CAPÍTULO II

Leonor em Chelas.—Antiguidade e origem dêste convento.—Vida conventual.—As cartas do marquês de Alorna a sua mulher.—Não são escritas com sangue.—Correspondência entre Leonor e o pai.—O incidente entre Leonor e o arcebispo de Lacedemónia.—Versão correcta e autêntica dêste incidente que anda desfigurado nas biografias de Leonor.—Estudos.—Leitura dos filósofos franceses.—Lutas de Leonor com o pai, a mãe, a condessa do Vimieiro.—O esquecimento do passado e do presente procurado no estudo.—Confiança que Leonor tem no pai.—Festas de Chelas.—Outeiros.—Representação de Atália.—Intermédios jocosos.—Coragem e alegria de Leonor através de todo o seu infortúnio.—O problema religioso.—Ilusões simpáticas do espírito de Leonor.—O marquês de Alorna condena Voltaire a ser queimado.—Admirável resposta de Leonor.—Discussões acesas de Leonor com os confessores do convento.—Lutas de consciência.—Antagonismo entre Leonor e o seu meio.—Fantásticos projectos de salvar seus pais.—Cartas a Luís XV e a Voltaire.—Mau francês e óptimos sentimentos.—Controvérsias literárias e poéticas entre o marquês de Alorna e Leonor.—Bom senso e bom gôsto do marquês.—O que Leonor diz a respeito do amor.—A Zamparini e várias anedotas da côrte.—O marquês de Gouveia e Maria de Almeida.—Entusiasmo com que Leonor antevê a factura existência dos seus no campo.—Influência de Rousseau.—Dois projectos de casamento para Leonor.—Retrato de um fidalgo ignorante.—Versos de Chelas.—Os sonhos de Leonor.—O príncipe azul.—Morte do rei que vem libertar a família de Alorna.

Como no anterior capítulo foi dito, a 14 de Dezembro de 1758 entravam a marquesa de Alorna e suas filhas Leonor e Maria, no convento de Chelas. Fica, como se sabe, nos subúrbios de Lisboa êste mosteiro, ao qual frei Luís de Sousa consagra longos períodos de que citaremos os que seguem:

«Junto à cidade de Lisboa, ao norte dela, em distância de quási uma légua, há um vale por cópia de quintas e frescura de hortas e pomares assás deleitoso, que chamam Vale de Chelas. Havia nêle pelos anos em que vamos, de 1223, uma igreja tão antiga na primeira fundação que, sem haver quem disso duvidasse, se referia ao tempo em que a primitiva igreja florescia com favores do céu e perseguições da terra, porque sendo regada com rios de sangue de infinitos mártires, que cada hora padeciam, tomava fôrças do mesmo ferro e fogo com que era perseguida, e ia crescendo e pulando, e tomando posse do mundo. Assim é cousa certa que deram ocasião a se fundar esta igreja os gloriosos mártires S. Felix e Santo Adriano, porque padecendo ambos em tempo de Diocleciano imperador, animosa e santamente pela fé, Felix em Gerona de Catalunha, aonde veio buscar o martírio, fugindo da cidade Scilitana em que nascera, e da de Cesária em África, onde seus pais o criavam no estudo, e Adriano sendo martirisado em Nicomédia de Bithinia, por varios casos, e em tempos diferentes, vieram as santas relíquias de ambos, com muitas de outros companheiros do martírio aportar neste vale, e no lugar da igreja onde naquele tempo chegava o mar, que agora lhe fica longe quási meia légua. Foram os mártires conhecidos pela relação de quem os acompanhava, mas logo reconhecidos e reverenciados por meio de esclarecidos milagres que obraram.

«Edificou-lhes igreja a devoção de Lisboa, e foram honrados nela debaixo do nome de S. Felix, ou porque padeceu em terras de Espanha, ou porque foi o primeiro em chegar ao vale; e em testemunho da grande antiguidade ficou com o nome quási trocado no povo, chamando-se S. Pero Fins de Achelas.

«Na entrada dos mouros, que depois sucedeu, de crer é que o mêdo e a confusão que por castigo do céu oprimia os ânimos, usaria do remédio mais fácil para salvar as santas relíquias, que era enterrá-las no mesmo lugar e encomendá-las aos mesmos santos»[19].


«Lançados os mouros de Lisboa pelo braço e valor de el-rei D. Afonso Henriques, purificadas as igrejas que haviam em pé, e reedificadas pouco a pouco as que estavam em ruína, foi povoada esta de frades, o que se vê das provisões e outros instrumentos autênticos do cartório dela, que particularmente vimos, notámos e cotámos»[20].

Parece que os mouros reconquistando Lisboa aos leonenses expulsaram de Chelas seus habitantes, e converteram a igreja em mesquita, porquanto el-rei D. Afonso Henriques, tratando de purificar e restituir ao culto divino vários templos que os infieis tinham profanado, fôra um dêles o convento de Chelas, sendo celebrante o bispo de Lisboa D. João Peculiar, e assistindo o soberano à cerimónia da purificação e ao descobrimento e transladação das relíquias que estavam em duas caixas de mármore, as quais foram colocadas na capela mor, de modo que ficaram servindo de altares de S. Felix e de Santo Adrião[21].

Primeiramente foi o convento duplex, e povoado pelos cónegos regrantes de Santo Agostinho. Deixou depois de ser duplex, e só nêle ficaram religiosas; não se sabe, porêm, o ano em que isto sucedeu.

O que, porêm, de tudo que acêrca dêle se escreveu pode com certeza deduzir-se, é que êste convento de Chelas é dos mais antigos e memoráveis de Lisboa.

A porta principal da entrada é de um lindo gôsto manuelino. O convento vasto, mas sem nenhuma beleza de arquitectura digna de nota. O côro em 1883 ainda se podia considerar um pequeno museu[22] onde se encontravam várias obras artísticas, tais como quadros, jarras de merecimento, imagens de prata, loiças do Japão, etc.


Não se recomendavam pela austeridade da clausura nem pelo ascetismo contemplativo das monjas os conventos do século XVIII em tôda a Europa ocidental.

Passara havia muito o tempo dos milagres, das visões místicas, da loucura da cruz. Já ninguêm se supliciava em martírios de uma pungitiva delícia, na expiação de grandes paixões terrenas, ou na esperança ardente de uma sonhada bemaventurança. Um frígido sôpro passara, esterilizante e devastador, pelas almas e pelas consciências do tempo.

Leonor de Almeida não teve, pois, a sentir ali uma pressão que em parte alguma já existia nessa época. Pelo contrário; seria doce e calma a vida conventual para quem não tivesse lá dentro um desgôsto a minar-lhe a existência.

Reflecte-se uma espécie de suavidade íntima, de alegria transcendente no rosto das mulheres consagradas desde a mocidade à vida do claustro ou às missões da caridade. Despindo as tumultuosas paixões e as intermitentes alegrias humanas, elas despem tambêm a faculdade de se interessarem, de se entristecerem, de vibrarem ao influxo dos sentimentos mundanos.

Apagado nas almas o sombrio ascetismo mediévico, essa nevrose de que o mundo cristão sofreu tão intensamente durante séculos, ficou a doce calmaria conventual a substituí-lo. As rezas variadas, as minuciosas práticas do culto, o cultivo caprichoso das mais lindas e cheirosas flores, a produção geitosíssima de flores artificiais, de paramentos ricamente bordados, de doces em que se exibia a fantasia colectiva de cada convento, as distracções inocentes que dava a cada uma êste trabalho, para todos proveitoso, a tagarelice natural a pobres mulheres ignorantes sem responsabilidade de árduos deveres nem compreensão nítida do seu sacrifício, as visitas à grade de parentes e amigos enchiam ali o monótono giro dos dias e dos anos.

O século XVIII tinha tambêm os seus outeiros, as suas eleições, as suas festas de locutórios e de igreja.

Acudiam poetas às solemnidades do abadessado e, desde Filinto até Bocage, quantos ali fizeram brilhar o seu engenho, glosando motes, improvisando sonetos, repetindo quadras e décimas amaneiradas e requintadas. Os filhos segundos das primeiras casas do país interrompiam então as tropelias de toureiros, as arruaças nocturnas com que se deleitavam em assustar o burguês pacífico, e vinham tambêm espreitar sob o véu que a meio lhes ocultava o rosto, os lindos olhos coriscantes, os rubros lábios risonhos, as morenas faces penugentas como pêssegos, das suas primas e parentes, as lindas noviças, as doces raparigas destinadas ao serviço de Deus, por não haver cá fora quem as quisesse sem dote, ou por não consentirem as famílias que elas deslustrassem a sua altiva prosápia em casamentos menos dignos da preclara origem do seu nome.

Era um tempo estranho êste. A crença primitiva embotara-se nas almas, deixando ainda nos lábios o seu vocabulário especial, a sua tecnologia sagrada. Ninguêm se revoltava ainda abertamente contra os abusos de um regímen religioso e político que, degenerando da sua nobre origem, tinha conservado os defeitos e perdido as grandes qualidades que o haviam feito longamente viver; ninguêm se revoltava em palavras, mas as obras correspondiam ao relaxamento de tôda a disciplina, à tibieza crescente de tôda a fé.

Leonor de Almeida, dentro do convento de Chelas, pôde, mercê dessa transformação completa da disciplina conventual, ler, pensar, instruir-se, formar uma concepção pessoal do mundo e da vida, sem que ninguêm ousasse intervir no fôro íntimo da sua juvenil consciência.

Ninguêm, engano-me. Intervinham amiudadas vezes o pai, a mãe, a amiga mais querida de Leonor, a condessa de Vimieiro, Teresa de Melo Breyner, a quem ela, em versos e cartas, chama poéticamente e arcádicamente à moda do tempo, a sua Tirce. Mas a todos estes ela iludia com hábeis sofismas, ou contradizia com rigorosos argumentos. O mais penetrante espírito com que o seu se correspondia era o do pai, o marquês de Alorna, muito mais ilustrado, muito mais inteligente que o vulgar da sua classe e do seu meio, mas imbuído de muitos dos preconceitos de ambos.

Temos felizmente à vista parte das cartas inéditas dirigidas por Leonor de Almeida ao marquês seu pai, e por elas podemos reconstruir a vida das três senhoras no convento de Chelas, modificando e corrigindo com a publicação de documentos autênticos alguns dos erros que se notam no prólogo às obras poéticas da marquesa, publicadas em seis voluno ano de 1844.

Nesse prólogo, que não traz nome de autor, mas no qual se sente a inspiração da filha da marquesa de Alorna, D. Henriqueta, então dama camarista da senhora D. Maria II, se diz que o marquês de Alorna, pai de Leonor, escrevia à espôsa do seu cárcere da Junqueira, tendo por tinta o próprio sangue. Exagêro romanesco êste, que se acha desmentido no prefácio do folheto escrito pelo próprio marquês de Alorna, e publicado mais tarde pelo presbítero José de Sousa Amado, sob o título que damos em nota[23].

Citemos o período que explica e esclarece êste ponto importante da vida do prisioneiro:

«Naquelas prisões, onde por tanto tempo gemeu a inocência e o merecimento, os presos eram privados de tinteiros, talvez pelo receio de se relacionarem uns com os outros, ou com suas famílias. O autor, porêm, desta memória excogitou um meio que muito bem lhe surtiu, para haver tinta; e foi lavar os pés das cadeiras que lhe deram pintadas de vermelho, com o vinagre que lhe ia ao jantar.»

Foi com esta tinta, de um róseo desmaiado, que temos à vista, que o marquês escrevia à mulher e à filha.

Sem serem própriamente as clássicas masmorras de séculos mais cruéis do que êste, que ainda o era tanto, os cárceres da Junqueira eram suficientemente escuros e lôbregos e infectos para que não seja necessário acrescentar à sua história tenebrosa a lenda do sangue usado como tinta pelos prisioneiros desgraçados.

Em algumas das celas em que os presos viviam—como, por exemplo, na do marquês—tão débil era a claridade do dia que penetrava por uma estreita fresta, que a luz tinha de estar perpétuamente acesa para que os infelizes que ali habitavam podessem escrever ou ler ou remendar os seus miseráveis andrajos[24]. Por falta de tratamento e de curativo ali enlouqueceu o conde de S. Lourenço, ali morreram o conde de Óbidos e o conde da Ribeira. Ali sofreu inocente a mais atroz miséria D. Martinho de Mascarenhas, o filho do duque de Aveiro, conhecido entre os presos pelo Marquesito, e a cuja caridade engenhosa, a cuja bondosa solicitude o pai de Leonor tanto deveu na sua enclausuração. O marquês de Alorna foi, porêm, dos poucos que suportaram, em plena integridade mental e sem grandes sofrimentos físicos, êsse período tenebroso e cruel, êsse período de tormentosa perseguição que durou dezoito anos.

As cartas de Leonor, e algumas do marquês, que tivemos a fortuna de ler, revelam os finos quilates dêsse carácter de fidalgo, fiel à religião em que se criara, e na qual achou confôrto e fôrça para o longo suplício; fiel à instituìção monárquica a cujos abusos devia a sua imensa desgraça e a dos seus; coerente consigo próprio, como se não pode ser nas épocas de transição, tais como aquela em que a filha vai desenvolver-se e vai viver. O marquês de Alorna viajara, vira a côrte de França no seu ainda absoluto esplendor de etiqueta e luxo; comparara as cousas lá de fora com as nossas, e percebia a fundo a abjecta decadência em que a pátria tinha caído.

