A Licença Do Domingo

HAVIA já tres quartos de hora que se distribuira o rancho da tarde, no quartel de S. João em Ponta Delgada.

Os piquetes, que tinham ído levar a comida ás guardas exteriores, vinham já de volta e encontravam-se de vez em quando com os soldados que desciam a rua, aos grupos de dois e tres, alguns de mãos dadas pelos dedos minimos, lançando para as raparigas, que estavam pelas portas e janellas, uns olhares provocadores. Se estes galanteios destoavam grandemente da apparencia pouco seductora dos D. Juans de fardeta, nem sempre se perdiam.

Dentro do quartel, nas casernas pequenas e abafadiças, tinham ficado apenas as praças de serviço.

Na da segunda companhia, em redor de uma cama onde está sentado o cabo José, ha ainda assim grande ajuntamento, e estrugem a espaços enormes gargalhadas, que interrompem momentaneamente a cantiga, origem da hilaridade, e chegam até a cobrir os sons da viola que o cabo, um heroe dos charambas, dedilha com uma pericia incomparavel.

Mas que terá o Roque, o 72, que, sem attender aos descantes, anda a passeiar de um para outro lado, muito pensativo?

É por força cousa séria.

Oh! Mas o rapaz tomou certamente uma resolução, porque abriu a caixa da roupa, tirou para fóra a fardeta, e vestiu-a, abotoando-se cuidadosamente. Depois ageitou o bonnet na cabeça e caminhou para a porta.

—Vaes passeiar, ó Roque? perguntou-lhe o plantão?

—Tu sabes se o nosso primeiro está no seu quarto?

—Saiu ha migalhinha. Foi com o nosso sargento José Luiz passeiar á doca.

O 72 ficou de má catadura, e pareceu hesitar, mas, resolvendo-se, saiu da caserna.

—Eh! Home, levas uma cara de calhau, disse-lhe ainda o plantão.

No corredor que rodeia o claustro do antigo convento, o 72 encontrou o impedido do capitão da segunda companhia.

—Ó Francisco, o teu patrão onde está?

—Alli.—E mostrou com o gesto o quarto da extremidade do corredor.—Acabou ha um instantinho de jantar... Vão aqui dentro os pratos vazios, disse o rapaz, enfiando o braço na aza de uma cesta que trazia na mão.—Haja saude, ó Roque!

O outro foi caminhando para o logar que o impedido lhe indicara, mas insensivelmente diminuiu o passo, e poz-se a coçar a cabeça, n’uma grande irresolução.

A porta do quarto estava fechada. O 72 pegou com medo na aldrava e deixou-a cair.

Passaram-se alguns segundos.

—Talvez já cá não esteja, ia o soldado dizer comsigo mesmo, visto não obter resposta, quando ouviu tossir da parte de dentro.

Pegou outra vez na aldrava e bateu muito de leve.

—Que temos? perguntou uma voz encatarroada.

—V. S.a dá licença, meu capitão?

—Entre quem é.

—Sou eu, meu capitão ... disse o 72, entrando e tirando o bonnet com um movimento rapido e desgeitoso, mal viu o official de cabeça descoberta.

No quarto de inspecção, pequeno e acanhado, havia um forte cheiro a comida e a fumo de tabaco.

O capitão, sentado n’uma cadeira de palhinha, tosca e despolida, tinha os cotovellos encostados á mesa e lia um jornal de Ponta Delgada, o Echo Michaelense, tomando a espaços longas fumaças de um cachimbo de escuma, muito queimado.

Com os calcanhares unidos, os olhos um pouco esgazeados, os beiços n’um ligeiro tremor, o soldado não se atrevia a falar.

—Que demonio queres tu? perguntou-lhe o capitão Saraiva, ao cabo de algum tempo e sem interromper a leitura.

—Eu, meu capitão? Saiba V. S.a que me custa muito vir incommodar a V. S.a...

—Mau! Despacha-te! Nunca vocês sabem dizer as cousas por claro. Que diabo de gente, estes ilheus! E batendo com a mão sobre o jornal, voltou a cabeça para o soldado, medindo-o com o olhar.

—Elle é verdade meu capitão, mas é que ás vezes assuccede a um home cada uma...

