CRIME
«Eu pintarei o caso com côres bem crimes.»
(Chron. de Cister.)
I
ABYSMO
«Ai do viandante que não vê caminho!
ai do mesquinho sem a luz da fé!
ai! que, na falta d'um amor sublime,
triumfa o crime, do ludibrio ao pé!
(T. Ribeiro--Sons que passam.)
Foi talvez pouco sensivel ao leitor a desapparição de João Vidal nos ultimos capitulos da primeira parte d'este livro, por que lhe traçou papel secundario no «Conto Portuguez.» A ser assim, foi-lhe infiel o trabalho de imaginação e, temos para nós que por mais vezes, no deslizar pela fiel narração do conto, hade o leitor errar seus calculos.--«Em romance ou folhetim, o verdadeiro é o menos verosímil:»--escreveu com muita propriedade, em maré de chiste, um nosso festejado folhetinista.
João Vidal, o escudeiro, fôra mandado pelo amo reconstruir o solar, em parte presa das chammas, e tractar da administração da casa. Foi elle o escolhido por Sebastião da Mesquita, pela illimitada confiança que lhe devia, e tambem para o desviar dos logares da acção empregada no livramento das donzellas, onde a podia prejudicar o entranhado rancor do escudeiro a Leopoldo.
A resolução do velho fidalgo fazer sumir os vestigios do incendio mandado lançar pela esposa ao seu palacio, foi tomada d'accordo com D. Isabel. Louvára Sebastião da Mesquita aquella inopinada e fidalga acção, a que o desespêro da immerecida e violenta affronta condusira os brios de uma nobre senhora, que era mãe, mas facil lhe foi convencer sua mulher da sem razão de ficarem permanentes os signaes de um crime já reparado, que de mais os privava de viverem commodamente.
Não teve D. Isabel igual facilidade em destruir no seu esposo, o preconceito de que devia bater-se em duello de morte com Leopoldo: foi preciso o auxilio de D. Maria da Gloria, que teve a força de convencer seu illustre pae do respeito e das attenções com ella havidas durante o captiveiro, para conseguirem de Sebastião da Mesquita o esquecimento de tão absurda idêa, a que era levado pelo excesso da honra. E de presumir é que, mais ainda do que as boas razões dadas, imperasse no quietismo de seu animo, a certeza da partilha que tinha a esposa no que houvesse de soffrer seu marido: limitou-se, pois, o honrado velho, a varrer de si, e cortar com a sua familia, todas as relações com a mulher de Leopoldo, pelo desprêso a este votado.
Ao recolher-se com a familia á sua habitação, entregara Sebastião da Mesquita o commando da força popular a Arthur Soares, pedindo-lhe que se conservasse no alto Minho, e exercesse vigilancia sobre as acções intimas de Leopoldo, porque receiava haver feito uma victima da pobre donzella, que tivera em vista honrar pelo casamento com o seductor.
Algum tempo volvido, era Arthur Soares forçado pelo seu dever, a narrar, em longa carta a seu padrinho, o que podera saber pelos seus exforços habilmente empregados. Daremos ao leitor conhecimento d'um periodo daquella carta:
«Colhi a fatal certeza de que a snr.a D. Anna soffre a seu marido constantes doéstos, em alguns dos quaes é menos respeitada a boa intenção do meu nobre padrinho, e senhor, porque se atreve a dizer, que occultas razões determinaram a violencia do seu casamento com uma rapariga pobre! Não se queixa a paciente; mas traz escripto na face os signaes do seu pesar, e gradual definhamento.»
Esperou Arthur, com a ancia de um verdadeiro interesse, apenas producto de sua bem formada alma, que Sebastião da Mesquita, dando o pêso devido ao que lhe havia communicado, procedesse de modo a sanar aquellas rudes e vilãs provocações de um depravado senhor á sua escrava. Os dias, porém, succediam-se na sua marcha natural--que é morosa para os que esperam e pensam, e rapida para os que gosam descuidados--sem que o velho fidalgo désse accordo de si. Admirado Arthur de um tal silencio, que lhe deu margem a mil oppostas conjecturas, não podendo duvidar da entrega em mão da sua carta, porque o portador fôra seguro, resolveu empregar os seus proprios recursos para adoçar quanto possivel a situação amarga da infeliz Anna, que lhe fôra companheira e socia nos annos e nos brinquedos infantis. Tomada a resolução, seguiu-se o emprego de meios para chegar á falla com a mulher de Leopoldo.
Entremos pela segunda vez nas casas que serviram de forçado aposento a D. Maria da Gloria. Estamos na mesma sala onde tiveram logar as scenas descriptas no capitulo--Amor. Recostada em magnifico sofá, e vestida com singela elegancia, está uma sombra d'aquella Anna, que fôra discipula muito amada de D. Maria da Gloria: a seu lado, tomou assento Arthur Soares, em uma d'essas cadeiras cujo feitio se presta a todas as commodidades e posturas de phantastico confôrto. Escutêmol-os:
--Consinta-me, snr.a D. Anna...
--Snr.a D. Anna!...
--Sim, minha senhora, é esse o tractamento que hoje se lhe deve, e não serei eu que o esqueça. V. exc.a soffre. Deixe-me aproveitar estes momentos, para bem claramente lhe dizer o que me obrigou a pedir-lhe esta audiencia. Fui encarregado pelo snr. Sebastião da Mesquita de saber se v. exc.a era feliz: Não é. Sei que o seu viver intimo não está em harmonia com as seductoras apparencias do fausto que a rodeia. Quererá v. exc.a confiar de um leal amigo, de um companheiro de infancia, do mensageiro de seu nobre pae adoptivo, todos os pesares que a consomem?
--Infeliz, eu?!... Pois não vê o senhor Arthur Soares, como estes aposentos estão repletos de esplendor e de magnificencia?!... Não vê esta mobilia, estes adereços, esta riqueza, este luxo, esta sumptuosidade régia de que partilho?!... Eu, a misera filha de um lavrador, apenas habituada ás palhas e ao fumo da cabana paterna!... Eu, que só por favor conhecia o palacio da minha querida mestra e senhora D. Maria da Gloria!... Podem por ventura ter entrada os dissabores, onde moram as preciosidades?!... Não, mil vezes não!... As estatuetas, os modelos em bronze e jaspe dos principaes monumentos da Europa, os bustos serios e caricatos de notaveis personagens do mundo civilisado, o ébano, a madre-perola, esses milhares de caprichos e de prodigios, as antiguidades, os recocós, as reliquias de toda a arte misturadas com os feitios e labores de toda a imaginação, tudo isto que me cérca, de que me chamam dona, que me obrigam a fitar, comprehender e decorar, e que me veiu conjunctamente com a posse de um esposo letrado e nobre,--não será o gôso, a felicidade, a completa ventura?!...
--E as lagrimas, que são o epilogo da formosa descripção que fez, o que significam, senhora D. Anna?...
--Oh!... Estas lagrimas são... de alegria!...
--E porque não diz de saudade?!... Saudade que ninguem tem o poder de condemnar na alma, que foge dos logares dourados, onde lhe fazem soffrer o peso de grandezas que não ambicionou, para se aninhar nas pacificas palhas da sua infancia e adolescencia, onde lhe fôra suave e salutar bafejo o contacto de outras almas lavadas, caridosas, verdadeiramente nobres em todas as suas acções... Por que não revela toda a verdade, que eu de sobra conheço na excitação que V. Exc.a manifesta?...
--Toda a verdade!... Sabel-a-ei eu, senhor Arthur Soares?... Amo Leopoldo, que é meu senhor, e... e devo ser feliz n'este paraiso, para onde fui atirada em completa nudez, e no qual achei, como nos contos de fadas, tudo que uma princeza póde ambicionar...
--Disse o bastante, minha senhora. Agradeço a confiança que em mim depositou, e que lhe mereço, creia. Peço o favor de confiar-me tambem a cobrança de haveres que lhe pertencem. Ha um mysterio na vida de V. Exc.a, de que eu estou senhor, que só mais tarde lhe póde ser revelado. Mysterio honroso, que a hade tornar respeitavel aos olhos de... de toda a gente. Os haveres de V. Exc.a, se não podem equiparar-se aos de seu illustre esposo, são, com tudo, sufficientes para darem, em todo o tempo, a independencia necessaria a uma senhora. Concede-me, por escripto, a auctorisação que lhe peço?
--Vou escrever o que quizer dictar-me, meu bom amigo.
Aproximaram-se de um riquissimo e formoso movel, que serviu de escrivaninha, onde Arthur, em pé, dictou, o que Anna escreveu com punho firme. Concluido e entregue o documento, tiveram logar os agradecimentos, as despedidas e as recommendações, em que por muito entraram os sentimentos de gratidão que a pobre senhora nutria por toda a familia de D. Maria da Gloria, e o affecto filial aos singelos caseiros, que ella julgava seus progenitores. Durante estas naturalissimas expansões, agitou-se um reposteiro e entrou Leopoldo na sala. Vinha pallido, mas os passos eram seguros, o aspecto risonho e o porte ceremonioso. Dirigiu-se a sua mulher com requintada delicadeza, dizendo-lhe que a esperavam as suas modistas, e dando-lhe o braço para a conduzir. Cumprimentou attenciosamente Arthur Soares, e pediu-lhe o favor de o aguardar alguns minutos, dirigindo-se em seguida com a esposa para o interior do palacio.
Arthur esperou de animo resoluto, como quem descança na paz da consciencia, a volta do seu pronunciado inimigo.
--Creio que o não fiz esperar muito, senhor Arthur Soares?... Queira collocar-se á vontade, e dignar-se responder-me, caso me julgue com direito a fazer-lhe algumas breves e concisas perguntas.
--Ouvirei, senhor Leopoldo.
--Peço desculpa de não principiar pelos offerecimentos do estylo: julgo que minha mulher saberia fazer-lhe o que chamam as honras da casa?...
--A senhora D. Anna recebeu-me como uma senhora distincta costuma agasalhar um companheiro de infancia, um como irmão respeitoso e lealmente affeiçoado.
--Muito bem... Poderei saber o motivo porque se aproveitou a minha ausencia, para a visita com que V. S.a quiz honrar esta casa?...
--Porque não me sendo agradavel a presença de V. Exc.a, devo suppor que a minha egualmente o não seja ao senhor Leopoldo.
--Colhe alguma cousa essa franqueza... E o motivo da conferencia, é segredo para mim?...
--Não guardo segredos de uma senhora casada. Vim visitar a senhora D. Anna, em nome de pessoas que a presam, e pedir-lhe esta auctorisação:--«Dou a Arthur Soares os poderes necessarios, para receber toda a quantia ou valores a que eu tenho direito.»
--Vejo que se faz procurador de minha mulher, sem outhorga minha!... É para intentar divorcio, e pedir-me alimentos?...
--Pondo agora de parte as suas impertinentes ironias, assevero-lhe que S. Ex.ma esposa não é pobre, e que, para cobrar o que lhe pertence, é que eu vim pedir-lhe este escripto.
--E que validade descobre V. S.a n'esse papel, que não é authenticado por mim?... Pois não serei eu o competente para essa cobrança?...
--A esposa de V. Exc.a ignorou até hoje, que era senhora de fortuna, como ainda não sabe do seu illustre nascimento: este mysterio, não póde ser já aclarado. Não se fatigue com perguntas, que não colhe mais esclarecimentos. V. Exc.a tem o direito de receber, querendo, o dote da snr.a D. Anna, garantindo-lh'o em bens seus. Para a recepção actual, sou eu o unico competente. Não peço mais documentos, nem dou a pessoa alguma o direito de duvidar da pontual entrega, que hei de fazer, do liquidado e recebido por mim.
--Por hoje, não quero demoral-o mais... Conto que V. S.a não ha de recusar-se a dar-me, de futuro, quaesquer esclarecimentos...
--Sempre ás ordens de V. Exc.a, para o que fôr do meu brio.
Retirou-se Arthur Soares, e o mesmo foi que abrir-se um dique á torrente do odio represado no coração de Leopoldo. Ficou o leão rugindo no seu antro, prestes a cahir no abysmo cavado a seus pés pelo amor e pelo ciume.
II
FIDALGUIA
«É que ha uma fidalguia de alma que nem sempre falta ao que chegou por si á grandeza, assim como nem sempre vem aos que a herdaram de seus antepassados.»
(V. d'Almeida-Garrett--Helena.)
A chamada nobreza de sangue tem origem respeitavel.
Os homens que defenderam e ajudaram a republica, consagrando-lhe todas as suas forças e haveres, quando o perigo era commum de todos,--foram nobres. Os homens que souberam fazer valer os direitos da nação, sendo leaes guardadores das immunidades patrias, e em longinquas e perigosas paragens, exposeram as suas vidas, em quanto muitos outros gosavam as delicias caseiras,--foram nobres. Os homens que, dados a serios estudos desde a mais tenra infancia, conseguiram nome e gloria para as nações a que pertenciam,--foram nobres. Foram, e deviam sêl-o. Não lhes ficou barato o rôlo de papel--titulo de nobreza, porque o da fidalguia estava nos seus feitos--de que os descendentes, ainda hoje, e sempre, e com soberbas razões, se devem orgulhar.
Por milagre de esforço, de perseverança, de audacia mesmo, se deve aos nobres de Portugal, o termos algum dia sido o povo mais forte e mais respeitado da Europa. Um Affonso de Albuquerque, o fundador do imperio portuguez no Oriente, aquelle que os adversarios chamaram leão dos mares, fôra bastante, por seus heroismos, a justificar entre nós o justissimo orgulho da nobreza de sangue; que, ainda assim, tem mais remotas e egualmente verdadeiras glorias a que soccorrer-se.
Do natural desvanecimento dos que se gloriam de seus nobres antepassados, só a mesquinha inveja póde desdenhar. E muitos, e tantos, e de tamanho valor foram os nobres portuguezes, que não cabe n'este logar enumeral-os. E nem por isso elles ficam ignorados, que, a par dos heroes da espada, viveram os nobres d'outros feitos, os Camões, os Barros, os Coutos, os gigantes eternisadores das memoraveis façanhas de seus coevos, meritorios como elles, e como elles dedicados á grandeza da patria.
Sabemos que á civilisação repugna a conquista, embora tenha de conformar-se com os factos consummados; mas quem ha que duvide da boa fé com que pelejaram os nossos velhos portuguezes? Religião e patria, eram os seus estimulos; e á prodigiosa força de tão poderosas ideias, se devem attribuir as suas heroicidades.
Mas ser nobre, nem sempre quer dizer ser fidalgo illustre. A nobreza póde ser herdada, e a fidalguia, as acções briosas, não. Para ser nobre bastam os pergaminhos; para ser fidalgo illustre, não se dispensam as virtudes proprias, os actos insignes, os meritos individuaes, e até, e quasi sempre, os auxilios da caprichosa natureza.
Ha mais nobres do que fidalgos illustres, e ha illustres fidalgos, que não são nobres. É bom ser nobre; melhor é ser illustre fidalgo; e optimo, por sem duvida, é ser illustre e nobre fidalgo.
Arthur Soares, era illustre. Gentil de corpo e sem mácula na alma, reunia em si todas as qualidades physicas e moraes, que fazem o homem distincto. O encargo de vigiar pela vida intima da que lhe fôra companheira na infancia, tomára-o elle de boa vontade, porque entendeu que o fim de Sebastião da Mesquita era proteger a mulher que julgára infelicitar com o forçado casamento. Tardára-lhe porém, a protecção, e levado pelos seus brios a tomar iniciativa propria, teve de inventar para Anna um nascimento e um dote.
Ha mentiras salvadoras, que elevam tanto os que as sabem dizer, como os inventos tórpes malsinam os caracteres dos velhacos, que os engendram. Encobrir verdades que pódem fazer victimas, dar um sabor mysterioso a qualquer facto, determinar mesmo quaesquer circumstancias em sentido diverso do occorrido, para valer a infelizes sem prejuizo de terceiros,--são culpas venturosas de que só podem accusar-se as almas boas, e os espiritos elevados.
Uma vez entrado no caminho de protector, resolveu Arthur Soares sahir d'elle pelo da dignidade, que não conhece obstaculos, porque os sacrificios alargam-lhe todas as verêdas. Estava obrigado voluntariamente, e só pela sua palavra, é certo, mas por isso mesmo com obrigação completa, a entregar um dote á mulher de Leopoldo. A evidencia de um nascimento fidalgo, que tambem asseverára, menos cuidado lhe dava, porque ouvira a Sebastião da Mesquita affirmar o que elle repetira, e tinha toda a confiança no desempenho, mais ou menos tardio, da palavra do honrado velho. Além de que, o esclarecimento d'esta circumstancia, podia demorar-se, visto já ter lançado á imaginação de Leopoldo a existencia do mysterio: o essencial, o urgente, era o dote.
