FOOTNOTES
[1] Tom. I, secção 1.ª, pag. 285.
[2] Publicado por Dumont no Corpo Diplomatico, tom. III, parte I, pag. 200. E além d’esta as bullas de Calixto III, de 14 de maio de 1455 e de Xisto XV, de 21 de julho de 1481, e a famosa divisão dos mares entre Portugal e a Hespanha por Alexandre VI, e os tratados entre Portugal e Hespanha, em que sempre se reconheceu o direito que tinhamos á costa africana pela prioridade do descobrimento, e a deferencia com que a França sempre reconheceu o nosso direito, mandando Luiz XII restituir uma caravela portugueza vinda da Mina, tomada pelos francezes, e prohibindo Francisco I, a 28 de junho de 1532, que fossem navios francezes á costa da Guiné, em attenção aos tratados! V. Visconde de Santarem: Recherches sur la découverte des pays situés sur la côte occidentale d’Afrique au delà du cap Bojador etc., § VII, pag. 67 e segg. E em 1513, publicou-se em França, um livro intitulado: Nouveau Monde et navigations fectes dans les pays et iles auparavant inconnues, e cujo primeiro livro se intitula Livro da primeira navegação pelo Occeano para a terra dos Negros da baixa Ethiopia por ordem do illustre senhor infante D. Henrique, irmão de D. Duarte, rei de Portugal. E esse livro reimprimiu-se em 1516! E note-se que Francisco I não se desinteressava na questão dos descobrimentos, e os marinheiros francezes procuravam seguir as nossas pisadas. É conhecido o famoso dito do rei de França, que queria saber qual o artigo do testamento de Adão que deixava parte do mundo aos reis de Portugal e de Hespanha. Podendo pôr embargos, era de estranhar que o não fizesse.
[3] Histoire de la première descouverte et conqueste des Canarias faite dés l’an 1402 par messire Jean de Bethencourt, escrite du temps mesme par F. Pierre Bontier et Jean Le Verrier, prestres domestiques dudit sieur de Bethencourt, conseiller du roy en la cour du parlement de Rouen, cap. LIII, pag. 95. (Paris, 1830).
[4] Ibid., pag. 4.
[5] Ibid., cap. LIV.
[6] Ibid., pag. 102.
[7] Palavras de Innocencio VII, escriptas em 1406 a João de Bethencourt e citadas na relação dos capellães a pag. 197, cap. LXXXIX.
[8] Este erro gravissimo deu origem a todas as falsas reivindicações francezas, apezar de ter sido completamente desfeito no proprio seculo XV. Chamava-se primeiro Gianya, Gineva ou Gynoya ou Guiné á terra proxima de Marrocos, que se suppunha habitada pelos negros, e com a qual se fazia commercio. Era esta a Guiné que ficava a doze leguas das Canarias, «do outro lado da ilha de Fuerteventura», como dizem ainda os capellães de Bethencourt. Azurara, quando chama Guiné á costa do Senegal descoberta pelos Portuguezes, desculpa-se de ter já chamado assim, para empregar a linguagem commum, a outro paiz onde tinham estado primeiro os Portuguezes, e que era d’este muito distante. Essa primeira Guiné, ou Guiné antiga, reclamou-lhe o senhorio o rei de Castella, D. João II, que escrevendo de Valladolid a D. Affonso V de Portugal, a 19 de abril de 1454, dizia-lhe: «Otrosi, rey muy caro, e muy amado sobrino, vos notificamos que, viniendo ciertas caravellas de ciertos nuestros subditos e naturales vecinos de las nuestras ciudades de Sevilla y Cadiz con sus mercaderias de la tierra que llaman Guinea, que es de nuestra conquista, e llegando cerca de la nuestra ciudad de Cadiz á una linea estando en nuestro señorio e jurisdicion, recudieron contra ellos Pallencio, vuestro capitan etc.»
Esta Guiné, cuja conquista o rei de Castella dizia pertencer-lhe, fazia parte do reino da Africa, sobre a qual os reis de Castella diziam ter direito, herdado dos Godos. Quando o nome de Guiné ficou pertencendo á região que hoje o tem, quer dizer a que está para além do Cabo Bojador, os reis de Portugal tomaram sem contestação nem cedencia de Castella o titulo de senhores de Guiné, baseado no direito de primeiros descobridores que ninguem lhes impugnou. E a Guiné antiga perdeu essa denominação. Ahi está o segredo da confusão que deu origem ás pretenções tão absurdas dos Normandos e dos Catalães.
[9] «Toscanelli distingue en outre les îles que l’on rencontrera sur la route, que estan situadas en este viage, par exemple l’Antilia, d’avec les îles qui sont proches de l’Inde continentale, par exemple Cipango et les îles avec les quelles trafiquent les négocians de différentes nations.»—Humboldt.—Histoire de la géographie du nouveau continent, tom. I, sec. 1.ª, pag. 228.
[10] Ácerca das tres Indias, e das differentes denominações com que apparecem na edade média, veja-se sobretudo o magnifico Essai sur l’histoire de la cosmographie et de la cartographie pendant le moyen-âge, etc., pelo visconde de Santarem, tom. I, pag. 136, 251, 182, 394, tom. II, pag. XXXVIII, 189, 223, tom. III, pag. 28, 420, 346, 371, 161, 199, 217, 274, 161, 240, 442, 360, 370, 195. (Paris, 1849). Os nomes das differentes Indias são variadissimos, Barbara, Deserta, Primeira, Segunda e Terceiro, Magna e Parva, Superior, Inferior e Exterior, Intra Gangem, Ultima, Arenosa, etc. Sabendo-se o que eram estas differentes Indias, como abrangiam a Tartaria, a Arabia, a China, e até a Ethiopia, espantar-se-ha menos o leitor de que os Portuguezes procurassem na Africa o Prestes João das Indias. Essa lenda tambem mudou de local como o nome de Guiné e a designação de Ethiopia, mas pode-se dizer que nunca saíu de alguma d’essas Indias.
