V
Chegou finalmente o dia marcado, e esperado com impaciencia por D. Marianna. Lucinda andava perturbada, e tanto que nem deu por um redobramento de tristeza que se tornava bem visivel no rosto da sua amiga Adelaide, de quem ella se esquecia tanto. Adelaide primeiro fugira a escolhel-a para confidente, porque bem conhecia a sua indole sarcastica, e não queria expor os pobres passarinhos dos seus sonhos a terem a aza magoada por algum epigramma de Lucinda.
Mas pouco a pouco Adelaide sentiu-se despeitada, por vêr que á sua boa amiga era tão completamente indifferente o estado do seu{50} espirito. Adelaide, vendo isto, julgou-se a pessoa mais infeliz d'este mundo; tinha na vida, negro o presente, o passado, e o futuro; o presente ensombrava-lh'o a ciosa preoccupação da sua vida, o passado, onde ella se engolphava com jubilo quando a realidade da existencia a torturava, ennegrecera tambem com a indifferença de Lucinda, o futuro, esse devaneiara-o ella bem dourado, e bem cheio de luz, um sonho rapido e fragrante atravessara-lhe, e perfumára-lhe o viver.... mas esvaíra-se bem ligeiro como sonho que era, tornando apenas com a sua luz fugitiva mais espessas as trevas, que voltaram de novo a enlutar-lhe a mocidade.
A amisade, que votava á sua companheira de collegio, e a profunda tristeza que a salteiára, venceriam a resolução em que estava de conservar secreto tudo o que se passava no seu espirito, e o receio que tinha dos sarcasmos de Lucinda, se a indifferença d'esta não a ferisse mais do que todos os seus motejos. Mas Lucinda andava preoccupada, Lucinda nem reparava na pallidez da sua amiga. Vir ella passar um dia a sua casa, prometter ficar á{51} noute, e não lhe dirigir durante esse tempo todo, mais de quatro ou cinco palavras, era uma cousa que a pobre Adelaidesinha não podia perceber, e ainda menos, a intimidade subita que se estabelecera entre sua tia e a sua amiga. N'esse dia andou aquella toda azafamada a enfeitar-se, a pintar-se, a lustrar o cabello, a dispor coquettemente a sala de visitas; Lucinda ajudava-a n'este trabalho, e trocava com ella em voz baixa palavras mysteriosas. Perguntou Adelaide, espantada de ver tantos preparativos, se se esperava alguem nessa noute, recebeu uma resposta secca das duas senhoras; e a pobre menina, suffocada em soluços, e não podendo conter as lagrimas, refugiou-se, levando um livro, no seu caramanchão favorito. Ahi desaffogou, derramou prantos copiosos, nomeou-se, por decreto proprio, a mais infeliz de todas as mulheres, e pensou que estava abandonada por todos, e que, orphã desde a infancia, era destino seu caminhar solitaria no mundo.
Entretanto, descia a noute, e ella não pensava em voltar para casa. Lucinda, vagamente inquieta, não se tirava da janella. Apezar das{52} palavras que Frederico dissera, ao receber a chave do jardim, Lucinda conhecia bastante a sua timidez organica (se assim podemos dizer) para suppôr que elle não ousaria nunca transpor o limiar da porta. Embebida n'esses pensamentos, esquecera-se completamente de Adelaide, e do encargo que recebera de a entreter, emquanto durasse a entrevista. D. Marianna, enebriada por aquella inesperada aventura, collocava as vellas de modo, que se conservasse na sala a tibia luz, aconselhada por Garrett, a penumbra tão util aos amantes, e duplamente util, a quem só dispõe d'esse recurso para combater, com mais ou menos vantagem, os inconvenientes d'uma certidão de baptismo, que já podia entrar na classe honrosa dos documentos historicos.
Lucinda, encostada á janella do seu quarto, cravava os olhos na escuridão, procurando distinguir o vulto elegante de Frederico. De vez em quando ia espreitar á porta da sala e ria-se. D. Marianna, sentada no canapé, vestida com o fato mais fresco e juvenil, esperava magestosamente a visita d'aquelle a quem os seus encantos tinham rendido.{53}
Afinal, Lucinda viu um homem que se dirigia, envolto n'uma capa escura, para a porta do jardim. As pulsações febris do seu coração indicaram-lhe, mais depressa do que a vista, que era esse o vulto de Frederico.
A noute estava negra; mas um candieiro de gaz, illuminando em cheio a porta do jardim, permittia a Lucinda seguir todos os movimentos de Frederico. Viu-o hesitar, metter a chave na fechadura, tiral-a e affastar-se. Lucinda sorriu-se.
