EPILOGO

São decorridos cinco annos, depois do casamento de Arthur com D. Maria da Gloria, e estamos no dia do 4.º anniversario natalicio de uma interessante menina, que é a filha estremecida de tão venturoso par.

O filho de Rosa e de João de Lencastre, dous annos mais velho, dá-se ares de protector da priminha, que cérca de brinquedos e caricias infantis. D. Isabel prepara toda jubilosa a festa dos annos da sua netinha. João de Lencastre está narrando á mulher o que presenceára em casa do irmão, d'onde recolhia de o haver visitado, triste pelo definhamento em que vira Leopoldo. D. Maria e Arthur estão de mãos dadas contemplando as crianças, e trocando phrases embalsemadas de felicidade.

É de bem diverso effeito, a scena que vamos presencear na egreja parochial da freguezia. O padre Alvaro, envelhecido e quebrantado em extremo, está ajoelhado sobre a campa, que encerra os restos mortaes da mãe de Arthur, e lê esta passagem da Biblia:

«Disseram-lhe seus discipulos: Se tal é a condição de um homem a respeito de sua mulher, não convém casar-se. Ao que elle respondeu: Nem todos são capazes d'esta resolução, mas sómente aquelles, a quem isto foi dado. Porque ha uns castrados que já assim nasceram; ha outros castrados a quem outros homens fizeram taes; e ha outros castrados, que a si mesmos se castraram por amor do Reino dos Céus. O que é capaz de comprehender isto, comprehenda-o.»

A leitura d'estas palavras, que são, para a egreja catholica, a desculpa do padre celibatario, fez cahir o livro das mãos de Alvaro, e obrigou-o a dizer, em consternadora exclamação:

--Oh meu bom Deus! quando terão fim os meus remorsos?!... Quando poderei deixar a vida esperançado no vosso perdão, oh Senhor Misericordioso?!...

Lançou em seguida os olhos á Biblia, que no chão ficára aberta, e passados poucos momentos, empregados em lêr o que a Providencia lhe deparou com a queda do livro santo, estava o padre Alvaro radiante de alegria, erguendo as mãos e os olhos ao Céu em acção de graça!... As palavras que causaram a repentina mudança no attribulado espirito do bondoso padre, foram estas:

«Digo-vos que assim haverá maior jubilo no Céu, sobre um peccador que fizer penitencia, que sobre noventa e nove justos, que não hão de mister penitencia.»

Entrou n'aquella occasião na egreja toda a nova familia de Arthur, incluindo as creancinhas e a velha fidalga D. Isabel, que vinha buscar o padre para a festa dos annos.

Findo o alegre jantar, desceram todos ao jardim, á excepção de D. Isabel. Este local, é o mesmo em que se deram os acontecimentos descriptos no capitulo--Ao luar--da primeira parte d'esta obra, apenas melhorado com mais algumas plantações de arvores e flores, e commodos assentos.

Estava toda a familia assentada em frente das janellas do palacio; o padre Alvaro no centro com as crianças sobre os joelhos; D. Maria á direita d'elle, e junto d'esta João de Lencastre; e D. Rosa á esquerda, e junto d'ella Arthur. Umas pombas domesticas, saltavam do chão ao collo das criancinhas a depenicarem-lhes os dôces que tinham nas mãos.

As alegres expansões d'esta feliz familia, foram interrompidas pela presença de um escudeiro, que a apresentava, n'uma salva, a D. Maria uma carta tarjada de preto.

Todos se olharam receiosos e contristados, sem que nenhum d'elles se resolvesse a lançar mão da agoureira carta. Tomou-a o padre Alvaro, e pediu licença a D. Maria para abril-a, e lêr o seu conteúdo em voz alta, o que todos estimaram de ouvir, porque assim eram poupados ao desgosto da primeira impressão. A carta era do punho de D. Anna, e resava assim:

«Minha boa Maria e presada irmã:

«Estou viuva!... Nem os carinhos da minha profunda e constante adoração; nem a linguagem caridosa das tuas cartas, em que chegaste a pedir indulto para culpas que não eram tuas; nem os esforços, em fim, dos homens da sciencia medica, poderam roubar á morte o meu desditoso Leopoldo!... Mataram n'o os remorsos de não ter conhecido e compensado a tempo o meu immenso affecto!... Vê, por isto, quanto eu soffro, Maria!... Ha cerca de seis annos que todos os meus cuidados se resumiam na conservação da vida do unico homem que amei!... Perdi-o!... perdi-o para sempre, minha querida irmã!... E elle era bom, Maria!... Os arrebatamentos do seu genio terminavam por um terrivel soffrimento, com o qual sobejamente se castigava do mal causado aos outros!... Era tão bom, que o mataram uns mal entendidos remorsos!... E eu vivo ainda, minha irmã!...

«D'aqui a poucas horas, fechar-se-hão sobre mim as portas de um austero convento,[19] onde possa chorar e orar por meu marido, e onde quero repousar eternamente, quando Deus fôr servido livrar-me do fardo da vida...

«Teu marido que venha tomar conta d'esta casa, que tudo lhe pertence por minha disposição, como eu tambem a herdei pela de Leopoldo.

«Abraça a Rosa por mim; lembra-me a todos; sede felizes, e diligenciae evitar a vossos filhos, que de toda a alma abençôo, o remorso de qualquer falta, porque o remorso mata!...