[11] Gosselin Recherches sur la géographie systématique des anciens, tom. I, pag. 140. É firmando-se na auctoridade de Herodoto que este sabio affirma que o grande Oasis do Egypto tinha outr’ora o nome de ilha dos Bemaventurados.
[12] O mappa-mundi de 1417, conservado no palacio Pitti, por exemplo, indica duas Taprobanas, Ceylão e Sumatra. Quando não era Sumatra exclusivamente Taprobana, era a uma das duas ilhas que esse nome se dava. D. João de Castro no prologo do seu Roteiro de Lisboa a Goa, quando falla a El-Rei de Portugal nos dominios que tem, diz: «como Taprobana que os antigos criam ser outro mundo nouo, reconhece seu alto nome e lhe paga pareas» e accrescenta em nota: «Taprobana é agora chamada Samatra» a pag. 14. A essa Taprobana tambem se refere evidentemente Camões no seu famoso verso:
Passaram inda além da Taprobana
Tendo no tempo de Camões chegado os Portuguezes já ao Japão, era bem natural que, havendo a Taprobana-Ceylão e a Taprobana-Sumatra a esta ultima se referisse o grande poeta indicando o limite ultrapassado pelos Portuguezes. O famoso mappa da cathedral do Hereford colloca a Taprobana defronte do golpho Arabico. Prisciano no seu poema geographico põe a Taprobana no mar oriental juntamente com a ilha phantastica do Ouro. No tratado De moribus brachmanorum que se attribue a S.ᵗᵒ Ambrosio citado por Klaproth na sua Lettre sur la boussole, pag. 53, põe-se a Taprobana em Ceylão, ilha que tem magnetes que attrahem os navios que teem pregos de ferro e não os deixa mover. N’alguns mappas da edade média põe-se a Taprobana deante da bocca do Ganges.
[13] A Aurea Chersoneso de Ptolomeu e de Marino de Tyro corresponde sem duvida á peninsula de Malaca, mas o mappa de La Salle por exemplo colloca a Aurea Chersoneso no Indostão.
[14] Mémoire sur le pays d’Ophir, oú les flottes de Salomon alloient chercher de l’or, nas Mémoires de littérature de l’Académie royale des inscriptions et belles-lettres, tom. XXX, pag. 83 a 93, (Paris, 1764). Este paiz de Ophir tem uma terrivel parecença com as ilhas de Chryse e de Argyra, e do Sol e dos Homens e das Mulheres que apparecem nos mappas conjecturaes. N’alguns mappas Ophir tambem apparece como ilha. Querer determinal-o não será querer tomar muito ao pé da letra as indicações vagas da Biblia?
[15] A idéa adoptada na edade média, que vinha da antiguidade e que durou até ao seculo XVI, é a das duas Ethiopias de Homero, a que fica entre os dois Nilos, e a que se liga com os Mauritanos. S. João Damasceno, dividindo os habitantes da terra segundo as areas dos ventos, dizia: «Ad Africum Ethiopes et occidentales Mauri, ad Favonium Herculis columnæ, etc.» De fide orthodoxa, tom. I, pag. 69. Apud Visconde de Santarem Essai sur l’histoire de la cosmographie, etc., tom. I, pag. 32. Assim é corrente que a baixa Ethiopia começa para os escriptores medievaes nas proximidades da Mauritania, quer dizer, pega com a Guiné primitiva, com a Guiné de Bethencourt. O titulo dos reis de Portugal mostra bem que Ethiopia quer dizer simplesmente Africa. Assim diz o titulo: Rei de Portugal e dos Algarves, d’aquem e d’além-mar em Africa... (Este Algarve na Africa era Ceuta e Tanger, etc.) senhor de Guiné (no sentido que esta palavra tomou depois dos descobrimentos) da conquista navegação e commercio da Ethiopia (Africa meridional e oriental) Arabia, Persia e India (tambem na significação da meia-edade, abrangendo a Asia Oriental). É curioso que um escriptor moderno, de grande merecimento, transcrevendo um trecho de um escriptor já do seculo XVII, em que se diz que um navio que ia para a Ethiopia foi levado pelas correntes para o Brazil, com isso muito se espanta. Não se lembra que a região da Ethiopia comprehendia até a Africa occidental que ficava para além da Guiné.
[16] Na primeira viagem, Colombo, chegando a Cuba, disse: Es cierto que esta es la Tierra-Firme, Diario de 1 de novembro. Na segunda viagem confirmou essa opinião, e fel-a jurar solemnemente pelos marinheiros a 12 de junho de 1494. Humboldt Histoire de la géographie du Nouveau Continent, tom. I, pag. 310, nota.
[17] Vejam-se no principio do segundo volume do magnifico livro de Humboldt as indicações relativas aos mappas d’esse tempo que separavam umas das outras as diversas porções da America.
[18] No seu tratado publicado em latim na edição Reich com o titulo De facie in orbe Lunæ, tom. IX, pag. 923.
[19] Sobre as differentes theorias relativas á fórma da terra veja-se o Essai sur l’histoire de la cosmographie, etc., tom. I, pag. 14, 223, 410, tom. II, pag. XV, XVII, 32, 252, 258, 10, LIX a LXI, 18, 26, 35, 94, 107, 215, etc., etc., tom. III, pag. 81, 102, 212, 223, 460, 499, etc.
[20] Santo Agostinho, S. João Chrysostomo, Lactancio, preconisaram a theoria da terra quadrada declarando-a conforme com o Evangelho, os mappas medievaes como o de Cosmas Indicopleustas do seculo VI, Gervais de Tilbury do seculo XIII, Nicolau d’Oresme do seculo XIV, Guilherme Fillastre do seculo XV. Umas vezes inscreviam-n’a no circulo formado pelos mares, outras vezes pelo contrario, a terra em si é redonda, mas a figura que está inscripta é quadrada.
