OITAVO SERÃO
Unanimidade da revolução.—Preparativos de resistencia.—Organisação militar do paiz.—As allianças.—Relações de Portugal com a Hollanda.—Restauração de Pernambuco e de Angola, e perda de Ceylão.—Conspirações contra D. João IV.—Guerra da Restauração.—Batalhas de Montijo e de Telena.—D. Affonso VI.—A sua educação e a sua indole.—Regencia da rainha D. Luiza.—Antonio Conti.—O conde de Castello Melhor.—Continuação da guerra.—Cerco de Badajoz.—Batalha das Linhas de Elvas.—Paz entre a Hespanha e a França.—Campanhas de D. João de Austria.—Schomberg.—Victorias do Ameixial, Castello Rodrigo e Montes Claros.—Planos do conde de Castello Melhor.—Intrigas do Paço.—Casamento, desthronamento e divorcio vergonhoso de D. Affonso VI.—Regencia do infante D. Pedro.—Casamento com a cunhada.—Tratado de Methwen.—Guerra da successão de Hespanha.—D. João V.—As minas do Brazil.—Desperdicios, beaterio e immoralidades.
—Meus amigos, principiou no outro domingo o João da Agualva, e já ninguem o interrompia, tal era o interesse com que todos seguiam a sua narrativa; o que succedeu na capital, succedeu no reino todo. Aquillo foi chegar a noticia do que se passava em Lisboa, e de um momento para o outro desappareciam os hespanhoes, e tornava tudo a ser Portugal. Poupámos-lhes muita despeza em correios, porque logo souberam pelo primeiro que Lisboa se tinha revoltado, que tinha vencido, que reinava em Portugal D. João IV, e que a Hespanha,[{122}] do Minho para baixo e do Caya para o occidente, já não possuia nem um palmo de terra. Querem vocês saber como o conde-duque de Olivares deu a noticia ao patrão? Foi d'esta maneira:—Dou os parabens a Vossa Magestade; acabam de lhe entrar uns poucos de milhões no bolso.—Como assim? perguntou o rei que estava a jogar, e que não desgostaria de que lhe saisse d'essa maneira a sorte grande de Hespanha.—Porque o duque de Bragança, tornou o ministro, acaba de se revoltar, e de se fazer rei de Portugal, e, como temos de lhe tirar os bens e de lhe cortar a cabeça, fica Vossa Magestade mais rico. O rei não gostou muito d'esse modo de enriquecer, e ainda olhou para os parceiros a ver se algum lhe dava quatro vintens pela herança. Nenhum caíu n'essa.
Isso era muito bom, mas Portugal é que não vivia de cantigas. A Hespanha era então ainda maior do que hoje é, e, se ella nos caísse em cima, estavamos promptos. De que precisavamos nós? De dinheiro, de soldados e de allianças. Tratou-se logo de tudo. Dinheiro votaram as côrtes quanto se quiz; para arranjar soldados fez-se uma obra fina que nunca ninguem até ahi tinha feito, e que foi pôr toda a gente em armas. E como? dividiu-se o reino em tres linhas; a primeira de soldados, que se chamavam pagos, a segunda de milicianos, e a terceira, que era a dos velhotes, de ordenanças. Uns íam[{123}] á guerra, os outros ajudavam-nos em sendo preciso, saíndo, o menos que podesse ser, dos seus sitios, e finalmente os ultimos defendiam as suas terras, porque isso, atraz de um muro, todos fazem figura. Digo-lhes, rapazes, que aquillo é que foi uma idéa, e olhem que não nos serviu só então, tambem na guerra da peninsula foi o que nos valeu, e, aqui para nós, não me parece que fizessem muito bem em deitar abaixo aquella historia. Estava já tudo costumado, e quando vinha uma guerra, saltava toda a gente para o meio da rua; e olhem que isto de estar um homem dentro de casa, de espingarda na mão, dá que fazer aos mais pintados. E logo se viu.
