V
Ouve tu, meu cançado coração,
O que te diz a voz da Natureza
—«Mais te valera, nú e sem defeza,
Ter nascido em asperrima soidão!
Ter gemido, ainda infante, sobre o chão
Frio e cruel da mais cruel deveza,
Do que embalar-te a Fada da Belleza
Como embalou, no berço da Illusão!
Mais valera á tua alma visionaria,
Silenciosa e triste, ter passado
Por entre o mundo hostil e a turba varia.
(Sem ver uma só flôr das mil que amaste)
Com odio, raiva e dôr... que ter sonhado
Os sonhos ideaes que tu sonhaste!...
Envolve-te em ti mesma, oh alma triste!
Talvez sem esperança haja ventura!
Na floresta dos sonhos, dia a dia,
Se interna meu dorido pensamento,
Nas regiões do vago esquecimento
Me conduz, passo a passo, a phantasia.
Atravesso no escuro a nevoa fria
D'um mundo extranho, que povôa o vento,
E meu queixoso e incerto sentimento
Só das visões da noite se confia.
Que mysticos desejos me enlouquecem?
Do Nirvana os abysmos apparecem
A meus olhos, na muda immensidade.
N'esta viagem pelo ermo espaço
Só busco o teu encontro e o teu abraço,
Morte! irmã do Amor e da Verdade!
Conquista pois sósinho o teu futuro,
Já que os celestes guias te hão deixado
Sobre uma terra ignota abandonado,
Homem = proscripto rei = mendigo escuro!
Se não tens que esperar do ceu (tão puro,
Mas tão cruel!), e o coração maguado
Sentes já de illusões desenganado,
Das illusões do antigo amor perjuro:
Ergue-te então na magestade estoica
D'uma vontade solitaria e altiva,
N'um esforço supremo de alma heroica
Faze um templo dos muros da cadeia
Prendendo a immensidade eterna e viva
No circulo de luz da tua Idea!