A Allemã

FOI ha bastantes annos que a vi pela primeira vez.

Loução e garrido, balouçava-se brandamente na enseada do Funchal o Maria Pia, vapor da carreira de Lisboa, e rodeado ainda por um enxame de botes, que tinham levado para bordo passageiros e bagagens, apromptava-se para deixar, depois de uma visita de tres dias, a denominada Flôr do Oceano.

Eu, debruçado na amurada, e já amargurado pela saudade, seguia tristemente com a vista um barco que, aproado á terra, ia tornando cada vez maior a distancia que começava a separar-me dos unicos entes a quem prezava no mundo.

Estava, havia não sei quanto tempo, n’esta contemplação, quando attentei n’outro bote, que, fazendo força de remos, demandava rapidamente o vapor, apesar de o tiro da partida ter já de ha muito resoado pelas fragas que bordam a Madeira.

Não tardou que atracasse ao navio, e momentos depois entrava para o convez uma senhora com o rosto tapado por um veu cinzento, e amparada por dois sadios filhos da ilha, em quem reconheci dois homens de rede, os quaes tamanho serviço alli prestam aos tisicos, transportando-os n’aquelle commodo descanso, tão predilecto dos creoulos e de todos os que habitam as regiões tropicaes.

Conduziram-a para uma cadeira de vimes, que já estava disposta com segurança no meio da tolda, do lado da camara de primeira classe, e ahi a depuzeram com delicadeza á primeira vista pouco consentanea com o exterior um tanto rude d’aquella pobre gente.

Feitos os ultimos preparativos para a partida, poz-se o vapor em movimento, aproado a leste, e cortando veloz as mansas aguas da enseada.

Tres horas, talvez, estive a fitar, primeiro as encostas accidentadas e verdejantes da ilha, que fugiam rapidas para o lado do occidente, e depois os pincaros abruptos, que coroam aquella enorme massa vulcanica, e que cada vez se iam tornando menos distinctos, já assumindo uma côr entre parda e azulada, já assimilhando-se a nuvem que mal sobrepujava a superficie do oceano, até que finalmente se occultaram de todo.

E eu, ancioso de rasgar com a vista o horisonte para ver uma vez ainda os que deixára, e enviando-lhes um ultimo adeus na vaga que passava fugaz ao lado do navio, voltei-me para dentro, triste e desanimado, como quem de repente se encontra só na vida.

Foi então que a pude ver.

Imagine-se, por um momento, uma d’aquellas divindades esquivas e vaporosas, de que a phantasia dos bardos do norte povoa os lagos e as florestas: a mulher que eu tinha deante de mim era mais ligeira, mais diaphana do que essas creações imaginarias. Á ultima claridade da tarde observei-a detidamente.

O rosto era de um esplendor lacteo, de uma transparencia de alabastro; se bem que emmagrecido pela doença, ainda ostentava o typo septentrional, em toda a sua formosura e pureza.

Contrastando com a pallidez morbida, desenhavam-se-lhe nas faces as rosas purpurinas e terriveis da tisica.

Nos olhos, do azul mais puro, tristes e resignados, havia uma vaga aspiração para as espheras brilhantes e luminosas, uns reflexos de além do tumulo.

Recostada languidamente nas almofadas que estofavam a cadeira, e com a cabeça, aureolada de finissimos cabellos louros, descahida para traz, olhava para o mar, com a indifferença e melancholia de quem perdeu de todo a esperança.

De quando em quando, uma tosse pertinaz fazia arfar-lhe o peito, e por momentos, se bem que rapidos, transmudava-lhe a expressão do semblante, de serena em dolorosa.

N’outra qualquer occasião ter-me-hia despertado interesse, mas então impressionou-me mais vivamente do que nunca, aquella mulher, moça, bella, e, na apparencia, tão gravemente enferma, que não tinha a seu lado um parente, um amigo, um enfermeiro sequer.

Os passageiros, que o enjôo não obrigára a recolher aos beliches, passavam perto d’ella com indifferença, e sómente o capitão se lhe acercou uma vez, a perguntar-lhe se não julgava melhor descer para a camara.

—Melhor! respondeu ella em francez e com sorriso entre amargo e benevolente. Aqui ao menos tenho este ar tão puro. Prefiro ficar. Obrigada!

E deixando caír novamente a cabeça na almofada, voltou á primitiva immobilidade.