[21] Note-se bem que este é que é o systema de Ptolomeu, o que predominava, apesar de tudo, nos espiritos mais esclarecidos. Pedro agora vae refutal-o, substituindo-lhe uma outra theoria scientifica, menos em desaccordo com as affirmações orthodoxas.
[22] Petri Alphonsi Judeo Christiani Dialogi, p. 15, apud. Visconde de Santarem, Essai sur l’histoire de la cosmographie, etc., tom. III, pag. 320 a 324.
[23] «Se as extremidades da Ethiopia nos offerecem figuras extranhas de homens e de animaes, pouco nos devemos espantar: é o effeito do excessivo calor que alli reina, porque a acção do fogo é maravilhosamente propria para fazer tomar ás partes exteriores de todos os corpos uma infinidade de configurações diversas.» (Plinio, Historia Natural, tom. V, cap. XXX.)
[24] Macrobio, In somnium Scipionis, tom. II, cap. IX.
[25] Orosio, Ormesta mundi.
[26] Santo Isidoro de Sevilha, De Lybia.
[27] Bedo, De Elementis Philosophiæ, tom. IV, pag. 225.—«... Pars enim illius torridæ parti aeris subjecta, ex fervore solis torrida est et inhabitabilis, etc.»
[28] S. Virgilio, bispo de Saltzburgo. Veja-se a este respeito a Historia litteraria de França, tom. IX, p. 156.
[29] Raban Mauro de Moguncia, De Universo.
[30] Alberti Magni Germani, Philosoph. principii, Liber cosmographicus de natura locorum, fl. 14b e 23a.
[31] Roger Bacon, Opus majus, pag. 183.
[32] Conciliator differentiarum philosophorum, Diff. LXVII.
[33] De Universo, liv. XII, cap. IV, pag. 172.
[34] Speculum naturale, part. 1.ª, liv. IV, cap. XVII.
[35] De mirabilibus Indiæ.
[36] «Et dien (disent) que illec sont antipodes, c’est-à-dire, gens qui ont leurs pieds contre nos et pour ce qu’ils sont á l’opposite partie de la terre, aussi comme s’ils fussent subz nous et nous soubz eulx. Ceste opinion n’est pas á tenir, et n’est pas bien concordable á notre foy. Car la loy de Jésus Christ a esté preschié par toute la terre habitable; et selon ceste opinion, telles gens n’en auraient oncques ouij parler, ne pourroient estre subgés à l’église de Rome. Pour ce, reprenne saint Augustin ceste erreur ou ceste opinion, lib. XVI «De Civitate Dei» Nicolau d’Oresme, cosmographo francez do seculo XIV, preceptor do rei Carlos V, le Sage.—Manuscripto cosmographico existente na Bibliotheca Nacional de Paris, com o numero 7487, apud. Visconde de Santarem, Essai sur l’histoire de la cosmographie, etc., tom. I, p. 142.
[37] Quoniam nullo modo scriptura ista mentitur, quæ narratis præteritis facit fidem eo quod ejus predicta complentur; nimisque absurdum est, ut dicatur aliquos homines ex hac in illam partem, Oceani immensitate trajecta navigure ac pervenire potuisse, ut etiam illic ex uno primo homine genus institueretur humanum. Lactancio Divinarum institutionum, liv. III, cap. IX.
[38] Qua propter inter illos tunc hominum populos qui per septuaginta duos gentes, et totidem linguas colliguntur, fuisse divisi, quæramus, si possimus invenire, illam in terris peregrinantem civitatem Dei, quæ ad diluvium arcamque perducta est, at que in filiis Noe per eorum benedictiones perseverare monstretur, maxime in maximo qui est appellatus Sem, quando quidem Japhet ita benedictus est, ut in ejusdem fratris sui domibus habitaret.—Ibid.
[39] Cosmas Indicopleustas, Topographia Christã.
[40] Ibid.
[41] Cosmas, Santo Isidoro de Sevilha, Anonymo de Ravenna, Raban Mauro, Honoré d’Autun, Hugo de Saint-Victor, Vicente de Beauvais, Brunetto Latini, Joinville. A noticia do famoso chronista de S. Luiz a respeito do Nilo, transcripta pelo visconde de Santarem no Essai, etc., tom. I, pag. 112, nota 3, não deixa de ser curiosa: «Ici il convient de parler du fleuve qui passe par le pais d’Egypte, et vient du Paradis Terrestre... Quant celui fleuve entre en Egypte il y a gens tous experts et accoustumez, comme vous diriez les pêcheurs des rivières de ce pays-cy qui au soir jettent leurs reyz au fleuve et es rivières; et au matin souvent y trouvent et prennent les espiceries qu’on veut en ces parties de par de ça (dans l’Europe) bien chierement et au pois, comme canelle, gingembre, rubarbe, girofle, lignum, aloes et plusieurs bonnes chouses. Et dit—on pais que ces chouses—lá viennent du Paradis terrestre et que le vent les abat des bonnes arbres, qui sont en Paradis terrestre.»
[42] «Para elle (Colombo) o Paraizo Terrestre correspondia ao castello de Kang—diz dos Persas, e devia achar-se n’um logar elevado e inaccessivel.»—Reinaud Géographie d’Aboulféda, tom. I, pag. 252. «A corrente do Orenoque é tão forte que Diogo de Lepe reconheceu por meio de um escalfador que só se abria no fundo das aguas, no mar defronte da foz de Orenoque, que, n’uma profundidade de oito braças e meia, só as duas primeiras braças do fundo eram de agua salgada, e as outras de agua doce».—Humboldt, Histoire de la géographie, etc., t. I, pag. 314.
[43] Lemos n’um manuscripto cosmographico datando d’essa epocha (seculo VII) «que a terra é da forma de um cone ou de um pião, de forma que a sua superficie vai, segundo esse systema, elevando-se do sul para o norte.» Visconde de Santarem, Essai sur l’histoire de la cosmographie, etc., tom. II.—Int. pag. LX. A fórma ovoide era-lhe attribuida pelo philosopho grego Thalés, seguido por alguns geographos da edade média. Posidonius dava-lhe a fórma de uma funda, como Prisciano tambem.