Emquanto a allianças tambem não faltaram; é verdade que não serviram de muito, porque cada um cuidava de si. A França, prompta, o que ella queria era abaixar a prôa á Hespanha, mas, como tambem lá andava em guerra com os hespanhoes, o mais que fez foi consentir que arranjassemos officiaes francezes pelo nosso dinheiro; a Inglaterra, a mesma cousa, muita festa para a festa, mas andava embrulhada em guerras civís, não mandou para cá nem um navio. Então a Hollanda ainda foi peor, isso... recebeu o nosso embaixador de braços abertos, poz luminarias, achou que tinhamos feito muito bem, mas, quando o embaixador lhe disse: «Então agora que estamos amigos, venham para cá as[{124}] nossas colonias, que são nossas e não dos hespanhoes», a Hollanda exclamou: «As colonias! ah! sim! nós somos tão amigos d'ellas! Estão já acostumadas comnosco! até tinhamos pena de as deixar». E acrescentava o embaixador: «Mas então, c'os diabos, ao menos não nos tomem mais nenhuma».—«Não tomamos, dizia a Hollanda, isso nunca. Ora agora sabem vocês? as colonias são como as cerejas. O caso é apanhar uma». Ah! elle é isso! disseram os portuguezes comsigo, pois então vamos a ellas. E, zás, rebenta uma revolta em Pernambuco, e os brazileiros a berrarem: Viva D. João IV! A Hollanda chamou o nosso embaixador: «Então que diabo é isso? nós somos amigos e fazem-nos uma partida d'estas!»—«Patifes! dizia o embaixador. Aquillo é do sol! esquenta-lhes a cabeça, e dão por paus e por pedras. Mas, aqui para nós, se elles dizem: Viva D. João IV, não havemos de lhes ir dizer: Morra D. João IV! Não nos ficava bem.»—«Pois sim, mas digam-lhes que estejam quietos.»—«Pois isso dizemos nós.» E D. João IV mandava para lá armas e officiaes, e dizia-lhes: «Ahi vae isso, que é para vocês estarem quietos.» E em poucos annos estavamos senhores de Pernambuco, e os hollandezes na rua.
D'ahi a tempos, Salvador Correia de Sá ía a Angola e punha fóra os hollandezes que nos tinham tomado esse reino.—«Então isto que vem a ser?[{125}] bradaram os hollandezes, então os senhores vão de proposito do Brazil a Angola para nos sacudir!»—«Quem é que fez isso?» perguntava o embaixador.—«Salvador Correia de Sá.»—«Sim! pois estejam vocês descançados, que lhe vamos já perguntar pelo correio, que diabo de lembrança foi essa. Em vindo resposta cá lh'a mandamos. E a proposito, sr.ª Hollanda, vocês tomaram-nos Ceylão?»—«Tomámos Ceylão, mas que defeza! Antonio de Sousa Coutinho defendeu-se maravilhosamente. Os nossos generaes são todos accordes que nunca encontraram resistencia tão desesperada! Quando escreverem para lá, mandem os nossos parabens ao sr. Antonio de Sousa Coutinho e recommendações aos amigos.»
E era assim que nós estávamos com a Hollanda: abraços na Europa e lambada lá por fóra.
Houve só duas côrtes que não quizeram nunca reconhecer a independencia de Portugal; uma foi a côrte de Roma que estava toda nas mãos dos hespanhoes, e a outra a da Allemanha, cujo imperador era da mesma familia que a do rei Filippe. E fizeram-nos transtorno: a primeira porque estávamos assim a modo excommungados, a segunda por uma patifaria que praticou o imperador, mandando prender sem mais nem menos o principe D. Duarte de Bragança, irmão de D. João IV, que andava por lá na guerra contra os turcos, e que tanta conta nos[{126}] faria em Portugal. Morreu na cadeia o pobre rapaz por causa de nós e da traição do tal imperador.
Em Portugal, ao principio, tinha ido tudo bem, mas, assim que passou aquelle primeiro fogo, houve muitos que começaram a pensar no caso e que disseram comsigo: «Isto foi uma grande asneira. Vem ahi os hespanhoes e dão cabo de todos nós. O melhor é pormos as costas no seguro, e, antes que elles venham ter comnosco, vamos nós ao encontro d'elles, que sempre apanharemos alguma cousa.» E n'isto desatam a conspirar contra D. João IV. Foram castigados cruelmente. Morreram muitos com a cabeça cortada, e mais nem todos eram culpados. Mas que querem vocês? A mania de D. João IV era que o não tomariam a sério como rei em Madrid, emquanto não mandasse cortar a cabeça a alguem.
Pois em primeiro logar visse bem a quem matava, e em segundo logar eu sempre ouvi que os reis, quando são mais reis, é quando perdôam. E, alem d'isso, os hespanhoes quando tomaram a sério D. João IV não foi quando elle mandou cortar a cabeça a fidalgos portuguezes, mas quando os soldados portuguezes lhes começaram a esfregar as costas a elles.