Quando desci á camara, á hora da ceia, não pude esquivar-me a perguntar ao capitão informações a respeito da desconhecida.

Eis o que elle sabia:

Viera no anno antecedente da Allemanha, sua patria, em companhia de um irmão, buscar ao clima benefico da Madeira allivio para os soffrimentos, que os medicos do seu paiz não tinham sabido debellar e a que prophetisavam até um proximo e fatal desenlace.

As sinistras previsões scientíficas realisaram-se, porém com uma differença: a victima não foi ella, mas o irmão, que ferido de morte subita, a deixou só n’uma terra de estranhos, e apavorada com o pensamento de ver-se, na derradeira hora, cercada apenas de indifferentes e mercenarios.

Estar alli nem mais um momento!

Partia pois, esperançada em ter ainda vida bastante, mercê de Deus, para voltar ao que por tanto tempo aprendera a amar: ia morrer nos braços da mãe.

Ás dez horas voltei para o convez.

Era uma noite de agosto, limpida e sem lua; mal soprava uma leve aragem, que ia a pouco e pouco dispersando os rolos do fumo que o vapor deixava após si.

As estrellas reverberando nas ondas inquietas, afiguravam-se, á vista illudida, de outros tantos luzeiros fluctuantes na massa fluida.

O silencio imponente da solidão era perturbado apenas pelas pancadas cadenciadas do helice, e pelo rumorejar surdo da agua em torno do navio.

E em redor tudo immenso: a amplidão etherea e a vastidão dos mares, o infinito e o seu espelho, como disse madame de Staël. E devassando os arcanos da natureza, e affrontando-lhe a soberania, o homem, só e illuminado pelo seu genio, deixando escripta na esteira do navio a divisa do progresso.

Logo que os olhos se me habituaram á meia obscuridade que reinava no convez, descobri-a de novo no logar onde a tinha deixado.

Nem eu sei dizer a tristeza que se apossou de mim.

Tornava para os seus, porém elles, em vez da alegria que traz sempre a volta d’um parente querido, teriam a expectação fatal d’uma desgraça eminente.

A mãe, ao apertar ao seio a filha, ao cobrir-lhe o rosto de beijos, sentiria na ardencia da febre que lhe devorava a vida da sua vida, os amplexos antecipados da mortalha.

E aos vinte annos!... Era bem cedo para morrer, como, da meiga virgem de Procida, diz o poeta das Meditações.

Ao menos, triste consolação! uma vez arrebatada á vida, mão amiga e carinhosa iria depôr-lhe sobre a campa as coroas votivas da saudade, e a mesma brisa, que lhe brincara com os cabellos de creança, perpassando por entre os cyprestes, levar-lhe-hia, nas azas perfumadas, os suspiros dos que a choravam.

Dois dias depois chegámos a Lisboa.

Perdi-a de vista ao desembarcar, mas nem por isso a esqueci; e mais tarde, nas horas de melancholia, não poucas vezes aquella mulher, antes visão que realidade, vinha, circumdada de uma aureola de triste poesia, pousar-me docemente na imaginação.

* * * * *

São passados sete annos e com elles quantas illusões!...

Entremos por momentos na alfandega de Lisboa.

Na casa das bagagens vae um borborinho indescriptivel: os passageiros, chegados ha pouco da Madeira, no Maria Pia, e do Brazil, não sei em que paquete, reclamam com instancia a propriedade; os fiscaes impacientam-se; as malas e os bahus fecham-se ruidosamente, depois de examinados pelas vistas prescrutadoras dos aduaneiros; os carros de mão giram velozes sobre o asphalto; os sinetes, molhados em tinta azul, percutem sem cessar os disticos de cada lote...

Eu, á busca d’um amigo a quem esperava, ia correndo os grupos, já meio desorientado pela confusão, quando sons ainda mais discordantes me vieram ferir os ouvidos.

Junto de mim, discursava-se com animação, n’aquella lingua que, segundo já alguem disse, qualquer póde falar mettendo um fio de retroz na garganta, e que o auctor do Fausto, com o melhor fundamento, poz na bocca do diabo.

Volto-me, para ver quem vinha juntar o seu allemão áquelle motim destemperado, e vejo...

Quem ha ahi que não conheça as milagrosas propriedades nutritivas attribuidas ao medicamento, que tem o nome de uma famigerada cortezã franceza, e que tão apregoado foi pelos jornaes das cinco partes do mundo?

Pois era ella, a allemã ... depois de ter tomado a revalescière Dubarry.