[44] N’uma carta de 1498, publicada por Navarrete, tom. I, pag. 256, compara Colombo a terra com uma pera dividida ao meio, sendo uma parte redonda, e a outra terminada em cone. Esta carta vem tambem nas Select letters of Christopher Columbus, publicadas por Major, pag. 130. (Londres, 1847).
[45] Os geographos arabes consideravam Gog e Magog como filhos de Japhet, devemos accrescentar que era esta a doutrina mais seguida.
[46] É interessante o que diz ácerca d’estes povos o sur Vivien de Saint Martin nas suas Recherches sur les populations primitives et les plus anciennes traditions du Caucase, pag. 40 a 47. (Paris, 1847). M. de Sacy considera a muralha de Alexandre como sendo a noção vaga da muralha da China.
[47] Ha poucos annos ainda se publicou, em Hespanha, um livro do sr. Junquera Origen de los americanos, em que se sustenta essa doutrina. N’ella se baseia um dos romances, e dos menos bons, Oak openings do grande romancista americano Fennimore Cooper.
[48] Mela, III, c. VII.—Solino diz que a terra d’essa ilha está sempre vermelha.—Plinio colloca-a perto da Taprobana.—Hist. Nat. VI, 22.
[49] «Colloquei, diz Toscanelli na carta que escreveu a Colombo e referindo-se ao mappa que mandou ao rei de Portugal, defronte (das costas da Irlanda e da Africa) direito a oeste o principio das Indias com as ilhas e os logares a que poderia abordar.»
[50] Todas estas lendas irlandezas, em abreviada exposição, se podem ver no excellente livro de mr. de Villemarqué La Légende Celtique, especialmente na Introducção e na Lenda de S. Patricio.
[51] Os cavalleiros portuguezes estavam no exercito do duque de Borgonha, que defendia Arras, e foram ao combate commandados pelo sire de Cottebrune; os seus adversarios, pertencentes ao exercito de Carlos VI, eram commandados pelo bastardo de Bourbon. Veja-se a nossa Historia de Portugal, tom. III, pag. 267, nota (2.ª edição).
[52] Historia da Universidade, tom. I, cap. III, pag. 137. (Lisboa, 1892.) A discordancia em que estamos n’este ponto com o illustre professor não nos impede de reconhecermos que o seu livro é monumental. O erudito, a cuja opinião elle se encosta, é João Teixeira Soares, aliás um açoriano benemerito, mas um dos taes que se deixam arrastar pelo prazer de demolir uma gloria consagrada.
[53] Veja-se o retrato de Napoleão traçado primorosamente por Taine nas suas admiraveis Origines de la France contemporaine.
[54] Os filhos de D. João I, cap. III, A villa do infante, pag. 59 e segg.
[55] Humboldt, Histoire de la géographie du nouveau continent, tom. I, pag. 334 e segg.
[56] Apud Visconde de Santarem, Recherches sur la découverte, etc., pag. 113 e 114.
[57] Citado por Humboldt na Histoire de la géographie du nouveau continent, tom. I, pag. 246.
[58] No Boletim da Sociedade de Geographia de Madrid do anno corrente.
[59] «Mais avant les Portugais aucune nation de l’Europe ne semble être allée au délà de l’Équateur». (Histoire de la géographie, etc., tom. I, pag. 290).
[60] «L’horizon géographique s’agrandit peu à peu de la Mer Égée au méridien des Syrtes, de là aux Colonnes d’Hercule et hors du détroit avec Hannon vers le sud, avec Pythéas vers le nord». (Hist. de la géogr., tom. I, pag. 32). O horizonte ampliado por Pythéas nunca mais se restringiu, porque é que havia de acontecer o contrario ao horizonte ampliado por Hannon, se este viajante tivesse ido mais longe do que a costa de Marrocos?
[61] Ha bullas de Eugenio IV, de Nicolau V, de Martinho V, de Calixto III, de Xisto IV. A bulla de Calixto III, confirmando as de Martinho V e Nicolau V, declara que o descobrimento das terras de Africa Occidental o não possam fazer senão os reis de Portugal. A bulla está no Archivo Real da Torre do Tombo no Livro dos Mestrados, fl. 151 e 168. Veja-se a minha Historia de Portugal, tom. III, pag. 248, nota 1, (2.ª edição). A bulla de Nicolau V, que já citámos, de 8 de janeiro de 1454, concedia a el-rei de Portugal, ao infante D. Henrique e a todos os reis de Portugal, seus successores, todas as conquistas de Africa com as ilhas nos mares adjacentes desde o cabo de Bojador e de Não e de toda a Guiné com toda a sua costa meridional. (Arch. Real da Torre do Tombo, maç. 7 de bullas, n.º 29, e maç. 33, n.º 14). Por isso, D. João II, quando fallou a Christovão Colombo a 9 de março de 1493, lhe disse, que se regosijava tanto mais com a sua conquista, quanto tudo quanto elle descobrira pertencia de direito a Portugal. Humboldt, Histoire de la géographie du Nouveau-Continent, tom. I, sec. 1.ª, Nota E, pag. 331. E effectivamente por algum tempo se discutiu se os descobrimentos de Christovão Colombo eram ou não de ilhas nos mares adjacentes á costa africana. E não acham curioso que, se Francezes ou Hespanhoes ou Italianos, antes de nós, tivessem passado para deante do Bojador, acceitassem e reconhecessem e fizessem respeitar por leis e decretos o direito que nós tinhamos de não consentir que se fizessem descobrimentos n’esses mares, ou, no caso de se fazerem, o direito que tinhamos ao menos, á posse d’essas terras descobertas!!
