia um pino:

Tinha o mouro fodido largamente,
E já basofiando com desdouro
Tractava a nação lusa d'impotente:

Entra o frade, e ao ouvil-o, como um touro
Passou tudo a caralho novamente,
E o triumpho acabou no cú do mouro.

(D.)

[XXVIII]

Uma noute o Scopezzi mui contente
(Depois de borrifar a sacra espada
Que traz da rubra fita pendurada
Com cuspo, e vinho, que vomita quente:)

Conversava co'a esposa em voz tremente
Sobre a grande ventura inesperada
De ser a sua Placida adorada
Por um Marquez tão rico, e tão potente;

A velha lhe replica: «Isso é verdade;
Em quanto moça fôr, nunca o dinheiro
Faltará n'esta casa em quantidade.

«Mas tu sempre és o tafulão primeiro;
Pois tendo cabrão sido n'outra edade,
És agora o maior alcoviteiro!»

(D.)

[XXIX]

Cagando estava a dama mais formosa,
E nunca se viu cú de tanta alvura;
Mas ver cagar, comtudo, a formosura
Mette nojo á vontade mais gulosa!

Ella a massa expulsou fedentinosa
Com algum custo, porque estava dura:
Uma carta d'amores de alimpadura
Serviu áquella parte mal cheirosa:

Ora mandem á moça mais bonita
Um escripto d'amor, que lisonjeiro
Affectos move, corações incita;

Para o ir ver servir de reposteiro
Á porta, onde o fedor, e a trampa habita,
Do sombrio palacio do alcatreiro!

(D.)

[XXX]

Quando do gran Martinho a fatal Parca
O termo fez soar no seu chocalho,
Levou tres dias a passar caralho
Do medonho Charonte a negra barca:

Eis no terceiro dia o padre embarca,
E o velho, que a ninguem faz agasalho,
Em premio quiz só ter do seu trabalho
O gaudio de ver porra de tal marca:

Pegou-se ao cão trifauce a voz na goela
Ao ver de membro tal as dianteiras,
E Plutão a mulher pôz de cautela:

Porém Dido gritando ás companheiras:
«Agora temos porra, a ella, a ella,
«Que as horas do prazer voam ligeiras!»

(D.)

[XXXI]

Dizendo que a costura não dá nada,
Que não sabe servir quem foi senhora,
A impulsos da paixão fornicadora
Sobe d'alcoviteira a moça a escada:

Seus desejos lhe pinta a malfadada,
E a tabaquenta velha seductora
Diz-lhe: «Veiu, menina, em bella hora,
Que essas, que ahi tenho, já não ganham pada:»

Matricula-se aqui a tal pateta,
Em punhetas e fodas se industría,
Em quanto a mestra lhe não rifa a grêta:

Chega, por fim, o fornicario dia;
E em pouco a menina de muleta
Passêa do hospital na enfermaria.

(D.)

[XXXII]

Piolhos cría o cabello mais dourado;
Branca remella o olho mais vistoso;
Pelo nariz do rosto mais formoso
O monco se divisa pendurado:

Pela bôca do rosto mais corado
Halito sái, ás vezes bem ascoroso;
A mais nevada mão sempre é forçoso
Que de sua dona o cú tenha tocado:

Ao pé d'elle a melhor natura móra,
Que deitando no mez podre gordura,
Ferido mijo lança a qualquer hora:

Caga o cú mais alvo merda pura;
Pois se é isto o que tanto se namora,
Em ti mijo, em ti cago, oh formosura!

(D.)

[XXXIII]

Se o gran serralho do Sophi potente,
Ou do Sultão feroz, que rege a Thracia,
Mil Venus da Georgia, ou da Circassia
Nuas prestasse ao meu desejo ardente:

Se negros brutos, que parecem gente,
Ministros fossem de lasciva audacia,
Inda assim do ciume a pertinacia
No peito me nutríra ardor pungente:

Erraste em produzir-me, oh Natureza,
N'um paiz onde todos fodem tudo,
Onde leis não conhece a porra teza!

Cioso affecto, affecto carrancudo!
Zelar moças na Europa é ardua empresa;
Entre nós ser amante é ser cornudo.

(D.)