Escreveu Arthur Soares outra carta a Sebastião da Mesquita, perguntando-lhe se recebera a primeira. Respondeu-lhe affirmativamente, e que havia tomado as suas importantes revelações na devida consideração. Esta resposta não aquietou o animo generoso do voluntario protector. Queria obras, e não palavras, que elle achou frias em caso de tanto brio. Resolveu proceder isoladamente, e com segredo.
Obtida uma licença de alguns dias, dirigiu-se Arthur Soares á residencia de seu thio. Recebido pelo padre com a natural expansão de um affecto puro e vivo, n'elle depositou o segredo da promessa que o impressionava, e queria cumprir, pedindo-lhe conselho e favor. No fim da confidencia, ficou o padre mais ébrio de prazer do que se fôra elle o favorecido com o generoso compromisso de Arthur. Conduziu o mancebo ao pé de um velho movel, e disse-lhe:
--Estão aqui as nossas economias: são uns vinte e tantos mil cruzados. É dinheiro de muitos annos guardado por tua mãe sem prejuiso dos pobres. Trabalhava noite e dia, a pobre martyr... Quando eu brandamente lhe observava que podia adoecer com tão aturado labutar, respondia-me que Deus não havia de condemnar a ambição de mãe em converter as suas vigilias e o seu suor em dote para seu filho... Chegou á força de perseverança a poder commerciar em cereaes, principiando pelo mesquinho producto da roca... Como era boa a tua mãe, Arthur!... Já vês que não tenho parte n'essa accumulação de moedas, que te pertencem... Mas essa quantia, bastante notavel para nós, é ainda pequena para dotar a mulher de um rico nobre... Vamos já a Penafiel... Farei perante um tabellião o necessario documento, para que tu possas vender a raiz das propriedades, que foram de meus paes... A raiz só, porque o uso-fructo deve continuar a pertencer a uma infeliz familia, que lá está por disposição tua... De certo te não recordas já d'aquella tua doação... Eras muito criança ainda, mas com a indole que... que tu tens, meu Arthur!...
Velho e moço, sentiram a commoção de duas almas iguaes, quando são abaladas por acções celestes, e confundiram n'um longo abraço os soluços e as lagrimas. O respeitavel e sagrado nome de--pae--foi proferido por Arthur Soares, saltando-lhe do coração á bôcca. O padre Alvaro, ouvindo chamar-se por aquelle nome, fez-se d'uma pallidez mortal, e balbuciou:
--Obrigado meu filho, por teres pela primeira vez esse nome para mim!... Sou eu só a ouvil-o, e Deus, que sabe os meus remorsos, de certo me consente este innocente prazer... Obrigado!... Vejo, sinto que te não repugna o sacrilego... És bom, Arthur, meu filho adorado!... Crê que tenho soffrido muito!... E o maior, o mais terrivel do meu padecer, era o não poder chamar-te--filho--nem ouvir de tua bôcca o dôce nome de--pae... Diz-me, meu querido Arthur, diz que não desdenhas, que não amaldiçôas o teu nascimento... Perdoa-me o haver-te privado da paternidade legal...
--Perdoar-lhe?!... O quê, meu sempre amado pae?!... O ter-me dado esta alma, que é sua, e que me faz grande aos meus proprios olhos?!... O ter coberto a minha infancia e mocidade dos maiores e dos mais carinhosos extremos?!... O haver-me dado uma educação de fazer inveja aos mais poderosos da terra?!... O tornar amênos e felizes os dias da vida de minha santa mãe?!... O ter vertido lagrimas de sangue pela chamada culpa que me deu vida e felicidade?!... É isto tudo que eu tenho a perdoar-lhe, não é assim?... Oh! mas não sabe que o meu maior orgulho é o de ser seu filho?!... Que pae mais heroe, mais santo, mais martyr me podia dar o céu?!...
--Basta, Arthur, que me pódes matar de alegria!.. Bemdicto sejas, meu Deus e meu Salvador! Bemdicto e louvado pela tua Misericordia com este indigno padre!...
Deixemos o velho Alvaro nos braços de seu filho Arthur, nos momentos mais felizes da sua attribulada existencia, e vamos presenciar o que se passa no palacio de Sebastião da Mesquita.
Estamos no salão onde tiveram logar as primeiras scenas d'este verdadeiro conto. Estão lá outros moveis de mais recente data, mas ainda se alli sente o respeito devido ao que é antigo e bello, porque foram salvas do incendio as reliquias de familia: São ainda os mesmos os quadros, os retratos, e os brasões. Sebastião da Mesquita está fallando com muita solemnidade a João Vidal:
--É tempo de te fazer mui sérias e importantes revelações, João, que devem mudar completamente a tua posição social. Dir-te-hei tudo em poucas palavras: sou avêsso ás phrases de estylo em materias graves. Recebi-te em criança das mãos de uma santa abbadessa, que te salvou a vida criando-te dentro do seu convento. Conservei-te sempre ao meu lado, e dei-te, quando homem, a qualidade de escudeiro d'esta casa, tendo-te o carinho de pae, porque era impossivel, e prejudicial para ti, a revelação do teu nascimento. És filho bastardo de um nobre desnaturado, que sacrificou os seus brios ao dote da mulher, nobre tambem de pergaminhos, e villã de sentimentos. Agora que todo o perigo é passado, aqui tens os papeis, que provam o teu nascimento, e com elles recebe igualmente este dinheiro, e estes titulos, que tudo te foi legado pela religiosa tua salvadora, e tua thia-avó paterna, e depositado em minhas mãos para te ser entregue quando já não corresses o risco de ser perseguido, e talvez assassinado, pelos assalariados da mulher de teu pae. Ficas sabendo que és nobre, e na posse de dinheiro, e valores que orçam por cincoenta mil crusados, com a accumulação da parte rendivel. Fui máu administrador, porque deixei quieto e improductivo o dinheiro, que hoje podia estar treplicado; mas bem sabes que abomino todas as especulações, e que não sei commerciar. Antes que te surprehenda, com a leitura dos documentos que te entrego, a noticia de que és irmão de Leopoldo...
--Eu, irmão de semelhante malvado!... Snr. Sebastião da Mesquita, meu amo e unico pae que me apraz reconhecer.... Peço a v. exc.a muito de mercê, que me continue a graça de o servir... Quero considerar-me sem parentes conhecidos... Quero ser o filho adoptivo de v. exc.a, e o seu mais humilde criado...
--É impossivel. Pódes, sim, continuar a viver na minha companhia, se o quizeres; mas na posse do que te pertence, e na qualidade de amigo, e não de criado da casa. Escusado é instares por outra solução, que esta é-me dictada pela honra. A ultima ordem que te dou é a de extinguires em ti o odio que tens a Leopoldo...
--Mas, senhor...
--Esqueceste, João, da inflexibilidade do meu caracter?... Terminou a nossa audiencia, que outros deveres não menos graves me chamam a attenção. Leva o que é teu, e faz-me o favor de dizer a minha mulher e a minha filha, que venham a esta sala... Manda tambem chamar Rosa.
--V. exc.a bem sabe que a menina Rosa ha tempo que não vem ao palacio, e que parece soffrer bastante...
--Sei. Digam-lhe que sou eu que a chamo, e quero-a aqui.
Sebastião da Mesquita, logo que João Vidal se retirou, ficou entregue a uma desusada agitação nervosa, que n'elle era infallivel symptoma da gravidade do assumpto que o preoccupava. Durou-lhe a inquietação só até ao momento em que sentiu aproximar-se a familia que chamara. Logo que deram entrada na sala D. Isabel, D. Maria da Gloria, e Rosa, serenou o velho fidalgo, que as convidou a escutarem-n'o.
--Dirijo-me a si em primeiro logar, Rosa, porque desejava saber os motivos da sua frieza com esta familia, que a estima devéras, e os que são causa de um soffrimento que a sua indiscreta face revela... Tem a queixar-se de alguem d'esta casa?
--Que pergunta, senhor!... Pois a planta parasita e inutil póde por ventura queixar-se dos cultivadores, que a querem tornar mimosa á força de cuidados e attenções?!...
--Se a sua elegante resposta não encobre nenhum resentimento, porque é então que não frequenta esta casa como costumava?
--A minha doença...
--E como se chama a sua doença?...
--Ainda não consultei a sciencia, e...
--Receia que a consulta seja inutil... Guarde, pois, os seus segredos, Rosa, que não quer depositar no coração de um velho, talvez por considerar a velhice incapaz de os comprehender, e preste toda a sua attenção ao que vou dizer a minha mulher e a minha filha... Minha prima e estimada esposa, e minha presada Maria: desde muito que sabeis o interesse e affeição que voto a esta donzella, e áquella infeliz que obriguei a casar com um homem que detesto... Consenti-me que ainda vos occulte os motivos de honra, que a tanto me obrigam, e que um dia vos serão patentes... É urgente, e indispensavel, que a mulher do rico fidalgo e snr. Leopoldo tenha um dote capaz de suffocar na alma villã do marido o desprêso pela que foi obrigado a receber por sua legitima esposa... Para lhe dar esse dote necessito empenhar muito o teu patrimonio Maria, e a casa de v. exc.a, minha prima...
--Para que me dá o primo parte das suas nobres acções?! Mereço-lhe que me suspeite capaz de ir de encontro a uma sua resolução, ainda que por ella fosse levada á extrema miséria?... É injusto, senhor...
--Deixe-me beijar-lhe a mão, minha santa prima!... Nunca duvidei dos nobilissimos sentimentos de V. Exc.a; mas cumpria-me consultal-a, e pedir-lhe auctorisação para o que tenho a fazer, e bem sabe que não sei faltar ao que devo a mim mesmo...
--E eu, meu presado e respeitavel pae e senhor, tenho só a dizer a V. Exc.a, que me é inutil um dote, porque estou resolvida a morrer solteira, e...
--Criança!... Não é preciso tamanho sacrificio... Vejo que entregas nas minhas mãos o teu futuro, e pódes estar certa de que ninguem o velaria melhor do que eu o farei... Temos de fazer uma séria reducção nas despezas, porque nos vae diminuir muito o rendimento. Possuia dinheiro e valores que entregaram á minha honra, e que acabo de restituir. Tenho, portanto, de vender bastantes propriedades... É custoso vêr passar a mãos alheias o que era de nossos avós; mas o dever primeiro que tudo... O que me diria, Rosa, se estivesse no logar de minha filha Maria?
--Desejaria saber dizer a V. Exc.a as mesmas palavras que o coração dictou á minha querida mestra e senhora D. Maria da Gloria, porque são perfeitamente iguaes os meus sentimentos...
--Agradeço a todas...
Entrou precipitadamente na sala João Vidal, e Sebastião da Mesquita, um pouco enfadado, perguntou-lhe:
--O que quer, João?... Parece que vem como portador de novas importantes, a dar valor ao modo porque se aproxima de nós, ao que traz nas mãos, e ao demudado da sua côr?...
--É que, senhor, por mais indifferente que o dinheiro nos pareça ser, sempre sentimos algum estremecimento ao achar inesperadamente uma quantia importante... Os trabalhadores que andavam no pomar a compôr o muro, encontraram esta panella de ferro com o dinheiro que ella contém... Apressei-me a vir participar o acontecimento a V. Exc.a, e peço que me desculpe o interrompel-o?...
--Deixe-me vêr a qualidade da moeda... Tenho visto, snr. João de Lencastre... Conheço este dinheiro, que passou do cofre em que lh'o dei, para a primeira panella que o João encontrou na cosinha... Foi pouco engenhoso na sua cavalheira mentira... Não sou facil de illudir; mas, em compensação, sou facilimo em perdoar acções como aquella que desejou praticar... Lembro-lhe, porém, João, que só eu tenho direito a regular as minhas generosidades, e que não posso acceitar favores d'essa ordem... nem mesmo do João... Minha esposa e minhas filhas: dou-lhes parte que João Vidal, o escudeiro, passou hoje á posse do seu verdadeiro nome, e da fortuna que lhe veiu por elle. É bastardo da casa dos Lencastres, irmão de Leopoldo, e o unico que ha de sustentar em todo o brilho a gloria de seus antepassados. É, pois, na qualidade de nosso parente, e intimo amigo, que occupa desde hoje o logar que n'esta casa está sempre vago para os homens de bem.
--Agradeço de toda a alma a V. Exc.a a immensa honra que me concede, e que só condicionalmente acceitarei... Perdôe-me a arrogancia da phrase... foi dictada por V. Exc.a que me ensinou os deveres de cavalheiro...
--Venham as condições!
--É só uma: a de me consentir em ter parte na generosidade que vae praticar... Ouvi tudo... Quiz encobrir-lhe o meu desejo, e não pude, por que V. Exc.a descobriu a mentira, que eu inventei para bom fim... Acabou o constrangimento, senhor, e não tenho já receio de affirmar ao snr. Sebastião da Mesquita, que se me não permittir o que rogo, fugirei para muito longe, para onde me não possa chegar...
--E que direito--disse Sebastião da Mesquita, interrompendo-o--é o seu para fazer um beneficio á senhora D. Anna?...
--É a mulher de meu irmão, senhor!...
João Vidal, pronunciou estas palavras com dignidade e consciencia tal, que as tres senhoras immediatamente estenderam as mãos ao ex-escudeiro.
Sebastião da Mesquita levantou-se com toda a soberania, e disse:
--Está terminada a conferencia... Ácerca do que pede, eu darei parte ao primo João do que resolver.
III
CIUME
«................................
Invejo-te, Camões, o nome honroso,
Da Mente creadora o sacro lume,
Que exprime as furias de Liêo raivoso,
Os ais de Ignez, de Venus o queixume:
As pragas do Gigante procelloso,
O Céu de Amor, o Inferno do Ciume.»
(Manoel Maria de Barbosa du Bocage.)
O ciume é, por sem duvida, a mais feroz e violenta das paixões, porque participa do amor e do odio, os mais agudos e incuraveis padecimentos do coração humano.
Os modos de manifestar tão perigosa como prejudicial paixão, variam tanto quantos são os temperamentos, as indoles, e as educações das pessoas sujeitas ao ciume.
O homem rude, que é brutal em suas expansões, não magôa mais, com seus castigos materiaes, a mulher que lhe faz sentir ciume, do que o burguez indinheirado, que ensina a consorte a decorar uma infinita taboada de favores, que lhe minguaram a burra.
O homem educado, da boa sociedade e com escola das conveniencias sociaes, tambem não é o que menos faz sentir á pobre filha de Eva o castigo de sua egoista paixão. Com a mascara da mais requintada polidez, fere com gestos, com sorrisos gelados, com subtilesas, com allusões, com toda a sorte de estudadas torturas, que nem consentem á victima a desfórra de uma resposta.
Fazemos distincção do ciume, dividindo-o em espiritual e material. O primeiro, o que procede da alma, não é selvagem nas suas consequencias, não escandalisa, e, sendo injusto, quasi sempre é debelado pela resignação e carinho da mulher, succedendo, algumas vezes, quando verdadeiro, conseguir a emenda e o arrependimento da culpada. O segundo, o que só tem origem nos sentidos corporaes, é arrebatado, não raciocina nem perdôa, sendo, por isso, sempre ruinoso e fatal.
Leopoldo luctava com o ciume espiritual pelo verdadeiro amor a D. Maria da Gloria, e com o ciume material pela esposa, que não podia amar.
Arthur Soares, por ser estimado pela fidalga donzella e conservar com D. Anna relações suspeitosas ao parecer do marido, tinha em Leopoldo um terrivel inimigo.
Depois d'aquelle dia, em que foi encontrar a esposa conversando a sós com Arthur, o fidalgo militar soffria um verdadeiro tormento intimo, de que D. Anna era participante, por esses infinitos actos de calculada severidade, e de frieza, que fazem do homem polido um carrasco civilisado, e da mulher innocente, e que os atura, uma completa martyr.
D. Anna, como não tivesse a mais pequena mácula de que accusar-se, attribuia todos os maus tractos de seu marido, unicamente a ter elle sido forçado a recebel-a por esposa, sendo ella plebêa e pobre. A triste senhora procurava na leitura, quando as lagrimas a deixavam, lenitivo aos seus pesares, e dava preferencia á Biblia, esse formoso rei dos livros, e n'ella ás divinas parabulas, essas inimitaveis phrases do Christo, que alliviam a alma, e derramam o mais suave dos perfumes sobre os sentidos de quem lê, e sabe comprehender e crêr.
Lia a contristada esposa o seu livro favorito na pagina que diz:
«E chegavam-se a Jesus os fariseus tentando-o, e dizendo: É por ventura licito a um homem repudiar a sua mulher, por qualquer causa? Elle, respondendo-lhes disse: O que vos ordenou Moysés? Elles lhe responderam: Moysés mandou dar o homem a sua mulher carta de desquite, e repudial-a. Respondeu-lhes Jesus: Porque Moysés, pela dureza de vossos corações, vos permittiu repudiar a vossas mulheres; mas ao principio não foi assim. Não tendes lido, que quem creou o homem desde o principio, creou macho e femea, e que deixarão pae e mãe, e ajuntar-se-hão, e serão dois n'uma só carne, não sendo já dois, mas uma só carne? Não separe, logo o homem, o que Deus ajuntou.»