A proposito d’esse cavalleiro allemão Balthazar, que acompanhou Antão Gonçalves, diz o auctor d’este livro: «Antão Gonçalves voltou a Portugal com os negros, e Balthazar o cavalleiro allemão que o acompanhava tornou para a sua terra, onde foi naturalmente a maravilha de todos os que o escutavam, e um novo Sindbad para os pasmados Germanos. A narração das tempestades, dos perigos, dos estranhos costumes dos Azenegues devia occupar bastantes serões de inverno nos velhos castellos allemães junto da vasta lareira, emquanto gemesse lá fóra o vento e cahisse a neve cobrindo de alvo manto o solo endurecido.» Hist. de Portugal, tom. III, pag. 252 (2.ª edição).
[62] Olympiada II, 127.
[63] Como se pode ver no 1.º mappa do Atlas do visconde de Santarem, que é exactamente o mappa catalão de 1375.
[64] Habet, diz o manuscripto de Genova, latitudinem unius legue et fundum pro majore navi mundi.
[65] La plage de sable, qui, comme on l’a dit, forme presque entiérement l’embouchure du Rio d’Ouro ne permet pas de penser que ce lieu puisse recevoir des bâtiments du plus faible tirant d’eau, il ne peut probablement admettre que des canots. Roussin Mémoire sur la navigation aux côtes occidentales de l’Afrique, pag. 96.
[66] Observação já feita pelo visconde de Santarem nas suas notas á edição da Chronica de Guiné de Azurara. Veja-se tambem o magnifico capitulo da Vida do principe Henrique do illustre escriptor Richard Major, capitulo intitulado The slave trade.
[67] Este commentario vem publicado na collecção de Ramusio.
[68] O sabio francez Letronne n’uma memoria publicada no Journal des Savants de agosto de 1831, diz o seguinte: «L’hypothése d’un prolongement indéfini de la côte occidentale d’Afrique, à partir d’une latitude voisine de l’Équateur, était fondée sur la direction de la côte d’Afrique depuis la rivière de Nun jusqu’au cap Bojador que l’expédition d’Hannon n’avait pas dépassée.»
[69] «Ha ainda um personagem duvidoso, diz Renan, este presbyter Johannes, especie de socio do Apostolo, que perturba como um espectro toda a historia da Egreja de Epheso e causa aos criticos bastantes embaraços.» L’Antechrist, pag. XXIII, trad. do sr. Theophilo Braga, que cita este trecho nas Lendas Christãs, cap. V, As lendas do primado da Egreja, pag. 213 (Porto, 1892). Este livro do sr. Theophilo Braga é na verdade excellente e foi-me de um grande auxilio n’este estudo ácerca das viagens da lenda do Prestes João. A não ser o livro de Marco Polo e os artigos do illustre sinologo Pauthier, que consultámos directamente, as fontes que citamos são as que o sr. Theophilo Braga aproveitára e indicára. Folgamos de prestar esta homenagem ao nosso illustre confrade, porque, apesar de estarmos muito em desaccordo com alguns dos pontos de vista d’este seu novo livro, não deixamos de reconhecer que é mais uma prova do muito talento e da muita erudição do seu auctor.
[70] Esta carta vem publicada na Cosmographie et histoire naturelle fantastique du moyen-âge de Ferdinand Denis.
[71] Por 1122, no pontificado de Calixto.
[72] Ainda na ultima concordata celebrada entre Portugal e a côrte de Roma ácerca do padroado da India tiveram de ser resalvados os direitos christãos do rito syriaco.
[73] Theophilo Braga, Lendas Christãs, pag. 227.
[74] Veja-se a Nota explicativa do symbolo da arvore do sol e da arvore da lua, escripta pelo sr. Felix Lajard, e communicada ao visconde de Santarem que a publicou no fim do III volume do seu Essai sur l’histoire de la cosmographie, etc., pag. 506.
[75] Rosweid, Vitæ Patrum.—Vita S. Macari Romani servi Dei qui niventus est juxta Paradisum. Andrea Bianco no seu famoso mappa de 1436 põe o Paraizo n’uma peninsula, e junto do Paraizo um grande edificio com esta designação: Ospitium Macari.
[76] G. Pauthier Le pays de Tanduc et les descendants du Prêtre Jehan.—Revue de l’Orient, de l’Algérie et des Colonies, tom. XIII, pag. 287. (Paris, 1861). Publica primeiro o capitulo LXXIII, da Relação de Marco Polo, que se intitula: Cy devise de la province de Tanduc, et des descendants du Prestre Jehan, a que se segue depois o commentario.
[77] Ainda não tinham passado os portuguezes do Cabo Branco, estava-se apenas no anno de 1441 e já o infante encarregava Antão Gonçalves de saber alguma coisa ácerca de Prestes João.
[78] Um distincto escriptor francez, Eyriés, que escreveu a biographia de João Fernandes na Biographie Universelle, diz que elle fôra o primeiro Europeu que penetrára no interior da Africa e que as particularidades da relação que elle trouxera apresentavam uma grande analogia com as da relação de Mungo-Park. A respeito dos serviços prestados á botanica pelos Portuguezes vejam-se os estudos de primeira ordem do sr. conde de Ficalho, Plantas uteis da Africa Portugueza, (Lisboa, 1884), a Flora dos Lusiadas, (Lisboa, 1880), a Memoria sobre a Malagueta, (Lisboa, 1878). A respeito dos nossos serviços á ornithologia, vejam-se as interessantissimas communicações feitas pelo notavel sabio portuguez o sr. Bocage a Andrade Corvo, e por elle publicadas nas notas á sua edição do Roteiro de D. João de Castro.
[79] Alvaro de Freitas ia na expedição commandada por Lançarote, almoxarife em Lagos, e n’um momento de enthusiasmo declarou que estava prompto a seguir o seu chefe até ao Paraizo Terreal. V. a minha Hist. de Portugal, tom. III, pag. 271.
[80] Tristão Vaz Teixeira, foi na grande expedição de 1445, de que fazia parte Soeiro da Costa. Alvaro Fernandes tornou-se celebre sobretudo pelo descobrimento da Serra Leôa.