—Deita-a por cima do muro, e foge, murmurou ella.
Mas enganava-se; Frederico pareceu tomar uma resolução definitiva, tornou rapidamente a metter a chave na fechadura, abriu a porta e entrou no jardim.
—Está predestinado, murmurou Lucinda affastando-se da janella. Os seus tolos escrupulos obrigam-n'o a enterrar-se até á cintura no tremedal do ridiculo. E depois quem sabe? Talvez depois de reconhecer a quinquagenaria formosura da Calypso que vae abandonar, o punjam mais os remorsos.
E Lucinda desatou a rir. Mas a reflexão{54} veiu, e uma sombra de melancholia se lhe espalhou no semblante.
—Esta minha indole zombeteira, murmurou ella, ha de ser sempre um obstaculo á minha felicidade. Devo fazer penitencia. O ridiculo, a que expuz os dois actores da scena que se vae passar na sala, é enorme. Eu não o perdoava. Perdoal-o-ha Frederico? Perdôa de certo, perdôa e com que jubilo, em sabendo o motivo que me guiou! Mas não devo deixar passar uma noute sobre o seu resentimento. Agora mesmo, agora quando esse D. Quixote de donzellas cincoentonas voltar mal-ferido da sua justa cortez, farei como Altisidora, ousarei pôr de parte o pudor feminino para lhe dizer «Amo-te» e para o consolar com essa palavra só do encantamento da nova Dulcinéa.
E a travessa rapariga, desatando a rir, desceu a escada que ia ter ao jardim.
Não havia ainda luar como dissémos, porém, emquanto não surgia a rainha da noute no seu carro triumphal de madre-perola, as estrellas scintillavam com vivissima luz no ceu azul, e insinuavam os seus raios d'ouro pallido{55} por entre a folhagem das arvores, que a brisa meneava.
Lucinda esteve alguns instantes scismando tristemente. A coquette lamentava talvez o ter-se enleiado, para conseguir o seu fim, n'esse tão complicado enredo, que afinal a nada remedeiára, porque se via obrigada a dar o primeiro passo, exactamente como se não tivesse ideado tantas combinações machiavelicas para obrigar esse timido Cesar, que podia chegar, ver e vencer, a passar o Rubicon.
N'isto um vulto de homem appareceu, vindo do lado da habitação, cosendo-se com os troncos d'arvores, mas fugindo ligeiramente. Devia ser Frederico.
Lucinda avançou para elle, com o coração a pulsar-lhe violentamente.
—Frederico! balbuciou ella.
O homem parou.
—Sou eu, sou Lucinda, continuou a ousada menina n'esse momento mais timida do que elle, eu que venho expiar a minha culpa, e fazer-lhe a confissão que me absolve. Sim dil-o-hei, sem temer que me accusem de immodesta: «Amo-o».{56}
E as suas mãos procuravam as de Frederico. Mas coisa notavel, ou as mãos d'este se lhe esquivavam, ou D. Marianna, arranjando uma variante á mulher de Putiphar, em vez de lhe arrancar a capa, lhe arrancara as mãos.
Mas quando Lucinda passava do espanto á colera, recebeu um impulso violento que a fez ir, cambaleando, segurar-se a um ramo de jasmineiro, e ouviu uma voz grosseira e avinhada, que lhe dizia:
—Você, além de ser descarada, é ladra tambem? Dize-me ternuras, minha Phylis, mas larga os timidos volateis.
Lucinda soltou um grito horrivel, e fugiu como louca na direcção de casa. A esse grito sentiram-se passos precipitados, que vinham do fundo do jardim. Um outro homem lançou-se ás guellas do interlocutor de Lucinda, e uma outra voz juvenil de senhora começou a bradar por soccorro.
A este barulho correram os criados e destrancaram-se as portas, o jardim innundou-se de luz. D. Marianna appareceu com esplendida toilette á porta de casa, o causador d'este tumulto fugiu por cima do muro, deixando{57} os seus despojos nas mãos do seu contendor, e Lucinda, que ficára offegante á sombra de uma alta figueira que se afferrava ao muro, pôde vêr, com doloroso espanto, a seguinte scena:
Frederico victorioso, mas vermelho de colera e vergonha, tinha nas mãos, como tropheus da sua gloria, duas gallinhas. A pouca distancia estava Adelaide escondendo o rosto nas mãos. D. Marianna ficára como que petrificada, os criados riam e segredavam.{58}
{59}