Esta lei do Evangelho sobre a indissolubilidade do casamento, tornou pensativa a chorosa esposa, que pousou sobre os joelhos o sagrado livro, aberto na pagina que lêra, pendendo-lhe a cabeça para o seio. Era tal a preoccupação em que se achava, meditando, que não deu pela entrada do marido no seu quarto, Leopoldo, que espiava todas as acções de sua mulher, vendo-a tão enleiada, aproximou-se-lhe mansamente, e leu, por cima do hombro da esposa, as palavras que deixamos transcriptas, e que finalisavam a pagina em que se liam: ensaiou um dos seus mais ironicos sorrisos, deu á voz um tom de tão meliflua quanto refalsada ternura, e, juntando a acção ás palavras, disse:
--Virando esta pagina, minha cara esposa, talvez que encontre passagens de mais interesse... Não me enganei. Olhe, veja a continuação e conclusão das maximas, que tiveram o condão de a fazer ainda mais bella, levando-a a esse estado e posição elegante de heroina scismadora... «Eu, pois, vos declaro, que todo aquelle que repudiar a sua mulher, se não é por causa de adultério, e casar com outra, commette adulterio: e o que se casar com a que outro repudiou, commette adulterio: E se a mulher deixa o seu marido e casa com outro, ella é «adultera.»
De certo comprehende bem o sentido d'estas palavras, principalmente d'aquellas que eu, ao lêr-lhe, sublinhei?
--O primo, quasi me assustava, pelo não esperar agora aqui!... Se comprehendo o sentido do que me leu?!... Não sei o que quer que eu comprehenda?!...
--Em primeiro logar, minha senhora e cara esposa, tomo a liberdade de lhe dizer que não me consta que haja entre nós parentesco algum...
--Foi o meu esposo, e snr. Leopoldo, que determinou este tratamento entre nós...
--Aconselhei-o, minha senhora, para as salas sómente, onde os nobres teem obrigação de saber guardar todas as conveniencias: mas, aqui, escusa a minha estimavel esposa de usar de taes constrangimentos... Pelo que toca á comprehensão do que eu li, parece-me facilima, mórmente para o seu talento. Julgo que Jesus-Christo, com aquellas palavras, nos quiz dizer, que se não pécca repudiando a mulher adultera. Não lhe parece?...
--Quem melhor do que o meu esposo, que é letrado, póde entender o que lê?... Mas quer-me parecer que n'outro logar d'este sagrado livro, o bom Jesus perdoou á adultera, que ia ser apedrejada, tendo antes provocado dos queixosos o que se considerasse sem culpas que fosse o primeiro a lançar a pedra... Não nos dirá tambem esta humanitaria e sublime parabula, que se Jesus-Christo não tinha como peccado o desprezo da adultera, via, comtudo, que os homens, mais fortes, e absolutos legisladores para os crimes do meu sexo, nem sempre procedem com justiça?
--Imaginemos que é assim: apraz-me concordar com os seus engenhosos corollarios, minha senhora... Mas, como estamos em amigavel controversia, desejava ouvir a sua esclarecida opinião sobre a igualdade dos deveres... Parece-lhe que o adulterio é o mesmo crime da parte da mulher como da parte do homem?...
--Não sei como responder-lhe, meu esposo e senhor... Nunca pensei detidamente na gravidade do crime de que fallamos; e, pesando agora a fealdade d'um tal delicto, julgo quasi impossivel que haja mulher voluntariamente adultera. Talvez que essas infelizes peccadoras sejam levadas a uma tal degradação pelo contínuo desprezo e ardua severidade dos maridos, pelos maus exemplos, e pelas aleivosas seducções dos homens, que as conduzem á quéda, para as enlamearem em seguida...
--Para quem não tem pensado no assumpto, desenvolve-o admiravelmente!... Dou á minha cara esposa sinceros emboras pelo bem que falla da materia... Devo comtudo observar-lhe, como em descardo da letradice com que ha pouco quiz honrar-me, que os maus exemplos do homem nunca podem lançar no leito nupcial um pequenino ladrão... A minha intelligente esposa comprehende-me bem, não é assim?
--Se o comprehendo, senhor, devo tambem observar-lhe que os maus exemplos podem igualmente introduzir o mesmo roubo em alheios lares... Feliz a esposa que sabe resistir a todas as tentações, embora tenha de ganhar a palma do martyrio; mas bem mais feliz aquella que encontra no marido um guia, e natural protector, em vez d'um tyranno egoista.
--Dou lhe palmas, minha cara esposa! Isso é que se chama saber defender o terreno pollegada a pollegada... Proclamo-a rainha das defensoras da reciprocidade do crime de adulterio entre os conjuges...
N'esta altura do dialogo, que promettia mais serio azedume, foram interrompidos pela voz de uma criada, que annunciou a chegada, e a introducção, de Arthur Soares, na sala das visitas. A esta noticia foram differentes as sensações manifestadas pelos esposos. Leopoldo franziu a testa, e D. Anna mostrou na face o natural contentamento com que recebia a visita do seu companheiro de infancia, do seu protector e irmão adoptivo...
--O seu rôsto, minha boa esposa, formosissimo, mesmo quando v. exc.a se acha em perfeita tranquilidade de espirito, está agora explendido de brilhantismo, pelo contentamento que manifesta com a noticia que nos deu a criada... Muito feliz é esse snr. Arthur Soares!...
--Se a profunda estima de uma irmã, que não sabe ser ingrata, póde dar a felicidade, de certo que é feliz o meu companheiro de infancia, porque o sei presar como elle merece.
--Hei-de vêr se consigo haver d'elle, por um sério estudo, o segredo de tanto se fazer apreciar das bellas... Vamos prestes ao seu encontro, que estou já ancioso por começar as minhas experiencias...
D. Anna continuava a não comprehender os remoques do marido. A boa fé, e a innocencia, são quasi sempre ingenuas.
Chegados á sala os dois esposos, foram cumprimentados por Arthur Soares, Leopoldo com polida frieza, e D. Anna com a expansão do amor sem desejo, que assim é definida a verdadeira amisade, ao que ella soube gentilmente corresponder, mau grado de seu marido, que principiava a manifestar, por contorsões nervosas, o inferno que lhe ralava o peito.
--Venho dar contas a v. exc.a, e a seu illustre marido, do uso que fiz da auctorisação que me concedeu. Apenas consegui apurar trinta mil crusados, que entrego em papeis de bom credito, equivalentes a dinheiro de contado, e mais commodos no transporte. Com letigios, sempre impertinentes, incommodos e despendiosos, podia augmentar a cobrança; mas usando, e talvez que abusando um pouco, da auctorisação e da reconhecida bondade de v. exc.a, passei quitação geral do seu dote pela quantia que recebi e apresento... Digne-se o snr. Leopoldo examinar e contar...
--Desculpe-me interrompel-o, snr. Arthur Soares. Eu não posso, nem quero, entrar no mysterio d'esse dote da minha prima e cara esposa. Creio possuir o necessario para vivermos com algum allivio, e nunca esperei receber quantia alguma de tal proveniencia... Se minha mulher julgar digno o receber esse dinheiro, receba-o muito embora, que eu nunca procurarei saber qual seja a sua applicação.
--Não só a considero digna, mas até me parece obrigatoria a recepção. Diz-me o snr. Arthur Soares, que tenho um dote, que é meu, entrega-m'o, porque não hei-de recebel-o? Posso por ventura suspeitar que o meu companheiro de infancia, e bom irmão adoptivo, trouxesse a esta casa dinheiro meu de origem menos pura? Tambem não é de crer que haja quem se desaposse de trinta mil crusados, para fazer um beneficio gratuito. Além do que, se o meu esposo e senhor póde dispensar este dote; se eu mesma, por estar no gôso da munificencia de meu marido, não tenho immediata precisão d'elle, pódem de futuro existir outros interessados, os filhos, que não temos o direito de prejudicar. Acceito, e agradeço ao snr. Arthur Soares, o trabalho que teve para haver o meu dote.
--Estou mais que pago do que fiz, pela certeza de ter prestado a v. exc.a um pequeno serviço.
--«A snr.a D. Maria da Gloria da Mesquita Bandeira e Abendanho!...»
A este annuncio, que um escudeiro fez em devida fórma, ficaram como interdictos todos os actores da scena que descrevemos. São faceis de comprehender os motivos da interdicção, se o leitor tem attendido o «Conto portuguez».
Sebastião da Mesquita resolveu enviar a D. Anna o seu dote por D. Maria da Gloria, e que esta fosse acompanhada por João de Lencastre: explicada a inopinada apparição, e deixando á capacidade do leitor o avaliar como seriam recebidos os recem-vindos, continuaremos a interrompida scena, em que figuram agora mais dous actores:
--Antes de participar ao primo Leopoldo qual é a commissão de que venho encarregada por meu ex.mo pae e senhor, peço-lhe licença para apresentar-lhe o snr. João de...
--Conheço bastante, minha querida prima e senhora, o seu escudeiro e fiel pagem, que só poderia entrar n'esta casa, como entrou, acompanhando a sua dona...
--Engana-se v. exc.a, meu caro primo, quanto ao mister e aos direitos do meu apresentado. Este cavalheiro, que precisou de viver alguns annos sob o incognito, mais de amigo que de escudeiro da nossa casa, é bastardo da illustre progenie dos snrs. de Lencastre, reconhecido e dotado por uma sua thia avó paterna; é nosso primo e muito intimo amigo; é, finalmente, irmão de v. exc.a...
--Não posso crêr que a minha apreciavel prima e snr.a D. Maria da Gloria, queira honrar-me com um gracejo d'essa ordem, e...
--Quer provas? Aqui as tem... Depois de lêr ficam desterradas as suas duvidas, e atrevo-me a esperar do cavalheirismo de v. exc.a, que dará todas as mostras de fraternal estima ao meu nobre apresentado...
--Não desejo só dever a esses pergaminhos a amizade de meu irmão... Embora por motivos justificados, commetti um acto rude, e offereço-lhe a face, para applicar n'ella a pena de Talião...
--Mais do que a essa humildade, que sei apreciar n'este momento, e tanto como aos laços de sangue que nos prendem, deve-se á vontade e nobreza de sentimentos da nossa querida prima e snr.a D. Maria da Gloria, a espontaneidade com que o abraço, mano João!...
--Agradeço ao primo Leopoldo a delicadeza e fidalguia do seu proceder. Agora, passo a remir-me da obrigação que recebi de meu exc.mo pae: faço-o mesmo em presença do snr. Arthur Soares, que pela muita amisade e consideração que todos lhe devemos, é estimado como pessoa de familia. O primo João, entregará ao primo Leopoldo, e á minha boa amiga e antiga discipula, um movel que contém setenta mil crusados, que tanto importa o dote d'esta excellente esposa, de que meu respeitavel pae estava de posse. Não foi entregue ha mais tempo, porque só agora se acabou de liquidar e receber...
Um raio, que n'aquella occasião tivesse cahido na sala, não deixaria ficar mais assombrados Leopoldo, Arthur e D. Anna, do que ficaram ao ouvirem aquellas palavras de D. Maria da Gloria! Póde comprehender-se, mas não é descriptivel, a scena muda que entre elles teve logar. Arthur Soares, pelo auxilio de seu natural talento, e por um d'aquelles raros expedientes, que Deus concede repentinamente ás almas que o merecem, abrangeu a difficuldade da situação, e desembaraçou-a maravilhosamente:
--É á snr.a D. Maria da Gloria, que devo explicar o assombro em que ficaram estes felizes esposos, pela remessa que lhes faz meu illustre padrinho, e senhor Sebastião da Mesquita, logo em seguida a outra de igual genero de que eu fui portador... Tudo se aclara com a narração da verdade, ficando eu apenas com a macula de imprudente, por me precipitar na entrega... O snr. Sebastião da Mesquita, havia-me encarregado da cobrança de varios creditos e dividas, exigindo-me a maior actividade, porque pertenciam, me disse elle, ao dote da snr.a D. Anna, que meu padrinho desejava entregar o mais breve possivel... O emprego do tempo n'essa cobrança, o desejo de prestar um serviço á minha companheira de infancia, e a necessidade de marchar immediatamente para a cidade do Porto, onde me chamam os deveres de voluntario da causa popular, tudo isto junto á irreflexão, que eu mesmo classifico de imprudencia, arrastou-me aqui, a fazer a entrega do por mim recebido, sem ter, como devia, uma prévia conferencia com o meu illustre mandatario, que, pelo que observo agora, desconfiou da minha actividade, e foi enviando o que já era em seu poder...
--Deve ter sido assim, snr. Arthur Soares. E como meu excellente pae sabe guardar bem os seus segredos, não me confiou essa missão de que o encarregára... É grande a quantia pelo snr. Arthur recebida?
--São, apenas, trinta mil cruzados.
--Então, já a minha Annitas tem um dotesinho rasoavel... cem mil cruzados... É um pequeno regato, que pouco volume augmenta ao oceano que possue o marido, bem sei; mas que já chega para alfinetes, e para ter meia duzia de dias, cada anno, hospedada a sua mestra... Consente, primo Leopoldo, que eu seja, por algum tempo, hospeda de sua esposa?
--A esse consentimento, é nossa prima D. Anna que hade responder. Da parte que eu tenho n'esta casa, dispõe V. Exc.a como de cousa sua, que é... O que me parece descobrir na pergunta da minha querida prima D. Maria, é vontade de estar aqui só com a sua discipula; e eu sou obrigado, pelos meus deveres de militar da rainha, a senhora D. Maria II, a fazer-lhe a vontade, porque hoje mesmo devo retirar-me, para reunir-me ao exercito.
--N'esse caso, mano Leopoldo, vamos todos até Guimarães, onde fiquei de encontrar-me com o snr. Sebastião da Mesquita... Acompanha-nos, snr. Arthur Soares?
--Com todo o prazer, snr. João de Lencastre: não é grande a volta na jornada que tenho a fazer para a cidade do Porto, onde sou esperado na qualidade de soldado do governo supremo do reino...
Para melhor intelligencia da scena que se deu após as narradas, e com que vamos fechar este capitulo, é necessario descrever as posições que occupavam na sala os differentes actores.
D. Maria da Gloria e Arthur Soares, conversavam a meia voz no vão de uma das janellas de varanda, quasi no fim da sala, semi-occultos pelas cortinas, a bastante distancia das de mais pessoas. D. Anna, occupava, no meio da sala, um logar junto do precioso movel, onde movia maquinalmente alguns dos objectos que o adornavam. João Vidal, ou de Lencastre, estava sentado a um dos lados, folheando um album de pinturas; e Leopoldo, na extremidade da sala, opposta ao lado occupado por D. Maria e Arthur, conservava-se de pé, encostado ao pedestal de um magnifico relogio, com a cabeça levemente pousada sobre os dedos da mão esquerda.
D. Maria da Gloria e Arthur Soares, estavam muito interessados no seu confidencial dialogo. A joven senhora, não acreditára na explicação, dada por Arthur, ácerca dos seus trinta mil cruzados, e apertava-o com raciocinios, que deviam leval-o, inevitavelmente, á confissão da verdade.
D. Anna, reunia em sua mente as menores circumstancias de sua vida, avaliava os ultimos acontecimentos d'ella, e via, ainda que com pouca clareza, que estava sendo o alvo de generosidades extraordinarias.
Leopoldo, só era dominado pelo ciume: reconhecia, mau grado seu, as vantagens moraes do seu rival, e tremia de intima raiva.
João, o antigo escudeiro, e moderno fidalgo por bastardia, senhor de quasi todas as intrigas que agitavam os seus parentes e amigos, fingia prestar muita attenção ás paizagens que examinava, e não perdia um só dos movimentos dos que o cercavam.
D. Maria triumphara, em fim, do seu docil adversario: obrigara-o a confessar o que fizera, e a pedir-lhe segredo para o seu brioso procedimento. A gentil e fidalga donzella, vendo realisadas as suas suspeitas, e abysmada na grandeza d'alma do seu idolo, apertou-lhe as mãos meigamente, e saltaram-lhe dos olhos lagrimas alegres. D. Anna, vira aquelles movimentos, preadivinhára o que se havia passado, chegou-se a elles, e exclamou, entre lagrimas de reconhecimento: «Meus bons amigos!» deixando em seguida cahir a cabeça no seio de D. Maria da Gloria.--Era bello aquelle grupo!