A principio descri dos sentidos.

Admittia-se porventura que o ente ideal e vaporoso qual ondina do nevoeiro, que eu entrevira n’outro tempo, se houvesse transformado no que eu tinha deante de mim!

Mas não havia que duvidar.

O rosto era o mesmo, embora á transparencia alabastrina e ás rosas da tisica tivesse succedido ... como hei de dizel-o?... o adipe abundante e as côres sádias da robustez. A cabeça, em vez de reclinada morbidamente, conservava-se levantada e vivaz. A fraqueza de valetudinaria transformara-se em fortaleza, que faria inveja ás nossas matronas de Diu, de que fala Jacintho Freire, ou a um soldado do imperador Guilherme.

Eu estava indignado!

Scismara sete annos n’aquella mulher, enterrara-a, recitara-lhe nénias sobre a sepultura, para um dia,—oh! prosa da vida!—ousar apparecer-me sã, robusta, a vender saude.

Era quasi uma abominação, um crime de leso-ideal; quanto melhor não fôra que tivesse morrido!

Mas ainda eu não disse tudo.

Dava o braço a um allemão (era-o, com certeza!) de barba loura, e seguiam-a duas creanças louras, uma ao collo, outra pela mão d’uma creada tambem loura.

Tudo louro!

Não quiz ver mais nada, e saí precipitadamente da alfandega, amaldiçoando o sentimentalismo, as allemãs e o cabello louro.

O Marraxo

Um calor de rachar pedras, quanto os quatro rapazes descansaram do trabalho. Já na vespera á tarde se tinha annunciado a léstia pelos tons vermelhos do horisonte para as bandas do nascente.

Os ricos e remediados podiam fugir-lhe, mettendo-se em casa, com as portas e as janellas bem fechadas; mas elles, coitados!...

Cá fóra chegavam a toda a parte as breves lufadas do vento abrasado do Sahara, que parecia não ter perdido um atomo da sua ardencia com o atravessar centenas de leguas do Atlantico, desde a costa de Africa até á pequena ilha do Porto Santo. N’aquelle ambiente de forno, as plantas mirravam-se de tal sorte, que se alguem apertasse entre os dedos as folhas mais tenues, facilmente as reduziria a pó.

Mas o mar ficava a dois passos do logar do trabalho.

—Que rico banho, graças a Deus! pensavam os quatro.

Atravessaram de corrida o areal a escaldar, e foram-se despir á sombra de uma saliencia de rocha, junto ao Penedo do Somno.

Na extensa praia que borda o sul da ilha, o ar, como ao de cima de uma fogueira, trepidava rarefeito. Augmentava-se ainda mais a impressão do calor, com os offuscantes clarões d’aquella areia amarella e fina. Ninguem podia respirar, nem que fosse até lá acima, ao pico do Castello, que muito no alto, ao noroeste, desenhava no ceo baço e pardacento o perfil regular da sua pyramide.

O mar estava alli ao pé. Todo frescura, espreguiçava-se na praia, encrespado pelo sopro da léstia: ao largo, porém, com o sol dardejando-lhe a pino, lembrava um extenso e irrequieto lençol de metal fundente.

—Sabem vocês uma coisa? disse um dos quatro. A modos que o mar tambem está encalmado!

E a rir do proprio dicto, o José desceu até ao mar, molhou a mão direita e benzeu-se devotamente.

Os outros fizeram o mesmo, e investiram para a agua todos a um tempo, no meio de cachões de espuma, e soltando guinchos com a repentina impressão do frio.

O Francisco seguido por mais dois nadou para fóra, mas o José, que no mar nunca tinha sido afoito, deixou-se ficar no sitio onde quebravam as ondas. A agua nem lhe dava pela cintura.

—Larga-te d’ahi, calaceiro! berrou o Antonio, ao vel-o na occasião em que virava rapidamente a cabeça, para sacudir da testa os cabellos gotejando agua.

—Vá quem quizer, que eu cá tenho pouco folego.

—Ah! Tu não vens? Eu já te vou escarmentar.

Mergulhou, e reappareceu ao cabo de poucos segundos: trazia na mão uma pedra de cal e atirou-a para o José.

—Ah! Vocês querem fazer-me reinar? disse este ultimo, deveras amuado, e correu para o logar onde estava a roupa. Tirou a agua da cabeça passando-lhe a mão com força, enfiou a camisa e veiu enxugar á torreira do sol, empoleirado no rochedo que avançava pelo mar dentro.