«Adeus!

Tua infeliz irmã,

Anna

Finda a leitura, que o padre fez commovidissimo, assomou a uma das varandas do palacio o respeitavel vulto de D. Isabel de Abendanho, trazendo atraz de si meia duzia de pessoas das mais necessitadas da freguezia, todas uniformemente vestidas de novo, e, rindo com a tranquillidade de uma santa, disse para a familia:

--Não esperavam, que a velha fosse capaz de preparar-lhes uma surpreza, no dia da festa da minha neta?... Pois saberão, meus crianças, que tive segundo jantar na companhia d'estes bons filhos adoptivos, que aqui lhes apresento todos pimpões, com os fatos novos de que a minha netinha lhes fez presente... Perdão, senhor reitor... O nome de criança foi uma brincadeira minha, que nunca podia entender-se com o respeitavel senhor padre Alvaro...

O pae de Arthur, havia-se repentinamente tornado cadaverico! Apertara nas suas as mãos dos pequeninos que tinha no collo, inclinara a cabeça sobre o encôsto do assento, erguera os olhos ao céu, e balbuciara estas palavras:

--O remorso mata... mas Deus perdôa aos que morrem penitentes... Arthur... meus filhos... até logo!......

N'aquelle momento sombrio, uma das pombas saltou á cabeça do moribundo, o que lhe fez entreabrir o seu ultimo sorriso.

Um despedaçador grito de Arthur, fizera prostrar todos de joelhos.

Chegava alli, da proxima campina, a melancolica toada d'este cantar:

«Vou chorar e cortar fêno,
quem trabalha tambem sente:
as paixões trazem veneno
encoberto na semente.
O nosso reitor, um santo,
reza sempre, e tambem chora!
N'um sepulchro verte o pranto
sempre, sempre á mesma hora!...
Ninguem foge ao sentimento,
ninguem foge ao seu destino...
Quem d'amor soffre o tormento,
no Céu tem Amor Divino.»

[19] É motivo de odios para os liberalões de má casta, o sustentar hoje a conveniencia da vida claustral!

Por verdadeiro affecto á liberdade, por sabermos seguir e presar o progresso do bem, é que entendemos absurda e tyrannica a extincção dos conventos. O claustro, em casos analogos ao d'aquella heroina do nosso «conto», era um refugio celeste: como suppril-o? Que liberdade é essa que tolhe as mais innocentes acções da criatura? Existiam abusos? E onde deixariam elles de existir, sem a vigilancia e o castigo dos poderes constituidos? Porque no parlamento se discutem questões impertinentes, porque no sanctuario das leis havemos presenceado scenas vergonhosas, já alguem se lembrou de extinguir a camara popular?

Consola-nos vêr sustentar a nossa opinião abalisados e insuspeitos escriptores liberaes de toda a Europa.

Dizemos desassombradamente o que sentimos: não sabemos comprehender o celibato forçado e somos desaffectos á extincção das ordens religiosas e a todas as medidas violentas oppostas á bem entendida Liberdade.

FIM DA TERCEIRA PARTE E ULTIMA

Ao snr. José Arnaldo Nogueira Molarinho, devo a delicada offerta da gravura em chapa, que serviu para a tiragem do meu retrato.

Orgulha-me a fineza de um artista, que no Reglamento de exposiciones nacionales de bellas artes, publicado em Madrid no anno de 1871, foi assim classificado: «Molarinho (D. José Arnaldo Nogueira), natural de Guimarães, discipulo del snr. T. M. de Almeida Furtado, caballero de la Orden de Cristo, medallas de plata en las Exposiciones Nacionales de 1857, 1862 y 1863.» Que no mesmo anno de 1871, na exposição de concurso das bellas artes em Madrid, obteve o segundo premio; que tem recebido do estrangeiro inequivocas demonstrações do grande apreço em que por lá é tido o seu talento, e que mais util ainda teria sido á patria, se os poderes publicos d'este nosso Portugal não tivessem o infeliz séstro de ignorarem a morada do verdadeiro merito.

Para o nosso primeiro gravador de medalhas, ainda não houve um cantinho na casa da moeda! Se elle não é influente eleitoral!...

De sorte que o artista distincto, e pobre, n'este paiz, tem que empregar o seu genio em obrinhas que lhe dêem o pão de todos os dias!

Queriam que o snr. Molarinho concorresse á exposição de Vienna d'Austria?[20]

Os seis mezes que s. s.a havia de gastar n'uma obra que lhe daria nome europeu, e gloria a Portugal, foram passados a gravar colleiras para adorno dos sabujos de pessoas indinheiradas, que para tal fim procuram o notavel artista, como algures escreveu um nosso espirituoso narrador.

Perdão... Não façamos injustiças. Nem todos os ministerios se esqueceram do snr. Molarinho: houve um que o emparelhou com qualquer regedor de parochia... O snr. Molarinho é cavalleiro do habito de Christo: não morre de fome.

Porto, 27 de agosto de 1873.

Miguel J. T. Mascarenhas.

[20] O snr. Molarinho, foi oficialmente convidado de Vienna d'Austria para entrar no concurso das medalhas para os premios da exposição: não lhe foi possivel acceder. Os trabalhos seus, que lá mandou, foram premiados.