—Ou te explicas, ou marchas n’um prompto para a caserna! disse o capitão, com voz irritada. Levantou-se, poz o bonnet na cabeça, puxou o collete para a cintura, mettendo para baixo do cóz das calças a dobra da camisa que estava saliente, e abotoou o raglan, inferiormente ao qual appareciam as borlas da banda, distinctivo usado no batalhão pelos officiaes de serviço.

—Saiba V. S.a, meu capitão—começou o 72, dando com as mãos muitas voltas ao bonnet,—que esta tarde, antes do rancho, eu tinha ido alli abaixo, ao largo da Matriz...

—Que tenho eu com isso?

—E vae d’ahi, topei com a Rosa, uma rapariga da minha freguezia, e ... o que me ha de ella dizer? Que hontem á noitinha, quando meu pae ia recolhendo ás Féteiras...

—Tu és das Féteiras? Aquelle logar que fica no caminho para as Sete Cidades?

—Saiba V. S.a que sim... Ao descer uma canadinha, escorregou dos pés e foi-se abaixo, batendo com o corpo nos calhaus. O pobre do hóme é velho e d’ahi a quéda deu-lhe uma volta ao interior. Parece que está mesmo a decidir.

Estas ultimas palavras foram acompanhadas por um choro meio suffocado.

—Bem! E que queres tu então? perguntou o official, com menos rispidez.

—Se V. S.a me desse licença, eu pegava em mim e ia vêl-o.

—Ás Féteiras? Tira o cavallo da chuva! Porque não pediste a licença antes do toque da ordem? Não sabes que o batalhão tem pouca força, e que é preciso fazer escolha nas praças que pedem para ir no domingo á terra?

—Saiba V. S.a que sei, mas áquella hora ainda não me haveram dito nada, e como faz hoje oito dias que eu tive licença...

—Sabias que não a apanhávas.

—Mas agora, se V. S.a me fizesse essa esmola... O pobre do velho está, vae não vae, a ir para Nosso Senhor, e eu sem lhe poder valer!... A voz do soldado, entrecortada novamente pelos soluços, pronunciou mais algumas palavras inintelligiveis.

O capitão, meio zangado, meio condoido, passeiava pelo quarto, com o cachimbo a um canto da bocca, e as mãos mettidas nos amplos bolsos das calças de cutim. O 72, cabisbaixo, seguia-lhe os movimentos com um olhar obliquo e prescrutador.

—Dar-se-ha o caso de que tu estejas a embaçar-me, grande maroto? perguntou de subito o official, fitando muito o soldado.

—Eu! disse este, cheio de susto. Se minto, mais negro seja que o carvão!

—Eu sei lá! Vocês todos são frescos. Quem me déra para cá os meus trinta e cinco annos de serviço, para me livrar da maldita massada de atural-os! Mentiste ou não mentiste?

—Isto é que se chama! Pergunte o meu capitão á Rosa.

—Teu pae, então, está a morrer?

—A modos que sim, senhor. A dôr de dentro não o larga. Se não foi isto o que a Rosa me disse, abram-me a cabeça com um calhau!

O soldado continuava a praguejar, em quanto o capitão, sem interromper o passeio, se recordava do que lhe tinha acontecido, havia já um bom par de annos, estando elle no Porto, em sargento do 18. Chegou-lhe de Braga uma carta, participando-lhe que a mãe se achava em perigo de vida. Pediu licença immediatamente, mas como a ordem tardasse em vir do quartel general, quando chegou a casa, já a sua velhinha estava enterrada.

—Pode acontecer o mesmo a este pobre diabo, pensava o capitão. Por fim, decidindo-se, parou, tirou o cachimbo da bocca e disse com muita intimativa ao soldado:

—Pois muito bem! Vocemecê vae hoje para a sua terra... É verdade! Não entras de serviço amanhã?

—Entro de fachina, mas o 12, que é meu camarada e está de nada, fica por mim, se V. S.a der licença.

—N’esse caso vae e volta ámanhã á noite, antes do toque.

A cara do 72 alegrou-se, sem comtudo se desannuviar completamente.

—Se V. S.a me deixasse, eu voltava na segunda feira.

—É isto! Querem logo tudo! Bom! Voltas depois de amanhã, antes do rancho. Serve-te?

—Seja pela sua saude, meu capitão! Nosso Senhor é que lhe ha de pagar uma coisa d’estas.