[81] Alvaro Fernandes, por exemplo, foi de uma vez do Cabo Verde á Serra Leôa, e depois Cadamosto e outros exploraram cuidadosamente a costa intermedia, fazendo então viagem como se faz, quando se quer estudar uma costa. «A nossa navegação diz o viajante italiano, sempre foi de dia, lançando ancora todas as tardes ao sol posto com dez ou doze braças de agua.» Navegações de Cadamosto (traducção portugueza) pag. 51.
[82] Histoire de la géographie, etc., tom. II, pag. 56 e 57.
[83] Os Côrte-Reaes, pag. 61. (Ponta-Delgada, 1883).
[84] Ibid., pag. 57.
[85] Veja-se Herrera, Historia general de los hechos castellanos en las islas y tierra firme del mar oceano, tom. I, cap. II e III, pag. 4 a 6. (Madrid, 1601).
[86] Veja-se Herrera, Historia general de los hechos castellanos en las islas y tierra firme del mar oceano, tom. I, cap. II e III, pag. 4 a 6. (Madrid, 1601).
[87] Publicado no Archivo dos Açores, tom. I, pag. 24.
[88] Publicado no Archivo dos Açores, tom. I, pag. 22.
[89] Publicado pelo sr. Ernesto do Canto, nos Côrtes-Reaes, pag. 62.
[90] Publicado pelo sr. Ernesto do Canto, nos Côrte-Reaes, pag. 63.
[91] É o proprio Humboldt, que, referindo-se ás epochas do encontro das ilhas diz: «Ces époques sont, pour l’écueil des Formigas, 1431; pour l’île Santa Maria, 1432; pour San Miguel 1444; pour Terceira, San Jorge et Fayal, 1449; pour Graciosa, 1453. La découverte des îles les plus occidentales, Flores et Corvo, paraît antérieure à 1449, mais cette date est moins précise». Hist. de la géographie, etc., tom. II, pag. 105.
[92] Os Côrtes-Reaes, pag. 61.
[93] Assim de João Vaz Côrte Real não hesito em referir que se dizia que foi elle quem descobrira a ilha Terceira e a de S. Jorge e que por isso recebera a capitania das duas ilhas (!) Cabo Verde e o Brazil (!!). Tambem a respeito da força de João Vaz conta com a maior seriedade, e como facto authentico, uma d’estas lendas que atravessam os seculos, com as suas variantes, ácerca de homens famosos pela sua força muscular. Assim diz, que, estando João Vaz Côrte Real no Algarve a passeiar na sua quinta, veiu visital-o um castelhano muito forçoso, que tranquillamente, passando n’uma alameda de marmeleiros, os foi arrancando de um e de outro lado, pondo-lhes as raizes ao sol, João Vaz não fez a mais leve observação, mas apanhando os marmellos, apertou-os na mão e esmagou-os completamente não lhe ficando na mão senão o bagaço. É uma variante da historia do ferrador, um Mauricio de Sarce ou um D. Pedro II de Portugal. O rei ou o principe partia com a maior facilidade cada ferradura que o ferrador lhe apresentava, dizendo-lhe que não era boa, e o ferrador calado. Quando o alto personagem, pagando generosamente a sua ostentação de força, deu uma moeda de ouro ao ferrador, este partiu-a dizendo que não era boa. Como se vê, é o conto popular sempre com a mesma forma, repetida por um escriptor crendeiro, cujo testemunho tem comtudo servido para que escriptores serios percam o seu tempo com umas das suas lendas!
[94] Os Côrte-Reaes, pag. 36.
[95] Ibid., pag. 35.
[96] Os Côrte-Reaes, pag. 19.
[97] Arch. Nac. da Torre do Tombo, liv. 49 de D. João III, fl. 243, verso. Transcripto nos Côrte-Reaes, pag. 121 a 125.
[98] Não ha razão seria para que a Groenlandia pertença á America e não lhe pertençam os Açores. Da Islandia, que é a ultima parte da Europa, á Groenlandia, vão 240 leguas, de Portugal a S. Miguel 247. Portanto, se os islandezes descobriram a America porque chegaram á Groenlandia, com mais razão se pode dizer que descobriram os Portuguezes a America porque chegaram aos Açores. É perfeitamente pueril estar a discutir quem foi que tocou primeiro nas terras americanas, a gloria consiste em não ter hesitado em atravessar centos e centos de leguas de mar com o fim de chegar ao Oriente pelo caminho do occidente.
[99] Diz Pedro Nunes: «E perderam-lhe (os Portuguezes) tanto o medo (ao mar): que nem ha grande quentura da torrada zona: nem o descompassado frio da extrema parte do sul: com que os antigos escriptores nos ameaçavam lhes pode estorvar: «...Tirará nos muitas ignorancias: e a mostraram ser a terra mór que o mar (o erro de Colombo): e auer hi antipodas: que ate os Santos duvidaram: e que nam a regiam que nem por quente nem por fria se deyee de abitar.» Tratado que o Doutor Pero Nunes, cosmographo del Rey nosso senhor fez em defensão da carta de marcar: võ o regimento da altura. Reg. 1. (Lisboa, 1537).
[100] Humboldt, Histoire de la géographie, etc., tom. II. Nota H, pag. 369.
[101] Veja-se a interessante obra de Navarrete, tom. I, pag. 300.
[102] Strabão, II, pag. 83, 113 e 116. Itaque, diz Strabão na formosa passagem em que prophetisa a America, compluribus verbis persuadere nititur Eratosthenes nisi Atlantici maris obstaret magnitudo, posse nos navigare in eodem parallelo, ex Hispania in Indiam per universum id quod reliquem est, demta dicta distantia (hoc est longitudinæ terræ habitatæ) quæ totius circuli trientem excedit». Strabo, liv. I, pag. 113-114. Assim, excedendo as terras habitadas a terça parte do parallelo, o mar a percorrer é um pouco inferior a ⅔ e menos de 240°, mais de 236°. A differença imaginada por Eratosthenes e Strabão e a distancia verdadeira não é grande.