No prefácio das obras, já citado, vem a narração do incidente, ligeiramente cómico, havido entre Leonor e o arcebispo de Lacedemónia, mas em circunstâncias que as cartas que temos à vista contradizem.

Nem o arcebispo ameaçou Leonor com as iras do marquês de Pombal, nem a condenou a dois anos de clausura ainda mais estreita do que já era a sua; nem tão pouco a gentil poetisa de Chelas lhe deu a resposta corneliana de que reza o prefácio. Foi muito mais pacífica e muito menos romanesca a sua entrevista com o prelado. Ouçam-na tal qual ela a narra a seu pai, em uma das suas cartas:

«Chegou meu irmão a Lisboa, bem galante e estimabilíssimo, não obstante as melhoras de minha mãe, o ar frígido e coado das grades meteu mêdo ao médico e não houve remédio de condescender com os desejos que ela tinha de o ver. Passados três dias de meu irmão estar em Lisboa fêz que, muito impaciente de ver minha mãe, obtivesse um tácito consentimento da prelada, entrasse com um barril de água, que lhe custou, mas deu tudo de barato. Jantou connosco, tivemos um dia de folga, todos juntos, e saíu meu irmão à noite, segundo o costume conventual, o qual admite aqui infinitas pessoas com qualquer pretexto. Minha mãe estava fora da cama, muito contente com o filho, e nós igualmente com o irmão, nem por sombras imaginávamos que isto seria prejudicial a coisa nenhuma. Entretanto as freiras, furiosas contra nós, davam conta aos prelados, com o aspecto mais horroroso que é possível, e no dia seguinte veio a aia da prioreza chamar-me a mim e à mana, da parte do arcebispo de Lacedemónia. A primeira coisa que me lembrou foi responder que não queria lá ir. Mas permitiu Deus que minha mãe julgasse o contrário, e fomos ambas, eu e a mana. Ao entrar na grade apresentaram-se-nos dois homens; um dêles valia por um esquadrão; era uma baleia de rebuço em um capote de baeta usada, um daqueles cónegos que pasma à l’aspect d’une soupe, e sem mais cumprimento com as pupilas se assentaram os nossos dois prelados. Êste gordo era o inspector, e o arcebispo, de menor volume, disse: «V. Ex.ᵃˢ podem estar a seu gôsto.» Sentámo-nos, escarrou êle, tossiu e se rengorgeant na cadeira, principiou: «Sua majestade, a quem constou o atentado que hontem cometeram seu irmão e v. ex.ᵃˢ, violando a clausura, me manda repreender a v. ex.ᵃˢ ásperamente, e é servido ordenar que v. ex.ᵃˢ não tornem à grade até segunda ordem, e que andem vestidas honestamente, e que as suas criadas se reformem nestes oito dias, passados os quais, se o não fizerem, tem a prelada ordem para serem expulsas.» Eu e a mana ouvimos em silêncio, modestamente, estes quatro versos, e acabada uma grande prelenga que êle fêz sôbre as imunidades da clausura, respondi eu que o nome augusto de sua majestade bastava para que pessoas que tinham sido educadas com honra olhassem só com respeito quaisquer ordens, e que eu segurava a s. ex.ᵃ que elas seriam executadas com fidelidade e prontidão. Porêm, que o nome atentado era tão horroroso, que depois de protestarmos a nossa obediente submissão, restava ainda pôr na sua verdadeira luz o pretendido atentado e convertê-lo numa acção generosa, digna da piedade dos nossos legisladores, e alêm disso conforme às liberdades que eram concedidas a minha mãe. Pintei-lhe com côres bastantemente vivas um filho que despreza o trabalho mais penoso para consolar uma mãe aflita, e satisfazendo com o seu cansaço as apertadas leis da clausura. Disse-lhe que havia uma multidão de casos idênticos, e que só dezesseis anos de pezares sem esperança de alívio davam motivo a que abusassem do nosso estado as nossas acusadoras... A respeito dos vestidos os nossos não foram invejados senão por limpos, e o arcebispo mesmo se riu das respostas filosóficas (sic) que lhe dei, e da prontidão com que me quis logo vestir de côr à sua escolha, achando-me muito honrada, que el-rei se dignasse dar ordens em uma matéria que eu muitas vezes deixava ao arbítrio do mercador... A reforma das criadas consiste em dois covados de cassa postos na cabeça. Considere v. ex.ᵃ que dificuldades e que casos fazem rodar um arcebispo de Lisboa aqui, chamar-nos, repreender-nos, e no fim dizer-nos que não necessitávamos de enfeites porque somos muito bonitas. Ria-se meu querido pai, e olhe para estas cousas como merecem.»[25]

Esta citação dá o estilo epistolar de Leonor de Almeida, que sómente ousámos alterar na pontuação e na ortografia, pois que ambas são muito defeituosas. Viva e pronta na réplica, animosa na crise, sem covardia de género nenhum, nem moral, nem física, e usando com

facilidade e graça a fraseologia peculiar do seu tempo em que a filosofia intervem a propósito de tudo. Contamos por inteiro a anedota por não ser inteiramente conforme à que se conta no prefácio das obras poéticas da marquesa de Alorna, e por esta última versão ter sido inalterávelmente repetida por todos os biógrafos que se teem ocupado da nossa poetisa[26].


Nos dezoito anos do seu cativeiro, a primeira e mais querida ocupação de Leonor de Almeida consiste no estudo e na leitura incessante de todos os livros que lhe vêm parar às mãos. Não preside a essa leitura nem método rigoroso, nem critério seguro. Em Portugal, e naquele tempo não o havia nem nos melhores espíritos.

Muita vez Leonor se entusiasma por um autor que não merece êsse preito, muita vez mistura à lista de grandes mestres, em literatura ou em filosofia, um nome absolutamente medíocre; outras vezes, falando de autores mais célebres, deixa entrever que os compreende mal, ou que não os compreende de todo.

Mas a sêde de saber devorante, angustiosa, intensa e viva, como uma paixão que é nela absorvente, ilude-lhe deliciosamente os longos anos, os intermináveis dias da sua estreita e monótona clausura.

Leonor estuda latim e com singular aproveitamento; estuda o francês, o italiano, o inglês, o alemão; chega a estudar o árabe! Aprende e cultiva a música, canta no côro as belas melopeias sacras da liturgia católica e conventual, e na grade, no lucutório, nos serões da abadessa as cançonetas italianas com letra de Metastásio, as árias dos compositores do tempo, franceses e italianos.

Por conselho do Dr. Inácio Tamagnini, seu médico e seu amigo, põe-se um belo dia a estudar lógica, declarando ao pai que «não basta a lógica natural, que isso não é mais que um caminho andado para a saber, e por melhores que sejam as disposições, se a arte nos não diz que cousa é proposição lógica, se nos não faz conhecer que cousa é idea da imaginação ou do entendimento, quais são os erros que nos vêm dos sentidos e quais da autoridade, que cousa é crítica, o que são as ideas simples ou complexas, o silogismo, o maior, o menor, a conclusão, antimema, dilema, sorite, etc., nada disto revela a natureza.»[27]

Portanto, ei-la que lê com afinco o professor Félice, o padre Teodoro, e Wolfio, e Verney e Port Royal, aconselhando estes autores e estes livros ao Marquesito de Gouveia, companheiro de cárcere do marquês de Alorna, e que êste sonhara dar mais tarde por marido a D. Maria de Almeida, a encantadora e fina irmã de Leonor, tão letrada ou quási tão letrada como ela, e para agradar à qual não bastam a nobreza, a elegância patrícia, a formosura viril, é tambêm indispensável a filosofia e a lógica!

A respeito dêste novo estudo compreendido sob os conselhos do bom médico, a quem o marquês de Alorna manda agradecer da Junqueira, a vida e a educação intelectual da talentosa filha, eis como o pai lhe responde inteiramente ao corrente do assunto versado:

«Parece-me muito bem o estudo da lógica, de que depende tudo quanto cabe no discurso humano, e muito particularmente a poesia e a retórica.

«Desta última arte tambêm seria conveniente que visses algum tratado.

«Nesta matéria bem sabes que te tenho falado há muito tempo. A lógica que algum dia te inculquei foi de Port Royal. Não conheço a de Mr. Félice, mas como nessa matéria não se pode inventar nada de novo tudo vem a dar no mesmo, com mais ou menos impertinência. É estudo algum tanto fastidioso, principalmente para os que teem mais lógica natural, mas os desta casta em pouco tempo o poderão devorar, e melhor é que não se dilatem nêle com excesso, porque nesta matéria o demorado artifício faz algum dano à boa natureza. Esta casta de lição tem um certo tempo em que consiste a sua conveniência, e da mesma forma que é muito proveitoso ter regras para se não equivocar com falsas aparências, como sucede muitas vezes aos poetas, tambêm o espírito sofístico não presta para nada.»

No meio dos seus estudos mais enfadonhos, as horas de distracção são tomadas pela leitura.

Pede licença ao pai para ler Rousseau[28] e Condillac, e Diderot, e Voltaire: decora Racine e Corneille, e ainda mais, Crébillon tambêm, a quem a França chamou por muito tempo o seu Sofocles! Lê Pope, lê Boileau, lê Cervantes. Tudo que lê a encanta, sem grande crítica, sem muita finura de percepção, sem um pensamento de síntese a que tanta leitura se subordine, mas devorada de curiosidade, e justificando o dito de Fontenelle de que basta a curiosidade para alimentar a existência.

De vez em quando, as influências de que já falámos e a superstição implacável do seu meio, congregam-se numa espécie de conspiração contra essa insaciável sêde de saber, que fatalmente há de ir minando nela a integridade e a pureza da sua fé católica, a sua ingenuìdade de menina e môça, e transformando-a numa criatura em absoluta desproporção, em mal disfarçado antagonismo com a sociedade hipócrita e beata, ignorantíssima e formalista, até ao fanatismo e à demência, em que ela pelo seu nascimento e posição será chamada mais tarde a viver.

Então, da alma fogosa e irrequieta de Leonor saem palavras quentes de viva eloqùência, defendendo o acesso dêsse mundo interior cujas visões a distraem, cujas maravilhas a enlevam, cujos prazeres puramente espirituais a trazem absorta e esquecida da vida rial tão pungente e tão lúgubremente solitária!...

Não, isso é que ela não consente que lhe roubem, essa vida fictícia que ela edificou com os seu livros, com os seus poetas, com os amigos dilectos da sua inteligência ávida e curiosa!

Nem os pedidos assustados da querida mãe, que ela envolve em carícias, em cuidados, em requintes de filial meiguice; nem os conselhos prudentes dêsse pai, a quem a sua alma se confessa com tão inefável e incansável ternura de todos os instantes, com quem o seu espírito tanto se compraz em conversar livremente, nem as cartas e as súplicas da amiga, entre tôdas preferida, a demovem do seu plano.

E êste plano é bem próprio dêsse século literário que tanto viveu pelo espírito, e que embora em Portugal não irradiasse os esplendores intelectuais que teve lá fora, ainda assim nos deu aqui alguns representantes típicos da ânsia de saber, de prescrutar, de sondar, de conhecer que é como que o seu cunho inconfundível e profundo. Consiste em estudar sempre, em estudar tudo, em fugir, pelos interesses vivos da inteligência, às ansiedades extenuantes da vida quotidiana, em esquecer o presente rial e concreto, pelas distracções violentas, que a uma imaginação tão irrequieta e tão ardente oferecia o mundo infinito da erudição, da poesia e da arte!

E depois é necessario não esquecer que Leonor de Almeida tinha no passado um fantasma sanguinolento e trágico: o cadafalso de Belêm! Tinha no presente um pesadelo lúgubre a entenebrecer-lhe a existência, sempre que por um momento a abandonava a seu estranho sonambulismo de erudita e de poetisa: o cárcere em que o pai ia consumindo hora a hora a sua virilidade florente e bela! Tinha permanentemente a pairar como nuvem lúgubre e prenhe de tempestades essa incerteza do seu destino, êsse pavor do desconhecido, que o capricho e a tirania de um homem omnipotente podia transformar em eterna clausura rigorosa e inquebrantável[29].

Por isso, segundo mil vezes o repete, o estudo é a disciplina que ela impôs ao espírito para o furtar ao desespêro, é o seu alibi artificialmente inventado, com que ela se furta às visões tenebrosas que lhe enchem de angústia a mocidade.

Muito orgulhosa, muito viva, muito rica de energia e de fôrça espontânea, tendo uma destas organizações fadadas para o movimento, para a luta, para o desdobramento magnífico de maravilhosas faculdades complexas, ela sente quanto lhe é fácil sucumbir, logo que, defrontando com o seu próprio destino, o contemple face a face, na trágica realidade que o reveste.

E por isso foge de si própria, e por isso pede ao pai com eloqùência sentida, que a deixe estudar, ler, trabalhar, para não sofrer muito, para não cair vencida a meio do seu caminho áspero e duro!

«Minha mãe diz que sempre que abre os livros que v. ex.ᵃ sabe que eu tenho, lhes encontra uma blasfémia. É certo que o seu modo de falar (sic) que é inteiramente diverso da excessiva devoção de minha mãe pode produzir êste efeito. Emfim, eu que me limito sempre ao que v. ex.ᵃˢ podem querer, procuro modelar o horror desta melancólica inacção com a lição que me é permitida. Leio tôdas as manhãs Bourdaloue ou Fénélon, e depois disto história, poemas, lógica, metafísica. São as matérias de que gosto e creio que me são permitidos os livros em que me instruo, porque nenhum dêles deixa de ser nomeado por v. ex.ᵃ.