Leopoldo, acompanhára aquellas expansões de gratidão com olhos ferinos. De repente, perdeu a côr, sacudiu fortemente a cabeça, e dirigia-se, com passos mal seguros, ao grupo encantador. Não podemos calcular o que teria succedido, se aquella prêsa do ciume não fosse logo interrompida nos seus passos pelo irmão que, com o album aberto, lhe disse:
--Tem bellissimas pinturas este album, mano Leopoldo... Esta, que parece ser o emblema do ciume, é realmente curiosa... Figura uma bella mulher com apparencia de inquietação, e ar de quem escuta... As suas roupas são da côr das ondas do mar: tem na mão direita um ramo de espinhos, e na esquerda um gallo... Mantém-se na attitude do desassocêgo e curiosidade, e a côr dos vestidos indica a perturbação da alma... O ramo de espinhos denota que os tormentos do ciume são acerbos e agudos, e o gallo é o symbolo da suspeita e vigilancia... É curioso, muito curioso!... O seu braço, mano Leopoldo, e vamos até á proxima saleta, onde quero fazer-lhe entrega do movel em que lhe fallou a snr.a D. Maria da Gloria, e conversar em cousas de commum interesse...
E sem dar occasião a evasivas, foi arrastando Leopoldo, que se deixou conduzir sem resistencia, já mais ou menos conscio do ridiculo de que o irmão o salvava.
IV
O BERÇO DA MONARCHIA
«Querem alguns que seja esta villa o assento da cidade de Araduca, de que Ptolomeu faz menção; é porem incerta a conjectura, sendo certissima a sua veneranda antiguidade.»
(O Panorama de 1867.)
«A antiga Guimarães foi fundada pelos gallo-celtas, quinhentos annos antes da éra christã.»
(Padre Carvalho)
«As fabricas de cortumes produzem annualmente um valor superior a cento e cincoenta contos de reis. O commercio das linhas pannos de linho e ferragens, é importante, apesar de ter decahido depois do tratado de 1810 e da independencia do Brazil: todavia ninguem ainda hoje negará o incontestavel merecimento dos tecidos de linho adamascados, fabricados em Guimarães, que em duração e primor d'obra por certo que não tem rival. Calcula-se que os tres ultimos productos industriaes que apontamos, não rendem menos de oitenta contos de reis por anno. Os doces de fructas confeitados n'esta villa, renderam, no anno de 1835, seis contos de reis.»
(Geographia de Urcullu.)
Parece fóra de duvida, que esta bella povoação do Minho, elevada modernamente á cathegoria de cidade, teve, no seu começo, duas existencias distinctas, e muito separadas na ordem do tempo, ambas com o nome de--Guimarães--; se é que não serviu tambem de local á antiquissima cidade de Araduca, como querem muitos e mui abalisados auctores.
É Guimarães uma das terras heroicas de Portugal, por titulos honrosissimos. Mais do que ao facto de ter sido o berço do primeiro rei portuguez, o snr. D. Affonso Henriques, que após a gloria de ter fundado e consolidado o reino e a monarchia portugueza, morreu em geral opinião de santo, como é affirmado na chronica dos conegos regrantes de Santo Agostinho, e na terceira parte da Monarchia Lusitana; mais do que á contestada, ainda que muito auctorisada, versão de ter sido a patria do famoso Papa S. Damaso,[8] que mereceu, ao sexto concilio de Constantinopla, o dar-lhe os nomes de--Diamante da Fé--; mais do que á justa fama de ser um povo notavelmente commercial e industrial; mais finalmente, do que á sua immensa riqueza,--deve Guimarães, o seu bom nome, aos feitos emprehendedores e gloriosos de um grande numero de seus filhos, na guerra, nas artes, nas sciencias, em todos os ramos dos conhecimentos humanos, e á magnifica e incomparavel indole de todos elles, que sempre souberam reunir á bravura do leão a mansidão do cordeiro, á intrepidez a resignação, e ao uso da caridade a facilidade no perdão das injurias.
Nomearemos alguns dos mais antigos e gloriosos nomes dos heroicos filhos de Guimarães:
Gil Vicente, filho de Martim Vicente, o fundador do theatro portuguez, e distincto artista, que fez a Custodia de Belem.[9]
Pedro Alves, artista de notavel merecimento, que, com mais outros contemporaneos seus, tornou florescente a ourivesaria de Guimarães, pelos annos de mil quatro centos e cincoenta a mil quatro centos e oitenta.
João Gonçalves, mais conhecido pelo nome de Engenhoso, o introductor do serrilhado na moeda.
Payo Galvão, filho unico de Pedro Galvão e de sua mulher D. Maria Paes; entrou em tenra idade no convento de Santa Marinha da Costa, no anno de 1178; enviado á Universidade de Paris, recebeu lá o grao de mestre de theologia. Regressando ao seu convento e mosteiro da Costa, foi elevado á dignidade de mestre-escóla da real collegiada. El Rei D. Sancho I, o nomeou, em 1198, seu embaixador em Roma, onde foi muito estimado pelo Papa Innocencio III, que o fez seu vice-cancellario, poucos mezes depois da sua chegada: cardeal diacono, no anno de 1206; presbytero cardeal de Santa Cecilia, no anno de 1211; e bispo Albanense, no anno de 1215. Completou, este douto varão vimaranense, a sua gloriosa carreira, acompanhando, na qualidade de seu--legado apostolico--, o general João Breno, á conquista de Jerusalem, enviado pelo Pontifice Honorio III.
O doutor Gaspar de Carvalho, que foi chanceller mór do reino, do conselho de El-Rei D. João III, e tambem seu embaixador e testamenteiro.
O doutor Balthasar de Azevedo, que foi desembargador da supplicação.
O padre fr. Paulo do Valle, da ordem de S. Bento, que foi mestre de theologia na Universidade de Coimbra.
O doutor Diogo Lopes de Carvalho, senhor dos coutos de Abadim e Negrellos, que foi môço fidalgo da casa de El-Rei, e seu desembargador do Paço.
O doutor Gonçalo Dias de Carvalho, o primeiro legista portuguez, que começou a estudar em Guimarães, no Mosteiro de Santa Marinha da Costa, de frades Jeronymos. Foi o primeiro doutor que na Universidade de Coimbra tomou capêllo, e foi desembargador dos aggravos, e deputado da meza da consciencia.
O doutor Balthasar Vieira, môço fidalgo da casa d'El-Rei, que foi corregedor da côrte.
O licenciado Manoel Barbosa, que escreveu com muito conhecimento sobre a ordenação, que foi distincto antiquario e genealogista dos de mais credito.
O insigne doutor Agostinho Barbosa, filho do precedente, que foi bispo de Cisgento, e publicou obras utilissimas, apreciadas dentro e fóra do paiz.
O doutor Simão Vaz Barbosa, filho tambem do jurisconsulto Manoel Barbosa, que foi mestre em artes, e escreveu o seu livro do Axioma.
O doutor Antonio Pereira Cardote, que teve a gloria de vêr adoptada, pela Universidade de Salamanca, a doutrina que ensinou na Universidade de Coimbra. Dizem os mais auctorisados, quanto imparciaes, chronistas, que se a villa de Guimarães não tivera dado de si outro parto, bastava este sujeito para o seu maior credito.
O padre fr. Antonio da Luz, religioso de S. Bento, insigne theologo, e lente na Universidade de Coimbra.
O padre mestre, fr. José de Oliveira, religioso dos eremitas de Santo Agostinho, lente de theologia em Coimbra, e feito bispo de Angola, por El-Rei D. Pedro II.
O doutor Gaspar de Abreu de Freitas, commendador da Ordem de Christo, desembargador e conselheiro da fazenda, môço fidalgo da casa de El-Rei, e seu enviado a Hollanda, Inglaterra, e Roma.
O desembargador João de Guimarães, embaixador duas vezes á Suecia, Inglaterra, e Hollanda, moço fidalgo, commendador de capa-rosa, na ordem de Christo, e deputado da Mesa da consciencia.
O doutor João de Gouvêa da Rocha, desembargador na relação do Porto, na dos aggravos, em Lisboa, e no Paço, moço fidalgo, e cavalleiro professo de habito de Christo.
O doutor Pedro da Rocha de Gouvêa, irmão do precedente, desembargador do Brazil, e depois da supplicação, e cavalleiro da ordem de Christo.
O doutor José Peixoto de Azevedo, desembargador dos aggravos, em Lisboa.
O doutor Jeronymo Vaz Vieira, juiz das ordens militares, deputado da mesa da consciencia, desembargador dos aggravos, juiz da corôa, e desembargador do Paço.
D. Gabriel da Annunciação, conego de S. João Evangelista, que foi bispo de Annel, do arcebispado de Evora.
D. Manoel Affonso da Guerra, que foi bispo de Cabo-Verde.
O doutor Pedro de Sousa, que foi lente de Vespora.
O doutor Christovão de Azevedo, fisico-mór do reino.
O doutor Francisco Cibrão, medico notavel, e muito conhecido e apreciado em Lisboa.
Manoel Gonçalves, o trovador, morador no burgo da rua de Couros, que foi o primeiro homem que n'este reino fez trovas.
Manoel Thomaz, que compoz a noticia das guerras d'entre Douro e Minho, em oitava rima.
Manoel de Faria e Sousa, homem que se fez conhecido e admirado, dentro e fóra do paiz, pelo acerto, erudição e credito de suas obras, em que se mostrou profundo conhecedor, não só das antiguidades de Portugal, como tambem da Africa, Asia, e America. Foi sepultado no Mosteiro de Pombeiro, ao pé do magestoso tumulo de D. João de Mello e Sampaio, antigo commendatario d'aquelle Mosteiro.
Martim Ferreira, que salvou Guimarães do sitio que tentava pôr-lhe o exercito castelhano, alojado na veiga das favas; e que, por uma cutilada que então recebeu no rôsto, ficou appellidado--o Martim Narizes.
Manoel Machado de Miranda, senhor do casal dos Cavalleiros, e residente no seu palacio do arco, na rua de Santa Maria, poderoso fidalgo, que prestou assignalados serviços ao rei e ao reino, obrigando seus filhos a continual-os.
Manoel Machado, filho do precedente, que morreu em uma batalha naval pelejada com os turcos.
Francisco Machado, irmão d'aquelle, que morreu na India, no posto de capitão de infanteria, batalhando pela patria.
Fr. Gualter Machado, irmão dos precedentes, cavalleiro professo na religião de João de Rodes, que perdeu a vida em um assalto contra os turcos.
Fr. Martim Pereira d'Eça, irmão dos precedentes, cavalleiro professo na religião de João de Rodes, que, depois de ter batalhado com notavel valentia ao lado de seus irmãos, regressou ao reino, que encontrou em guerras contra Castella, e logo tomou as armas em defeza da patria, sendo mestre de campo de um terço de volantes, e capitão duma companhia de cavallos com o titulo de couraças. Celebradas as pazes entre os dous reinos, entrou o guerreiro em mais brandas, fadigas: foi occupado em visitador das commendas da sua religião, d'onde passou a recebedor d'ellas; e, estando n'esta occupação, foi, por algum tempo, governador do priorado do Crato. Foi tambem commendador de Torres Vedras, e de S. João da Carvoeira.
João Machado d'Eça, irmão dos precedentes, que serviu importantes cargos no Alemtejo.
Gregorio Ferreira d'Eça, irmão dos precedentes, que foi capitão-mór de Guimarães, e governador de sua comarca, militar valente, fidalgo da casa d'El-Rei, e cavalleiro professo do habito de Christo.
Pedro Alvares de Almada, cavalleiro valeroso, possuidor do morgado e cazas do Rocio da Tulha, que, depois de ter batalhado n'este reino e no de Hespanha, passou a servir El-Rei Henrique de Inglaterra nas guerras contra os mouros; e taes valentias praticou, que mereceu a este rei um alvará, (datado de 2 de março de 1501) «em que lhe entregou, e livremente doou, parte determinada de suas armas reaes, a saber: ametade de uma flôr de Lyrio de ouro, e ametade de uma rosa vermelha, em campo dividido em duas partes, e em duas côres, como é, de uma parte de verde, e da outra de prata; para que elle, e todos os seus descendentes, e parentes, assim conjunctos por sangue, ou affeniedade, possam usar das mesmas armas segura e livremente, aonde cada um quizer, assim como se forem suas proprias armas.»
Fernão da Mesquita, chamado--o velho--, possuidor da casa da rua da Infesta, com sua capella de Nossa Senhora da Graça, que acompanhou, com grande dispendio de sua fazenda, ao duque de Bragança, D. Jaymes, na tomada de Azamôr, no anno de 1513, partindo depois para a India, onde fez as suas proezas, que se lêem na Chronica d'El-Rei D. Manoel, cap. 46.
Ruy Mendes da Mesquita, filho do precedente, que acompanhou o infante D. Luiz, filho d'El-Rei D. Manoel, á tomada de Tunes, passando depois tambem á India, onde, por seus valorosos feitos, honrou as cinzas de seu pae, honrando a patria.
Fernão da Mesquita e Lima, o Novo, filho do precedente, que, aos 18 annos de idade, ganhou na guerra de Tangere, uma commenda da ordem de Christo, e, dous annos depois, foi capitão mór da Costa.
Diogo Lopes da Mesquita, irmão do precedente, que foi intrepido capitão da fortaleza de Maluco, na India.
Miguel Lopes da Mesquita, filho do precedente, e digno imitador do valor e virtudes da familia dos Mesquitas de Guimarães, que teve a honra de hospedar, na sua casa da rua da Infesta, o infante D. Luiz, filho de El-Rei D. Manoel, em agosto de 1548.
Diogo da Mesquita, outro filho de Fernão da Mesquita, o velho, que, melhor que todos, realçou e eternisou seu nome. Foi mandado pelo viso-rei da India, Nuno da Cunha, por embaixador a um rei mouro; e, sendo captivo do rei de Cambaya, por não querer renegar a sua fé, e a sua patria, foi posto na bocca d'uma peça de artilheria, sem que um tal apparato o amedrontasse; e, porque só o quizessem intimidar, e não matar, o pozeram a resgate, e resgatado foi, por subido preço. Vingou suas affrontas, matando, em combate, o rei de Cambaya, que era senhor de tres reinos; e por este feito se accrescentaram ás suas armas tres corôas e um alfange, como diz Diogo do Couto, na decada 4.a, livro 4.º, capitulo 9.º
Manoel da Mesquita, filho do precedente, que foi capitão da fortaleza de Chacel, na India.
Fernão da Mesquita, irmão do precedente, que serviu nas Armadas, no tempo d'El-Rei D. Sebastião.
Antonio Pereira da Silva, fidalgo da casa d'El-Rei, morgado rico, e possuidor de casas nobres na rua de Santa Maria, que acompanhou El-Rei D. Sebastião á batalha de Alcacer Quibir, onde foi captivo. Resgatado, embarcou para a India, e serviu como bom cavalleiro, na guerra contra os turcos.
Salvador Pereira da Silva, filho natural do precedente, que foi mestre de campo em Ceilão, sendo general D. Jeronymo d'Azevedo; e depois foi capitão mór da Armada, que foi ao cerco de Malaga.
Antonio Peixoto de Carvalho, moço fidalgo da casa d'El-Rei, morgado da Pousada, com suas casas na rua do Val de Donas, que serviu na guerra da India, contra os infiéis, onde acabou a vida.
João Vasques Peixoto, irmão do precedente, ao qual fez doação do morgado, que tomou o habito de S. João de Rodes, e mostrou seu valor nas guerras de Malta, sendo feito commendador da sua ordem.
João de Sousa Alcoforado, moço fidalgo da casa d'El-Rei, que deixou mulher, e filhos, e o morgado e casa de Villa Pouca, para servir a patria, nas guerras da India, levando em sua companhia dous de seus filhos, Manoel de Sousa da Silva, e Francisco de Sousa Alcoforado.
Simão Rebello de Valadares, que embarcou para a India sem licença de seu pae, João Valadares, residente na rua de Santa Maria, e foi um dos mais valentes soldados do seu tempo. Morreu juncto da muralha de Ceilão, ficando-lhe, na escalada, os braços dentro da muralha.
João Martins, Annadel mór dos espingardeiros de Guimarães, senhor do morgado do Pinheiro, que deixou mulher e filhos, fretou uma náu á sua custa, e mettendo-se n'ella, com gente e armas tambem suas, acompanhado de seu irmão Fernão Martins, se offereceu a El-Rei D. Affonso V, para o seguir na viagem que fazia a Azamôr. Por seus valerosos serviços, mereceram estes dois irmãos, grandes mercês e honras.
Pedro Coelho, da rua de Santa Maria, que acompanhou El-rei D. Sebastião á Africa. Ficou captivo, e foi escravo de dous senhores. Resgatado, com muito trabalho e dispendio de sua fazenda, foi cavalleiro professo do habito de Christo.
Salvador da Costa e Almada, morador na rua Nova do Muro, embarcou para a India, onde foi cabo de tres fustas, que o governador, Mathias de Albuquerque, mandou á costa de Ceilão.
Gregorio da Costa do Valle, tambem da rua Nova do Muro, thio do precedente, que foi capitão da Costa, por El-Rei D. Manoel, e morreu na India, pelejando com grande valor contra os turcos.
Gaspar Leite Pereira, da rua do Cano das Gasas, que embarcou para a India no anno de 1559, e, por seu valor, foi provido no cargo de Tanaydar e Manorá, nas terras de Baçaim. Foi depois mandado, por El-Rei D. Sebastião, á costa de Guiné, por capitão do navio--S. Nicolau--.