[103] Esta carta foi publicada pelo sr. Teixeira de Aragão na excellente Memoria ácerca do descobrimento da America que escreveu para o volume consagrado pela commissão portugueza do centenario de Colombo a esta grande solemnidade. É datada de Aviz de 20 de março de 1488. Trata Christovam Colombo por nosso especial amigo.
[104] Os Côrtes-Reaes, pag. 65, nota 123. A carta de doação a Fernão Dulmo vem publicada no mesmo volume de pag. 64 a 69.
[105] «No me admiro tengais, diz-lhe Toscanelli na sua segunda carta, tan gran corazon como toda la nacion portugueza, en que siempre ha habido hombres señalados en todas emprezas.
[106] A carta é de maio de 1505, citada por Navarrete no t. III pag. 528, e Humboldt, t. III, pag. 260.
[107] Veja-se a minha Historia de Portugal, t. IV, pag. 272.
[108] Foi Humboldt que fez notar a differença entre as duas versões da mesma bulla, Hist. de la géographie, etc., sec. II, t. III, pag. 52, nota.
[109] A filha de Izabel a Catholica desposára o filho d’el-rei D. João II, o principe D. Affonso que morreu de uma desastrada quéda de cavallo a 13 de julho de 1491.
[110] Humboldt, Histoire de la géographie, etc., sec. II, t. III, pag 55.
[111] Quadro elementar das relações politicas e diplomaticas de Portugal com as diversas potencias do mundo, t. II, pag. 390 Lisboa, 1844. O tratado vem publicado in extenso.
[112] Pedro Martyr d’Anghiers, Oceanicas, dec. VIII, cap. 10.
[113] Foi o duque de Medina-Sidonia que se offereceu para ir com as suas caravelas em perseguição dos portuguezes, e a 2 de maio de 1493 pediam os reis catholicos ao duque que as tivesse prestes, a 12 de junho e 27 de julho affiançavam a Colombo que não havia motivo para se desconfiar do rei de Portugal, doc. n.ºs 16, 50 e 54 publicados na Collecção de viagens e descobrimentos, citados pelo sr. Teixeira de Aragão a pag. 18 da sua Breve memoria sobre o descobrimento do Brazil.
[114] O trecho da Esmeralda é o seguinte: «Como no terceiro anno do vosso reinado do anno de Nosso Senhor de mil quatrocentos noventa e oito donde nos vossa alteza mandou descobrir a parte occidental, passando além do grande mar oceano, onde é achada e navegada uma tão grande terra firme com muitas grandes ilhas adjacentes a ella, que se estende a setenta graus de ladeza da linha equinocial contra o polo arctico.» Esmeralda liv. 2.º, cap. I, transcripto pelo sr. Teixeira de Aragão na sua Breve Noticia, etc., pag. 47. D’este trecho deduz-se que Duarte Pacheco foi mandado descobrir para o occidente em 1498, o que não faz senão confirmar o que temos dito, mas não que Duarte Pacheco descobriu o Brasil. Nem elle diz que achou e navegou essa terra, mas sim que essa terra é achada e navegada, e isto em 1505.
[115] Roteiro geral do globo, tom. XI, sec. 1.ª, pag. 2 (Lisboa 1839). Mouches, Les côtes du Brésil, sec. II, pag. 8 (Paris, 1864).
[116] N’uma das sessões do Instituto Historico Geographico do Brasil, o imperador D. Pedro II propoz como assumpto de discussão «se a descoberta do Brasil foi intencional ou devida ao acaso». Joaquim Norberto fez uma memoria interessante sustentando que a descoberta foi intencional, Machado de Oliveira fez uma memoria de uma futilidade inexcedivel e de uma grosseria imperdoavel que nem merece que d’ella nos occupemos, Gonçalves Dias sustentou com argumentos broncos, mas com vigor de estylo, mostrando-se muito talentoso e muito erudito, que a descoberta fôra occasional. Joaquim Norberto replicou e muitissimo bem. O unico argumento de algum peso que Gonçalves Dias apresentava era o da corrente equatorial que corre de léste para oeste. É esse exactamente o que o sr. Baldaque da Silva destróe technicamente e de um modo completo.
[117] Les côtes du Brésil, pag. 115, nota a.
[118] Ibid., pag. 12.
[119] Ibid., pag. 116, nota a.
[120] «Sahindo do dito Cabo Verde, esta terra jaz entre Oeste e Sudoeste, ventos principaes, e dista do dito Cabo Verde quatrocentas leguas». Carta de Portugal enviada ao rei D. Manuel ácerca da viagem e successo da India, traduzida da versão italiana pelo sr. Prospero Peragallo, e por este publicado com o texto italiano e annotado nas Memorias da commissão portugueza do centenario de Colombo. O trecho que citamos vem a pag. 9 in fine. Como se vê, estando a 400 leguas de distancia não a oeste, mas a oes-sudoeste a distancia do meridiano de Cabo Verde ao meridiano de Vera-Cruz não podia ser superior a 370 leguas. Pero Vaz de Caminha disséra-lhe: «Topamos algūus synaes de terra seendo da dita ilha (S. Nicolau de Cabo-Verde) segundo os pilotos diziam obra de VIᵉ Lx ou LXX legoas ᵉlc (670 ou 701 leguas)». Esta carta de Pero Vaz Caminha tem sido muitas vezes publicada. Fazemos o nosso extracto da memoria do sr. Aragão, onde vem nos documentos, pag. 66.
[121] A carta do jesuita Antonio de Sá escripta em hespanhol aos jesuitas da Bahia e datada de S. Vicente, 13 de junho de 1559 diz: «Un Indio que se llama Belchior está puesto en ayunar todos los dias que manda la Iglesia, y sin yo le hablar nada, preguntóme que le hiziese saber los dias de ayuno y cual no se comia carne, diciendome que antes que muriese Juan Ramallo que el se lo dezia y ayunaba todos los dias que la Iglesia manda.» O estudo a que nos referimos feito pelo sr. Candido Mendes de Almeida vem publicado na Revista trimensal do Instituto Historico Geographico do Brasil, e n’esse periodico vem tambem as memorias de Joaquim Norberto, Gonçalves Dias e Machado de Oliveira, a que atraz nos referimos.