«A história natural faz as minhas delícias, e se v. ex.ᵃ me privar disto, seguro que me priva daquilo que mais me recreia. Concluindo, estou pronta para queimar mr. Buffon e todos os que me vierem à mão dessa espécie.»

O pai que é, como já dissemos, um homem de sólido bom senso, que tem a prudência dos pais, aguçada pela inteligência do meio em que a filha terá de viver, não desanima e continua a aconselhar!...

Uma vez, por exemplo, escreve-lhe depois de lhe falar largamente de um refutador de Voltaire, e a respeito das obras dêste:

«...Nisto é que me fundo, segundo o que alcança o meu entendimento, para pretender que tu não leias muitas obras de Voltaire. A maior parte são dignas de fogo, assim como o teem sido das censuras da Igreja, e por êsse motivo até as que não teem embaraço devem ser lidas com cautela. Êste autor é tido justamente pelo mais prejudicial que tem havido há muito tempo, por ser católico, e depois disto não tanto pela sua sabedoria como pela sua grande arte de falar. Com efeito não será fácil encontrar-se outra maior, mas ao mesmo tempo nem sei que houvesse nunca mais mal empregada, porque uma grande parte das suas obras, bem se pode dizer afoitamente que compreendem quanto há de pior na escola do deismo, do materialismo, do desafôro e da mais alta patifaria. Fala em diferentes lugares como nunca falou um infiel nem hereje contra a igreja romana. Procura sempre com o maior cuidado ocultar ou destruir quanto nela houver de edificativo, e exagera quanto pode o que se lhe tem visto de débil e humano. Essas coisas que a todos devem fazer horror, são muito nocivas aos juizos novos, vivos e femininos, e sem embargo de destituídas de provas, e às vezes opostas às mais leves luzes naturais, são ditas com expressões tão engenhosas que o demónio depara, e proferidas de um modo tão deliberado que fazem muitas vezes grande impressão, principalmente em quem for mais sensível à fôrça do consoante. Mas não é só Voltaire o autor pernicioso de quem tu deves ter cuidado de fugir; há outros, tambem modernos, de que te deves igualmente precatar, e contra os quais a lição de Bourdaloue e de Fénélon não é certamente preservativo bastante.

«O teu entendimento, tambêm podes ter a certeza que não basta, porque não houve até agora nenhum que fôsse livre de tentação e de ilusão; mas alêm disto a minha conta tambêm se funda em que muito maior será o proveito literário que vocês tirem dos livros que lhe não podem preverter o coração e o juizo, do que dêsses que, por conta da moda e de um apetite cego, se arriscam a resultar-lhe grande dano. No que toca a história natural ninguêm no mundo com razão a pode condenar. É das lições mais indiferentes que pode haver, mas sôbre a de mr. Buffon, e só no que respeita a anatomia, me parece que não convêm a uma pessoa do teu estado pela liberdade filosófica que tomou, etc.»[30] Ao que Leonor, já se vê, se submete na aparência. Logo, porêm, que o conflito se declara abertamente, ela ilude a vontade dos que a cercam ou lhe resiste com pertinácia invencível, embora envolta nas formas do mais cerimonioso respeito, da mais formal submissão.

É que rialmente sem êsse forte derivativo do estudo, que é nela uma idea fixa, seria incomportável o seu destino[31].

«Em vinte e dois anos que já conto não se acha paciência nem filosofia bastante para sofrer inalterávelmente tanto dano sem a esperança do futuro.»[32] «Estes dias (o dia dos anos da mãe) em que se renovam as memoráveis ideas que temos do passado, parece-me que trazem consigo um pêso formidável.»

E esta idea de distrair-se violentamente para esquecer, aparece mil vezes sob diversas formas, mas sempre expressa com sinceridade espontânea.

O seu temperamento, diz ela, é muito melancólico. «Quando estou divertida não sinto nada; quando rezo, e sou tão miserável que me não diverte isso nada, sofro infinitamente.»

—«O que me custa é considerar a nossa infelicidade. É ver preso, oprimido, pobre e tão distante a v. ex.ᵃ, é ver como se desbaratam tôdas as ideas de felicidade que minha mãe formou, e a impossibilidade que desgraçadamente tenho para poder desempenhar os meus desejos a benefício de meus pais. Estas são as causas das montanhas que tenho sôbre o peito, e dos meus desfalecimentos.»[33]

É contra esta tristeza medonha que a sua impressionável e ardente imaginação reage com insólita vivacidade. E sem afectação nem fingimento, assim como descreve ao pai as torturas que a pungem longe dêle, tambêm lhe narra as distracções com que ilude ou anestesia o seu sofrer.

Nas noites de inverno reùnem-se no quarto de uma. Cantam, dansam, dizem versos, falam em literatura, recitam poesias italianas.

Outras vezes há no convento exames dos respectivos estudos que teem versado.

Leonor, mais erudita e sisuda, dá conta dos primeiros oito séculos da história eclesiástica. (!) Maria, aquela doce e poética Maria que Filinto Elísio crismara em Daphne, como crismara Leonor em Alcipe, é examinada em poesia e em música!

Na eleição da abadessa acodem aos outeiros de Chelas, já celebrado por ter enclausuradas as duas lindas, discretas e infelizes filhas do marquês de Alorna, os poetas do tempo, os fidalgos tafuis parentes de ambas, os belos espíritos curiosos daquela estéril quadra literária, Garção, Filinto, etc.

E Leonor, alegre e vivaz, atira-lhe da janela para o pátio, em que se êles atropelam curiosos e ávidos de vê-las, os motes alambicados, os conceitos preciosos, ao estilo do tempo.

—Alcipe, venha mote!—clamam de baixo os vates freiráticos.

E Alcipe, e a irmã Daphne e a companheira Amaryllis (!) respondem infatigáveis, e as décimas chovem, entrelaçam-se os acrósticos, e o soneto desdobra-se monótono e falsamente majestoso, com o seu remate, que pretende ser conceituoso e que é banal, como tôda essa poesia dos outeiros e saraus poéticos do nosso século XVIII, tão vazio de pensamento e tão pobre de forma.

Um dos encantos com que Alcipe deslumbra o seu auditório consiste na memória prodigiosa que ela possue e que manifesta, repetindo a décima galanteadora ou o alambicado soneto, mal o seu autor acaba de improvisá-lo.

Há uma vibração de intensa alegria na descrição incorrecta, desordenada, sem relêvo plástico, mas cheia de vida, que Leonor faz ao pai dêsses dias de agitação, de festa, de comoção literária.

Vê-se que ela foi feita para brilhar, para gozar acremente e violentamente da vida,—não da vida feita pelos obscuros e ásperos deveres quotidianos, que dessa triunfam sómente os temperamentos contrários ao de Leonor de Almeida: os que aceitam as tarefas monótonas com resignação inquebrantável e o pêso do destino adverso com passiva tranqùilidade, os que sabem enfastiar-se com coragem e aborrecer-se com fleugma heróica;—mas da outra, da mais brilhante, que se compõe de dias felizes e noites vitoriosas, da que embriaga o espírito, da que excita perigosamente os sentidos, da que exalta em agudos espasmos a imaginação e a fantasia...

Leonor não tem, infelizmente para ela, os salões esplêndidos de uma côrte artística e literária como aqueles em que brilharam Vitória Colona ou Margarida de Navarra, madame de Lafayete ou a marquesa de Sévigné...

Não tem um centro de polida e graciosa conversação em que se toquem ao de leve, polvilhando-os de oiro, os assuntos mais fúteis e os mais áridos, os mais técnicos e os mais gerais, como aquele que, no seu tempo, em Paris se substituía à própria côrte de Versailles, e acabava por ofuscá-la absolutamente, aquele em que a parisiense, sua contemporânea, se vingava com brilho incomparável da longa obscuridade a que a mulher fôra condenada, no qual ela surgia envolvida nos mais subtis encantos da inteligência, e nas mais deslumbradoras pompas da beleza e da elegância, rainha voluptuosa de um mundo que a arte iluminava com a sua luz azul, que a literatura impregnava do seu capitoso encanto, e onde até a filosofia se fazia ligeira, acessível e risonha para que ela a assimilasse, a propagasse, a compreendesse e lhe rendesse culto.[34]

E emquanto lá fora a apoteose da mulher se celebra magnificamente, ostentosamente, no meio do requintado luxo de uma época de sensualismo espiritualizado—é muito obscuramente, no ridículo outeiro de um convento do extremo da península, que esta criatura, feita para brilhar na mais ampla e mais elevada esfera, se deleita em mostrar o seu inquieto espírito, borboleta embriagada pelo néctar de uma falsa poesia.

¿Mas que importa o scenário, se ela o transfigurara com a sua imaginação de chama? ¿Se ela o enfeita com tôdas as pompas de seu espírito de sonhadora? ¿Se ela consegue ali conhecer o intenso gôzo de ser admirada, de todos o mais forte, o mais entontecedor para certos organismos de excepção?

Numa das oito noites consagradas à festa da eleição Leonor representa com Maria de Almeida, sua irmã, algumas scenas da tragédia de Racine Atália. Atália é Maria de Almeida. Eis como ela a descreve:

—«A mana ficou linda. Estava de donaire[35] com um vestido de uma espécie de velilho que se usa agora (porque a pragmática vai-se profanando fortemente), com o fundo côr de rosa e prata, com listas negras para fazer a rainha viúva, um véu do tal velilho branco e prata, penteadas de plumas côr de rosa e negras.

«Eu ia vestida de um velilho azul claro e prata, com listas azul ferrete, que é a côr que me fica melhor. O meu vestido foi copiado de uma estampa do sumo sacerdote, e tinha barbas que me chegavam à cintura.»[36]

Depois desta grave tragédia racineana, houve ainda um intermédio jocoso em que Leonor reaparece vestida de frialeira[37], com gibão côr de rosa e prata, mantéu verde e saia arregaçada, côr de rosa, branca, côr de fogo e prata[38].

No baile que se seguiu à representação, tôdas as noviças de Chelas queriam dansar com as duas irmãs. É que elas são de-veras lindas e deliciosas de espírito, graça, gentileza e veia cómica. Leonor com o seu belo rosto altivo, de uma correcção que não exclue o mimo, a bôca finamente e espirituosamente recortada numa linha rubra e sinuosa, o cabelo opulentíssimo que se levanta nos voluptuosos penteados do tempo, ou que se espraia em ondas pelas espáduas esculturais, inspirando à irmã versos entusiastas[39]; Maria, mais pálida, mais melancólica, de olhar estranho e doce, e cuja voz celebrada por Filinto[40] é a delícia dos serões de Chelas, como será mais tarde a delícia dos saraus aristocráticos de Lisboa, onde ela aparecerá envolta no misterioso véu de etérea graça com que se cobrem aquelas que a morte tem de colher em flor!...


No dia dos anos do pai, mesmo preso e distante como está, da mãe doente e triste, ou de qualquer das duas irmãs, há festa em Chelas para obedecer ao tradicional costume antigo, cuja memória não deve quebrar-se.

A iniciativa engenhosa de Leonor é que faz tudo. De dia vai ela para a cozinha, arregaça as mangas, põe a nú os seus braços de deusa de uma plástica impecável e de uma brancura lirial, e rola as finas massas, e bate as alvas espumas, e manipula os saborosos cozinhados e faz ela própria o jantar com a elegante majestade com que lavavam roupa as princesas de Homero. Depois, findos os trabalhos grosseiros do dia, vestem ambas belos vestidos de setim côr de laranja ou côr de rosa que elas próprias cortaram e fizeram, de que inventaram ou executaram os bordados ou as rendas, e convidando alguma amiga preferida, ou mesmo descendo ao locutório e recebendo algum amigo dilecto, partilham com êles do seu pequenino banquete. Á noite dansam, cantam, tocam, riem até que o uso conventual as obrigue ao sossêgo da noite.

Quanta vitalidade, que poderoso optimismo bebido nas suas belas e pacificadoras leituras, as filhas de Alorna não manifestam nesta reacção contra a injusta fortuna e o bárbaro destino!

Não são lânguidas heroínas de um romantismo bastardo, são duas organizações perfeitas, de pronta e viva sensibilidade, tão acessíveis à dor como ao prazer, tão capazes de sofrerem com violência como de gozarem com arrebatamento.

No meio da sua miséria, das suas iniqùidades, da tirania negra que pesava sôbre as almas e sôbre os corpos, da superstição que nublava os horizontes, era optimista e forte o século XVIII; e os seus filhos não teriam obrado tão altas maravilhas, se a vontade fôsse nêles amolecida e doente como nos seus descendentes miseráveis! A sensiblerie começava, é certo, a ser moda em França, e a formular-se em livros, em tratados filosóficos, em tiradas trágicas, em quadros simbólicos, etc., etc. Mas a emotividade vibrante, estranha doença moderna, que nos faz tão fracos, tão susceptíveis, de um melindre tão mórbido ante as próprias dores e as alheias, não existia ainda. Foi o produto de uma lenta evolução que então começava. Os defeitos grandíssimos e as grandíssimas qualidades de que o passado se reveste aos nossos olhos, vem justamente dessa ausência quási absoluta de sentimentalismo e de ternura.

É isto que o faz ao mesmo tempo duro como o granito e resistente e forte como êle. Despreza a vida humana, é verdade; mas não se enternece diante das suas próprias dores, o que é um grande bem e quási que uma virtude.

