VIRTUDES, E VICIOS,
Feitas pela mesma Autora à instancia de huma Religiosa devota, as quaes virtudes augmentaõ as Religoens para melhor servir a Deos Nosso Senhor sendo-lhe contrarios os vicios que as destroe.
Humildade.
Sempre nos baixos me encerra
A luz que a Deos me prendeo,
Mas quanto deço na terra
Tanto me sobem no Ceo.
Liberalidade.
Cubro o bom, cubro o iniquo
Tudo comigo se cobre,
Comigo he rico, o que he pobre
Sem mim he pobre, o que he rico.
Castidade.
Quem contra mim nunca erra
Quem comigo a si venceo,
Fica estrangeiro na terra,
Faz-se natural do Ceo.
Paciencia.
Quem por meu respeito cansa
Sofrendo o mal que parece,
Tudo vence, e tudo alcança,
Tudo tem, tudo merece.
Temperança.
Sou temperada virtude
Que todo o corpo governa,
Dou-lhe temporal saude
A alma saude eterna.
Charidade.
Sou amada, e amadora
Do mais perverso louvada,
Das creaturas, criada,
Mas das virtudes senhora.
Diligencia.
Quem nesta vida me tem
Logra o bem acrescentado,
Que a diligencia no bem,
Faz que o bem seja dobrado.
Prudencia.
Sou prudente em toda a hora,
Cousa com que sou contente;
Porque em quanto sou prudente
Naõ posso ser peccadora.
Silencio.
Dẽtro em mim mesmo me encerro
Tudo ouço, e tudo callo;
Porque tanto menos erro,
Quanto menos vezes falo.
Fè.
Sou fè que da alma desterra
O mal, que a escureço,
Estando presa na terra
Subo mil vezes ao Ceo.
Esperança.
Espero hum bem immortal
Donde os bens todos me vem;
Porque a esperança do bem,
A doça a penna do mal.
Penitencia.
Sou a virtude que tem
Contra o mal grande potencia,
Sou a feliz penitencia,
Que converte o mal em bem.
Oração.
Posto que grosseira, e rude,
Sempre oro em meu coração;
Porque só nesta Oração,
Se a prende toda a virtude.
Perseverança.
Persevero sem mudança,
Insisto sem me mover,
Pois tudo pode vencer
A longa perseverança.
Mansidaõ.
Mansa sou, e assim alcanço,
Quanto prometem os Ceos,
Que o que na vida he mais manso,
He mais semelhante a Deos.
Fortaleza.
Resistir he meu officio,
Tudo venço com firmeza,
Porque a firme fortaleza,
Vence, e mata todo o vicio.
Verdade.
Sempre acho quem me louve
Por ser natural dos Ceos,
A Deos ouve, quem me ouve,
Quem me busca, busca a Deos.
Misericordia.
Sou das virtudes concordia,
Estou na terra, estou nos Ceos:
Sou huma cousa como Deos,
Pois que sou misericordia.
Abstinencia.
Tenho o rosto feo, e fero
Mas sou de summa excellencia,
Sou o custo da abstinencia,
Que os apetites tempero.
Desprezo do mundo.
O mundo, ou o immundo
Deixo, como reyno alheyo,
Pois com desprezo do mundo
Todo o mundo senhoreo.
Constancia.
Sou forte firme, e prestante,
Tenho a Deos, e Deos me tem,
Quem no bem he taõ constante,
Bem he que tenha tal bem.
Justiça.
A Deos tenho por farol
Nunca me cega a cubiça,
Senaõ sou Sol de Justiça,
Sou justiça mais que o sol.
Pobreza.
Ninguem por mim se governa,
Antes sou mui perseguida,
Sendo miseria da vida,
Posso dar a vida eterna.
Mortificação.
Sou das virtudes hum cofre
Porque a todas faço a cama,
Se persigo a quem me sofre,
Guarlado-o a quem me ama.