[XXXIV]

Não te crimino a ti, plebe insensata,
A van superstição não te crimino;
Foi natural, que o frade era ladino,
E experta em macaquices a beata:

Só crimino esse heróe de bola chata,
Que na eschola de Marte inda é menino,
E ao falso pastor, pastor sem tino,
Que tão mal das ovelhas cura, e tracta:

Item, crimino o respeitavel Cunha,
Que a frias petas credito não dera,
A ser philosopho, como se suppunha:

Coitado! Protestou com voz sincera
Fazer geral, contricta caramunha,
Porém ficou peor que d'antes era!

[XXXV]

Se tu visses, Josino, a minha amada
Havias de louvar o meu bom gosto;
Pois seu nevado, rubicundo rosto
Ás mais formosas não inveja nada:

Na sua bôca Venus faz morada;
Nos olhos tem Cupido as settas posto;
Nas mammas faz Lascivia o seu encosto,
N'ella, em fim, tudo encanta, tudo agrada:

Se a Asia visse cousa tão bonita
Talvez lhe levantasse algum pagode
A gente, que na foda se exercita!

Belleza mais completa haver não pode;
Pois mesmo o cono seu, quando palpita;
Parece estar dizendo: «Fode, fode!»

(D.)

[XXXVI]

Cante a guerra quem fôr arrenegado,
Que eu nem palavra gastarei com ella;
Minha Musa será sem par canella
Co'um felpudo coninho abrazeado:

Aqui descreverei como arreitado
N'um mar de bimbas navegando á vela,
Cheguei, propicio o vento, á doce, áquella
Enseada d'Amor, rei coroado:

Direi tambem os beijos susurrantes,
Os intrincados nós das linguas ternas,
E o aturado fungar de dous amantes:

Estas glorias serão na fama eternas;
Ás minhas cinzas me farão descantes
Femeos vindouros, alargando as pernas.

[XXXVII]

Fiado no fervor da mocidade,
Que me acenava com tezões chibantes,
Consumia da vida os meus instantes
Fodendo como um bode, ou como um frade:

Quantas pediram, mas em vão, piedade
Encavadas por mim balbuciantes!
Fincado a gordos sessos alvejantes
Que hemorroidas não fiz n'esta cidade!

Á força de brigar fiquei mammado:
Vista ao caralho meu, que de gaiteiro
Está sobre os colhões apatetado:

Oh Numen tutelar do mijadeiro!
Levar-te-hei, se tornar ao tezo estado,
Por offrenda espetado um parrameiro.

[XXXVIII]

Eu foder putas?.. Nunca mais, caralho!
Has de jurar-m'o aqui, sobre estas Horas;
E vamos, vamos já!… Porém tu choras?
«Não senhor (me diz elle) eu não, não ralho:»

Batendo sobre as Horas como um malho,
«Juro (diz elle) só foder senhoras,
Das que abrem por amor as tentadoras
Pernas áquillo, que arde mais que o alho.»

Co'a força do jurar esfolheando
O sacro livro foi, e a ardente sede
O fez em mar de ranho ir soluçando....

Ah! que fizeste?.. O ceo teus passos mede!
Anda, heretico filho miserando,
Levanta o dedo a Deus, perdão lhe pede!

[XXXIX]

«Ora deixe-me, então… faz-se creança?
Olhe que eu grito, pela mãe chamando!» —
Pois grite (então lhe digo, amarrotando
Saiote, que em baixal-o irada cança):

Na quente lucta lhe desgrenho a trança,
A anagoa lhe levanto, e fumegando
As estreitadas bimbas separando
Lhe arrimo o caralhão, que não se amança:

Tanto, a ser giria, não gritava a bella;
Que a cada grito se escorvava a porra,
Fazendo-lhe do cú saltante pella!

— Ha de pagar-me as mangações de borra;
Basta de cono, ponha o sesso á vela,
Que n'elle ir quero visitar Gomorrha.