Lá que os taes conspiradores tinham rasão em estar com medo, isso tinham, porque parecia mesmo[{127}] impossivel que Portugal resistisse. Tambem o que nos valeu foi a asneira dos hespanhoes, que nos primeiros dois annos não fizeram senão dar um rebate falso a uma praça, atacar outra, escaramuçar aqui, disparar uns tiros alem. Parecia que estavam incumbidos por D. João IV de fazer andar os nossos soldados na recruta. Em 1644 é que, pela primeira vez, fizeram assim movimento mais serio, mas já tinhamos então soldados velhos, commandados por um bom general, Mathias de Albuquerque, e os amigos hespanhoes levaram a primeira sova mesmo lá na sua terra, em Montijo; em 1646 nova batalha em Telena, mas n'essa perdemos nós mais do que lucrámos, ainda que os hespanhoes com isso nada ganharam tambem, porque voltaram á costumeira antiga. Emfim, para encurtar rasões, quando D. João IV morreu, em 1656, estavamos havia dezeseis annos n'aquella brincadeira, hoje íamos nós á Hespanha e apanhavamos gado, ámanhã vinham elles cá e levavam-nos o nosso. Mas quem lucrava com isso? Éramos nós, porque os nossos milicianos, e as nossas ordenanças íam-se costumando á guerra, e cada vez este bocadinho de Portugal se ía tornando para a Hespanha mais duro de roer.
Em 1656 morreu pois D. João IV, como eu lhes disse, e succedeu-lhe seu filho D. Affonso VI, a quem chamaram o Victorioso, como chamaram a D.[{128}] João IV o Restaurador, mas emfim a este com mais um bocadinho de rasão.
D. Affonso VI não era o filho mais velho, mas o mais velho, um rapazito que dava esperanças, Theodosio, morrera em 1653. D. Affonso VI fôra desde creança muito doente, nunca podéra aprender cousa nenhuma e tivera uma educação muito descuidada. O seu gosto era brincar com os garotos que íam para debaixo das janellas do paço, e, quando foi homem, andava em pandigas pela cidade, com uma roda de facinoras que faziam tudo o que queriam á sombra d'elle, a ponto que até havia mortes nas ruas de Lisboa! Como ainda era pequeno quando seu pae morreu, ficou regendo o reino sua mãe D. Luiza de Gusmão, uma hespanhola muito decidida, que diziam até que fôra quem mais concorrera para o marido acceitar a corôa. A regente lá foi governando com acerto, emquanto o rapazote andava ao laré com um tal Antonio Conti, que lhe soubera conquistar a amisade. A rainha um dia pegou n'esse Antonio Conti, e ferrou com elle desterrado no Brazil. Ó diabo que tal fizeste! o pequeno zanga-se, e, quando o conde de Castello Melhor lhe disse que era bom que começasse a governar por si, porque tinha já chegado á maioridade, D. Affonso, para pregar pirraça á mãe, acceitou; eu não louvo o conde de Castello Melhor por ter aconselhado esta acção, mas a verdade é que D. Affonso[{129}] VI já estava em idade de governar, e que, se não podia dirigir os negocios, sempre era melhor que por elle os dirigisse um homem como o conde de Castello Melhor, que tinha uma excellente cachimonia, do que a rainha, que, apezar de ser esperta, sempre era senhora, e por isso menos capaz de governar o reino em tempo de guerra.
Bem conheço que D. Affonso VI era um mau rei, que não tinha juizo, que se entregava a divertimentos indecentes e até criminosos, mas uma qualidade tinha elle, percebia perfeitamente que não sabia cuidar do reino, e deixava o Castello Melhor fazer tudo quanto queria. Ora o Castello Melhor era uma das melhores cabeças que têem governado o nosso paiz, como vocês vão ver, porque é bom que saibam o que se passára na guerra.