Antonio Leite d'Azevedo, sobrinho do precedente, que tambem, na India, mostrou o seu valor, como diz A vida do irmão Pedro de Basto, liv. 2.º cap. 13.º
Gonçalo Paes de Meira, da rua de Santa Barbara, que acompanhou Martim Ferreira na façanha da Veiga das favas, onde foi desbaratado o exercito de D. Henrique 2.º, de Castella, que tentava pôr cêrco a Guimarães; causando, por outra vez, em 1371, ao mesmo rei, graves desgostos, porque elle, e seus dois filhos, Estevão Gonçalves de Meira, e Fernão Gonçalves de Meira, acompanhados de quarenta cavalleiros, obrigaram o rei de Castella a levantar o cêrco.
Affonso Lourenço de Carvalho, que, estando de posse de Guimarães o rei de Castella D. João 1.º, serviu, por sua traça, de poderoso instrumento á conquista que d'ella fez El-Rei D. João I de Portugal. Foi o caso, que estando El-Rei de Portugal, com o seu exercito, na ponte do Sueiro, juncto á ponte de Servas, Affonso Lourenço de Carvalho lhe deu parte, que conseguira do porteiro e guarda da porta do postigo, que esta lhe abrisse, para elle metter em sua casa uma cuba em um carro; e, aproveitando El-Rei o aviso, entrou por alli, com trezentos de cavallo, ficando senhor de Guimarães, depois de combate.
Manoel de Valadares Vieira, que foi dos primeiros soldados filhos de Guimarães, que, na provincia de entre Douro e Minho, assentou praça, deixando o interesse de seu morgado, de que era unico herdeiro, para servir na feliz acclamação de D. João 4.º. Foi capitão e sargento mór de infanteria, e governador da praça de Monte Alegre.
André Pinto Barboza, que militou n'este reino e no Brazil, chegando a mestre de campo e governador da praça de Miranda, e provedor mór de Pernambuco.
Francisco de Meira Peixoto, que serviu em duas armadas, occupando tambem o posto de capitão de infanteria.
João Leite de Oliveira, que deixou a agricultura, que exercitava na sua quinta de Pombeiro, para se alistar na milicia de Flandes, onde, por seu valor, mereceu o posto de capitão, morrendo, no de general de artilheria, com grande nome e fama.
Sebastião Salgado de Faria, que, na guerra de Flandes foi um dos capitães de cavallo de couraças com melhor nome no exercito.
Jeronymo de Figueiredo, que, nas guerras com os castelhanos, chegou ao posto de tenente de mestre de campo general.
Dionisio da Cunha, que foi valente capitão de infanteria.
Pedro Coelho de Miranda, que foi capitão dos privilegiados de Nossa Senhora da Oliveira.
João Botelho Leite, que foi capitão de infanteria, e um dos que promoveram a feliz acclamação de D. João IV.
João Rebello Leite, filho do precedente, que, no primeiro rebate que em seguida á feliz acclamação, os gallegos deram na fronteira do Minho, foi prisioneiro e levado, com oito feridas, ao castello de Compostella, d'onde, após dezoito mezes de prisão, fez uma fugida valorosa, chegando depois a mestre de campo, e, com lastimosa desgraça, morreu de veneno.
João Machado de Miranda, que, deixando em serviço da patria os bens em que succedia, militou com grande valor, chegando ao posto de mestre de campo de infanteria, e de cavallos; e, indo a Santarem reformar o seu terço, foi captivo da morte por um reparado manjar, que lhe serviu a sua mulata.
Fernão Ferreira da Maia; José Peixoto de Sousa; Francisco de Macedo; João Barroso de Azevedo; Jacintho Leite Pereira; André de Sousa Homem; José Machado Pinto, e Manoel Velho do Couto, que todos occuparam postos de capitães volantes, no exercito da provincia do Minho.
Diogo de Freitas, que foi capitão de infanteria.
Antonio Paes do Amaral, cavalleiro do habito de Christo, e ajudante de cavallaria.
Antonio de Andrade e Valle, que foi ajudante de Infanteria.
João de Sousa e Lima, que foi alferes do mestre de campo de infanteria.
Paschoal da Costa, que foi capitão de infanteria.
Francisco Machado de Miranda, que foi capitão de infanteria; e Antonio de Barros, que foi capitão de volantes.
Esta lista seria infinda, se continuassemos a esgravatar nas gloriosissimas antiguidades d'este nosso Portugal, e aproveitassemos tudo, que respeita a Guimarães.
E não é só ao sexo forte, que o berço da monarchia deve o seu nome famoso: foi distinctissima vimaranense, entre outras de menor fama, Joanna Michaella, filha de Pedro Machado e Dionizia de Macedo, e esposa do tenente coronel de cavallaria Antonio Mendes de Brito. Era perfeita no conhecimento e uso da lingua materna, e sabia latim, italiano, grego e chinez: estudou philosophia, theologia, mathematica, astrologia, e musica; chegando a ser classificada como uma das senhoras portuguezas mais eruditas do seu seculo.
Foram, pois, justificadamente merecidas as immensas honras, privilegios e isempções, que os senhores reis d'este reino concederam aos moradores de Guimarães, como não tiveram por certo, nenhuns outros do paiz; e da mesma fórma, de toda a razão é o nobre orgulho, que ainda hoje sustenta a briosa raça de tão heroico povo.
E não resistimos ao estimulo de notar aqui meia duzia de nomes, que, na actualidade, provam não ter degenerado aquelle sangue portuguez, tão admiravelmente fertil.
Contamos com a benevolencia dos cavalheiros, por nós apontados, para que nos relevem o não lhes respeitarmos a modestia em preito á verdade; como esperamos desculpa das capacidades, que, involuntariamente, esqueçamos de nomear.
É natural de Guimarães, o snr. José Arnaldo Nogueira Molarinho, residente hoje na cidade do Porto, notavel curioso de obras de prata e de marfim, e celebre artista gravador de medalhas, algumas das quaes teem sido admiradas dentro e fóra do paiz.[10]
Nasceu tambem aqui o apreciavel rabequista, e maestro, Francisco de Sá Noronha, que, nas suas viagens, se tem feito admirar em quasi toda a Europa, recebendo honras, e condecorações de alguns monarchas.[11]
É distincto, em equitação, e talvez se possa chamar o primeiro cavalleiro peninsular, o snr. José Martins Minotes.
São profundos jurisconsultos, e como taes conhecidos em todo o reino, os senhores doutores Bento Antonio d'Oliveira Cardoso, e Antonio Leite de Castro.
É mimoso poeta e dramaturgo, o senhor doutor Antonio d'Oliveira Cardoso.
Tem logar conhecido entre os amadores das boas Lettras, o snr. doutor Francisco de Moraes Sarmento, apreciado já, nas suas obras, pelo nosso bom e fecundo romancista, o snr. Camillo Castello Branco.
Os que hoje representam os antigos fidalgos do «Berço da Monarchia», são todos pessoas estimaveis, caritativas, e uteis. Não existe aqui, onde a nobreza é verdadeira, esses enfatuamentos condemnaveis, que só prejudicam seus donos. Na casa do mais distincto cidadão vimaranense, tem facil entrada, e bom acolhimento, toda a pessoa que lhe bate á porta por mais humilde que seja. É tambem por isto, que a nobreza vimaranense, hoje como sempre, é por todos respeitada.
Peza a louza do sepulchro sobre as cinzas de tres condes, que, por sua popularidade, e importantes cargos que exerceram, deixaram no seu paiz honrosa memoria.
Tudo que dizemos, e muito mais que, em verdade, poderiamos dizer de Guimarães, tem desafiado a critica mordaz dos fortes espiritos do seculo, que a chamam terra retrógrada.
É certo, que o progresso material não tem entrado aqui, com a velocidade que fôra para desejar; mas nem por isso deixam de ser plenamente satisfeitas todas as necessidades da vida. E a cada passo vemos, para comprovar a bondade da terra, adoptarem Guimarães, por sua patria, muitos estrangeiros, que n'ella encontram estimação.
Conservam-se, é tambem certo, alguns costumes de velhas datas; mas n'estes uzos, que os modernistas condemnam, sem bem os avaliarem, ha um certo sabôr de patriotismo, que satisfaz, e deleita, aos que não trocam o que foi bom, no passado, pelo que é, muitas vezes, futil, e mau no presente.
O auctor d'estas Linhas, para que o não acoimem de suspeito, declara que nasceu na cidade do Porto.
Fugimos um pouco do principal fim do nosso «conto», chamando os leitores para o local da acção, em que elle vae continuar, nos seguintes capitulos; mas d'este desvio se podem esquivar os mais exigentes, passando em claro as noticias vimaranenses, que damos por concluidas.
[8] Portugal deu á cadeira de S. Pedro dois naturaes seus: S. Damaso, de Guimarães, e Pedro Hispano, natural de Lisboa, freguezia de S. Julião, que por pouco tempo gosou as honras do pontificado, por morrer de um desastre no sumptuoso palacio, que mandou construir em Viterbo. S. Damaso foi o 39.º na serie dos pontifices romanos: foi-lhe disputada a eleição por Ursino, que as auctoridades civis desterraram, sendo confirmada a legitima eleição de S. Damaso; tambem o inculparam de adultero, mas foi absolvido por um concilio de 44 bispos, reunido em Roma. Entre outras obras de sua iniciativa, contam-se as basilicas de S. Lourenço, e a da Ardeativa, fóra de Roma, mandando concluir outras. Combateu valorosamente as seitas dissidentes, congregando varios concilios, e o ecumenico, em Constantinopla, no anno de 381, ao qual assistiram 150 bispos.
[9] Em um moderno artigo das «Artes e letras», que tem por epigraphe: «Gil Vicente e a custodia de Belem»--lê-se: «Contemplada a Custodia de Belem e confrontada com a Custodia de prata dourada que se guarda na collegiada da Oliveira em Guimarães, saltava ao espirito a existencia de uma mesma tradicção artistica, de uma mesma escóla. Seria Guimarães que teria influido sobre o gosto da ourivesaria em Lisboa? É certo que a tradição recolhida por Barbosa Machado, dizia que disputavam o nascimento a Gil Vicente, Lisboa e Guimarães. Este criterio nos dirigiu nas investigações, e no manuscripto de Christovão Alão de Moraes, datado de 1667, que tem o titulo de Sedatura Lusitana encontramos estes factos preciosos: «Martim Vicente, foi um homem natural de Guimarães; dizem que era ourives de prata; não podemos saber com quem casou; só se sabe de certo que teve a Gil Vicente.» Isto já bastava para acreditarmos que o auctor da Custodia de Belem era natural de Guimarães; mas o manuscripto genealogico é mais explicito, e declara-nos que esse Gil Vicente, filho do ourives de Guimarães, é o afamado poeta da côrte de D. João II, D. Manoel e D. João III «Gil Vicente, filho unico d'este Martim Vicente, foi homem mui discreto e galante, e por tal foi sempre muito estimado dos Principes e senhores de seu tempo. Foi o que fez os autos, que em seu nome se imprimiram, e por sua muita graça foram sempre celebrados pelos melhores que se fizeram n'aquelle genero. Está sepultado em Evora.» O gráo de authenticidade que nos merece este manuscripto é irrefragavel; por que Christovão Alão de Moraes datou a Sedatura de 1667, e elle segue esta genealogia até 1668, em que figurava o seu trisneto Manoel Barreto de Pina, que viveu em Torres Vedras, e n'esse anno foi procurador em côrtes.»
[10] O mesmo artigo a que nos referimos em a nota que falla de Gil Vicente, diz: «... e mesmo em nossos dias o grande gravador de medalhas, José Arnaldo Nogueira Molarinho, representa para nós essa antiga seiva artistica de Guimarães.»
[11] O sr. Noronha é auctor da musica da «Beatriz de Portugal», drama lyrico em 4 actos, vertido em italiano pelo sr. Luigi Bianchi, e representado com applauso geral nos reaes theatros de S. Carlos, em Lisboa, e de S. João, no Porto. A letra do drama, é do sr. R. C. M.
V
BABEL DE SABIOS
«Alli se ajunta bando de casquilhos,
A que o vulgo mordaz chama rafados;
........................................................
Altercam mil questões; promptos contendem,
Promptos decidem no que nada entendem.
(Nicolao Tolentino de Almeida)
--Antes queremos do de Basto, snr.a Anastacia Mendes, do de Basto, que é macio, e tem corpo... Diga-me... todos nós somos de segredo, e bisarros mancebos, bem sabe... ha na sua afamada locanda algum peixe fresco?...
--Que o houvesse, não era para os senhores, que vão comer a melhor carninha do meu fumeiro... É dia de jejum, e n'esta casa, louvado Deus, ninguem mistura...
--Não quer dizer isso, snr.a Mendes... O que o Andrade pergunta é se deu entrada ha pouco, no seu estabelecimento, algum animal da especie dos infusorios...
--Dos rotarios, snr.a Anastacia, dos rotarios... Este Abreu é da mesma força do Andrade... Não sabem classificar as differentes especies de viventes, que ha no mundo...
--Pois o Ribeiro, nossa robicunda patrôa, é de egual ignorancia aos que censura... A fazenda, que procuravamos é da familia dos zoophytos...
--Medusas, snr.a Anastacia, são medusas...
--Não é tal, são radiarios...
--São enthelmentes...
--São arachnides...
--São crustaceos...
--São annelides...
--São molluscos...
--São mammaes...
--São amphibios...
--Só vos esqueceram tres especies, carissimos commensaes, e eximios falladores: a dos insectos, a dos peixes, e a das aves...
--Para saber fallar é preciso saber ouvir... E quem és tu, ó mais peixote de todos os Peixotos do mundo?!...
--Sou, com vossas licenças, talvez um cavallo, que é o unico animal que não sabe lisongear os principes do... talento... Bias, um dos sete sabios da Grecia, dizia que dos animaes ferozes, o mais temivel, é um tyranno; e dos domesticos, o peior, um lisongeiro...
--Que babel, senhora da Boa Hora, que babel!... Os meninos são engraçadinhos, mas eu não os entendo... Escutem todos, e caluda... Chegou hontem cousa de arregalar o olho... Parece, pelo menos, varoneza... Isso é que ella sabe fallar!... Aquella ha-de entendel-os, de certo... E que palminho de cara!... Parece mesmo a Madanela da procissão de passos..
--Bravo!...
--Bravissimo!...
--Excellente!...
--Soberbo!...
--Magnifico!...
--Surprehendente!...
--Bom achado!...
--Optima descoberta!...
--Venha essa phenis!...
--Appareça a bella!...
--Surja a estrella polar!...
--Dê entrada a feiticeira encantadora!...
--Queremos ouvir a cantadeira!...
--Venha a nós, a filha d'Eva!...
--Aqui estou, senhores, para matar-lhes a curiosidade, e matar em mim o nôjo da vida... Deixe-me com os seus eruditos hospedes, snr.a Anastacia, que eu farei por sustentar a fama dos seus elogios... Correspondo ao que de mim lhes disse a nossa ingenua patrôa, senhores curiosos!...
--É arrebatadora!...
--Explendida!...
--Sublime!...
--Não busquem outros synonimos, amaveis sabios, que já consumiram palavras de mais em meu favor... Digam-me só, a que especie de animaes fico pertencendo agora?...
--Á dos Anjos!...
--Classifica, então, os anjos de animaes, senhor... não sei como deva chamar-lhe?...
--Peixoto, o mais furioso dos seus admiradores... E como se chama... V. Exc.a? Hade, ia apostar, ter algum nome de flôr, e patronimicos dos que entraram na peninsula com o exercito romano... Eu conheço a origem de todos os nobres appellidos: uns, procedem dos nomes das terras em que viveram os primeiros fidalgos, e n'ellas tiveram os seus solares; outros, de feitos assignalados na guerra; outros, finalmente, dos nomes de toda a casta de animaes, peixes, aves, e até de instrumentos... Como são os seus, minha formosa?
--Quanto ao meu nome, acertou, que é de flôr, e das mais espinhosas... Appellidos... Diga-me, meu caro snr. encyclopedista, os Bandeiras, e os Mesquitas, serão dignos da minha... formosura?...