Ás grades de Chelas acodem os amigos mais queridos da família de Alorna. Garção é um dêles[41], e Filinto Elísio é outro. Nas obras do erudito escritor e nas da futura Marquesa de Alorna encontram-se as poesias que entre si trocavam os dois. Uma vez doente, e julgando-se perto da morte, Leonor consagra a

Francisco Manuel do Nascimento um soneto, que ela apelida ao terminá-lo:

Do rouco cisne a voz talvez extrema[42].

É Filinto quem lhe pôs o nome poético de Alcipe que ela nunca mais deixou de usar nos seus versos. A amiga mais querida, é, como já dissemos, a condessa de Vimieiro, D. Tereza de Melo Breiner, a autora da Osmia, e irmã de Pedro de Melo Breiner, tambêm grande amigo das enclausuradas senhoras. Tamagnini, o conde dos Arcos, Pedro Inácio Quintela, administrador da casa de Alorna, Frei Alexandre da Silva, depois bispo de Malaca, eis os outros amigos a quem, na truncada mas preciosa correspondência que a Marquesa de Fronteira nos confiou, Leonor de Almeida se refere com mais freqùência.

Não é natural que fôssem muito mais numerosos os seus visitantes do tempo em que estar fora da privança de el-rei e do primeiro ministro constituía um crime, quanto mais viver sob o permanente castigo que ambos teimavam em infligir a esta família desventurada.

Os dezoito anos de cativeiro de Leonor não teem, pois, peripécias interessantes ou dramáticas. Os únicos acontecimentos desta existência conventual, monótona e triste, é dentro do espírito da nossa heroína que temos de os procurar. Teem um interêsse de psicologia, não teem nenhum outro. O corpo dela, preso dentro das grades de um convento, não pode sequer mover-se para alcançar a saúde que naquele meio asfixiante a ia de todo abandonando.[43]

Mas nunca o seu espírito repousa, pois que mil problemas das mais diversas ordens e procedências se movem e agitam dentro dêle.

Um dêsses problemas, o mais sério para uma consciência sincera e lúcida daquela época, era o religioso. Leonor de Almeida que, com o volver dos anos, se fêz estreitamente devota e intransigentemente aristocrática, era áquele tempo ledora assídua da enciclopédia, das obras de Alembert, Diderot, Helvetius, Rousseau, etc., etc. Muita vez ilude e torneia a dificuldade de conciliar esta leitura com as ordens expressas que tem do pai, apresentando só um lado das doutrinas em que se embebe, ou um aspecto dos livros que quotidianamente folheia, mas é de ver que num espírito de mulher, acessível às influências externas—e sempre espêlho que reflecte e não luz que irradia—estas leituras aturadas haviam de produzir o seu efeito natural.

Nesta fase activa e interessante da sua vida espiritual, Leonor partilha com muitos espíritos do seu século, educados na tradição católica, uma doce e simpática ilusão.

Ela pretende conciliar o racionalismo filosófico com a religião bebida na infância. Quer amar um Deus corrigido pela razão, uma religião mondada de superstição e de abusos, uma Bíblia que Voltaire houvesse préviamente aprovado, um evangelho em que o Vicaire Savoyard não encontrasse crítica alguma que apontar.

A sã filosofia, que estava então no seu fulgurante início, patrocinada pelos reis, pelos príncipes, pelos bispos e pelos grandes, não fôra ainda levada ao seu têrmo lógico por Saint-Just e Robespierre... A velha sociedade julgava possível subsistir, inteira, hierárquica, em pleno gôzo dos seus preconceitos, riquezas, privilégios e excepções, desmoronados ao vento da ironia voltaireana, os alicerces seculares em que assentava o seu domínio positivo.

Não admira que uma criança inteligente e sonhadora, tendo tido ocasião de perceber a baixeza moral a que a superstição levara êste país, tivesse a mesma ilusão que então deslumbrava tantos entendimentos luminosos...

Leonor sentia-se permanentemente sob a censura disfarçada ou clara dos que mais íntimamente privavam com ela. O próprio pai, esclarecido como era, sentia mêdo ao perceber os assomos de independência espiritual, que ela deixava transparecer nos conceitos, e naturalmente derivava de cada uma das suas leituras.

Vejâmos as cartas com que Leonor respondia às observações prudentes e cautelosas dêste amigo do seu coração, com o seu espírito melhor se entendia.

«Eu li muitas vezes as Reflexões de mr. de Bossuet, li parte da obra de l’Abbadie, que me fatigou, mas que tornarei a ler com mais gôsto. Fora disto tenho lido quanto achei a favor da religião, com desejo de fortificar a doutrina com que me criaram. Agora há muito tempo que me privo dessas leituras, de propósito, julgando que uma coisa superior a tôdas as razões humanas escusa delas; e tratando de nutrir o meu coração de virtudes que teem por fundamento esta crença, cultivo o entendimento com os conhecimentos próprios para um génio curioso, sem esperar daqui mais fruto que o de livrar-me da ociosidade e arruinar de alguma sorte a fôrça da melancolia.

«Jámais entrou nos motivos da minha aplicação algum espírito de singularidade e uma vaidade gentílica como v. ex.ᵃ lhe chama, incompatível com a modéstia de que desejo animar as minhas acções. Gosto de saber quanto cabe nas minhas fôrças, mas antes quero ser ignorante do que indócil.»[44]

E noutra carta sôbre o mesmo assunto a que volta freqùentemente, revelando bem a importância que êle tem para o marquês de Alorna, solícito conselheiro de sua filha, e talvez, como é natural do seu sexo, do seu tempo e da sua raça, um pouco aterrado ante uma superioridade feminina, a que êle não percebe aplicação prática de espécie alguma:

«Sôbre Voltaire não acho que dizer, porque v. ex.ᵃ entende da matéria melhor do que eu. Sôbre a controvérsia sou proìbida a falar por todos os princípios, e até devo a S. Paulo a obrigação de me escusar o meu parecer absolutamente. Contudo êle é reputado como um grande filósofo e como o assombro dêste século. Eu me lastimo dos seus erros, mas não posso deixar de confessar a v. ex.ᵃ que me vieram as lágrimas aos olhos quando vi que v. ex.ᵃ lhe dava sentença de queima! De que servem homens queimados, meu querido pai? Por ventura reconhecem êles a verdade na fogueira? Não é Deus só quem deve pôr têrmo aos nossos dias? Se Deus sofre os homens miseráveis sôbre a terra, que direito teem os homens para os não sofrer? Eu conheço que v. ex.ᵃ tem muita virtude e muito juizo para decidir bem, mas eu que son mulher, com o coração muito pequeno, quando se fala em matar sempre me aflijo pelo sentenciado, seja quem for. Não está mais na minha mão!

«Deus terá piedade da minha fraqueza se não é boa, em conseqùência do preceito—de amar o próximo como a mim mesma;—queira Deus que eu não diga alguma tolice que desagrade a v. ex.ᵃ, mas copiei o meu sentimento, e disfarçá-lo parecer-me ia pior».[45]

Êste trecho é de uma incomparável nobreza e até de uma simplicidade eloqùente e sentida, bem rara no estilo de Leonor de Almeida e da geração sua contemporânea em Portugal. Bastava êle para justificar o que no anterior capítulo escrevemos sôbre a concepção errada e cruel que acêrca da justiça havia naquele tempo entre nós, até nos espíritos mais cultos.

O marquês de Alorna tem direito a ser contado entre um dêles, e no entanto, de ânimo leve, numa carta à filha escrita do cárcere, onde agonizou dezoito anos, vítima da prepotência régia e da justiça da lei, vê-se que êle condena à pena de queima êsse Voltaire que defendeu Calas, e que fêz ouvir a sua voz eloqùente e viva, a sua voz que tinha asas e asas de fogo, em prol de tôdas as vítimas da iniqùidade humana, da iniqùidade social, da iniqùidade religiosa!

Tão pouco preço se dava então à vida do homem e ao seu sofrimento. Tão impiedosa e dura era a alma em que a superstição imprimira a sua negra influência, e que a tirania criara aos seus peitos de fera! The milk of human kindness, êsse leite da bondade humana, de que fala o poeta inglês, não corria certamente nas veias dos nossos maiores. Foi êste século que melhor do que tudo o sentiu, o criou, o fêz jorrar em mananciais permanentes da alma da humanidade, amolecida por tantas dores!... É bem verdade, e já aqui mesmo o repetimos, que pagámos com uma porção de energia êsse acrescentamento das nossas faculdades afectivas; mas abençoado o contrato que nos fêz bons, muito embora nos deixasse mais fracos...

A questão religiosa vê-se que é, a par de outras que teem relação com a sua superioridade literária, a origem de maiores tormentos para o espírito de Leonor de Almeida. É tão curiosa esta fase da sua vida íntima, que não resistimos a transcrever algumas das cartas que mais a esclarecem:

«Vou-me restabelecendo com os esforços da medicina e da filosofia; uma sem outra me seriam inúteis. Leio moderadamente, porque assim o preciso para viver, e apenas largo os livros não acho em redor de mim senão contradições que me tiranizam. A verdade e v. ex.ᵃ, que são os objectos que me obrigam a estudar, são quem me consola das perdas que faço, talvez, na opinião dos outros. A maior parte das pessoas com quem falo estão sempre de parecer contrário ao meu, e aquelas que concordam comigo ou não m’o confessam ou são tambêm vítimas dos caprichos dos outros. As sciências são um nome vago, insignificante, e elas em si mesmas são reputadas como um meio de ostentação; os melhores entendem que elas servem como um meio para saber argumentar, e não lhe vêem o fim com que eu as olho, de nos procurarem a felicidade e regularem os costumes. Ontem tive vários argumentos com o confessor de minha mãe, que sendo homem de infinito propósito e bom coração, está entestado das ideas vulgares a respeito dos filósofos modernos, e não admite absolutamente nenhum princípio honesto na aplicação fora, do que serve únicamente para a salvação eterna. Tudo inutiliza. Chama à poesia sciência de pagãos, à matemática sciência de loucos, à física meio de estabelecer nova religião; emfim prognostica que daqui a dez anos seguramente haverá alguma seita ou uma total transtornação do cristianismo. Esforcei-me inútilmente para provar que os filósofos, ainda que erravam em muita cousa, não eram, contudo, incompatíveis com o cristianismo sublime. E que a natureza que êles profundavam, era aquela obra magnífica, que mais que tôdas provava a existência de Deus, que êles olhavam com respeito as suas leis, de que Deus era o autor, e que Jesus Cristo não veio senão aperfeiçoar. Inexorável a tôdas as conseqùências que eu tirava dêstes princípios tão verdadeiros, recorreu ao ordinário meio dos que teem sistema e não teem razão, encheu de nomes injuriosos os escritores mais célebres dêste século e às injurias e gestos apostólicos deu o valor de convicções. Pretendia tirar argumentos contra Newton e outros herejes da sua irreligião, e nunca pôde admitir o princípio de que em matéria scientífica vale mais o dito de um sábio hereje, do que o de um santo ignorante.

«Eis aqui os homens de mais juizo e de maiores luzes que por cá temos!

«Eu que não quero, nem levemente, afastar-me da sujeição que devo à Igreja e às ideas de meus pais, quero que v. ex.ᵃ me diga o que crê a respeito dêstes pontos, em que os argumentos caíram, e que minha mãe não pode decidir, porque não estudou nem ao menos leu nada sôbre estas matérias. Sendo a minha razão livre como tôdas, a natureza e a ternura me persuadem que só admita o que meu pai admitir.

«Disse eu que a conquista da América tinha sido um atentado contra a espécie humana, porque a conversão daqueles povos devia ser menos obra de cães de fila, espada e artilharia espanhola, que da razão e da brandura; que Maomet persuadira a mentira com ferro e fogo, e Jesus Cristo a verdade por meio da sua cruz e da missão dos seus apóstolos; que não havia direito nenhum que permitisse tirarem-se as terras a seus próprios donos, para se darem aos tiranos que as conquistaram. E que a bula em que se fazia aos americanos a honra de os admitir na espécie humana era escusada, porque êles antes disso já eram homens. Diziam-me que devo crer que tudo isso foram obras meritórias.

«Os homens que se sacrificam por princípios de religião fazem-me lembrar os sacrifícios de Osiris, de Saturno, de Hércules, de Marte, e tanto fanatismo me parece uma coisa como outra.

«Não me absolveu o confessor porque eu lhe disse isto, e o de minha mãe, a quem fui falar para me dizer os termos em que havia de ficar para me absolverem, disse mil arengas, das quais vim a coligir que êle, no fundo, estava nos meus princípios, e que o não queria confessar para o não levarem ao santo ofício.

«Eu, que não tenho mêdo do santo ofício, como não tenho mêdo da sem-razão e dos erros, quero saber se hei de mudar de opinião, porque o confessor me reservou a absolvição até minha total emenda. O pecado que eu confessava era o de ter dito diante de pessoas menos aplicadas o meu sentimento nestas matérias.

«Lembrando-me ao mesmo tempo o texto de S. Paulo, em que nos recomenda não escandalizar os fracos; esta imprudência me atraíu tôda esta arenga que me tem aborrecido, porque quanto mais medito menos saída lhe acho. Os confessores são quási todos ignorantes e gente a quem nunca exporei as minhas dúvidas.

«Torquemada e outros inquisidores são no meu conceito Nero e Calígula, Cromwell[46] e outros monstros dêstes.