[122] «ao qual monte alto, diz Pero Vaz de Caminha, o capitam poz o nome de monte pascoal e aa tera a tera de Vera-Cruz». Depois de ter entrado em communicação com os habitantes é que Pedro Alvares Cabral considerou a terra como uma ilha, e a denominou ilha de Vera Cruz.
[123] Strabão XI, pag. 518.
[124] Pomponio Mela, t. III, c. 5, 98.
[125] Les Corte-Real par mr. H. Harrisse, pag. 209. Ernesto do Canto, Os Côrtes-Reaes, pag. 211.
[126] Histoire de la Géographie, etc., t. IV, pag. 263.
[127] Legenda do mappa mandado fazer em Lisboa por Alberto Cantino em 1502. O sr. Ernesto do Canto transcreve-a a pag. 208 do seu livro.
[128] Esta curiosa doação foi publicada em texto latino por Bidle na obra que saío anonymamente em Londres, 1831 e que se intitula A Memoir of Sebastian Cabot with a Review of the History of Maritime Discovery, illustrated by documents from the Rols, new first published. Abrange de pag. 312 a 320. O sr. Ernesto do Canto publica tambem o texto latino com a traducção portugueza no seu livro Os Côrtes-Reaes e abrange de pag. 74 a 87.
[129] E. do Canto, Os Côrtes-Reaes, texto italiano a pag. 45 e 46, traducção latina de Madrijuan a pag. 47 e 48.
[130] São interessantissimas as indicações dadas a esse respeito pelo sr. Patterson, na sua magnifica memoria. A bahia de Fundy, diz elle, é evidentemente a Bahia Funda. Tambem nota que apparece lá o nome de Tanger, que não podia ter sido posto senão pelos portuguezes, senhores então d’essa praça, e sempre tão relacionados com ella.
[131] «There are about 100 sail of Spaniards who come to take cod, who make it all wet and dry... As touching their tonnage I think it may be 5,000 or 6,000. Of Portugals there are not above fifty or sixty sail, whose tonnage may amount to 5,000, and they make all wet.» Citado pelo reverendo George Patterson na excellente memoria que publicou nas Trans-Roy. Soc. Canada, e que se intitula The Portuguese in the North-East coast of America, and the first European attempt at Colonization there. A lost chapter in American History, pag. 145. Esta memoria foi lida na Royal Society a 28 de maio de 1890.
[132] Esta exploração outr’ora tão importante e activa, na qual estavam empenhados capitaes e interesses tão avultados, concorrendo para ella tantas partes do nosso continente, vê-se hoje reduzida a uma duzia de navios que a entretêem apenas em dois centros de pescarias: Figueira da Foz e Lisboa.» A. A. Baldaque da Silva, Estado actual das pescas em Portugal, pag. 166. E diz, em nota, que a pesca do bacalhau era tão importante no tempo de D. João III e d’el-rei D. Sebastião «que foi providenciada por um regimento particular para as frotas que annualmente expediam a esta pescaria.»
Emquanto á colonisação, que foi motivada exactamente pela importancia da pesca do bacalhau, foi promovida por varias pessoas de Vianna do Minho, muito interessadas n’este negocio da Terra Nova, pelas muitas relações que tinham com os Açorianos. D’esta colonisação dá conta um interessante folheto publicado ha poucos annos, mas escripto no seculo XVI, que se intitula: Tratado das ilhas novas e descobrimento d’ellas e outras coisas feito por Francisco de Souza, feitor d’El-Rei Nosso Senhor, na capitania da cidade do Funchal da ilha da Madeira e natural da mesma ilha e assim de parte da nação portugueza que está em uma grande ilha, que n’ella foram ter no tempo da perdição das Espanhas, que ha trezentos e tantos annos em que reinou El-Rei Dom Rodrigo. Dos Portuguezes que foram de Vianna e das Ilhas dos Açores a povoar a Terra Nova do Bacalhau vae em sessenta annos, do que succedeu, o que adiante se trata. Anno do Senhor de 1570. Ponta Delgada, S. Miguel, Açores 1877.
É curiosa a mistura de lenda e de verdade que n’este titulo se encontra. Ao lado de uma colonisação perfeitamente authentica n’uma ilha certa é conhecida ainda a velha lenda da ilha das Sete Cidades colonisada pelos sete bispos, que fugiram da Peninsula com os seus fieis no tempo do rei Rodrigo!
[133] «Outros chamam-lhe, diz D. Manuel, terra nova ou novo mundo».
[134] Veja-se o estudo desenvolvido de Humboldt, que aliás não vê as coisas debaixo do nosso ponto de vista nas notas finaes do vol. V, da sua Histoire de la géographie, etc., da pag. 180 em diante.
[135] Recherches historiques, critiques et bibliographiques sur Améric Vespuce et ces voyages.—Paris, sem data.
[136] Veja-se a carta de mr. Letronne a Humboldt, publicada no vol. III, da sua Histoire de la géographie, etc., da pag. 119 em diante.
[137] Veja-se Humboldt, Histoire de la géographie, etc., tom. II, pag. 26 e segg. Falando do globo de João Schoner diz: «Figurou no globo o estreito no logar em que Colombo debalde o procurara.» No globo de Weimar (que tem a data de 1534) ha dois estreitos, um a 42° de latitude sul, e outro no isthmo de Panamá a 10° de latitude ao norte do Equador.
[138] «Se não tivessemos achado este estreito, diz Pigafetta, o capitão-general estava disposto a ir até 75 graus para o polo antarctico onde no verão não ha noite, ou muito pouca e da mesma maneira no inverno não ha luz do dia ou ha pouquissima.» Navegação e viagem que Fernando de Magalhães fez de Sevilha a Moluco no anno de 1519, pag. 61 da traducção ingleza de sir Stanley de Alderley, (Londres, 1874).