III
Renunciemos a descrever o despeito de Frederico, quando teve uma prova da completa indifferença de Lucinda no desprendimento com que ella se fazia interprete d'um outro amor. Depois folgou de ter encontrado um pretexto para desculpar comsigo mesmo a sua desastrada timidez, e louvou-se de não ter avançado a ponto de se vêr collocado n'uma posição ridicula com pessoa que a aproveitaria com tão boa vontade. A todos estes sentimentos, que primeiro lhe tumultuaram no cerebro, succedeu o amor proprio offendido, «Pois que! dizia elle, é de marmore esta mulher? Está junto de mim n'aquella noite voluptuosa,{30} toda impregnada de languidas emanações, de vagos murmurios, de maviosissimos fulgores, sente a minha respiração abrazada, crava os seus olhos nos meus, aperta as minhas mãos trementes, deixa-se embalar commigo, commigo como uma creoula na rede, pelo movimento lascivo das ondasinhas do Tejo, e nada d'isso a commove, e lhe faz perder por um instante ao menos, os seus habitos de coquetterie? A propria Leonora Falconieri de Feuillet sentiria uma vaga impressão amorosa n'aquelle bote que resvalava ao lume d'agua, todo banhado de luar, abrindo no rio um sulco phosphorescente, e Lucinda, depois de me ter abrazado toda a noite com o fogo infernal das suas pupillas, acaba por me fazer friamente a confidencia do amor d'uma das suas amigas? Oh! coquette.
«Pois bem, continuava elle, hei de lhe fazer a vontade, hei de namorar essa mulher desconhecida, e será Lucinda a minha confidente? Oh! então, quando não tiver o receio do ridiculo que accommette um pretendente desastrado, então serei audacioso, então fallarei com eloquencia, então, far-lhe-hei sentir{31} bem tudo o que ella perdeu, tortural-a-hei se não com os espinhos do ciume, pelo menos com os da vaidade ferida, triumpharei... e talvez conseguirei d'essa fórma attrahil-a e fascinal-a, como ella me fascinou a mim.»
E o modesto moço, acabando este longo monologo, vestiu-se, alindou-se, e saiu com uns modos conquistadores, para passar pela rua de...
Logo no principio da rua elle ergueu a cabeça, e principiou a revistar as janellas; o coração pulsava-lhe com violencia, mas animou-se com a idéa de que se não veria obrigado a dizer uma só palavra, e um olhar não era cousa que muito custasse á sua timidez rebelde.
Effectivamente no sitio designado estava uma senhora á janella. Frederico fitou os olhos n'ella, e achou-a linda, apesar da distancia ou por causa d'ella; voltou a cabeça depois de passar, e encontrou de novo os olhos da galante menina, que logo os desviou o mais depressa que pôde, mas sem que podesse evitar o ter sido surprehendida em flagrante delicto. Frederico affastou-se triumphantemente.{32}
Uns poucos de dias se repetio esta manobra, sem que Frederico ousasse passar d'essas demonstrações visuaes, mas continuando com intrepidez o seu passeio diario. Afinal chegou a occasião de ir contar a Lucinda os seus novos amores. A sr.ª D. Leocadia d'Azevedo encontrou-o na rua, e convidou-o para jantar.
Á tarde desceram todos ao jardim, que tinha muro para a rua, e um pequeno mirante cercado de madresilvas. Os convidados dispersaram-se em grupos, e Lucinda e Frederico acharam-se sós no mirante.
A vista que d'alli se gozava era linda; via-se uma parte da cidade baixa, e do lado do Occidente a vista estendia-se desassombrada, sobre uma porção do rio, que se prolongava até ao extremo horisonte.
Era ao cair da tarde; o sol atufava-se nas aguas, e illuminava com um resplendor d'oiro e purpura o horisonte, semeando de aureas palhetas o Tejo, rodeando com um nimbo luminoso o vulto distante da Ajuda, e mais além uma sombra tenue, uma especie de vapor doirado, que, pela posição, devia ser o vago perfil da torre de Belem.{33}
A brisa fresca da tarde, ondeiando os cabellos de Lucinda, e meneiando brandamente os ramos e as folhas da madresilva, enchia os ares de perfumes. Frederico scismava.