«Isto dizem que é pecado; será, mas é de razão e de piedade! V. ex.ᵃ é meu pai, tem mais sciência que os frades, e tem-me mais amor, para desejar o meu verdadeiro bem. Prouvera a Deus que me podesse confessar, escusava-me o trabalho de aturar estes piedosos preocupados, ignorantes e fanat... êste nome é proìbido. Perdôe-me v. ex.ᵃ enfadá-lo com estas impertinências, mas só com v. ex.ᵃ é que me entendo, meu querido pai.

«Disse eu que todos os filósofos assentaram que a terra se movia; dizem-me que eu disse uma blasfémia, porque Copernico foi condenado e Galileu obrigado a desdizer-se.

«Disse que o clima era origem da côr negra nos homens, e que a povoação da América era um mistério incompreensível, e provei estas duas proposições. Responderam-me que a maldição de Cham e não viagens imaginárias eram a solução. Tudo isto é ridículo para quem tem lido como eu, e o partido de calar-me que eu tomo há muito tempo, se basta para tranqùilizar-me aparentemente, consterna-me porque receio que minha mãe apreenda alguma coisa que a aflija, e assim tome v. ex.ᵃ o trabalho de a tranqùilizar sôbre os meus princípios, e de dizer o que quer que eu faça. Tôdas estas coisas compadeço eu com a pureza do cristianismo. Eu olho para o evangelho e para os apóstolos como meus mestres, tudo quanto os contradiz não admito, e a Igreja nossa mãe a respeito e a olho com a mais submissa veneração. Contudo os homens são sempre homens, e assim os considero. Se eu podesse escrever quanto me lembra, v. ex.ᵃ veria que abomino as questões, e que a docilidade é o que mais me agrada. Porêm, cada um dá diversa interpretação aos termos em que argumento, e quando digo razão, verdade, amor da ordem, entendem-me sistema, ensino e transtornação; neste têrmo sofrerei eternamente um martírio quási incomportável...»[47]

Esta carta dá-nos em flagrante realidade a luta que nesse tempo se tratava em muitas almas piedosas e elevadas, que compreendendo a pureza inefável do cristianismo, e vendo-o interpretado por um sacerdócio ou fanático até à loucura, ou ignorante até à sordidez boçal, não sabiam conciliar contradições tão violentas como afligidoras.

Leonor de Almeida não conta senão os combates de consciência de uma pobre mulher isolada, talvez um pouco puérilmente vaidosa da sua incompleta sciência, bebida em leituras truncadas, sem método e sem guia; mas que eloqùência sublime tem essa luta obscura quando a relacionamos com tudo que a consciência humana tem sofrido para se resgatar do cativeiro em que jazeu presa longos séculos! Com que piedosa ternura, nós as almas libertas dêste tempo, devemos contemplar os que padeceram suplícios sem conto para que a verdade relativa que hoje é nossa posse atingisse emfim a sua alforria e o seu império! Quantos mártires expiaram em fogueiras, em húmidas masmorras infectas, em morticínios crudelíssimos, em hecatombes abomináveis, a aspiração que tiveram à liberdade da sua consciência, à integridade do seu pensamento, à expansão inteira da sua independência mental! E os que tinham nascido nobres e francos e sinceros, e se corromperam e degradaram rastejando na sombra corrupta da hipocrisia e da mentira, porque lhes faltava a heroicidade com que se afronta o martírio, ou porque os amolecia a sensibilidade estranha dos que sentem a própria vida identificada a outras vidas?!

E os que sofreram como Leonor a luta ingente, a luta dolorosa entre as doutrinas bebidas no leite maternal, sugeridas com infinito amor por lábios de mel e olhos de inefável brandura, e sentiram irromper da lição dos livros ou da observação dos factos, ou da lógica triunfante do espírito reflectido e lúcido, a verdade que não pode ser nem desmentida nem dominada, a verdade que baptiza como água lustral, que queima como o fogo do céu, que pulveriza como raio destruindo os edifícios erguidos pelos sofismas da hipocrisia ou pela imaginação ignara das multidões?!

É grande, é imensa a dívida que contraímos com êsses que sofreram para que nós conhecêssemos a tranqùila beatitude e a serêna alegria da consciência libertada!

E não são pueris as queixas de Leonor logo que nos lembrarmos que para pensar livremente, tudo que então valia um pouco em Portugal ou teve de fugir, ou teve de degradar-se pela mentira!

Filinto, Ribeiro Sanches, Garção, Bocage, José Anastácio da Cunha, e tantos e tantos outros lá estão a provar que o receio do confessor pusilâmine não era uma desculpa vã!

E no entanto devemos confessar que quem estava na lógica da sua crença eram os que discutiam acremente com a juvenil livre-pensadora de Chelas!

Não havia conciliação possível entre o velho e o novo credo.

Não se tratava do evangelho livremente comentado pelo espírito individual, tratava-se da Igreja, poder político e poder social, ao mesmo tempo que era poder religioso, e cujos dogmas definidos, rigorosamente formulados, por um clero que, depositário da verdade, a tinha traído em benefício dos seus interesses, formava hoje um corpo que ou havia de triunfar inteiro ou inteiro caír.

O confessor da marquesa de Alorna, profetizando para dali a alguns anos o cataclismo supremo em que a velha sociedade se afundasse, revelava um tino, uma previdência e uma penetração bem raras no clero português daquela época, e muito superior, em todo o caso, à filosofia optimista e à incoerência anti-católica da sua contendora juvenil.

Com certeza que a esta carta comovedora, escrita ao pai, e que é como a confissão palpitante de uma alma sincera, e que busca entre agonias a verdade e a luz, o marquês, mais lógico consigo próprio e com a educação que lhe tinha modelado e formado a inteligência, respondeu pondo-se francamente do lado da autoridade e da tradição contra a indisciplina da filha e a vaidade gentílica do seu entendimento.

Mas não se limitou a esta escaramuça entre ela e os dois confessores a inquietação da consciência de Leonor.

A amiga Tereza de Melo Breiner escreveu-lhe, lamentando a sua índocilidade aos conselhos da Igreja, e mais de uma vez ou a chistosa ironia ou a grave reflexão de Leonor dá lugar a conflitos entre ela e a mãe, ou a amiga, ou os frades que a cercam.

A erudita reclusa conhece os textos dos doutores, as opiniões de S. Paulo, de Santo Agostinho, de Tertuliano, as conclusões dos concílios, as matérias sôbre que versam as diversas bulas, e confunde não raro os seus adversários, mostrando-se muito mais instruída do que êles nos assuntos que debatem em perpétuas controvérsias.

Mais uma carta sôbre o mesmo assunto, e com respeito à condessa do Vimeiro: «Já vejo que v. ex.ᵃ tem curiosidade sôbre o que diz Tirce[48] a respeito dos filósofos. Na realidade, esta estimável amiga, o único defeito que tem é a tenacidade em certos pontos, e persuadida uma vez de que a filosofia era o móvel das minhas acções, independente de outros princípios mais sagrados, é impossível arrancar-lhe dos miolos esta preocupação. Na carta que há mais tempo me escreveu e a que deu origem a graça de D. Alexandre[49], discutia largamente êsses pontos, e eu dei a resposta que então me pareceu razoável e digna de mim e dela... A consideração que eu faço dos inferiores, o desprêzo das acções más cometidas por fidalgos, o ódio à injustiça e a contradição que isto tem com o sistema de certa fidalguia ridícula que governa o mundo, são pontos críticos, e quem vê por outro modo as coisas não me dá as desculpas, nem a razão que eu mereço. Tirce (condessa de Vimeiro), que é uma santa, parece-lhe muito a propósito que tôdas as coisas vão adubadas de frases místicas,—eu que amo a religião e que a respeito muito para introduzi-la a torto e a direito, e que tudo nesta parte que pode parecer uma afectação me aborrece muito, emquanto tenho razão não cito livros santos. Como não sou hereje, nem tenho tentações contra a fé, escuso de fazer a minha protestação a cada instante, contentando-me com cativar o coração com as verdades do evangelho sem dar nisso contas a ninguêm. Agradam-me as coisas como são e prescindo de exterioridades equívocas. Tirce tem tido por isto uma grande inquietação, querendo quási para seu sossêgo, que eu lhe reze o credo em cada carta. O meu génio já v. ex.ᵃ o conhece e não é para ceder senão à ternura. A razão alheia é como a minha, e por isso não me desvio do que julgo bem feito por motivo nenhum. Escrevi a primeira carta na qual, sem abaixar o meu estilo a condescendências aborrecíveis, cuidei de explicar-me segundo o sistema da nossa santa religião, nos termos mais simples que me foi possível, e na boa intenção de tranqùilizar a minha querida amiga e de salvar-me da idea injuriosa que talvez ela tenha da minha submissão aos filósofos. Falei com uma pessoa instruída, e desafio S. Paulo para que ache na minha carta uma palavra condenável. Que efeito teve? Nenhum.

«Ficou Tirce como dantes, porêm calada. Torna outra vez a entender comigo, e verá v. ex.ᵃ pelas minhas cartas com que fundamento. Eu quási que estou tomando o partido de me calar. Na última carta dizia coisas muito mais cristãs que em nenhuma das que remeto a v. ex.ᵃ, mas estou certa que não há de bastar cousa nenhuma.»

Mas não é sómente a sua leitura dos filósofos e enciclopedistas, de Alembert, a quem ela chama o carácter mais amável[50], de Voltaire, que ela considera o maior dos homens do século[51], de Rousseau, o genio filósofo o mais raro e o mais estranho[52], de Diderot, menos encantador que de Alembert, mas tão estimável como êle[53]; não é sómente a sua intimidade com os grandes escritores do tempo que a põe em antagonismo permanente com o seu meio.

É tambêm na sua qualidade de poetisa, de mulher de letras, bicho raro para a época, que de todo se esquecera ou de todo ignorava que tivesse havido no século XVI uma floração encantadora de latinistas, de eruditas e de literatas em tôrno da poética figura da princesa D. Maria, nessa côrte de D. Manoel, que foi umas das mais brilhantes da Renascença. O talento feminino foi sempre para o homem de tôdas as épocas e de tôdas as nações uma anomalia repugnante, uma monstruosidade inquietadora.

O talento, que é quási sempre o exagêro esplêndido de uma faculdade da imaginação ou de uma espécie da sensibilidade, não se contenta fácilmente com a obscuridade da vida doméstica.

Na transformação completa que a democracia imprimiu à sociedade moderna, o talento da mulher, se é de escritora ou de artista, pode tomar a forma especial de um produto cotado no mercado como outro qualquer, e sendo assim hoje, o homem inteligente e ilustrado, se não aplaude a mulher que trabalha pelo cérebro, chega ao menos a compreender que o tolher-lhe o direito de trabalhar seria um criminoso abuso da sua fôrça.

Na Inglaterra contemporânea centenas de mulheres escampam à miséria e à perdição pelo trabalho. São romancistas, são jornalistas, escrevem nas Revistas, colaboram em publicações especiais, publicam relações de viagens, monagrafias de sciência ou de arte, pequenos tratados de economia doméstica, etc. A França do século XIX conta entre os seus mais altos espíritos e mais robustos escritores duas mulheres, uma das quais ganhou com a pena manejada pela sua pequena mão nervosa a quantia modesta, mas apetecível de um milhão!

Basta para emmudecer a vaidosa prosápia de qualquer burguês desdenhoso da actualidade esta cifra, e a apresentação daqueles factos incontestáveis.

Mas o Portugal do século XVIII, que a mão poderosa de Pombal tentava em vão arrancar ao mais abjecto obscurantismo, à mais completa inanidade mental, e que apenas sob êste valente impulso dava alguns sinais de galvanizada energia nas indústrias práticas, nas sciências positivas, o Portugal sem poesia, sem arte, sem elegância mundana, o Portugal dos fidalgos analfabetos e arruaceiros, dos gordos capelães hipócritas e devassos, dos parasitas, dos bobos, das velhas condessas beatas que expiavam a banhos de água benta os pecados galantes da mocidade, o Portugal em que soou o riso de Tolentino degradante e cómico, de que Filinto fugiu assombrado, em que Bocage não achou lugar, e onde êle chorou e blasfemou até morrer de libertinagem, de tédio e de agonia, o Portugal asfixiante e meio bárbaro do tempo não tinha lugar que oferecesse a uma mulher escritora, a uma mulher de talento superior e de alto e desanuviado critério.

O seu meio ou havia de escorraçá-la a golpes de grosseiro escárneo, ou havia de imporse-lhe, calando-a, humilhando-a, vencendo-a.

Percebiam isto muitos dos que a cercavam. Percebia-o a própria Leonor, e como é seu hábito, hábito encantador e que enternece como uma flor azul, nascida entre as fendas de uma agreste rocha—não é a doçura a faculdade predominante dêste temperamento—é ao pai que ela confessa mais êste conflito do seu destino.

Ouçamos o que numa carta lhe diz:

«Depois de ter estudado, como v. ex.ᵃ sabe e com o fim único da minha felicidade, formei um pequeno plano para as minhas acções, que sendo conforme com as intenções dos meus queridos pais, eu podesse contentar-me tambêm e praticá-lo livremente. Meditei as minhas obrigações a respeito de Deus, da sociedade, de mim mesma; avaliei quanto me era possível, o estado do mundo, e principalmente o da minha terra, e resultou daqui assentar fixamente que eu não podia ter uma hora de sossêgo, se me lembrasse um só dia de escrever para o público. Que a êste só serviam verdades disfarçadas ou mentiras positivas, que a liberdade (ídolo do meu entendimento) seria uma vítima infeliz das máximas estranhas da minha terra, e que se queria ter fortuna com ela servisse o jugo da opinião pôsto pelas tôlas de idade, pelas ignorantes de título, e por outros indivíduos semelhantes, a que eu chamo em segrêdo baixa plebe.