--Lê-se, em Severim de Faria, Not. de Port., Disc. III, que o illustre portuguez Gonçalo Pires Bandeira, vendo, na batalha do Touro, que um cavalleiro castelhano levava preza a bandeira real de Portugal, investiu com elle, e lh'a tomou das mãos, e a libertou; e por este feito insigne, El-Rei D. João II, lhe deu por armas uma bandeira branca, com um leão n'ella, de prata; denotando, na bandeira, a real que libertára; e no leão, o valor e esforço que mostrára: e assim lhe deu tambem o appellido de Bandeira, com que hoje seus descendentes se nomeiam. Diz mais, o mesmo auctor, na mesma obra e disc. que quando El-Rei D. Affonso V passou á Africa, a tomar Arzilla, o acompanharam cinco irmãos da familia dos Pimenteis, naturaes de Villa Real; e como sendo entrada a cidade, os mouros se fizeram fortes na mesquita, d'onde faziam grande resistencia, sem poderem ser entrados; estes irmãos, tirando os cintos, e atados uns nos outros, os lançaram a uma ameia, e subindo por elles, levantaram uma bandeira, e por alli foi entrada a mesquita, e mortos os mouros. Por este feito tão honrado, lhes deu El-Rei D. Affonso V, por armas, em campo d'ouro, cinco cintos vermelhos, com fivelas de prata e tachões, e uma bordadura azul com sete flôres de liz; por timbre um meio mouro com uma azagaya na mão, e uma bandeira de prata; e por appellido o nome de Mesquita. São, pois, nomes bellicosos, que ficam perfeitamente bem a... uma leôa...
--Acho-os encarnados de mais... A côr do sangue, apesar das garras com que V. Exc.a me honra, affecta-me a sensibilidade nervosa... Ficarei só com o nome do baptismo... Antes da sua historica dissertação, creio que estavamos na altura dos... animaes anjos?...
--Distingo: existem anjos animaes racionaes, desde que a cubiça, ou o amor, levou a nossa primeira mãe ao estado de completa nudez, pelo peccado commettido no Eden, onde vivia com o seu Adão; desde que um moço, das maiores esperanças, se precipitou no mais caudaloso rio da sua patria, levando as algibeiras carregadas de chumbo, porque a mulher a quem amava, querendo dar-lhe uma chicara de chá, teimou em laval-a primeiro, por se ter servido já d'ella para o mesmo effeito; e desde que eu, que recebi das Musas a chave de todos os seus segredos, de Minerva o cofre de todas as sciencias, e de Marte a vazilha da intrepidez, me declaro em ruinas d'um pavoroso affecto pela pessoa de... V. Exc.a!...
--O snr. faz-me recordar uma anecdota, que vou contar-lhe: O papa Adriano edificou um collegio em Lovaine, no qual mandou pôr a seguinte inscripção:--Utrecht me alevantou, Lovaine me deu agua, Cesar me deu esplendor;--um curioso accrescentou-lhe por baixo: Só Deus não fez aqui nada... Deixo a moralidade, á perspicacia do snr... Peixoto... Pareceu-me ter-lhe ouvido que assim se appellidava?
--Para em tudo lhe dar prazer, snr.a... das anecdotas... Sem embargo do seu espirituoso apologo, minha bella, continuo a deixar sangrar a veia, dando-lhe parte, que os primeiros espelhos foram de metal; que Moysés faz d'elles menção; e que Cicero attribue o invento a Esculapio, deus da medicina. Foi no tempo de Pompeu, que se fabricaram em Roma os primeiros espelhos de prata. Plinio falla d'uma pedra brilhante, provavelmente o talco, susceptivel de dividir-se em laminas que, postas sobre um plano metallico, reflectem perfeitamente os objectos. Os primeiros espelhos de vidro appareceram na Europa no fim das cruzadas: Veneza, que primeiro soube fabrical-os, viu enriquecer os seus negociantes, e exportou estas manufacturas preciosas, para todos os estados do mundo, onde hoje tanto abundam... Só não tenho agora aqui, á mão, um d'esses primores da invenção humana!... Queria mostrar-lhe o quanto lhe fez realçar a peregrina formosura, a satyra com que tentou emmudecer-me, oh imperatriz das bellas!...
--Copia admiravelmente de memoria, snr. Peixoto... Sinto dizer-lhe que, para v. exc.a, só poderá servir de espelho o lago em que Narcizo se namorava da sua esbelta figura...
--Ou o rio em que se reflectia o sabujo, que trocou a preza certa, que levava nos dentes, pela sombra que vira na corrente... Póde fallar-me com desassombro, que eu tudo sei affrontar pelo amor da mulher, que reune, á seducção material, a faisca do genio, com que me apraz emparelhar...
--É nimiamente modesto, o snr. Peixoto... Contou-me a origem dos espelhos, contar-lhe-hei a origem dos orgãos... São uns instrumentos de vento, compostos de folles, teclado, e grande numero de canudos... Querem os chins, que a invenção de tal instrumento seja devida ao seu imperador Hoang-Ti, que existio, antes de Jesus Christo, 2:601 annos... Se estivessemos no seculo 12.º, atrevia-me a chamar a v. exc.a um magnifico órgão...
--E porque não, n'este seculo das luzes, e de todos os instrumentos possiveis?...
--Porque desde o seculo 13.º usam-se orgãos nas egrejas, e os logares sagrados não pódem agradar aos... materialistas...
--Não me assenta bem o nome, minha arisca formosura, porque o materialista não admitte no universo ente algum espiritual; e eu estou a reconhecel-o em Guimarães, aqui, n'este logar em que discorremos, na pessoa de minha... adversaria...
--Tambem é diccionarista?... A definição que acaba de fazer parece-me textualmente lida n'um dos modernos diccionarios...
--Serei tudo que quizer chamar-me, menos plagiario. São exclusivamente minhas as ideias que expendo. Em mim realisa-se o phenomeno da sciencia innata. Não roubo alheios pensamentos, antes deixo que me roubem descaradamente as minhas famosas theorias sobre...
--Sobre principios elementares de mathematica, talvez, em que és fortissimo... Ora, acaba com a sécca, que nós tambem sômos gente, e sabemos que, duas vezes cinco, sommam dez...
--Deixem-me, apenas, concluir por fazer um convite a esta feiticeira... Quer assistir a um baile de costumes, que hoje se dá na casa do Arco?
--Como ha-de lograr introduzir-me lá?...
--Acompanhando-a, e dando-lhe uma das senhas, que servem para esse fim; e como só se tiram as caraças na occasião da ceia, querendo conservar o incognito, retira-se antes d'ella... Serve-lhe?
--Talvez aceite...
--N'aquella, tão tolerante quanto illustre casa, consegues tu realisar todos os teus intentos... Se fosse em Villa Pouca...
--O Arco é mais popular...
--Será; mas Villa Pouca é mais escrupulosa... O que devéras nos espanta, é que tu não peças, á tua Convidada, qualquer remuneração pelo favor que intentas fazer-lhe...
--Eu não costumo sustentar assedio por muito tempo; costumo, sim, tomar as praças d'assalto...
E, como para provar a sua fanfarrice quiz o fallador espadachim abraçar a joven mulher, que lhe auguara a fôfa verbosidade; mas teve de moderar os malcriados impetos, ao simples e carregado aspecto da que assim queria ultrajar.
O seu tentamen, foi presenceado por um novo personagem, que, n'aquelle momento, déra alli entrada, e que se lhe dirigiu n'estes termos:
--Se quizer, senhor atrevido, eu substituo esta senhora, para a realisação da sua vontade; e prometto-lhe que, o abraço entre nós, ha-de ser dos mais apertados... Desculpem os restantes cavalheiros, que não tomaram parte no desejo do insulto, a minha linguagem com o que d'elle se queria fazer auctor...
A mulher assim inesperadamente defendida, exclamou, no auge da surpreza:--O snr. João?!....
--De Lencastre, accrescentarei, para que estes senhores fiquem sabendo que sou filho d'alguem...
A donzella Rosa, porque era ella, como o leitor terá adivinhado, após uma lucta instantanea, de que ella triumphou para o seu intento, disse, sacudidamente, a João Vidal, ou de Lencastre:
--Prohibo-lhe, snr., que toque n'aquelle cavalheiro!... É... o meu amante...
--Seu amante!!... Foi, esta ultima exclamação, sahida simultanea e admirativamente da bocca de todos os circumstantes; pronunciando-a, com indiscriptivel amargura, aquelle que fôra a causa de ella ter apenas brincado nos labios da donzella.
Depois de um silencio d'alguns instantes, pediu João de Lencastre, aos que alli estavam reunidos, com tão persuasiva eloquencia e vehementedor que o deixassem a sós com a donzella, que foi immediatamente por todos attendido.
O que disseram, e como se encontraram n'uma casa de libertinagem estes dous heroes do nosso «Conto», a seu tempo será explicado.
VI
UM BAILE EM COSTUMES
«David dançou diante da arca da alliança, e nos primeiros tempos da Egreja havia uma dança, que era a demonstração exterior da dependencia das creaturas, e uma expressão primitiva de reconhecimento.»
«O sabio e sisudo Socrates era summamente apaixonado pelas danças, que lhe ensinára Aspasia.»
«O grave e carrancudo Catão, aos 60 annos, tomou mestre de dança, para poder apparecer convenientemente nos bailes.»
(O Panorama de 1837)
Abrira a nobilissima casa do Arco os seus salões ao publico: dizemos--ao publico--, porque, o cavalheiro titular seu dono, era prodigo nos seus convites, como em todas as suas nobres acções. Dentro do seu palacete, nenhum dos seus convidados gosava de superioridade: todos eram iguaes, pelo tracto que recebiam; e se alguem, estranho á terra e ás pessoas alli reunidas, houvesse de notar algum acanhamento, isto é, menos liberdade em todas as suas acções, apontaria o distincto fidalgo que recebia. Tal foi sempre o especial condão de toda aquella sympathica familia, para pôrem á vontade os seus convidados.[12]
São tres os salões de baile, todos ao correr, havendo de cada lado do ultimo d'elles, e ao mesmo nivel, um lindo terraço ajardinado: para o do meio, dá entrada um soberbo salão de espera, com duas varandas, sobre o arco, que olham para a rua, assim como os terraços. Ao salão de entrada, e em sentido opposto aos do baile, seguem-se outros, parecendo todos, olhando-se do ultimo d'elles para os do baile, um--T.--De sorte que, a pessoa collocada no salão do meio defronte da porta da entrada, vê todos os salões e os terraços. A entrada do palacete é por uma larga e bem construida escadaria de pedra.
N'este baile, onde se vão dar algumas scenas do nosso «Conto», foram permittidas as caraças, tendo-se distribuido bilhetes, para os que assim quizessem conservar o incognito, por algum tempo, e animar a reunião com freneticas danças, e brinquedos innocentes.
Desde a escada até ao ultimo salão, como nos terraços que, pela profusão de luzes, se não sentia a falta do dia.
O mais exigente dos convidados, deparava, no seu logar, com os objectos que lá devessem apparecer.
Antes de affluirem os encaretados, já se viam, no principal salão, as nobres senhoras intimas da casa; o respeitavel senhor d'ella; Sebastião da Mesquita; Arthur Soares; Leopoldo, e seu irmão João de Lencastre. Estes nossos personagens foram alli hospedes, como parentes.
Completo o ajuntamento, era bello de vêr-se.
Aqui, um grupo de senhoras vestidas de camponezas dos arrabaldes de Guimarães, com as saias de muita roda, os capotilhos de fina baêta encarnada com as pontas crusadas no peito, e atadas nas costas, os seus grossos cordões, e immensas arrecadas de ouro,--offereciam confeitos, e raminhos de violetas.
Alli, os descuidados e jovens lavradores, com as suas fardetas azues de botões amarellos, camizas de linho bordado, e o inseparavel varapau, que lhes servia de encosto para contemplarem as suas namoradas, tendo cada um o braço esquerdo estendido sobre o pau, e a perna direita crusada sobre a esquerda.
Além, a irrequieta vivandeira, acompanhada de seu militar; o sevéro magistrado assestando a luneta; o antigo fidalgo portuguez de rabicho empoado, e de casaca e calções de setim bordado; matrônas respeitaveis, e jovens senhoras vestidas á época, no melhor gôsto, ostentando a antiga e bem merecida fama das formosas vimaranenses, e mostrando, pelas joias de subido preço, que as adornavam, o esplendor e nobreza de suas familias.
Rompeu o baile por uma scena campestre das que no Minho, a mais poetica provincia de Portugal, se notam com frequencia, e se apreciam sempre.
Dos grupos camponezes foi composta uma tocata, de rebecas, clarinetes e banzas; havendo um cantador, e uma cantadeira que, depois d'outros improvisos do seu desafio, concluiram assim:
«Foi o velho rei David,
o primeiro dançador;
vamos nós tambem dançar,
cada um com o seu amor.
«Fazes mal, linda Maria,
convidar em lar alheio;
do temôr e d'altivez
a virtude jaz no meio.
«Não te pedi o conselho,
e vem tarde a correcção;
quem á festa convidou,
agradece a minha acção.
«O fidalgo que dá festa,
incapaz é de ralhar;
mas o sabel-o não deve,
ser motivo p'ra abusar.
«Digam todos que me ouvem,
se eu me quiz entremetter;
seja a resposta o signal,
para a gente s'entreter...»
E começou o baile, vivo, animado, delirante.
Nos pequenos intervallos do bulicio dançante, e em quanto eram servidos os convidados, tinham logar as intrigas ou, sem cheiro de gallicismo, as mystificações.
A vivandeira, sempre pelo braço do soldado, fôra a que mais valente se tornara em phrases de mystificar. Dirigindo-se a todos os grupos, simultaneamente, e procurando dar á voz esse tom desconhecido que, nos bailes d'esta ordem, faz parecer igual o metal de todas as vozes, conseguiu, em pouco tempo, chamar sobre si todas as attenções. Além da agudeza e propriedade dos seus dizeres, concorreram tambem, para um tal resultado, a notavel elegancia da vivandeira, e o porte pretencioso e audaz do militar seu companheiro.
A Leopoldo, fallou a vivandeira assim:
--Porque não está aqui tua mulher?...
--Porque está n'outra parte... Tu querias conhecêl-a?
--Conheço-a, e conheço-te... Ella é uma creatura angelica, e tu és um marido ao qual assenta bem o adagio portuguez, que diz: «Horta sem agua, casa sem telhado, marido sem cuidado, de graça é caro...»
E finalisando com uma risadinha aquella allusão, foi dizer a Arthur Soares:
--Conheço a origem da sua habitual tristeza, cavalheiro... Pensa... na dôr de Maria...
--E não lhe parece motivo de grave meditação o soffrimento da Virgem?...
--Ha dôres muito semelhantes, que não merecem ao cavalheiro o menor cuidado...
--Porque talvez as desconheça...
--Não: é porque se não póde dividir o sentimento forte...
--E, quando seja assim, o culpado sou eu?...
--Não é culpado, mas é causa de culpas... Quando as conhecer, saiba comprehendel-as e desculpal-as... Adeus!
Prepassou rapidamente por junto de João de Lencastre, e disse-lhe:
--A palavra do homem de bem é sagrada: conto com o seu silencio...
Em seguida foi collocar-se, sempre pelo braço do soldado, em frente de uma distincta senhora, á qual dirigiu a palavra n'estes termos:
--Por este meu companheiro, fui rogada, para dizer a v. exc.a uma impertinencia: desejava pagar-lhe o beneficio de me trazer a este baile... Dá licença que eu falle, minha senhora?...
--Dizia minha avó, que triste da casa, onde a gallinha canta, e o gallo calla... Mas como é para ser pago um favor, venha de lá a tua impertinencia...
--Digo, fielmente, as palavras que me ensinaram: «Queimou-se a fôrca, cahiu o tyranno».
--Pena foi que elle cahisse, e ella se queimasse, antes de ter lá subido o atrevido que te ensinou...
--Eu, minha senhora, não tomo a mais pequena parte...
--Acredito, dei-te licença, e não te quero mal. Aconselho-te, porém, que te desquites d'esse companheiro: os da sua laia, substituiram a fôrca pelo punhal, que é mais leve, traiçoeiro, e menos apparatoso...
O careta vestido de magistrado, que ouvira o dialogo precedente, disse ao fidalgo antigo, que estava ao seu lado:
--Conheces aquella senhora, que respondeu á vivandeira com tanta vivacidade?
--Não é a viuva irmã do dono da casa?
--É. Que juizo fórmas da sua alma?
--Parece que não desgostaria de vêr continuar a pernear os malhados...
--Como te enganas!... É a alma mais completa e mais sublime, que sahiu das mãos do Creador. As suas acções, são uma perfeita antithese das suas palavras...
A vivandeira, livre já do peso sob que parecia vergar com a commissão do companheiro, procurava alguem com anciedade. Percorridos todos os salões, sem encontrar quem desejava, foi a um dos terraços, onde Sebastião da Mesquita passeava, parecendo alheio á festa. A vivandeira, mal que o vira, despediu bruscamente o soldado, e dirigiu-se ao velho fidalgo:
--A tristeza de que v. exc.a está possuido, procede do conhecimento da fuga inesperada de uma donzella, companheira de infancia de sua exc.ma filha, não é verdade?...
--Não conheço quem me interroga, nem sei quaes sejam os direitos que julga ter para me interrogar...
--Queria... desejava dar cumprimento a uma vontade e pedido da pessoa a que me refiro... Se V. Exc.a désse licença...
--Tirando primeiro esse panno que lhe cobre a cara, póde fallar.