[XL]

Pela rua da Rosa eu caminhava
Eram sete da noute, e a porra teza;
Eis puta, que indicava assás pobreza,
Co'um lencinho á janella me acenava:

Quaes conselhos? A porra fumegava;
«Hei de seguir a lei da natureza!»
Assim dizia, e effeituou-se a empresa;
Prepucio para traz a porta entrava:

Sem que saude a moça prazenteira
Se arrima com furor não visto á crica,
E a bella a molle-molle o cú peneira:

Ninguem me gabe o rebolar d'Annica;
Esta puta em foder excede a Freira,
Excede o pensamento, assombra a pica!

[XLI]

«Apre! Não mettas todo… Eu mais não posso…»
Assim Marcia formosa me dizia;
— Não sou barbaro (á moça eu respondia)
Brandamente verás como te cóço:

«Ai! por Deus, não… não mais, que é grande, e grosso!..»
Quem resistir ao seu falar podia!
Meigamente o coninho lhe batia;
Ella diz: «Ah meu bem! meu peito é vosso!»

O rebolar do cú (ah!) não te esqueça....
Como és bella, meu bem! (então lhe digo)
Ella em suspiros mil a ardencia expressa:

Por te unir faze muito ao meu embigo;
Assim, assim… menina, mais depressa!…
Eu me venho… ai Jesus!… vem-te comigo!

[XLII]

Vem cá, minha Maria, tão roliça,
Co'as bochechas da côr do meu caralho,
Que eu quero ver se os beiços embaralho
Co'esses teus, onde amor a ardencia atiça:

Que abrimentos de bôca! Tens perguiça?
Hospeda-me entre as pernas este malho,
Que eu te ponho já teza como um alho;
Ora chega-te a mim, leva esta piça....

Ora meche… que tal te sabe, amiga?
Então, foges c'o sesso? É forte historia!
Elle é bom de levar, não, não é viga.

«Eu grilo!» (diz a moça merencoria)
Pois grita, que espetada n'esta espiga
Com porraes salvas cantarei victoria.

[XLIII]

Dormia a somno solto a minha amada,
Quando eu pé ante pé no quarto entrava;
E ao ver a linda moça, que arreitava,
Sinto a porra de gosto alvoroçada:

Ora do rosto seu vejo a nevada
Pudibunda bochecha, que encantava;
Outr'hora nas mamminhas demorava
Soffrega, ardente vista embasbacada:

Porém vendo sair d'entre o vestido
Um lascivo pésinho torneado,
Bispo-lhe as pernas, e fiquei perdido:

Vai senão quando, o meu caralho amado
Bem como Enéas acordava Dido,
Salta-lhe ao pello, por seguir seu fado.

[XLIV]

Eram oito do dia; eis a creada
Me corre ao quarto, e diz: «Ahi vem menina
Em busca sua; faces de bonina,
Olhos, que quem os viu não quer mais nada.»

Eis me visto, eis me lavo, e esta engraçada
Fui ver in continenti; oh ceos! que mina!
Que breve pé! Que perna tão divina!
Que mamminhas! que rosto! Oh, que é tão dada!

A porra nos calções me dava urros;
Eis a levo ao meu leito, e ella rubente
Não podia soffrer da porra os murros:

«Ai!.. ai!.. (de quando em quando assim se sente)
Uma porra tamanha é dada aos burros,
Não é porra capaz de foder gente.»

[XLV]

Pela escadinha de um courão subindo
Parei na sala, onde não entra o pejo;
Chinelo aqui e ali suado vejo,
E o fato de cordel pendente, rindo:

Quando em miseria tanta reflectindo
Estava, me appareceu nympha do Tejo,
Roendo um fatacaz de pão com queijo,
E para mim n'um ai vem rebolindo:

Dá-me um grito a razão: — «Eia fujamos
Minha porra infeliz já d'este inferno…
Mas tu respingas? Tenho dicto, vamos…»

Eis a porra assim diz — «Com odio eterno
Eu, e os socios colhões em ti mijamos;
Para baixo do embigo eu só govérno.»

[XLVI]

Eram seis da manhan; eu acordava
Ao som de mão, que á porta me batia:
Ora vejamos quem será… dizia,
E assentado na cama me zangava.

Brando rugir de seda se escutava,
E sapato a ranger tambem se ouvia…
Salto fora da cama… Oh! que alegria
Não tive, olhando Armia, que arreitava!