Logo depois da morte de D. João IV, um general portuguez, João Mendes de Vasconcellos, fizera grande asneira. Vendo que os hespanhoes andavam só a fazer fosquinhas, disse comsigo: Não nos hão de conquistar, e havemos de ser nós que os conquistaremos a elles. Junta um exercito magnifico, e vae cercar Badajoz. Ainda ali ganhámos uma batalha, que foi a do Forte de S. Miguel, mas a final tivemos de levantar o cerco, depois de havermos perdido inutilmente a flor dos nossos soldados. Ora o que succedeu? Foi que, no anno seguinte, quer dizer em 1659, os hespanhoes, picados[{130}] com o nosso atrevimento, saíram da sua pachorra, juntaram um exercito formidavel commandado pelo proprio ministro do rei, D. Luiz de Haro, vieram sobre Portugal e cercaram Elvas. A cousa esteve phosphorica, porque os nossos melhores soldados tinham ficado estendidos diante de Badajoz, e andava isto por cá muito desarranjado. Mas para alguma cousa haviam de servir os dezenove annos de guerra. Em primeiro logar Elvas, governada por D. Sancho Manuel que foi depois conde de Villa Flor, defendeu-se admiravelmente, em segundo logar o conde de Cantanhede, depois marquez de Marialva, como não tinha outra gente, reuniu um exercito quasi todo de milicianos e saltou nos hespanhoes que cercavam Elvas. Foi no dia 14 de janeiro de 1659 que se deu a batalha, conhecida pelo nome de batalha das linhas de Elvas, e nunca os hespanhoes apanharam tamanha pilota. Os prisioneiros foram aos milhares, artilheria, bagagens, tudo nos caío nas mãos, e o proprio D. Luiz de Haro escapou-se por um fio. Tambem nunca mais nos perdoou aquella sova, e, quando n'esse mesmo anno foi fazer a paz com a França, deu aos francezes tudo quanto elles quizeram, só com uma condição—a de se não fallar em Portugal. Era patifaria graúda do ministro francez, um padre, um tal cardeal Mazarino, porque as tareias que davamos nos hespanhoes tinham feito muita conta aos francezes.[{131}] Mas o Mazarino foi apanhando o que poude, e pouco lhe importou mandar-nos á fava.
Vêem vocês a situação em que ficámos. Quando começámos a guerra com a Hespanha, estava ella em guerra tambem com quasi toda a Europa, o que não era mau para nós. Em 1648 fez a paz com muitas nações, e isso não foi lá muito bom, porém, como a França continuava em guerra, e essa só por si dava mais que fazer á Hespanha do que todas as outras juntas, ainda a cousa não ía mal; mas agora? A França fazia a paz, quasi que se alliava com os hespanhoes, porque o rei de França, Luiz XIV, casava com uma princeza hespanhola, e nós é que ficavamos em campo, com a Hespanha ás costas. Ella ainda esteve dois annos a apalpar-nos, mas em 1662 rompeu o fogo com alma. Poz um dos seus melhores generaes, D. João de Austria, filho bastardo do rei, á frente dos seus exercitos, e caíu em cima de nós com todo o seu peso.
Ora foi exactamente em 1662 que entrou no poder o conde de Castello Melhor, e foi sobre elle que desabou esse temporal desfeito. Nunca Portugal se vira em tão maus lençoes. D. João de Austria tomava praças sobre praças, e na campanha do anno immediato, 1663, quasi que chegava ás portas de Lisboa. Mas o ministro fizera o diabo, parece que até das pedras tinha feito soldados. Depois, como Mazarino era um finorio, que não desgostava[{132}] de jogar com pau de dois bicos, ao passo que contentava a Hespanha, mandava-nos para cá os officiaes que podia, entre elles o conde de Schomberg, que era um general de mão cheia. Não commandou nunca em chefe, porque os nossos não gostavam, e tinham rasão, que elles já haviam dado provas de que não precisavam de tutores; mas foi um excellente conselheiro. O que é certo, meus amigos, é que, em tres annos successivos, em que os hespanhoes fizeram todos os esforços para dar cabo de nós, levaram tres sovas mestras; a primeira deu-lh'a em 1663 o conde de Villa Flor na batalha do Ameixial, a segunda em 1664 Pedro Jacques de Magalhães na batalha de Castello Rodrigo, a terceira em 1665 na batalha de Montes Claros o marquez de Marialva. D'ahi por diante nunca os hespanhoes levantaram cabeça, e não pensaram mais em tomar conta outra vez de Portugal.