--É que... para o que tenho a dizer e a fazer, posso conservar o meu incognito... É só pedir, em nome d'ella, perdão a V. Exc.a se algum desgosto lhe causou com o seu procedimento, e beijar-lhe a respeitavel e bemfeitora mão...
--João, Arthur, meus amigos, venham cá!... É preciso obrigar esta mulher a descobrir a cara...
--Senhor!... Uma tal violencia, sem auctorisação do cavalheiro dono da casa...
--Quero-o eu!...
A estas vozes, demasiado vivas, acudiu gente das salas, que repentinamente conheceu a origem da altercação.
A senhora, que déra licença á vivandeira para lhe dizer uma impertinência, foi a que primeiro a protegeu:
--Estranho que o primo Sebastião, um consummado fidalgo e cavalheiro, tentasse fazer violencia a uma fraca mulher... Esta pequena, senhora ou burgueza, fica, desde este momento, considerada como se fôra minha filha!... Conserva o teu incognito, que ninguem agora se atreverá a descobril-o...
--Se V. Exc.a quer, snr.a condessa, eu levo comigo essa menina para o convento...
--Obrigado, Eulalinha, pelo teu bom desejo. És uma criança tão formosa do corpo como da alma: Deus ha de proteger-te.
--Mas, minha boa irmã, V. Exc.a bem sabe que devemos ao primo e snr. Sebastião da Mesquita, toda e qualquer satisfação que elle peça; não só pela qualidade da pessoa que é, como por ser nosso parente, e meu hospede... Talvez que essa creatura o offendesse, e...
--Um homem, como nosso primo, nunca póde dar-se por offendido pelo que lhe faça, ou diga, uma infeliz mulher... É a primeira vez, que ouço fazer distincção ao meu excellente irmão das qualidades dos seus convidados... V. Exc.a não se considerou, para assim fallar, o dono d'esta casa...
--De certo que não, nem podia, estando V. Exc.a aqui.
--N'esse caso, eu já dei as minhas ordens.
--V. Exc.a minha respeitavel thia e senhora, concede-me a honra de ser, no resto da noite, o cavalheiro d'essa dama?
--Agradeço-te a boa e fidalga intenção, meu presado sobrinho e snr. de Pindella. Has de vir a ser competentissimo para todas as nobres acções, assim o espero em Deus; mas és ainda muito novo para um protector.
--E para mim, prima condessa, não serão estas cans fiança sufficiente para receber a honra, que lhe pediu seu illustre sobrinho?
--A V. Exc.a, meu presado primo e snr. de Villa Pouca, que reconheço habil para tudo que seja nobremente arrojado e distincto, peço até a especial graça de conduzir, quando ella quizer, esta minha protegida á sua habitação...
--Nobres senhoras, e amaveis cavalheiros!... Penhorada em extremo pelos favores e attenções, que me dispensam, não posso deixar, comtudo, de pedir-lhes, que reformem completamente qualquer juizo menos favoravel, concebido pelo procedimento do snr. Sebastião da Mesquita... Só quem o não conheça, o poderá considerar capaz de uma acção menos nobre... Aquelle respeitavel ancião, que nem talvez ouvisse do que VV. Exc.as o accusaram, está soffrendo intimas dores, como paga da sua generosa bondade para comigo... Adoptou-me, e tratou-me como sua filha, e eu fugi repentinamente da sua vigilancia e carinho!... Procurei vir aqui, a este baile, só para vêr aquelle venerando velho, e beijar-lhe a bemfeitora mão... Queria fazel-o sem me dar a conhecer, e foi a minha teimosia em conservar o incognito, que o fez alvo de injustiças, que não merece!... De joelhos, e com a cara descoberta, lhe pede perdão de tudo esta infeliz, snr. Sebastião da Mesquita!...
--Rosa!!... Como póde conservar os sentimentos que acaba de manifestar, a mulher que... que eu não conheço!...
E Sebastião da Mesquita, assim fallando, virou as costas á donzella, retirando-se vagarosamente.
O baile continuou ainda por muito tempo, um pouco frio após estas scenas, e, para o fim, com a mesma animação do comêço.
As dôres alheias, não tolhem as festas dos felizes.
[12] Quando a snr.a D. Maria II visitou o Minho, o sr. duque de Saldanha, que fazia parte do séquito da rainha, foi hospedar-se em casa do fallecido snr. do Arco. Constou ao povo, que o palacete estava custosamente adornado, e agglomerou-se á porta, para o vêr: os criados, não deixavam entrar; mas o illustre, e sempre chorado, titular, deu-lhe entrada franca, não consentindo que se despojasse dos seus tamancos, embora lhe inutilizasse riquissimos tapetes.
VII
TORMENTOS INTIMOS
«Correu-me a vida outr'ora delirante,
Tive faceis amores, ledas glorias,
Julguei-me um dia amado e outro amante,
Sonhei promptas victorias,
E vi, em limpo céu formoso e puro,
Brilhante erguer-se o vulto do futuro.
Tumulto, agitação, rumor, bulicio
Compoz o meu viver.--Mas eis que um dia
Paro e vejo o tremendo precipicio--
A vida, que vivia,
Era vida ficticia e descorada...
Um pouco de sussurro--e ao cabo... o nada!»
(Silva Leal Junior.--Primavera.)
Logo que João de Lencastre chegou á falla com Sebastião da Mesquita, depois de lhe dar a rasão por que Arthur e Leopoldo o acompanhavam, e de lhe dar conta da entrega do dinheiro e onde ficara D. Maria da Gloria, occultando-lhe a parte que dizia respeito a Arthur Soares, porque este muito lhe rogara que assim procedesse,--noticiou-lhe Sebastião da Mesquita, com intimo pesar e viva inquietação, a fuga precipitada da donzella Rosa, encarregando-o de descubrir a sua paragem, e de saber os motivos que a determinaram a deixar a casa paterna, lançando sobre si indelevel estigma.
Não ficou o antigo escudeiro menos perturbado com a noticia, do que se mostrava o velho fidalgo ao dar-lh'a: preparava-se para ir procurar a donzella por toda a parte, quando um dos constantes visitadores da casa do Arco, muito fallador, e do numero de sujeitos que facilmente se relacionam com toda a gente que os quer ouvir, lhe deu, como novidade importante, a da chegada á terra de uma rapariga de truz, que parecia ser de facil accesso, pela pousada que escolhera, descrêvendo-a com toda a minuciosidade.
Agradeceu João a Deus, a veia falladora d'aquelle homem, que lhe poupára muitas fadigas; e não o enganou a sua esperança, porque era effectivamente Rosa a inculcada mulher, que elle foi encontrar na casa, e na occasiâo, descripta no capitulo--«Babel de Sabios.»
Depois que João conseguira fazer retirar os petisqueiros adoradores de Rosa, e ficara só com a donzella, empregára, para a obrigar a fallar, persuasivos e sentimentaes discursos, orvalhados, por mais d'uma vez, com lagrimas de mal escondida affeição. Foi tão eloquentemente irresistivel, que a donzella confessou-lhe tudo: disse-lhe, que fugira do seu lar, e abandonára a protecção e carinho dos nobres fidalgos seus paes adoptivos, porque não podéra por mais tempo ter occulto no peito o seu affecto por Arthur Soares, affecto que d'ella se apoderára por tal arte, que só pela morte ou pela doudice podia terminar. Que sabia a existencia de um amor, igualmente invencivel, entre Arthur Soares e D. Maria da Gloria, senhora que ella amava como irmã; e que, para não prejudicar com algum irreflectido procedimento seu estes amores, resolvera fugir, e dar-se como perdida, embora tambem estivesse resoluta na sustentação da sua virtude, mesmo no meio dos mais arriscados perigos.
João Vidal, ou de Lencastre, que a escutára com a maior attenção, depois de um longo silencio, significativo de intimas dores, disse á donzella, que não podendo deixar de ser já um facto conhecido do publico, a sua fuga e paragem n'um local de descredito, inuteis se tornavam todas as reflexões tendentes á demonstração do êrro de um tal passo; mas que elle via um meio seguro, e menos arriscado, de tudo se fazer como a donzella queria. Que pelo casamento d'ella Rosa, ficavam igualmente livres os amores de sua irmã adoptiva, não se expondo a donzella á lucta terrivel que começara; lucta que, mesmo victoriosa que d'ella sahisse, lhe havia de trazer necessariamente a perca da sua boa reputação: que elle possuia um nome, e uma pequena fortuna, e que, se podéssem esquecer os 40 annos da sua idade, no seu coração havia logar para a entrada de um sentimento sério.
Rosa, respondeu-lhe commovida, que não era digna de semelhante honra; que apreciava devidamente o seu brioso e caritativo proceder, e que lhe devia por elle o nome de irmã, com a santa amisade de um tal titulo.
Foram baldados todos os esforços, que João empregára para demover a donzella do seu proposito, e combinaram o guardar-se absoluto segredo ácerca do que entre elles se déra.
No dia seguinte ao do baile, alugou João de Lencastre uma casa, situada defronte d'aquella a que a donzella regressara; e despediu-se de Sebastião da Mesquita, dizendo-lhe que acompanhava Arthur Soares ás linhas do Porto, onde eram precisos braços leaes para a sustentação da causa do povo; sendo-lhe facil o convencer Arthur de que partisse sem elle, com promessa de lá ir ter, logo que podésse fazel-o; e recolheu-se secretamente á morada que alugára, para de lá espiar as acções de Rosa.
Arthur Soares, caminho do Porto, levava enluctado o coração. Sabia que era amado por D. Maria da Gloria; já se havia acostumado áquelle affecto, o unico da sua existencia; mas não podia desterrar de si o convencimento de que a fidalga lhe não podia ser dada por esposa. Era certa, e bem manifesta, a estima que lhe dava seu padrinho; mas essa estima, considerava elle mais como uma protecção das que usam conceder os nobres senhores aos que d'ella carecem, do que amisade verdadeira, que iguala e estreita os homens por laços fraternaes: possuia muitas provas do desapparecimento de affeições iguaes á que lhe concedia o fidalgo, logo que, pelo considerado e protegido, fosse ferido o orgulho de raça do protector. Pedia, pois, a Deus, que a sorte da guerra lhe désse occasião de elevar-se até poder chegar a D. Maria da Gloria, ou de fazel-o descer ao esquecimento eterno, com a gloria dos bravos por mortalha.
Leopoldo, cuja presença, na illustre casa da hospedagem commum, fôra tolerada por Sebastião da Mesquita em deferencia ás conveniencias sociaes, regressava tambem ao exercito da rainha, o grosso do qual se achava então em Coimbra, commandado pela primeira espada portugueza do nosso tempo.
Podia chamar-se um cadaver ambulante, o fidalgo militar, tal era o sombrio e estragado aspecto da sua pessoa. O soffrimento d'este desgraçado, que amava sem esperança, e que odiava por ciumes, era um severo castigo da Providencia. Caminhava para onde o chamava o dever, movido mais por um resto de brios, do que por empenho, e vontade, de servir a causa a que se devotára, depois de ter renegado a popular: n'elle só havia bem fixo, o sentimento do seu tormento intimo.
Sebastião da Mesquita, chorava com lagrimas paternaes a má sorte a que se entregára a donzella Rosa. Arrependera-se do seu arrebatamento no baile, desejára poder remedial-o, receber nos braços a donzella, perdoar-lhe a primeira leviandade, acolhel-a de novo, talvez ainda innocente e pura, e estorvar assim a quéda infallivel, e horrenda, da que elle considerára sempre como sua filha. Mas era já tarde; e o seu natural orgulho não lhe consentia desmentir, com um procedimento contradictorio, o severo porte de que usara publicamente.
Este facto, a par da violenta dôr que lhe entorpecera as forças physicas, fizera pensar Sebastião da Mesquita, com muita gravidade, no futuro de sua filha Maria da Gloria.
Por maior que seja a confiança que se deposite no caracter e virtudes de uma filha, quando vemos no caminho da perdição outra mulher, que nos é cara, lembra-nos logo a possibilidade de um desvio, e queremos remedial-o com prevenções, algumas vezes, e não poucas, com bem peiores resultados do que haveria no imaginado mal, que tentáramos evitar.
O velho fidalgo, depois de ter conferenciado com varios cavalheiros do berço da monarchia, onde se deteve pelo prostramento em que estava, escreveu a D. Maria da Gloria uma carta d'este theor:
«Minha muito presada Maria:
«O meu paternal carinho, leva-me a pensar que seja tempo de escolher-te um esposo digno de ti, que possa, na minha falta, proteger-te socialmente contra as ciladas sempre preparadas para as donzellas do teu merecimento, e do teu dote. Aqui, n'esta antiga e gloriosa terra de Guimarães, presumo eu que existe o que nos convém. Convido-te, pois, a que venhas quanto antes ter comigo, para avaliares por ti a competencia da minha escolha.
«Ainda hoje recebi carta da tua santa e respeitavel mãe, que é sempre o bom anjo do nosso lar. De certo tambem sabes, que ella está de boa saude, por que não haverá dia em que te não escreva, como á pessoa que ella mais ama.
«Recebe a benção, e uma saudade, do teu extremoso pae,
Sebastião.»
D. Maria da Gloria, embebida nos fagueiros sonhos de um futuro risonho, a que aspirava pelo seu amor a Arthur Soares, e entretida a desvanecer, com expansivas provas da sua amisade e bom juiso, os dissabores da sua discipula Anna, que todos eram a quasi certeza de não ser já amada por Leopoldo, nem por sombras podia prever a fatalidade de que estava ameaçada, com aquella ordem paterna.
O padre Alvaro, continuava a sua vida de oração e penitencia. Pastor exemplar, possuia o acrisolado amor das suas ovelhas, porque sabia praticar, para com todos, a caridade que aprendêra de Christo. Ainda assim, soffria constantemente, e muito. Havia uma campa na sua parochial egreja, ao pé da qual elle esquecia o filho idolatrado, as suas penitencias, o seu evangelico proceder, para tão sómente se recordar de que fôra peccador.
Feliz, quanto se póde ser n'este patrimonio de Eva, de todos os personagens do nosso «Conto», só era a respeitavel e bondosa matrona, D. Isabel de Abendanho, que tinha fechada a sua existencia em aldeia pacifica, e resumidas as suas ambições na direcção do seu casal, no respeito e amisade ao esposo, e no elevado amor a sua filha.
VIII
A MULHER CAHIDA
«A justiça de Deus lhe infundira no coração abundancia de remorsos, e a dos homens lhe entornava sobre a fronte amplo vaso farto de ignominia.»
(A. H.--Fragmento de um livro inedito.)
Por mais que os homens doutamente célebres de todos os seculos tenham querido collocar essa formosa e apreciavel parte do genero humano--a mulher--na altura que lhe é devida, nunca a fonte sublime do amor, a mãe e o apoio da meninice, o esteio da vida, deixou de ser conduzida por nós a todos os sacrificios: raro é o homem que se aproxima da mulher sem que a macule; e feita escrava de seus caprichos, é a deshonra e o villipendio, que lhe dá em premio!
A mulher, na sua juventude, só ambiciona o nosso amor; alinda-se para agradar-nos, e nós damos-lhe, em vez do que nos pede, a paixão material que a enlameia: consome-se, para conservar-nos, em sua idade adulta, porque nos alimenta a seus peitos, arruinando a sua belleza; e nós córamos de um pejo infame, se a maternidade não teve logar dentro de umas certas condições sociaes, que nos imprimem a legitimidade: levanta as mãos ao céu na velhice, porque a mulher é naturalmente religiosa, dedica os ultimos annos de sua vida a orar por seus paes, por seus filhos, por todos os desvalidos; e nós alcunhamol-a de impostôra e de bruxa!
Existiram sempre philosophos, escassos de comprehensão, e mal avindos com a mulher, que attribuem a esta preciosa parte da nossa existencia o vicio do sensualismo, que nos provoca. Covarde mentira!
A perversão da moral, e o desenfreamento das vis paixões, tem sido, em todos os tempos, o resultado forçoso de infinitas circumstancias, em que a mulher não toma parte.
A corrupção da Grecia, como a romana sua filha, teve origem na philosophia de Epicuro, nos mancebos que a seguiam, e não nas vilipendiadas matrônas d'aquellas nações.
Antes das torpezas de Messalina, já Cesar tinha manchado o seu thálamo imperial.
Seriam as mulheres culpadas nos crimes, que abrazaram as duas cidades nefandas, de que nos falla o Génesis?!
Corteja-se a formosura da mulher; empregam-se aleives para seduzir a incauta; fazem-se promessas mentirosas; servem todas as villezas ao nosso proposito: um, é o dilecto de seus carinhos, e consegue o seu amor; aconselha-lhe a fuga da casa paterna; cerca-a de algumas commodidades passageiras; sacia-se; desampara-a; precipita-a na profundeza da desventura; deixa-a na miseria, e no desabrigo de toda a consolação humana!
A nudez e a fome, tomam então logar juncto ao umbral solitario da infeliz!... Que lhe resta?!... Vender-se!... Pedir ao primeiro que passa, que lhe estampe na fronte o ferrete do aviltamento pelo óbulo da infamia!...