«Cuidei de distinguir bastantemente o carácter das pessoas com quem falo, e com quem estabeleço muito acauteladamente as minhas relações literárias, debaixo da inspecção adorável da minha querida mãe. Assentei que o número havia de ser muito pequeno e com efeito o é. Mas fixo êste, tudo aquilo que não contradiz a idea que eu tenho da virtude e da felicidade, que são para mim o mesmo, livremente o pratico e com isso me recreio. Assentando fixamente que os meus versos não encontram o parecer de nenhuma das pessoas a quem os mostro, de quem quero o prémio, ora os dirijo a um, ora a outro dos três amigos nossos que me entendem; e gosto de o fazer assim, porque me agradam os ingleses bons e os alemães, onde vejo êste método estabelecido, como um meio para facilitar e acender mais a imaginação. O gôsto da moralidade tambêm me persuade a isto, porque fácilmente se oferecem reflexões, supondo que alguem me escuta do que falando só. Parece-me alêm disto que o meu trabalho não é uma honra, nem uma lisonja que faço áqueles homens, mas sómente um sinal da minha gratidão pelo que êles contribuem para o meu adiantamento com as suas conversações, com os seus livros, e com a emulação que me dão com as suas obras. Nenhum dêles estima essas coisas vãs que só teem valor entre os que sabem pouco. Filinto é um carácter original para a nossa terra. Conhece bem que a felicidade está em si, que lhe não vem dar honras que lhe fazem os fidalgos, não os distingue senão pela virtude ou pelos talentos. É um filósofo incapaz de sujeitar-se a lisonjas, nem de gabar-se das que recebe. V. ex.ᵃ o conhecerá, e verá que dista muito da idea que v. ex.ᵃ forma. Neste têrmo, achando, quási de portas a dentro, quanto era necessário para me ocupar agradávelmente para aqui é que escrevo, não quero que me leia ninguêm que possa reparar no que digo, porque quero falar o que entendo e o que me inspiram a razão e a virtude.»[54]

Descontando no que a fraseologia do tempo tem de especial, de affectado—e é isto justamente que imprime data—vê-se que os sentimentos de Leonor estão a par do que mais elevado e nobre havia no século. Não aceita da crença em que a educaram senão a puríssima moral e a requintada essência evangélica; dos preconceitos sociais que bebeu com o leite destaca lúcidamente tudo que há nêles de exagerado e iníquo.

Nós que fomos educados sob um regímen absolutamente oposto ao que naquela época reinava, só pelo raciocínio conseguiremos dar um verdadeiro aprêço a esta independência de um espírito de mulher, que a tirania das ideas e a dos costumes não logrou acobardar, nem vencer.

De uma das fantasias mais simpáticas do romanesco espírito de Leonor encontramos na correspondência inédita vários documentos.

Imaginou dirigir-se a Luís XV, a Voltaire, a diversos personagens influentes da côrte de França e interessá-los pela causa de seu pai. Não podemos afirmar que as cartas atingissem o seu destino, ou mesmo que elas chegassem a ser enviadas áqueles a quem são dirigidas, mas não resistimos à tentação de transcrever alguns trechos dos rascunhos encontrados. Aqui estão em primeiro lugar passagens da carta dirigida a Luís XV. O francês é defeituoso. Hoje, qualquer rapariga educada pelos novos métodos, escrevia mais correctamente. Mas que entusiasmo pelos seus essas cartas traduzem!

«Sire. Avec le plus profond respect, avec la plus douce espérance dans ces vertus qui ont acquis à Votre Magesté le glorieux titre de Bien aimé si propre à faire la douce attente des malheureux, je viens oh grand roi, faire retentir mes plaints devant votre trône auguste...

«Une malheureuse fille de vingt deux ans, vous demande, Sire, avec des larmes, la protection pour un père et une famille que pendant l’espace de quatorze ans ont épuisé tout l’horreur du destin le plus rigoureux...

«Je suis prisionière depuis l’âge de huit ans avec ma mère et ma sœur. Dans le temps où je commençais à goûter le délicieux plaisir d’être au sein de ma famille, je fus arrachée des bras paternels; je vis traîner mon malheureux père dans un afreux cachot.

«Les frères, la mère, le père de celle qui m’a donné le jour, deux oncles, je les ai vue tous expirer dans le plus honteux tourment.

«Mon cœur affligé par ces blessures qui saignent toujours a nourri dans le malheur les précieuses connaissances des biens qu’on m’enleva. Chaque jour m’apporte un nouveau trait, chaque instant où je considère ma famille avec les marques honteuses de l’infidélité, tout mon sang bouillonne, je me sens mourir avec les désirs impuissants de faire voir l’innocence et l’honneur de ceux qui me l’ont fait connaître dès le berceau.»

Não é menos interessante nem menos romanesca nos intuitos a carta a Voltaire do que a carta dirigida a Luís XV por intervenção de um dos seus ministros.

Ao rei de França Leonor pedia a intercessão poderosa junto dos poderes da terra para libertar seu pai. A Voltaire ela pede a rectificação de apreciações que mais tarde lançarão a sombra de uma negra suspeita sôbre a inocência da sua família estremecida.

E sempre a mesma ânsia de reabilitação, é sempre a mesma actividade incansável de espírito, e sempre, ai de nós! o mesmo francês laborioso e terrível!

«C’est au defenseur de l’infortuné Calas que je porte mes plaintes. Un cœur navré par la douleur, enflammé par la gloire, et charmé par vos écrits sublimes, m’inspire un désir ardent de justifier devant les yeux d’un sage, ma famille trop honnête pour endurer la calomnie.

«C’est de vous, monsieur, que je me plains; c’est monsieur de Voltaire, cet homme illustre qui brave les préjugés, cet ami du genre human qu’avec la même plume dont il défend le juste opprimé répand le poison de l’opprobe sur des innocents parce qu’ils n’eurent pas le bonheur de naître en France. Votre siècle de Louis XV vient de tomber dans les mains d’une jeune infortunée, que dans la catastrophe du Portugal est envellopée avec sa famille dès son plus bas âge.

«C’est moi, monsieur, la petite fille des marquis de Tavora.

«Ces illustres malheureux, morts dans un echafaud, n’on point purgé, la honte attachee au crime mais subi avec de l’honneur et du courage des revers de son sort.

«Ah monsieur! Si vous n’êtes point ému à la vue du tableau effrayant de nous même, que penserai-je de la philosophie?

«Quel homme de bronze aurait pû écrire ce que vous dites, aprés avoir connu les secrets ressorts de notre chute.

«Savez vous que mon grand père a été l’objet de la haine du premier ministre? Savez-vous que ma grand mère après son retour des Indes orientales, n’avait jamais vû le moine que l’on fait son confesseur? La moindre connaissance, le moindre soupçon des malheurs que menaçaient mon Roi et ma patrie aurait obligé mes parents à verser volontairement jusqu’à la dernière goutte de son sang? S’il était possible que l’on pût concevoir cet horrible projet dans ma famille, un seul l’aurait pensé, que les autres, renouvellant les creautés anciennes, eussent, comme Brutus, fait mourir leurs enfants mêmes.

«Les préjugés sont trop puissants dans le pays que m’a vue naître, et celui de l’honneur[55] était le partage de ma famille. L’amour du Roi, la paix de la societé, et le bien être de la famille, occupaient dans ce temps de tenèbres les cœurs de mes parents.

«Quand la maligne ambition, ce fiéau du genre humain, d’accord avec l’envie, nous plangea dans le sein de l’amertume, la nature avec tous les charmes, la grandeur, cette charmante folie des humains, étaient notre partage. Les êtres les mieux partagés par la nature, étaient aussi les mieux assortis par la fortune. Des époux jeunes e amoureux, des femmes jolies e honnêtes, des pères tendres, tout nous promettaient un bonheur inaltérable, quand l’orage vint tomber sur nos têtes. Je fus arrachée des bras de mon père à l’âge de huit ans, avec ma plus jeune sœur, et ma mère; quel tableau horrible! Dans cet âge heureux des plaisirs et de l’amour, arrachée des bras d’un jeune époux le plus aimable, qui joignait à la félicité d’êfre sage, et d’avoir des lumières qu’il avait puisées en France, les grâces de la figure! Un jeune homme aimable, un homme de lettres et de probité, fut arraché de ses bras, dans une nuit funeste, et dans le même jour elle se vit sans époux et sans père!»


Como o marquês de Alorna fôsse grande entendedor em literatura, um dos assuntos freqùentemente versados entre a filha e o pai era o da poesia. O marquês admirava francamente o engenho de Leonor; achava maravilhosas as suas odes, admiráveis os seus sonetos, e entre os dois travam-se engenhosas palestras sôbre letras.

«O que me parece que te tem atrazado muito,—escreve-lhe êle um dia,—é a demasiada crítica, e uma especulação excessiva da natureza e gôsto verdadeiro dos poemas, juntamente com a preocupação dilatada a favor do verso sôlto. Se não fôsse isso, e o demasiado trabalho e melancolia que te fizeram adoecer, terias a estas horas composto coisas prodigiosas e talvez de grande vulto.

«O bem que tem é que ainda estás a tempo de reparar o perdido. Se te quiseres dar às obras morais, no gôsto de Pope e mais poetas moralistas, farás maravilhas, com que todos fiquem espantados e te resulte grande nome.

«O que fizeres à imitação de Camões há de ser muito agradável a todos, desviando-te ao mesmo tempo do amoroso, que neste grande autor se mostra com demasia. Eu entendo que êste género lamuriento foi uma das coisas que mais deitou a perder e desacreditou a poesia. O que ela agora, para se estabelecer no conceito de tanta gente que lhe é contrária, necessita mais que tudo, é que haja poetas que preguem em verso como S. Paulo, como Séneca, etc., e a uma mulher da tua ordem e da tua criação é a quem isso compete mais que a ninguêm

O preconceito aristocrático, que é no marquês de uma fôrça indestrutível, manifesta-se em mil frases características no género da última citada; aqui vai outra ainda mais frisante, que arrancamos a outra carta.

—«...Não há dúvida que o conde de Tarouca era às vezes algum tanto empolado, mas tambêm é certo que aqueles a quem a natureza não deu uma certa expressão eloqùente a ideas fora do comum, não querem nunca achar naturalidade onde encontram qualquer elevação, e tudo querem reduzir ao seu modo de falar e pensar rasteiro. Não digo isto a respeito de nenhuma pessoa determinada, e só acrescento que quando encontrares algum dêstes amantes da natureza (por naturalidade), será bom que examines que tal é o seu estilo, e se o achares pertencente à classe baixa podes ter por suspeitoso tudo que lhe ouvires a respeito de elevações, principalmente de autor contemporâneo!»

Sôbre questões de técnica poética discutem, não raras vezes, os dois eruditos correspondentes. Que lição para os que perdem a coragem e o ânimo à menor contrariedade da vida, não dá êste homem no vigor da virilidade, enclausurado, perseguido, cheio de privações crudelíssimas, separado de todos os seus, e esta mulher em viço de anos, bela, nobilíssima, prometida a uma existência de alegria e luxo, encerrada desde a infância num triste convento, e tendo, apesar disso, suficiente liberdade de espírito, suficiente heroicidade de ânimo para se entreterem em discussões literárias, em controvérsias intelectuais, em comentários eruditos às respectivas leituras, em matérias emfim que os afastassem a ambos da contemplação do seu atroz destino sem esperança.

Leonor é pela poesia sôlta sem auxílio da rima, o marquês contradiz neste ponto eruditamente o gôsto de sua filha.

—«É certo que vendo-te há tempos infinitos não fazer outra coisa senão odes alatinadas, gabando cada vez mais esta casta de obra até te mostrares de todo encantada a seu respeito, tive receio de que aí ficasses para sempre, e que nunca mais te podessem reduzir a intentar outra espécie de composições. Dêste modo não tem dúvida nenhuma que perderias infinito daquela galanteria e grande arte de agradar que todos te admiram, porque a maior parte da gente, entrando nela innumeráveis poetas, não estão a favor da soltura do verso, nem é natural que admitam as tais odes senão se forem poucas, e atendendo a muitas outras coisas mais agradáveis da mesma autora. As ditas odes, vista a sua natureza, tambêm me fazem temer do teu génio, que te não separasses nunca delas, e com isso tinha tambêm mêdo que certas imperfeições nas tuas produções, em lugar da emenda fôssem sempre a crescer!... Alêm disto ficarias dêsse modo sem nunca chegares a ter de todo a rima às tuas ordens, como acham todos preciso para um poeta dizer em verso tudo que quiser, e sem cuja posse em tal grau não pode ser admitido no dia de hoje nos primeiros assentos do Parnaso. O verso sôlto com as circunstâncias que tu dizes é admirável, confesso que dêsse modo não lhe faz a rima nenhuma falta, mas da forma que tu o pintas aí é que está a maior dificuldade, e para a sua fabrica haverá muitas mais prisões e quebradoiro de cabeça. Que a rima dá fôrça a infinitas coisas que sem ela seriam semsabores, não tem dúvida nenhuma. Será preocupação, mas da forma que todos estão encasquetados a favor dessa dificuldade aparente, necessita o verso sôlto para agradar um tal carácter que serão sem comparação em maior número os versos rimados que possam parecer excelentes. A dita dificuldade sempre se exigiu na poesia, e assim parece preciso para suprir a sublimidade que nem sempre se pode encontrar, principalmente nas obras mais compridas. Entre os antigos a diabrura dos pés ainda era de mais trabalho...