Ora o conde de Castello Melhor tinha uma grande idéa; dizia elle comsigo: os hespanhoes levaram tanta pancadaria, que, se fazemos a paz com elles, ficando nós simplesmente com o que tinhamos ao principio, póde-se dizer que fomos logrados. Demais a mais Portugal é pequeno, a Hespanha é grande; em qualquer bulha que tivermos estamos de mau partido. É necessario fazer Portugal maior e a Hespanha mais pequena. E toda a sua tineta era obrigar os hespanhoes a dar-nos a Galliza. E o[{133}] que fazia elle então? Encostava-se a Luiz XIV, rei de França, que andava namorando umas provincias hespanholas lá de Flandres. Casava D. Affonso VI com uma princeza franceza, e dizia comsigo: Mais dia menos dia, Luiz XIV pega-se com a Hespanha. Nós vamos com elle. A Hespanha leva para o seu tabaco a valer. Elle fica com as provincias que quizer, até com a Flandres toda, se isso lhe fizer conta, e nós com a Galliza, e com mais alguma cousa se podér ser.
—E era bem pensado, sr. João da Agualva, observou o Bartholomeu, porque é que não havia de ser nossa a Galliza?
—Tens rasão, e já vês que, se nós tivessemos a Galliza tambem, não estavamos sempre com medo de ser engulidos pelos visinhos. Mas que queres tu? Entretanto íam grandes intrigas no paço. A rainha, que era uma princeza toda liró e toda costumada ás janotices da côrte de Luiz XIV, achando-se casada com um homem que só se dava bem com moços de cavallariça, e que de mais a mais era tão doente que nem marido podia ser, principiou a desgostar-se, e ao mesmo tempo a agradar-se do infante D. Pedro, rapaz desempennado, que tambem não desgostava da francezita. Pensaram em se juntar e governar o paiz. Principiaram as intrigas. Tanto fizeram que conseguiram pôr fóra o conde de Castello Melhor. Desamparado, o pobre D. Affonso VI não[{134}] tardou a ser expulso do throno, e até o descasaram, coitado! Foi necessario para isso um processo que é uma vergonha, e realmente não posso perceber como foi que uma rainha se deixou assim andar nas bôcas do mundo!... Emfim, o que é certo é que desterraram o pobre D. Affonso VI, mandando-o para a ilha Terceira; prenderam-n'o depois em Cintra, onde morreu, e a rainha casou com o cunhado, e este ficou a governar o reino. Eu já lhes disse, rapazes, que bem conheço os defeitos de D. Affonso VI; mas o pobre homem, que era mesmo uma creança, que se não importava para nada com a politica, que tivera a fortuna de acertar com um bom ministro que governava por elle e governava bem, não merecia que lhe fizessem similhante entrega! Mette dó, porque elle nem sabia defender-se, andava ali como o menino nas mãos das bruxas.
E o irmão, que lhe tirára a corôa, e que lhe tirára a mulher, nem ao menos lhe dava a sua liberdade, nem lhe consentia que espairecesse. Tinha-o preso n'um quarto em Cintra, e ali o deixou morrer de aborrecimento e de desgosto, a elle que nunca fizera mal a ninguem senão com as suas tolas rapaziadas!
Emfim, passemos adiante! O que é certo é que isto succedeu em 1667, e logo no anno seguinte de 1668 fazia-se a paz com a Hespanha, sem lucro nenhum para nós, porque nem ao menos apanhavamos[{135}] a praça africana de Ceuta, que era tão nossa, por causa da qual morreu no captiveiro o infante santo, e que em 1640 não conseguira livrar-se dos hespanhoes.
Tanto se empenhára em governar o reino o sr. D. Pedro II, que desde 1667 até 1683, anno em que morreu D. Affonso VI, só tomou o titulo de regente, e a final de contas não fez senão tolices. Demais a mais algumas cousas boas que deixou fazer, logo as desmanchou. Um ministro que elle teve, o conde da Ericeira, quiz ver se fundava fabricas em Portugal, mas em 1703 um tratado com a Inglaterra, conhecido pelo nome de tratado de Methwen, que este era o nome do embaixador que o assignou, deu cabo da nossa industria. Conservou-se em paz, tanto que lhe deram o nome de Pacifico, e vae no fim do seu reinado mette-se sem mais nem menos na guerra da successão de Hespanha, favorecendo D. Carlos da casa de Austria contra D. Filippe da casa de Bourbon. Como tinhamos então um excellente general, que era o marquez das Minas, deu-nos este o gostinho de entrar victorioso em Madrid, e de proclamar ali D. Carlos rei de Hespanha; mas esse gostinho não tardámos a amargal-o, porque, morrendo D. Pedro II no dia 1 de dezembro de 1706, logo no dia 25 de abril de 1707 era o marquez das Minas batido na batalha de Almanza com graves perdas para nós, tanto que até ao fim da guerra[{136}] póde-se dizer que nunca mais levantámos cabeça.