—Esqueceu-se da sua promessa? perguntou Lucinda.
—Ainda se lembra d'ella? tornou Frederico amargamente.
Um relampago d'alegria illuminou os olhos da gentil senhora.
—Se lembro, tornou ella, sou uma credora inflexivel.
—Pois bem, respondeu Frederico, córando muito, e fazendo um esforço sobre si mesmo, deixe-me agradecer-lhe o ter feito a felicidade da minha existencia.
—Sim? tornou ella ironicamente. Então ama-a loucamente?
—Se a amo! tornou elle cravando os olhos ardentes na formosa menina que tinha diante de si, tanto que nem eu suppunha que se podia amar assim. Oh! mas é que tambem é uma creatura celestial, tão bella que os anjos a invejam.{34}
Lucinda mal podia soffrear o riso.
—E essa belleza, é provavelmente como a de Marilia, tornou ella, para a pintarem não bastam as tintas da terra, são necessarias as do céu. Por conseguinte nem ouso pedir-lhe que m'a descreva.
—Porque? Não a conhece! perguntou Frederico espantado.
Lucinda embaraçou-se, mas promptamente recuperou o sangue-frio.
—Somos amigas intimas, como sabe; comtudo não desgostaria de poder apreciar o seu talento de pintor.
Frederico fitou os olhos nos d'ella, como se tentasse prescrutar o seu pensamento. Lucinda desviou os seus.
Uma idéa, que elle julgou louca, passou pela mente de Frederico.
—Vou tentar, disse o timido rapaz, com mais animação do que a que lhe era habitual, e cravando pela primeira vez com firmeza e ardor os seus olhos ao rosto de Lucinda; e para me ser mais facil a tarefa, permitta-me{35} que lhe narre como e onde me senti verdadeiramente deslumbrado pela sua rara belleza, e como ousei dizer-lhe com os meus olhos o amor immenso que me enchia a alma. Era a hora do sol posto; ella estava com a face encostada á mão e como v. ex.ª n'este momento. Nos seus olhos negros parecia fluctuar a vaga tristeza do crepusculo; os cabellos, arfando suavemente com a brisa, enquadravam-lhe uma fronte alva e limpida, tão limpida, que de vez em quando parecia que n'essa testa innundada de luz se via passar a vaga sombra do pensamento. Rodeiava-se de flores, que formavam ao seu doce vulto uma profunda moldura. Ao vel-a assim, melancholica como o anjo da tarde, suave e meiga, como a anjo dos celestes amores, pensei que a ventura suprema seria viver a seus pés, e enviando-lhe a minha alma n'um olhar, votei-lhe um affecto, profundo e ardente como os seus negros olhos.
Lucinda ouvia-o arrebatada; fôra isso mesmo o que ella desejára, fôra isso mesmo o que ella tivera em vista acenando-lhe com essa miragem d'amor da velha tia, amor nada perigoso, porque, da mesma fórma que a miragem,{36} de longe podia fascinar, mas de perto conhecia-se o areial... dos cincoenta annos.
Se Frederico se deixasse arrastar pelo demonio da inspiração, e levantasse um pouco mais o véu de gaze com que encobrira a sua declaração, Lucinda poderia auxilial-o, confessando-lhe o seu ardil, e quebrando d'essa forma o gelo. Mas infelizmente a maliciosa rapariga, um instante docemente perturbada pela eloquencia de Frederico, pensou de subito, quando elle findou o seu trecho, na ficticia inspiradora d'esse memoravel discurso, e deu aos seus labios uma expressão de riso reprimido, que bastou para que o espirito sensitivo de Frederico logo se retraisse, e tremesse de ter avançado tanto.
Lucinda percebeu o erro, e quiz remedial-o. Já era tarde. Frederico retirou-se desgostoso. Ella, vendo-o partir, bateu o pé com despeito. A coquette ia-se enleiando nas suas proprias redes.
—É necessario que esta comedia acabe, murmurou ella com as lagrimas nos olhos, ainda que eu tenha de me lançar nos seus braços, como uma doida; porque sinto agora{37} essa commoção desconhecida, de que tanto me fallavam, e de que eu tanto zombava. Amo.{38}
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