«Veremos as odes de Laura e Petrarca[56]. Entendo que serão excelentes e sôbre o amor platónico não haveria pouco que dizer. Creio que o teu é dessa casta (o que ela celebrava numa ode em que se fingia Petrarca ou Laura), mas como a maior parte do mundo está a êste respeito de um materialismo terrível, por essa razão estou pelo que já disse, e acho preciso evitar-se tudo a que pela malignidade das gentes se pode dar uma má interpretação.»

Leonor é que se não deixa fácilmente convencer. Apesar do bom senso e do gôsto apurado do pai, ela cheia da sua razão, defende-se enérgicamente.

«Diz v. ex.ᵃ que eu estou em termos de tresler em matéria de poesia, quando eu entendo que nunca estive em melhores termos do que estou presentemente.

«Será talvez demasiada presunção, porêm, se v. ex.ᵃ me conhecer bem, verá que, o que eu disse não é o efeito de uma sujeição servil aos antigos dos quais me desgostam infinitas coisas. É certo que as odes de Horácio me agradam infinitamente, e que sempre me agradaram coisas similhantes na nossa língua. Bem vejo que a rima é um adorno muito bonito, porêm desnecessário em muitos casos quando a medida é certa e o verso por si harmonioso. As odes pedem um certo vôo que não sofre a mínima sujeição, e a das consoantes é lei forte que

Maudit soit le premier dont la verve insensée

Dans ces bornes étroits renferma la pensée.

«Não se encontrará fácilmente uma ode rimada que seja boa, e eu aconselhava a todos que as fizessem assim, que lhe chamassem cantigas, versos ou coisas, como chama um galante poeta da nossa terra a tôdas as suas composições. V. ex.ᵃ não é dêste parecer, e é esta a minha única desconsolação, porque a não ter esta razão de descontentar-me, tôdas as mais estão da minha parte. V. ex.ᵃ bem sabe que cada palavra ou contêm uma idea simples ou complexa, ou se desvia ou se dirige ao todo do discurso. Não é possível que em tôdas as palavras das rimas se ache uma concordância admirável com o desenho do poeta, e em tendo de quebrar o discurso no fim do verso, já se rebate o vôo e sublimidade que exige esta sorte de poema, nascem ideas novas, constrange-se a mente, não corre como de fonte o tal licor de Castalia, e só numa língua em que as palavras tenham muitas rimas consentirei que as odes sejam rimadas. O poeta distingue tanto a poesia da rima que sendo o verso cheio, harmonioso, livre e de palavras puras não prova menos recreio nos que chamamos soltos que nos rimados. O ponto está em que as ideas sejam claras, poéticas e bem formadas; o desenho regular e sublime segundo o género em que escreve. Estou vendo que v. ex.ᵃ não há de gostar nada do meu poema da Morte, porque é feito em verso sôlto. Nem o exemplo de Camões, de João Franco(!) e de outros me poderão resolver a rimar a tal obra, porque a autoridade que um e outro se arrogaram de falar latim à portuguesa não é para se imitar. A esta hora está v. ex.ᵃ fazendo muito escárneo da minha suficiência, porêm eu tendo, graças a Deus, uma vontade bastantemente dócil, o meu entendimento tem muito pouca sujeição, e diz Almeno[57] que eu sempre digo a torto e a direito quanto quero.»

Eis como ela responde ao que o pai lhe diz a respeito de quanto é necessário a uma mulher evitar assuntos amorosos que se prestem a interpretações malignas.

—«O que eu compreendo sempre do amor, o que me obrigou a fazer versos sôbre alguns assuntos ternos, vem a ser que o amor é o vínculo suavíssimo e a primeira virtude da natureza humana; sempre o considerei só digno das grandes almas, e tal qual o pinta ou o exige Platão. Só êste apareceu aos meus olhos, e se há alguma coisa criminosa ou perigosa de que se não deva falar, não é isso que eu entendo quando falo de Laura e Petrarca. Estes dois amantes do século XIII, gabados pela inocência e constância do seu amor e dos seus costumes, pareceram-me dignos de os louvar nos meus versos, e como um autor francês supôs Laura poetisa, e não aparecem os versos que ela fêz, as duas odes são de Laura.

«Uma supondo Petrarca ausente na sua embaixada da Espanha, outra, simplesmente explicando os seus sentimentos em resposta a uma canção dêle.»

Ainda a respeito do amor, leiamos êste trecho de outra carta tão singularmente característico do tempo, e não precisando de data para que um crítico o reconheça imediatamente como pertencendo ao nosso alambicado século XVIII.

—«Vejo o que v. ex.ᵃ me diz sôbre o amor. Êste sentimento ou paixão que domina o mundo, segundo tenho observado, creio que assim como o sono foge das pálpebras molhadas de lágrimas, assim êle se desvia dos corações ocupados dos grandes trabalhos. Eu tenho lido e meditado muito para ignorar absolutamente o que seja a natureza, e v. ex.ᵃ verá nos meus serões, o meu coração sem algum véu. Mas verá igualmente a minha antipatia por tudo isso. Eu tenho um gôsto nímiamente metafísico[58], quási tudo me desgosta e me fatiga fora dos discursos e dos exercícios da alma. Simplesmente sou apaixonada de platonismo, e creio que os corações cândidos não poderiam nunca admitir outras ideas a respeito do amor. Mas tudo isto se passa em mim em razão de discurso, e jámais tomarei interêsse particular nestas matérias, que não seja dirigido pela razão de uns pais que sabem únicamente o que me convêm. Eu tenho bastante reserva nas minhas ideas; ninguêm sabe de que partido eu sou em certas coisas em que a decisão é perigosa, pode v. ex.ᵃ descansar nesta matéria.»

De resto não havia nenhuma afectação de falsa inocência de modéstia hipócrita nas relações estabelecidas por escrito entre a filha e o pai. Leonor não é uma inocente. Conhece pela sua leitura a vida, nem parece que na educação daquele tempo houvesse o cuidado exagerado, e às vezes contraproducente, que hoje há em livrar as raparigas de todo o conhecimento rial das coisas.

A prova do que dizemos é que Leonor, no intento de distrair o pai, conta-lhe as anedotas salgadas do tempo, que de fora penetram até ela através das grades de Chelas.

—«Uma coisa que tem feito grande bulha e em que nunca falei a v. ex.ᵃ é na célebre actriz que exauriu os bolsos de todos os casquilhos e veio pôr à viola a nossa terra, porque tendo (segundo entendo) pouquíssimo merecimento, sabe encantar a todos e tem dado assunto a tôdas as palestras, muito verso, muita apologia, muita satira, porêm tudo junto é papel para aquentar camisas, e fica com muito honrada serventia. A tal madama chama-se Zamperini, não é demasiado bonita, canta muito bem, e dizem que declama excelentemente; mas para crer isto precisa-se fé, pois tudo quanto dizem é muito afastado das regras dessa arte, que as necessita como qualquer outra. Dizem que é muito afectada, nímiamente desembaraçada, e outras circunstâncias que impõem para os ignorantes da nossa terra. O nosso Inácio Quintela tem desembolsado os seus cabedais, o Anselmo da Cruz, o condinho de Oeiras ao princípio, e um círculo grande de adoradores que aparecem pintados numa satira que lhe fizeram.[59] É de um carácter muito singular. Com tôdas quantas bugiarias pôde aprender no teatro engana a todos... Eu já estou enfastiadíssima de Zamperini, mas não quis deixar de lhe dar estas notícias que teem interessado tôda a nossa terra.»

Êste trecho e outros similhantes sôbre o valido da imperatriz da Rússia, sôbre as pieguices freiráticas que ela se não cansa de repelir, etc., etc., dá a nota da intimidade que havia entre Leonor e o pai. Êste acompanha-a sempre com o mais prudente conselho, com a admiração mais estimulante, com a bondade mais perfeita. O amor do pai, pode chamar-se a única grande alegria moral que Leonor recebe durante os anos do cativeiro.


Referimo-nos já por mais de uma vez a D. Martinho de Mascarenhas, filho do duque de Aveiro, e encarcerado na Junqueira com o marquês de Alorna.

O pai de Leonor planeara que ao sair da sua prisão lhe daria a mão de sua filha mais nova D. Maria de Almeida; e êste projecto, que não foi levado a efeito, pois que nunca D. Maria I restituiu os seus títulos e honras ao filho do homem que tinha tentado assassinar seu pai, enche, no convento de Chelas, de romanesca alegria as três enclausuradas senhoras.

As duas poetisas—Maria tambêm escrevia versos e tem uma graça indescritível de expressão nas suas cartas—muito letradas ambas como se sabe, baptisaram de Tancredo o marquesito de Gouveia[60], acrescentando que só no herói do Tasso haviam encontrado as qualidades cavalleirescas que distinguiam o carácter do jovem fidalgo português.

Leonor escrevia-lhe de Chelas: «Meu estimado mano.—Dou a v. ex.ᵃ os parabens do dia de hoje e lhe seguro que a sua vida me interessa imediatamente à de meus pais, pelo dobrado motivo do seu merecimento e por depender dela o contentamento da pessoa mais amável que eu conheço nêste mundo. V. ex.ᵃ pode julgar-se o homem mais feliz do mundo todo; os sentimentos que premeiam os seus ferros e os cuidados que v. ex.ᵃ tem no meu triste pai[61], devem suavizar tôdas as amarguras. Neste vale de lágrimas (como diz a Salve-Raínha), não era possível uma aliança tão linda sem se merecer por desgostos tais como o nosso. Que dias tão alegres nos tem preparado o infortúnio! Alegre-se v. ex.ᵃ e consolêmo-nos mútuamente até que Deus quebre obstáculos tão tiranos.» E outra vez no meio de uma carta dirigida ao pai: «E v. ex.ᵃ, mano Tancredo, não me esquece um instante. V. ex.ᵃ, que é o estimável companheiro de meu pai, tem parte com êle em todos os nossos pensamentos.»

Quando a doença de D. José bastante pronunciada para tornar provável a sua morte próxima dá alguma remota esperança de liberdade à infeliz família de Alorna, Leonor com a sua habitual expansão, escreve ao pai pintando-lhe os quadros de felicidade familiar, que a fantasia lhe representa. «Vamos, como diz o mano Tancredo para o Vimeiro, para Almeirim[62]; a nossa sociedade, até Deus olhará para ela com gôsto. Nunca a virtude se há de desviar dela e a liberdade fará tôda a sua delícia.»[63] «As ideas em tumulto não sofrem nenhuma ordem, quando escrevo—acrescenta Leonor na desordenada alegria com que a desnorteia a esperança, ou o prenúncio de uma próxima libertação.—O coração cheio de sentimento e num tremor de impaciência desacomoda-se para escrever. Nada me contentava agora senão voar e entrar como um pintasilgo por essas janelas para conversar com v. ex.ᵃ. Que gôsto teria em vos ver? Já lá estou... Vejo a v. ex.ᵃ alegre, e num cárcere, quási sem luz, descorado, magro e com tôda a impressão dos seus trabalhos... Será assim, meu querido pai? Melhor fôra que v. ex.ᵃ viesse aqui aonde eu me acho. Só, em uma pequena casa, rodeada de livros, escrevendo com as lágrimas nos olhos o que me não cabe no coração. Achar-me ia uma célebre figura, com um roupão côr de fogo, forrado de peles escuras, o capuz na cabeça, sem pós, despenteada, com tôda a desordem de quem sente infinitas saudades. Que me diz v. ex.ᵃ ao delírio desta carta?... Se v. ex.ᵃ visse o apetite, o alvorôço e as saudades com que eu estou, tudo acharia pouco. Devéras, meu querido pai, o coração avistando a meta desejada corre com uma velocidade atrás dela, que nem o tempo incansável pode alcançá-lo... Diga v. ex.ᵃ ao mano Tancredo que a condessa está convidada para madrinha da mana, para que tudo seja completo.»

A idea de viver com os pais no campo (em Almeirim) lisonjeia-lhe estranhamente a imaginação educada por Jean Jacques Rousseau, que então andava revelando os encantos da simplicidade, os encantos da natureza, às frívolas raínhas dos salões de Paris.

E tôda imbuída das máximas da filosofia reinante, de que eram propagandistas os seus autores queridos, escreve ao pai, o velho fidalgo que achava Voltaire digno de queima:

«Eu cuidei que ainda tinham algum poder sôbre v. ex.ᵃ os atractivos de uma côrte brilhante, e que a glória, que de um certo modo se entende ligada à ostentação, podia ser alguma tentação para v. ex.ᵃ que perdeu o tempo melhor da sua vida no seio dos desastres (sic). Vejo que não falta nada a v. ex.ᵃ, meu querido pai, e que avalia a felicidade segundo a filosofia, que dá mais valor a ser homem que a ser fidalgo, e isto que concorda inteiramente com os meus princípios dá-me um gôsto inexplicável. Não aspira v. ex.ᵃ senão a uma vida oculta e tranqùila, aspira a provar todo o preço da sua existência, aspira a tôdas as delícias do coração sensível, e eu não aspiro senão a procurar-lh’as e a gostar com v. ex.ᵃ os prazeres que se ignoram no tumulto da côrte. Diz v. ex.ᵃ que «se esqueceu que poderia ser grande doutor se aproveitasse todo êsse tempo», e eu digo que tudo quanto v. ex.ᵃ podesse adquirir não produzia mais do que v. ex.ᵃ possue na disposição em que se acha.