Paz da alma.
Quem me logra cà na terra,
Quem me tem do Ceo me traz,
Na terra me sinto em paz,
Por mayor que seja a guerra.
Modestia.
Sou composta e sou honesta
Exemplar aos que me vem,
Com exemplo de modestia,
Provoco todos ao bem.
Gratidaõ.
Folgo de ser gratidaõ,
Porque meus bens conhecendo,
Agradeço o que me daõ,
E mereço o que pertendo.
Simplicidade.
Quem me logra, e quem me tem
He quasi celestial,
Nunca cahe em nenhum mal,
Porque sempre cuida bem.
Pureza da alma.
Todo bem sigo, e procuro
Todo mal me he odioso,
Tudo quero virtuoso,
Tudo alimpo, tudo apuro.
Zelo do bem.
Naõ me traz no coraçaõ,
O máo, o perverso, e rude,
Pareço as vezes paixaõ,
Porèm sempre sou virtude.
Desprezo proprio.
Pois no mal naõ faço pauza,
Tudo faço em meu despeito,
Desprezo o mal como effeito,
E amim como propria causa.
Renunciaçaõ.
Deime com favor dos Ceos,
A Deos meu ultimo fim,
Porque dandome eu a Deos,
Se me desse Deos a mim.
Innocencia.
Sò de mim se entende, e cre
Que sem mal posso ter bem,
Quem me tem nunca me vé,
Quem me vè ja me não tem.
Correiçaõ fraterna.
Dos vicios sou adversaria,
Todo o mundo me ha mister,
Sendo a todos necessaria,
Ninguem me pode sofrer.
Recolhimento.
Recolhimento procuro,
Do corpo, alma, e sentido,
Pois quanto mais recolhido,
Tanto do mal mais seguro.
Continencia.
Sempre ando em companhia
Da singular castidade,
Em minha difficuldade,
Consiste minha valia.
Discripçaõ.
Eu tiro de todo enleyo
A qualquer juizo rude,
Sou a que descobre o meyo
Em que consiste a virtude.
Amor Divino.
Na terra sou peregrino,
Porém no Ceo sou Senhor,
Sendo Deos divino amor,
Faz-me Deos amor divino.
Amor do proximo.
Depois que subo às alturas,
Por amar a meu senhor,
Como subo ao creador,
Devo amar as creaturas.
Devoçaõ.
Faço doce o que he penoso,
Faço leve o que he muy grave,
Tudo o que he difficultoso,
Faço facil, e suave.
Fervor.
A muitos pareço louco,
Que naõ conhecem meu fruto
Ainda que eu faça muito,
Tudo me parece pouco.
Graça.
Tudo comigo se cobre,
Das paixoens tenho a victoria,
Sem mim nenhuma boa obra,
Pòde merecer a gloria.
Bem exemplo.
Edifico os que me vem,
Honrarey a quem me der,
Sò com as mostras do bem,
Muytos bens faço fazer.
Conformidade.
Sou conforme o meu querer,
A Deos de quem tudo espero,
Porque tudo quanto quero,
Seja tudo o que elle quer.
Pura tençaõ.
Subiraõ à mayor alteza,
Os Santos por minha via,
Conforme a minha pureza,
Tem as virtudes valia.
Temor de Deos.
Por naõ fazer hum aggravo,
A Deos chego a todo extremo,
Posto que sou escravo,
Sò como seu filho o temo.
Negaçaõ propria.
Como em tudo a Deos me entrego
Como me devo entregar,
Em tudo o que he meu me nego
Por naõ vir a arrenegar.
Obediencia.
Faço prudentes os rudes,
Que sé regem sò por mim,
Sou principio, e sou fim,
De todas as mais virtudes.
Vergonha.
Tanto duro virtuosa,
Devota, sesuda, e prompta,
Quanto duro vergonhosa,
A quem comigo se encontra.
Brandura.