—Vocês ainda me compromettem com o nosso commandante. Anda, põe-te ao fresco!

O soldado rodou sobre os calcanhares, depois de fazer a continencia e dirigiu-se para a porta. Ia já a sair, quando o capitão o chamou.

—Olha lá!

—Prompto, meu capitão!

—Tu... O official hesitou no que ia dizer, depois, lembrando-se de outra cousa: Pediste licença ao primeiro sargento para vir falar-me!

—Saiba V. S.a que elle saiu a passeio.

—Mau!... É verdade! Tu sabes se os ovos na tua terra estão baratos?

—Tiram-se a seis por um pataco.

—Pois traze-me umas tres duzias; cá na cidade só pesados a ouro... Depois te dou o dinheiro.

—Não faz moléste, meu capitão.

—Bom, vae-te embora e dize ao sargento que tens licença.

—Sim, senhor, meu capitão.

E saiu.

O rosto brilhava-lhe de alegria. N’um abrir e fechar de olhos, foi á caserna, despiu a fardeta, vestiu um casaco á paizana, que já tinha antes de sentar praça e descalçou-se. D’ahi a pouco estava fóra do quartel, e descia apressadamente a rua de S. João, receioso de que ainda lhe tirassem a licença. Acompanhava-o a competente vardasquinha, isto é, um valente bordão capaz de matar um homem. Dez minutos mais tarde saía de Ponta Delgada, pelo lado occidental.

Quando deixou de encontrar gente, e viu diante de si a estrada quasi deserta, bordejada por paredes caiadas de branco, algumas encimadas pelas comas do arvoredo, parou por instantes, e poz-se a rir maliciosamente:

—Tinha embaçado o capitão!

O pae estava tão doente, como elle. Pelo menos, ainda no ultimo domingo o tinha deixado na freguezia, são e escorreito.

—Fiou-se no que eu lhe disse! pensou. Queira Deus não venha a descobrir! O que me vale é não haver lá na companhia mais rapazes das Féteiras.

Foi andando.

—Por fim de contas não era coisa ruim o que tinha feito. No dia seguinte festejava-se o Espirito Santo, na freguezia. Havia imperio e bôdo. Faltar, era até um peccado! Se falasse verdade, não lhe davam licença. Por ter dito que o pae adoecera, não o fazia ir para a cama. O velho estava ainda esperto e rijo. Podia caír á vontade, que não morria ás primeiras. Tinha hombros largos, pescoço curto, e a cara, embora um pouco enrugada, estava sempre vermelha, que se podia ver. Mettia no canto a muitos rapazes, o ti Jaquim.

O Roque avançava que era uma maravilha!

A estrada ia mudando de aspecto. Á direita extendiam-se largas campinas escuras, subindo gradualmente até acabarem nas collinas, que limitam o horisonte; á esquerda começa a ribanceira, cujo sopé vae terminar na costa meridional de S. Miguel em declives abruptos. De cá de cima, em alguns pontos, avistam-se grandes extensões da praia, que offerece ao mar uma larga concavidade, onde se desenrola um vasto lençol de espuma.

Para o lado da cidade vinha um cantoneiro.

—Haja saude, tio João de Mideiros.

—Haja saude, Roque. Vaes a casa?

—Vou. Esteve lá em baixo hoje?

—Não. Quem para lá voltou agora, foi o sr. dr. Luiz, que já vinha a caminho da cidade.

—Voltou? Para quê?

—Para acudir a um homem, que teve uma coisa esta tarde. Veiu um rapaz, o José, chamal-o de galão ... montado, por signal, n’um burro.

—E a quem deu o mal?

—Não sei. Não tive tempo de perguntar ao José, porque elle voltou logo, mais o sr. doutor. Aquillo é que é a bondade em pessoa, o sr. doutor! Fosse outro, que bem se importava!...

—Talvez o doente seja homem rico...

—Pode que seja. O que te sei dizer é que o sr. dr. Luiz pegou em si e voltou para traz. Eu, como não era ouvido nem chamado no caso...

—Quem será?

—Haja saude, Roque.

—Haja saude, tio João de Mideiros.

Estugou o passo.

—Quem seria o individuo? Talvez algum velho. Certamente o sr. padre Francisco!... Já no verão passado tinha tido um ar de poplexia. Antes seja outro—pensava o Roque—senão como se ha de fazer amanhã a festa do Senhor Espirito Santo?...