Temendo venha alguem, a porta fecho;
Co'um chupão lhe saudei a rosea bôca,
E na rompente mamma alegre mecho:

O caralho estouvado o cono aboca;
Bate a gostosa greta o rubro queixo,
E a matinas de amor a porra toca.

[XLVII]

«Mas se o pae acordar!.. (Marcia dizia
A mim, que á meia-noute a trombicava)
«Hoje não… (continúa, mas deixava
Levantar o saiote, e não queria!)

Sempre em pé a dizer: «Então, avia…»
Sesso á parede, a porra me aguentava:
Uma cousa notei, que me arreitava,
Era o calçado pé, que então rangia:

Vim-me, e assentado n'um degrau da escada,
Dando alimpa ao caralho, e mais á greta,
Nos preparámos para mais porrada:

Por variar nas mãos metti-lhe a teta;
Tosse o pae, foge a filha… Oh vida errada!
Lá me ficou em meio uma punheta!

[XLVIII]

Quando no estado natural vivia
Mettida pelo matto a especie humana,
Ai da gentil menina deshumana,
Que á força a greta virginal abria!

Entrou o estado social um dia;
Manda a lei que o irmão não foda a mana,
É crime até chuchar uma sacana,
E péza a excommunhão na sodomia:

Quanto, lascivos cães, sois mais ditosos!
Se na egreja gostais de uma cachorra,
Lá mesmo, ante o altar, fodeis gostosos:

Em quanto a linda moça, feita zorra,
Voltando a custo os olhos voluptuosos,
Põe no altar a vista, a idéa em porra.

[XLIX]

Levanta Alzira os olhos pudibunda
Para ver onde a mão lhe conduzia;
Vendo que n'ella a porra lhe mettia
Fez-se mais do que o nacar rubicunda:

Tóco o pentelho seu, tóco a rotunda
Lisa bimba, onde Amor seu throno erguia;
Entretanto em desejos ella ardia,
Brando liquor o passaro lhe inunda:

C'o dedo a greta sua lhe coçava;
Ella, machinalmente a mão movendo,
Docemente o caralho me embalava:

«Mais depressa» — lhe digo então morrendo,
Em quanto ella signaes do mesmo dava;
Mistica pivia assim fômos comendo.

[L]

Uma empada de gallico á janella,
Fazendo meia, alinhavando trapos,
Em quanto a guerra faz tudo em farrapos,
Pondo o honrado a pedir, e a virgem bella!

Vai a trombuda, sordida michela
Fazendo guerra a marujaes marsapos,
E sem que d'estes mil lhe façam papos,
C'o sesso tambem dá ás porras tréla:

Tudo em metal por dous canaes ajunta;
Recrutas nunca teme, e do Castello
Se ri, que aos belleguins as mãos lhes unta:

Nas publicas funcções vai dar-se ao prelo;
Minh'alma agora, meu leitor, pergunta
Se o ser puta não é officio bello?

[LI]

Com que magoa o não digo! Eu nem te vejo,
Meu caralho infeliz! Tu, que algum dia
Na gaiteira amorosa filistria
Foste o regalo do meu patrio Tejo!

Sem te importar o feminino pejo,
Traz a mimosa virgem, que fugia,
Fincado á terna, afadigada Armia,
Lhe pespegavas no coninho um beijo:

Hoje, canal de fétida remella,
O mysantropo do paiz das bimbas,
Apenas olhas candida donzella!

Deitado dos colhões sobre as tarimbas,
Só co'a memoria em feminil canella
Ás vezes pivia casual cachimbas.

[LII]

Que eu não possa ajuntar como o Quintella
É cousa, que me afflige o pensamento;
Desinquieta a porra quer sustento,
E a pivia tracta já de bagatella:

Se n'outro tempo houve alguma bella,
Que a amor só désse o cono pennugento,
Isso foi, já não é; que o mais sebento
Cagaçal quer durazia caravella.

Perdem saude, bolsa, e economia;
Nunca mais me verão meu membro roto;
Esta a minha porral philosophia.

Putas, adeus! Não sou vosso devoto;
Co'um sesso enganarei a phantasia,
N'uma escada enrabando um bom garoto.


[MISCELANEA.]


[DECIMAS.]

[A UM TABELLIÃO VELHO, QUE CASOU COM MOÇA NOVA.]