De ninguem desprezadora,
De todos muito prezada,
De alguns naõ sou amadora,
Mas sou de todos amada.
Cortezia.
Quem me tem fama terà,
Que he o meu mais proprio fruto,
Sem dar nada quem me dà,
Fica recebendo muito.
Compaixaõ.
Conversando entre a gente,
Com vontade pouco esquiva,
Mereço por compassiva,
A gloria do paciente.
Lealdade.
O mundo bem me dezeja,
Mas naõ toma por guia,
A que sou na frontaria,
Sou nas costas da Igreja.
Consciencia.
Aviso do mal, e bem,
A quem, ou bem, ou mal quer,
Quem quer que me naõ tiver,
Nenhuma virtude tem.
VICIOS. Soberba.
Trago o rostro sesudo,
Ando melanconizada,
Cuido de mim que sou tudo,
E eu sou menos, que nada.
Avareza.
Nada dou, tudo retenho,
Atè a mim me nego o bem,
Peço quanto os outros tem,
Naõ dou nada do que tenho.
Ira.
Para tudo sou mofina,
Ando amarella, e rayvosa,
O mimo brando me indigna,
Como palavra afrontosa.
Inveja.
He minha condiçaõ tal,
Que me naõ sofre ninguem,
Porque atè o alheyo bem,
Me serve de proprio mal.
Preguiça.
Nunca me quero mover,
Porque em nada me resolva
Mas que o mundo se resolva,
Naõ me posso resolver.
Discordia.
Atè a mim me contradigo,
Nem me regem, nem eu rejo,
Ninguem peleja comigo,
E eu com todos pelejo.
Liviandade.
Do canto muy pouco alcanço
Mas em todo o tempo canto,
Sem som bailo, trinco, e danço
Mas, que a casa esteja em pranto.
Presumpçaõ.
Seco afrol nunca dou fruto,
Por ser meu sentido louco,
Se de mim presumo muito,
He porque sey muito pouco.
Vaidade.
Pretendo as honras mayores
Por maranhas, e invenções.
Sempre desejo louvores,
E eu mereço reprehenções.
Ignorancia.
A pena tenho por gloria
Porque me falta o juizo
O que he parvoice notoria
Julgo eu por raro aviso.
Chocarrice.
Por nada me movo a riso
Sò zõbando mostro engenho,
Naõ falo nunca de siso,
Porque nenhum siso tenho.
Amor proprio.
Com caridade me escuzo,
Porque assi me naõ conheçaõ
Só para mim quero tudo,
Os outros mas que pereção.
Desconfiança.
Sem ninguem me affligir,
Eu mesmo me afflijo a mim
Todos quantos vejo rir,
Cuido que se rim de mim.
Prodigalidade.
Quem os meus bẽs me levou
Não mos sabe agradecer,
Não ha misterio que eu dou,
E eu dou o que hey mister.
Curiosidade.
O que falão, e sonhão
As outras, quero entender
tè que venho a fazer
Mil cousas que me envergonhaõ.
Melindre.
Acho grossas as finezas,
Sou dalfelua, e algodão
Os mimos são asperezas,
Epara minha condição.
Mentira.
Por ruas, e por travessas,
Cantar historias pretendo,
Quando falo, falo às avessas,
Do que sey, e do que entendo.
Pouco segredo.
Qualquer cousinha me encalma
Que a outrem, ou a mim toca
Tudo o que me metem na alma
Lanço logo pela boca.
Concordia.
Naõ pretendo prefeiçaõ,
Por ser covarde, e ser rude,
Com medo do que diraõ,
Deixo de ter mayor virtude.
Vingança.
Por mais que as outras me afagem
E por branduras me levem,
Nenhuma cousa me devem,
Que dobrado me naõ paguem.
Malicia.
Só de mim todo o mal vem
Ou mortal, ou venial,
Sou inventora do mal,
Destruidora do bem.