Depois, as dissoluções, a velhice prematura, a miseria e a doença!...
Depois, a enxerga da caridade!...
Depois, a valla commum do cemiterio!...
Depois, nem uma só lagrima que lhe aqueça as cinzas; nem uma só flôr no seu jazigo; ninguem que ore por ella a Deus!...
E o elegante seductor?...
Passou a fazer novas conquistas; gastou o melhor do seu vigor e da sua fortuna, em atirar com muitas irmãs na desgraça ao lado da sua primeira victima; pensou mais tarde em casar-se; escolheu convenientemente a esposa, fez-lhe a mercê do seu nome e, para vingar-se de uma affronta, que não podia ter o seu perdão, assassinou a mulher adultera!...............................................................
Rosa, luctava com animo viril contra as tentações de todo o genero de que se via rodeada no bordel a que voluntariamente se acolhêra. Eram-lhe, porém, já muito pesadas essas luctas desiguaes. Mais ainda que os atrevimentos e ciladas dos vadios frequentadores d'aquella casa, causavam asco á virtuosa donzella as suggestões das infelizes do seu mesmo sexo, pervertidas até ao extremo de tentarem chamar ao seu grémio as que não tinham mácula.
Principiava a entrar na alma de Rosa o arrependimento do passo precipitado a que se abalançara. Conhecêra, ainda que tarde, a borda do precipicio em que estava, receiava pelas suas forças, e tremia de não saber como fugir-lhe.
Uma noite, foi a donzella mais atacada pelo terror: pareceu-lhe, a deshoras, ouvir estranhos rumores, fóra do seu pequeno e pessimo quarto. A pouca segurança da porta, e da fragil fechadura, augmentava o receio da donzella: apromptou luz, e vestiu-se.
O rumor aproximou-se, a porta foi violentada, e Rosa agarrada fortemente pelos pulsos:
--Não esperava esta desfórra do seu militar, amavel vivandeira?!...
--Deixe-me... largue-me... acudam!...
--Não espante as pulgas, menina... Esta boa terra dorme toda ás nove horas, e já passa da meia noite... Só poderia esperar beneficio da minha generosidade, e eu, confesso, não tenho o fraco de generoso...
--Não realisará a malvadez que intenta, em quanto eu tiver um sôpro de vida...
--É o que vamos a vêr...
E o malvado homem empregava todas as suas forças, em dobrar a mulher, que não podéra seduzir.
Rosa, debatia-se com toda a furia e, mais que outra qualquer, resistira por muito tempo.
Quando estava proxima a matar-se ou a ser preza do infame, quebrou-se repentinamente um vidro da janella, e varanda, que dava para a rua, abriu-se a porta d'ella, e penetrou no quarto um homem, possesso da furia do leão, que descarregou sobre a cabeça do aggressor uma fortissima pancada, com o castão de um chicote de força, estendendo-o logo sem accordo de si.
--O snr. João de Lencastre!!... Oh, leve-me d'aqui!... Salve- me!... A mais forte das mulheres, cercada d'estas infamias, é impotente e fraca!... Agora o conheço!... Mas... como appareceu tanto a proposito?!...
--Habito aquella casa, alli defronte, e estava sempre de vigia, e preparado com uma taboa forte e larga, para lançar da minha janella á varanda d'esta casa, quando, como agora succedeu, lhe fosse necessaria a protecção de... seu irmão, senhora...
--Que nobre alma a sua, João!... Vamos... deixemos este inferno, e em sua casa combinaremos o que deva fazer-se...
IX
O PERIGO DAS CARTAS
«......e bem se manifesta,
Que são grandes as cousas, e excellentes,
Que o mundo encobre aos homens imprudentes.
(Camões--Lusíadas.)
D. Anna e D. Maria da Gloria, passavam as horas em longos desafógos e amigaveis confidencias, suavisando assim as saudades e as mágoas que soffriam. Nas suas respectivas posições, não era aquella a epocha mais infeliz da vida das duas amigas. Quando podêmos depositar em peito amigo o que nos impressiona, quasi desapparece o pesar que sentimos, pelo allivio que nos dá a certeza da partilha na dôr.
Estava, porém, marcado pelo destino, que poucos deviam ser os momentos de quietação, para as heroinas do nosso «Conto».
A carta que Sebastião da Mesquita escrevera á filha, viera terminar o gôso das confidencias, e tornal-o em prantos amargos. Para D. Maria da Gloria, o ser forçada a casar-se com outro homem, que não fosse Arthur Soares, era peior do que a morte. Sabia-o D. Anna, que tomou uma deliberação arrojada, para salvar a sua amiga, sem lh'a communicar. Mandou um expresso a Arthur Soares, com uma carta d'este theor:
«Meu presado irmão adoptivo:
«Confiada no seu cavalheirismo, de que já possuo bastantes provas, ouso pedir-lhe que venha a esta sua casa, logo após a recepção d'esta minha carta. Leopoldo está ausente, como sabe, e nós esperamos o snr. Arthur com a maior anciedade.
Anna.»
Isto feito, tratou de convencer a sua mestra, e amiga, de que devia accusar ao pae a recepção da carta, e dizer-lhe que estava doente, e que cumpriria as suas ordens, logo que o seu estado de saude lhe permittisse fazel-o; porque assim ganhava tempo, que podia muito bem mudar a face dos acontecimentos. D. Maria da Gloria, inhabil para o raciocinio, sujeitou-se a tudo quanto lhe ensinuou a sua amiga.
Por este tempo, marchava sobre as linhas do Porto, o general em chefe das tropas da rainha, com o grosso do seu exercito.
As tropas da junta provisoria do governo supremo do reino, haviam soffrido desastres, sendo, o mais notavel, a incomprehensivel desgraça de Torres Vedras;[13] mas as activas e energicas providencias dos homens do governo, juntas á dedicação popular pela sua causa, tudo remediavam como por encanto. Em vez de diminuir, augmentava o numero de soldados, por cada batalha que se perdia!
E apesar dos desastres, do grande dispendio com as reorganisações do exercito, e de só pagarem tributos moderados os povos sujeitos ao poder da junta, poude esta exemplar quanto energica governação decretar, entre outras medidas de bom senso e muito alcance, e de algumas pensões avultadas, que as mulheres dos officiaes prisioneiros na batalha de Torres Vedras recebessem uma prestação mensal de 12$000 reis, e as das praças de pret 60 reis diarios, em quanto seus maridos estivessem em poder do inimigo.[14]
O quartel general do real exercito estava em Oliveira de Azemeis: foi escolhido um official para commandar uma força, que fosse em conhecimento junto das linhas do Porto, e recahiu essa escolha em Leopoldo. Ao saber-se da aproximação de forças inimigas, tocou a rebate dentro dos muros da cidade invicta, e as linhas foram immediatamente guarnecidas em fórma.
Arthur Soares, commandava uma companhia de voluntarios da guarnição, que occupava, casualmente, o lado da estrada de Lisboa. Conhecida a pequenez da força inimiga, os insoffridos populares saltaram as linhas, e foram atacal-a. Arthur quiz, mas não o conseguiu, conter os do seu commando. Havia recebido ha poucos instantes a carta de D. Anna, e não podia, nem queria, arriscar temerariamente a vida n'aquella occasião. Anciava que terminasse aquelle passageiro incidente da guerra, para correr ao chamamento da sua companheira de infancia. Batia-lhe apressado o coração, porque um presentimento lhe segredava, que D. Maria da Gloria não era estranha no conteúdo da carta; mas como não podéra refrear o impeto dos voluntarios, forçoso lhe foi acompanhal-os.
Empenhado o tiroteio entre as pequenas forças inimigas, cahiu ferido Arthur Soares, que ficára por morto no campo. Um soldado, d'aquelles a que os proprios camaradas dão o epitheto infamante de pulhas, despojou logo o official inimigo de todos os objectos de algum valor, que elle tinha em si: entre os demais despojos, ficou tambem possuidor da carta de D. Anna, que teve a curiosidade de lêr; e como visse lá o nome de Leopoldo, e soubesse que assim se chamava o seu commandante, com a mira em qualquer recompensa, quando por ventura com elle se entendesse aquella carta, foi immediatamente entregal-a a Leopoldo, dizendo-lhe que a encontrára perdida no logar da refrega...
Aquella bala de papel, fôra mais fatal ao marido de D. Anna, do que a de chumbo ao amante de D. Maria da Gloria...
Leopoldo retirou precipitadamente com a força do seu commando; e o corpo de Arthur Soares foi recolhido pelos seus camaradas, que lamentavam com desespêro a sorte do bondoso e bravo official.
[13] Em proclamação do primeiro general da junta do Porto, datada de Coimbra de 29 de Dezembro de 1846, lê-se: «Soldados!--Nem a desgraça da nossa valente segunda columna vencedora em Torres Vedras, e depois anniquilada por uma incomprehensivel desgraça; nem a conspiração dos elementos, que tornaram perigosa e terrivel a nossa marcha, na qual centenares de individuos ficaram em poucas horas descalços, e muitos em risco de morrerem, tem podido abater vossa coragem!»
[14] Decreto da junta de 11 de Janeiro de 1847.
X
O CRIME
«O espirito não lhe dava coisa que vislumbrasse senso-commum. A carta era o seu maximo supplicio.»
(Camillo Castello Branco. Mysterios de Fafe.)
D. Isabel de Abendanho recebera carta do marido, communicativa da sua resolução de casar a filha com um cavalheiro vimaranense; e dizia-lhe que fosse, acompanhada do padre Alvaro, á residencia de D. Anna, e de lá viessem todos ter com elle a Guimarães.
A chegada de sua mãe, e do padre Alvaro, foi para D. Maria da Gloria novo motivo de abundantes lagrimas. A velha e nobre senhora preadivinhara a rasão d'aquelle pranto, e desde logo protestou dar á filha o seu maternal apoio. O padre Alvaro, senhor da causa que assim amofinava as tristes mulheres, deu-lhes a consolação das suas evangelicas palavras, e prometteu empregar, com Sebastião da Mesquita, os brandos meios da persuasão para o dissuadir da effectividade de um enlace repulsivo á noiva. Todos de accôrdo em demorar quanto possivel a ida a Guimarães, confirmaram a Sebastião da Mesquita a noticia do incommodo de D. Maria da Gloria, que afinal não era mentirosa, porque a donzella estava doente, e de molestia que podia matal-a, se não tivesse força para resistir á vontade paterna.
Rosa, salva da vergonha e da deshonra por João de Lencastre, resolveu aproveitar-se da protecção do seu salvador, e assentaram de viver, em Portugal, ou no estrangeiro, debaixo de rigoroso incognito, mostrando a donzella desejos de vêr as suas queridas companheiras antes da sua completa desapparição, embora lhes não podésse fallar; e o antigo escudeiro, que não tinha vontade alheia á da sua protegida, cogitava no modo de fazer-lhe a vontade.
Nenhum dos mais fortes inimigos do homem, empenhado em fulminal-o, e dispondo de todas as convulsões do mundo, teria conseguido produzir em Leopoldo uma sensação semelhante á que sentira com a leitura da carta, que o soldado lhe entregara. Por momentos, julgou-se victima de um sonho, e o seu olhar desvairado era terrivel de vêr-se. Depois, de subito, sahiu-lhe do peito um como rugido feroz, e todas as suas acções foram impetuosas e allucinadas. Mandou tocar á retirada, entregou o commando ao seu immediato, e precedeu muitas horas, tal foi a sua vertiginosa carreira, a chegada da força ao quartel general. Alli, fez, como lhe cumpria, o relatorio dos successos militares, de tal sorte contradictorio e obscuro, que lhe não foi difficil obter a licença, que febrilmente implorava, porque os superiores o suspeitaram victima do começo d'uma alienação mental.
Era alta noite, e dormiam todos os habitadores do seu palacio, quando Leopoldo chegou alli, vindo do acampamento. Quem o tivesse visto jornadear de noite, ora esporeando o ginete de modo a fazel-o saltar por todos os obstaculos, que lhe estavam defronte, ora deixando o caminhar em direcção incerta, e com as rédeas soltas, dizia que era um sêr phantastico dos que algumas vezes nos agitam o somno. Gastára algumas horas a percorrer os arredores da sua principesca habitação, para conseguir introduzir-se lá, sem que fosse apercebido.
Estava a romper a manhã, quando podéra obter entrada por uma janella baixa, que ficara mal fechada, e caminhar, tateando, e com passos incertos, até ao seu quarto de cama, onde se apossou do punhal que pendia da cabeceira do seu leito, abrindo em seguida as janellas, e expondo ao ar a sua abrazada cabeça.
Ao voltar a vista para o interior do quarto, já um pouco alumiado pela frouxa luz do crepusculo, pareceu-lhe que a sua cama não estava deserta, e foi ajuntar-se-lhe ás violentas commoções que o infernavam mais um mixto de curiosidade e de terror, como teria o bandido que deparasse inopinadamente, na casa que julgara dezerta, com uma testimunha de seus crimes.
No leito de Leopoldo dormia tranquillamente o somno da innocencia, a suspeitada esposa. Tivera que sahir dos seus aposentos, occupados até então por ella e por D. Maria da Gloria, á chegada alli de D. Isabel, para que esta ficasse junto da filha.
Reconhecida pelo marido a mulher da qual julgava possuir um incontestavel documento de adulterio, as feições do dementado assumiram as repugnantes proporções da mais repelente das mumias; e monologou terrivelmente:
«Estás no teu sepulchro, maldita!... O mesmo leito que manchaste com a infidelidade, será manchado pelo teu sangue villão!... Não mais acordarás d'esse ultimo somno, em que os sonhos de megéra te hão de trazer ainda junto dos labios o halito do canalha, que eu hei-de devorar após de ti!... Far-te-hei abrir os olhos, apenas para vêres a tua carta, que o diabo me levou ás mãos, e nem uma palavra te deixarei pronunciar, porque antes terá este punhal atravessado o teu infame coração!....»
E, fazendo o que disséra, sacudiu violentamente a infeliz D. Anna, apresentou-lhe diante dos olhos, mal abertos, a carta homicida, e enterrou-lhe em seguida o punhal no peito!...
A desgraçada senhora, teve apenas tempo para dar um grito revelador da suprema agonia, e cerrar os olhos.
Ao ouvir aquelle brado de morte, fitou o vingador de imaginaria affronta um olhar tresvairado em redor de si, e ficou, como se estivera pregado ao chão, sem forças nem deliberação para fugir. Estava assim havia já muito tempo, quando se abriu uma porta, e entraram por ella duas pessoas em traje de romeiros que andam em peregrinação. Os recem-chegados, ao tomarem conhecimento da tragedia que tinham á vista, ficaram por um pouco, como assombrados de raio: um d'elles, o que primeiro conseguiu mover-se, foi cahir com a cabeça sobre a da assassinada, lavando-lh'a com as lagrimas que vertia. O outro, com um sangue frio ainda mais terrivel que o desespêro, aproximou-se de Leopoldo, encarou-o longo tempo, como olharia para o maior dos monstros, e exclamou por fim:
--Assassino!... Miseravel e cobarde assassino de mulheres!... Não posso eu ser o vingador d'aquella infeliz, porque--desgraça! disseram-me que era teu irmão!... Mas Deus a vingará, malvado!... O teu futuro hade ser de cruel expiação, crê!... O maior castigo que te espera, é o prolongamento da vida que tens a viver!...
E deixando-o, sem lhe tocar, foi apalpar o seio da assassinada:--«Ainda lhe pulsa o coração, e o padre Alvaro está aqui!...» E saiu rapidamente do quarto, voltando, minutos depois, acompanhado do pae de Arthur.
O ministro do altar, entrou no sagrado exercicio do seu alto e sublime ministerio: serviam-lhe os dous romeiros de ajudantes, e Leopoldo estava ainda, immovel, no mesmo logar, em que ficára de seguida ao crime.
O padre Alvaro foi tocar de manso no hombro do assassino, e disse-lhe com brandura:
--Irmão! Ajoelhe, que está na presença de um Deus misericordioso e vingador!
Ao contacto d'aquella mão, e ao sussurro d'aquellas palavras, fez Leopoldo um movimento de cabeça, assomou-lhe aos labios um riso idiota, e tartamudeou:
--Não acordem a minha segunda esposa... Com esta casei eu por amor... Não me hade trahir que é nobre... O punhal está guardado... Ella disse-me que era uma arma villã, e eu escondi-o no peito da Anna... Hade amar-me depois da batalha... Sou general, e hei de vencer... Terei um duello com o meu rival... Depois, a felicidade... E meu filho, que me não conhece!... Meu filho, que me chama assassino, que me cóspe injurias a todo o instante, que me espanca sem piedade!!... Perdão!... Perdão!...
--A loucura e os remorsos na propria hora do crime!... Aquella que ajudo a bem morrer, é menos desgraçada do que o seu assassino!...
Haverá quem não trema da vossa justiça, meu Deus?!...
FIM DA SEGUNDA PARTE