Subio ao throno D. João V, e eu, para lhes dizer a verdade, o que não posso perceber é como ha historiadores que gabam aquelle rei. Cá para mim foi um dos peores que nós tivemos. Possuia algumas qualidades que não eram de todo más, era porém o mesmo que se as não tivesse, porque não pensava senão no beaterio, e em obras grandes e magnificas, que a maior parte das vezes para nada serviam. Logo por desgraça foi n'esse reinado que começaram a render rios e rios de dinheiro as minas do Brazil, e tudo era pouco para o rei que não cuidava senão de si e nada do reino. Por exemplo, achou-se embrulhado com a Hespanha e com a França n'uma guerra que no seu tempo não foi senão desastrosa. Uns corsarios francezes deram-nos cabo do Rio de Janeiro e levaram-nos umas riquezas espantosas. Pois não encontrou aquelle homem uns poucos de navios para saltarem tambem nas colonias francezas, ou para protegerem as nossas! Emfim! se os não tinhamos, paciencia! Mas d'ahi a pouco saíu de Lisboa uma excellente esquadra em soccorro do papa, commandada pelo conde do Rio Grande, esquadra que foi bater os turcos no cabo Matapan! Ora vejam se ha um patarata assim! Annos depois, por causa de uns insultos feitos em Madrid ao nosso embaixador, está para rebentar a guerra com a[{137}] Hespanha. Fazem-se preparativos, e vê-se que não temos nem exercito, nem marinha. De que tratou logo D. João V? De comprar armamento? Qual historia! De mandar fazer em Paris, para si, uma barraca de campanha muito rica, e tão luxuosa que toda a gente a ía ver!!
Não tinhamos estradas, não tinhamos rios canalisados, não tinhamos desentulhados os portos, não tinhamos nada do que nos era necessario, mas tinhamos aquella monstruosidade do convento de Mafra que custou 120 milhões de cruzados, que não serve para cousa nenhuma, e que nem ao menos é bonito. Dizem que gostava muito de imitar Luiz XIV, mas o que me dizia o engenheiro francez que esteve aqui em Bellas, é que Luiz XIV mandava ir sabios para França, dava pensões aos sabios estrangeiros, e este o que dava era dinheiro para igrejas, e o que mandava vir era de Roma bullas e capellas. Dizem que nunca deixou ás nações estrangeiras pôr pé em ramo verde comnosco. Quem lhe valeu para isso foram os diplomatas que teve, que nunca em Portugal os houve tão bons, e tambem o ser tão orgulhoso que ía aos ares só com a idéa de que mangavam com elle.
Mas no mais não me fallem em D. João V, que até me sobe o sangue á cabeça. Pois vocês conhecem cousa que mais indigne do que ir um homem ali para Lisboa, no campo da Lã, ver os inquisidores[{138}] queimarem gente de bem, ou porque não gostavam de toucinho, ou porque nem sempre íam á missa, e depois montar a cavallo, para se metter em Odivellas na cella de uma freira e passar ali a noite? Eu digo que me chega a parecer nem sei o que uma malvadez assim.
Morreu em 1750 esse rei que não fez nada bom em Portugal, a não ser as Aguas-Livres. Pouco mais dinheiro gastou que se podesse dizer que fosse bem gasto. E digo-lhes que, se vocês olharem para o paiz, até lhes ha de fazer pena. A nobreza já não se compunha senão simplesmente de criados do paço, o clero immenso e corrompido enchia o reino com os seus padres e os seus conventos, e conservava o povo n'uma ignorancia completa, o povo, miseravel, vadio, ou emigrava para o Brazil, ou pedia esmola ás portarias dos conventos, ou sentava-se ao sol. Tinhamos chegado ao mais baixo a que podiamos chegar. Felizmente, quando uma nação desce a tal ponto, sempre apparece alguem que a levante e esse, eu, para o outro domingo, lhes direi quem foi. Por hoje basta. Quando fallo no sr. D. João V, o Magnifico, e penso no mal que elle fez ao paiz, fico sempre macambusio, e então o melhor é ir-me deitar.[{139}]