Ao lusco fusco chegava ás primeiras casas do logar, situadas no alto da encosta, que vae descendo até á egreja. Olhou lá para baixo e sentiu a mesma impressão, que tivera ao voltar á freguezia, depois de passar no batalhão os primeiros quinze dias.

Durante aquellas duas semanas andou no quartel a chorar pelos cantos, ralado de saudades. Saía para espairecer as magoas, corria as ruas da cidade, parava espantado em frente das lojas, como de antes fazia, quando vinha da freguezia comprar algum fato, ou por amor da festa do senhor Santo Christo. Mas voltava para o quartel, ia para a caserna, e amarrava-se a um canto, sem ao menos ouvir as cantigas tão engraçadas do cabo José. A sua consolação, uma vez por outra, era tirar do bahu a charamela, que tocava nas Féteiras, e repetir as modinhas que lhe tinham ensinado por lá. Parecia-lhe então que a caserna, os cabides de que pendiam os uniformes e as mochilas, os armeiros, e tudo o mais ia desapparecendo, desapparecendo, e que via na sua frente a egreja da freguezia, com a casa do imperio do outro lado da estrada; quasi que até ouvia o sino a tocar para a missa!... Uma vez, esteve quasi a dar um grito, porque se lhe afigurou que a Maria do tio Thomaz passava ao pé d’elle, por signal com um vestido de chita clara e um lenço de seda muito bonito!...

Os outros soldados diziam que o rapaz dava em maluco.

Mas o que o fez pasmar, foi que na primeira vez em que esteve de licença na terra, não sentiu a alegria que esperava.

De longe, tudo lhe parecia melhor.

Até a casa, tão pequena e pobresinha, que elle julgava preferivel á caserna, afinal de contas era muito peior.

Um completo desengano.

Mas agora não se demorou a pensar n’isto, e foi descendo a passos largos em direcção á casa do pae, que ficava mesmo á ilharga da egreja.

Quando passou pela venda, teve tentações de perguntar quem tinha adoecido, mas não quiz demorar-se e foi andando para diante.

—Se estava deserto por chegar!

A curta distancia de casa passou por elle o carro do doutor, produzindo estalidos seccos no macadam da estrada.

Vinha do lado da egreja, do sitio onde morava o padre Francisco.

—Não é outro o doente, pensou o 72.

N’isto achou-se ao pé de casa.

Uma coisa lhe fez admiração.

—Que claridade era aquella que saía atravez da porta mal fechada? Não podia ser da candeia, que a mãe accendia todas as noites.

E pareceu-lhe ouvir chorar!...

—Enganava-se por força.

Empurrou a porta, e logo estacou, boquiaberto, com um arrepio por todo o corpo, os cabellos em pé.

No fundo, deitado sobre a cama e um pouco voltado para a porta, estava um homem, já velho, o olhar envidraçado, a cara amarellenta e a bocca repuxada para uma banda. Era o corpo de um defuncto!

Sentadas sobre uma caixa, tres mulheres soltavam ais, assoando-se a miude, e dizendo por entre soluços:

—Louvado seja Nosso Senhor!...

Uma d’ellas, a mais velha, quando deu com os olhos no 72, levantou-se e foi para elle a gritar:

—Ai! Meu rico filho, que já não tens pae!

O Roque bem tinha reconhecido o cadaver, mas attonito, estupido, não queria acreditar nos seus olhos.

Quando ouviu a mãe, desenganou-se; começou n’um berrar destemperado, e atirou-se para o chão, onde estrebuchou muito tempo, arrepellando-se e gemendo sempre:

—Matei o meu pae! Matei o meu pae!

A mãe voltou para junto das companheiras. Uma d’estas segredou á outra:

—O rapaz está variado!

Levantou-se, e com o queixo a bater e todo o corpo n’um tremor convulsivo, foi sentar-se para um canto.

Só á terceira vez é que poude encarar com o defuncto.

Mettia pavor, á luz amarella dos cyrios.

Sem fazer bulha, o Roque fugiu de casa e foi sentar-se á porta da egreja. Lá esteve toda a noite a soluçar:

—Matei o meu pae! É castigo de Nosso Senhor!