Incredulidade.
De meu mal endurecida,
Só por mesma me eu rejo,
O mal creyo só de ouvida,
E o bem nem quando o vejo.
Odio.
Nunca procuro meu bem,
Porque meu mal naõ conheço,
Sou penna de quem me tem,
Sem ser mal de quem aborreço.
Hypocresia.
Sou dobrada, triste, e rude,
Enganar he meu officio;
Pela casca sou virtude,
Mas pelo miolo vicio.
Murmuraçaõ.
De minha irmãa por mil meyos
Encubro os bens que saõ seus,
Publico os males alheyos,
Naõ sey esconder os meus.
Traiçaõ.
Com fingido, e ledo rostro
Offereço meu serviço,
A muitos rio no rostro,
A quem mordo no toutiço.
Desenvoltura.
Males que faço, e naõ callo
Em mim moraõ, e naõ mim jazẽ,
Mil palavras verdes falo
Que os rostros vermelhos fazem.
Pertinacia.
Nenhum conselho me val
Naõ me convence ninguem,
Sou como rocha no mal,
E como cana no bem.
Inconstancia.
O bem em mim nunca para
Muy pequeno mal me espanta,
Soa huma hora Santa Clara,
Noutra, nem Clara, nem Santa?
Occiosidade.
Vivo em continuo descuido
Num, e noutro me embaraço,
Se naõ faço o mal que cuido,
Cuido no mal que naõ faço.
Lisongeria.
Nenhuma cousa reprovo,
Ou seja mal dita, ou feita,
Tudo louvo, tudo approvo
Por ser a todos aceita.
Interesse.
Costumo de usar cruezas
Com vizinho, e com estranho
Cayo em cem mil baixezas
Sò por tirar qualquer ganho.
Zelo indiscreto.
Como a ordem naõ entendo,
Porque me ey de governar,
Tudo quero emmendar,
Mas a mim nunca me emmendo.
Mà condicçaõ.
Posto que todos me emmẽdem,
Ninguem faz comigo avença,
Cuido que todos me offendem,
E eu sò sou minha offensa.
Afeiçaõ desordenada.
Nenhuma alma hoje me tem
Que seja esperitual,
Quando quero mayor bem,
Entaõ me faço mòr mal.
Amor profano.
Por fantastica invensaõ
Procede meu bem querer,
Por bens que naõ pòdem ser,
Sofro o mal que jà saõ.
Arrogancia.
Da graõ soberba sou filha,
Cuido que saõ meus os Ceos,
O mal propio naõ me humilha,
E incho com o bem de Deos.
Distraiçaõ.
Do que he culpa, faço graça,
Do que he peccado, ventura,
A alma trago na praça,
E o corpo na clausura.
Descortesia.
A honra como thesouro,
Nego a todos por mais brio,
Faço della fino ouro,
Porque a pezo ouro, e fio.
Temeridade.
Por muy indescretos meyos,
Espreito alheos peccados,
Naõ entendo meus cuidados,
Julgo cuidados alheos.
Dureza.
No cuidar, no fallar erro,
Por ter duro o coraçaõ,
Fallo palavras de ferro,
Cuido que saõ de algodaõ.
Rudeza.
Erro agòra, e sempre errey,
Nem entendi, nem entendo,
Sempre apprendendo me sey,
Mas nunca sey, o que apprendo.
Mexerico.
Por malicia, e por parvoice,
Pecco huma, e outra vez,
Dizendo o mal que outrem disse,
Faço o mal, que elle naõ fez.
Fraqueza da Alma.
Os que de mim se fiarem,
Mal lhe irá, se me tiverem,
Cayo, sem me derrubarem,
Mas naõ me ergo, sem me erguerem.
Ingratidaõ.
Amizades se desfazem,
Por mim, porque naõ me atrevo,
Pagar mercès que me fazem,
E conhecer as que devo.
FIM.