A umas cem braças de terra, os outros voltaram para traz. Não eram da mesma força a nadar e por isso vinha mais fóra o Francisco, logo adiante o Antonio e na frente de todos o Luiz.

Com a mão direita estendida sobre os olhos, á guisa de pala, e segurando com a outra a fralda da camisa, que o leste sacudia, o José seguia os movimentos dos amigos com olhares invejosos.

Mas o que viu elle subitamente?...

Atraz do Francisco, a umas quatro ou cinco braças a agua mexia-se, e divisava-se como que uma sombra escura seguindo os banhistas.

—O que seria aquillo?

Mal tinha formulado mentalmente a pergunta, deu um grito fortissimo.

Ao de cima da agua avistava-se distinctamente uma galha escura e delgada.

—É um marraxo!

Tremulo de medo, bracejando muito, desatou a chamar os outros, com gritos entrecortados.

O Luiz, que se tinha deitado de costas para descansar, ouviu-o e olhou na direcção que os gestos indicavam. Como descobriu a galha do tubarão, bradou logo:

—Nada com ancia, Francisco, nada com ancia, e não pares!... E tu tambem, Antonio!... Olhem o que vem lá atraz!

O Francisco voltou a cabeça e passou-lhe pelo corpo um arrepio, como se a agua tivesse gelado de repente.

Em quanto elle nadasse—estava farto de o saber—o marraxo não atacava, porque não pode morder sem parar primeiro e virar-se, a fim de voltar para cima a bocca immensa, armada com sete ordens de dentes cortantes como aço!

E acudiu-lhe á memoria o triste fim d’aquelle rapaz, que um marraxo rolara pelo meio, ao pé do ilheo da Cal.

Mais rapidos que as ideias que lhe estuavam no cerebro, só os movimentos que fazia nadando, e que, desordenados, o iam extenuando a mais a mais.

Um dos companheiros havia no entretanto chegado a terra.

Como é que o terrivel animal o não tinha já alcançado?... Devia estar quasi a tocar-lhe nos pés!... Não tardava a rilhar-lhe os ossos!...

Perguntassem-lhe se preferia que um raio o fulminasse, a continuar n’aquella agonia tremenda, e pediria que no ceo limpido, testemunha impassivel da tragedia, se formasse de prompto uma nuvem de tempestade, para lançar-lhe a fita de fogo, que o matasse instantaneamente.

Já não podia mais. O coração batia-lhe no peito, como se quizesse arrombar-lh’o.

Tambem já tinha chegado á praia o João.

—Só para elle estava guardada aquella morte horrenda!...

O José lembrou-se de que no sitio onde se despiram tinham visto um madeiro roliço, que parecia resto de um mastro. Correu a buscal-o. Despiu a camisa e amarrou-lh’a bem, pelas mangas. Sobre o penedo e com o corpo inclinado para o mar, não perdia de vista o perseguido nem o perseguidor.

O Francisco já podia tomar pé, mas fazia bem continuando a nadar, pois o maior perigo estava exactamente no instante em que parasse, e assentasse os pés no fundo, para desatar a fugir.

Ia o Luiz atirar uma pedra ao tubarão, mas o José prohibiu-lh’o com um gesto imperioso, e bradou:

—Nada sempre, ó Francisco, e não tenhas medo!

Um pouco debruçado do penedo, acompanhava com os olhos esgazeados os movimentos do peixe, tal qual o trancador de baleias no momento de arpoar. Mas o banhista chegou á babugem da maré e logo o madeiro caíu entre elle e o marraxo.

—Foge, Francisco! bradaram-lhe os tres, como se fosse preciso o conselho.

Vendo caír-lhe diante e estacionar ao lume da agua aquella massa branca, o marraxo voltou-se e fincou-lhe os dentes com ancia.

—Ahi podes tu morder, cachorro! gritou-lhe o João. Surriada!

E contentissimos, os tres atiravam-lhe pedras, em quanto o Francisco se deixou caír na praia, extenuado e offegante.

Sem dar pela aggressão, o enorme esqualo queria desforrar-se do logro estracinhando a madeira, mas como a areia já lhe penetrava nas guelras, mudou de rumo e dirigiu-se para o largo, a galha escura surgindo sempre ao lume de agua.

Desde aquelle dia o Francisco, por mais calor que fizesse, nunca mais se metteu no mar.