«E agora vou falar com o mano Tancredo. Pode v. ex.ᵃ segurar-lhe que a sua linda noiva gostou sumamente das novas que êle dá do que sabe. Estimou muito que soubesse as duas línguas italiana e francesa. Riu com a medicina, desejando mais que êle antes fôsse físico do que médico.»

O perfume avelhantado de tôdas as cartas de Leonor é que é o seu encanto supremo para o crítico. Como elas pertencem pelo estilo ao tempo de que são datadas!... E como a par disso elas teem o cunho individual da mulher que as escrevia, tão diversa das mulheres portuguesas da sua classe, tão namorada de erudição a ponto de parecer muitas vezes um poucochinho pedante. Mas essa leve tintura de pedantismo deve ser-lhe perdoada se a considerarmos a natural reacção de um espírito inteligente e culto contra a boçalidade que distinguia a sua classe e a sociedade de que ela fazia parte muito a seu pezar. Os que pretendem conhecer a fundo a ignorância do tempo em que destacaram excepções raríssimas, leiam as descrições da sociedade portuguesa no tempo de D. Maria I, feitas por estranhos sempre mais capazes de verem bem aquilo que vêem pela primeira vez.[64] Ela mesmo dá mais de uma vez ao pai nas suas cartas exemplos dessa boçalidade que a desespera. Eis um dêles:

«Estávamos na grade com as primas S. Miguéis e outras pessoas de confiança, de sorte que uma delas estava cantando algumas cançonetas, cuja letra era de Metastásio, e caindo naturalmente a conversação sôbre a galanteria dêste poeta, disse o Principal Boto em tom de doutor, que o Metastásio não fizera mais que copiar Tibullo e Catullo, os quais não andavam pelas mãos de todos, e por essa razão nos admirávamos tanto das belezas de Metastásio, porêm êle que as achara já na língua latina traduzidas do grego, não fizera mais do que roubar-lhes o pensamento para as pôr nas suas obras. Eis aqui como por cá se fala, meu pai, e se v. ex.ᵃ viesse havia de ouvir muitas destas. A uns que o estabelecimento das Vestais fôra formado segundo a idea das Virgens do Evangelho, a outros que as almas felizes eram conduzidas por Júpiter aos Eliseus—mil frioleiras daqueles mesmos que teem a confiança de criticarem as mulheres que podiam mandá-los jogar o pião com os rapazes de escola.»[65]

Outras vezes fala dos desdens que pela mulher aplicada—é esta a frase do tempo—teem e manifestam os rapazes fidalgos, os que levam a vida em arruaças, façanhas de picaria, guitarradas nocturnas, orgias de baixo nível. Beckfor mais de uma vez se refere ao gôsto de freqùências baixas que há nos moços da fidalguia portuguesa, os quais se não pejam de ter por amigos os picadores, os boleeiros, os lacaios, etc., com quem dansam o fado, e se associam para as grossas pancadarias. Tudo que se lê com respeito à casta aristocrática em Portugal, revela claramente como ela voluntáriamente abdicou, abastardando-se, anulando-se, embrutecendo nas convivências de parasitas, bobos e ignorantes de má laia... Tolentino é recebido nas grandes casas pelos lados mais degradantes do seu carácter, pela veia de pedinte e de adulador, que tão negramente macula o seu estro admirávelmente cómico. A aristocracia, à qual sómente restavam os privilégios adquiridos sem nenhuma das virtudes ou das heróicas façanhas que os haviam justificado, havia fatalmente de desaparecer da scena social, logo que, abolidos êsses privilégios e disperso aos quatro ventos o património que os representava, ela aparecesse tal qual era, tal qual uma educação corruptora e péssima a tinha feito lentamente, salvas raras excepções que destacam com pitoresco relêvo, e que por isso mesmo não constituem regra.

Leonor de Almeida percebia tudo isto. A sua inteligência mais vigorosa do que feminilmente delicada, não lhe deixava a respeito da sua classe em Portugal qualquer ilusão consoladora.

É por isso que tão ardentemente busca distanciar-se do meio em que nasceu e em que pensa terá de viver, é por isso que estuda infatigávelmente, protestando por êste modo contra a ignorância que a invade como uma maré lodosa e turva.

Duas vezes, durante o cativeiro de Leonor de Almeida, tiveram seus pais o projecto de a casar, como naquele tempo se casava por conveniência de família, por alto interêsse de raça.

Um dos noivos que para ela desejaram foi D. João de Bragança, o futuro duque de Lafões, de quem falaremos mais tarde, já velho áquele tempo, e que então, receoso da tirania política de Pombal, andava casquilhando e brilhando pelas côrtes de Viena e de Versailles.

A êste projecto um tanto fantasioso, e que parece não ter tido sólidos alicerces, pôs ponto o bom senso incontestável de Leonor e do marquês.

O outro noivo que quiseram dar-lhe, e com êste se adiantaram bastante as negociações, que felizmente Leonor de Almeida conseguiu malograr a final, era D. Brás da Silveira, filho primogénito de D. Nuno de Távora, o qual, por ser irmão segundo do marquês de Távora, estava na prisão da Junqueira juntamente com o marquês de Alorna. Uma filha de D. Nuno de Távora casara com o conde da Redinha, e êste enlace de uma sua parenta próxima com o filho do perseguidor da sua família inteira, desgostava profundamente D. Leonor de Almeida. A sua principal objecção ao casamento preconizado por seus pais, era ficar em virtude dêle cunhada do conde da Redinha. Isto é que o ânimo cavalheiroso e tão ultrajado de Leonor não podia aceitar livremente.

A propósito dêstes seus parentes Silveiras fêz Leonor nas cartas ao pai um espirituoso e expressivo retrato que não deve ficar eternamente inédito, porque representa mais que uma individualidade, a final de contas obscura, representa a figura típica do fidalgo português, enfatuado, ignorante e ridículo. O retratado é D. Bernardo da Silveira, irmão daquele que os marqueses de Alorna desejavam para noivo de sua filha.

Ouçamos, pois, esta num dos seus raros momentos de verve endiabrada e natural.

«O carácter da família dos Silveiras é coisa muito célebre. Parecem-me fidalgos de província. O primo Bernardo é um daqueles que se pintam, e eu o pintara se v. ex.ᵃ me desse licença para dar quatro gargalhadas à custa do meu futuro cunhado, sem que isso ofendesse as minhas obrigações, mas falar com meu pai é pensar alto, e vou dizendo:

«É um mocetão pela figura do mano, mas de cara muito peor, contudo, persuadido da sua gentileza, crê piamente que andam nos seus ferros tôdas as belezas do mundo e toma um ar de satisfação muito célebre que faz rir.

«Com o desembaraço de colegial julga-se sábio, e zomba das belas letras de que não entende nada, celebrando sempre a profundidade dos autores de direito canónico, e os toiros, qualquer destas coisas muito interessante em uma companhia de senhoras.

«Não crê na aplicação das mulheres, e trata-nos sempre com ar de superioridade e de ignorantes, fatigando-se com explicações e pequenas histórias bastantemente impertinentes.

«Como a tia Maria tem assoprado muito a vaidade dêste e abusado da paciência, moleza e bondade do outro, observa-se uma certa altivez que vistos ambos, parece o primo Bernardo um sogro, que me faz obséquios, porque intenta casar seu filho comigo, e o outro um enteado, sem confiança com o padrasto. Eu e a mana, defronte dêstes dois indivíduos, tambêm nos podiam pintar, e se acaso se vê na minha cara a variedade de coisas que me passam pela cabeça, tambêm haveria de que rir. A tia Maria, em ar de Sybilla Comea, trata-me com o maior carinho, e eu correspondo como devo, mas estou muito costumada a reflectir para não distinguir o que é, do que parece. Do primo Brás (o futuro noivo) dará minha mãe notícias, mas eu não posso fiar de ninguêm esta anedota.

«Para agradar à sua noiva, que é aplicada, começa agora os seus estudos, por um jardim botânico e umas estufas.»

Quando o pai teima em apresentar a Leonor de Almeida as vantagens sociais do casamento com D. Brás da Silveira, ela responde-lhe com melancolia impressionadora:

«Estou nas fatais circunstâncias de ter que decidir-me, com um susto inexplicável e com o mais vivo desejo de acertar e de ser útil aos interesses de v. ex.ᵃˢ. Se me pertence a glória de ir com as minhas ansiosas diligências libertá-los, pereçam todos os sistemas em que eu tinha fundado a minha felicidade própria, e será uma sorte assás digna de satisfazer-me aquela em que eu puder servir o meu querido pai, e procurar o inteiro restabelecimento de minha mãe. Nada mais me pode obrigar ao sacrifício da minha liberdade, e a tomar o trabalhoso encargo de mãe de família. O coração e o pensamento todo ocupado das minhas perdas e das minhas aquisições apresenta-me como um desastre o sair dos braços da minha mãe, da casa de v. ex.ᵃ, para outra desconhecida, onde me não leva nenhum princípio dos que a natureza nestes laços poderia apresentar. O rapaz é um homem sem estudos; que julgará dos meus? Tem uma irmã aliada com o algoz que abomino. Como poderei eu ver de perto similhante gente? Mas representa meus avós (é filho de um tio direito da marquesa de Alorna); trabalha na liberdade de minha mãe, anuncia vagamente a de v. ex.ᵃ! Se me conseguir... oh! meu querido pai, tomara antes de separar-me desta casa, abraçar nela a v. ex.ᵃ, tomara que v. ex.ᵃ viesse aqui ensinar-me qual é o meu dever. V. ex.ᵃˢ ambos é que melhor do que eu poderiam remediar tantas perplexidades. Eu não sei o que digo, não sei o que faço, vivo em uma escuridade impenetrável... Deus me socorra, e me faça atinar com o que for melhor...»

Felizmente para a nossa biografada, o pai não teimou em dar-lhe para marido um homem que Leonor não respeitava nem amava, e a sonâmbula gentil do cláustro de Chelas continuou a ler, a sonhar, a instruir-se, a reflectir na plena liberdade do seu indisciplinado e ardente espírito.

Pena é que não tenhamos outras revelações do que ela então pensava e sentia, alêm das que encontramos nas suas cartas ao pai. Por muita confiança que aos vinte e vinte e quatro anos se tenha nos pais, nunca é a êles que uma alma juvenil se confessa inteiramente.

Os versos de Leonor feitos em Chelas e publicados no primeiro volume das suas obras, são ainda menos reveladores do que as suas cartas.

Pelo modo de versejar, Leonor pertence inteiramente nesta primeira fase da sua vida à escola pseudo-clássica do século XVIII, no que ela tem de mais falso e de pior.

Uma interminologia enfadonha, uma quantidade incontável de nomes e de alusões mitológicas—não da bela mitologia grega tão naturalista, tão profunda nos seus símbolos, tão ladina nas suas encarnações humanas,—mas de uma falsa mitologia, dentro da qual se não lobrigava uma idea única, e que abonando em favor da erudição de Leonor, diz muito pouco do seu coração e da sua sensibilidade.

O que, porêm, temos das suas belas cartas, de sobejo nos deixa perceber quantos sonhos se abrigariam naquela ardente imaginação de rapariga.

Tancredo—o infeliz filho do duque de Aveiro, a que estava reservado um destino tão negro—era o príncipe azul de Maria de Almeida. Leonor havia de fantasiar mil vezes o seu. Não sabia donde êle tinha de surgir um dia, mas estava certa de que viria na hora própria e de que não seria parecido com nenhum daqueles que os interesses da família por mais de uma vez tinham tentado impor-lhe.

Para êle cuidava com esmero da sua formosura singular em que tantas vezes ingénuamente se revê, com adorável garridice; para êle adorna o seu espírito de tôdas as graças, de tôdas as riquezas, de todos os encantos... Será bravo como um herói; há nela a paixão corneliana de tôdas as grandezas épicas; mas será tambêm cultivado como um sábio, eloqùente como um poeta, e profundo como um filósofo.

Bayard e Voltaire encarnados num só homem. Conversará com discreta graça dos mil assuntos que a preocupam; terá as aspirações que ilustram o seu tempo, pressentirá tôdas as grandes innovações de que ela antevê com secreto enlêvo a próxima alvorada.

Nos cláustros húmidos e melancólicos do seu mosteiro escondido, Leonor evoca essa figura maravilhosa, que não encontrará de certo jámais, e nessa evocação mágica se consola de tôdas as lutuosas tristezas da realidade.

Os que nunca viveram pela imaginação não podem conceber o que seja êste dom milagroso com que ela enriquece os seus eleitos. Não sabem que na pobreza, na solidão, na clausura, é possível ser-se feliz quando se possue a chave de oiro dêsse país das quimeras a que sobem os que teem asas!

E dêsse vago sonambulismo de poetisa, de erudita e de fantasista adorável despertou um dia de súbito Leonor de Almeida ao sentir dobrar fúnebremente todos os sinos de Lisboa, anunciando a morte de um rei, a morte do rei que esmagara todos os seus.