REMORSO

«Para que venha sobre vós todo o sangue dos justos, que se tem derramado sobre a terra...

(S. Lucas, XI; vida de N. S. Jesu-Christo).

I
GRATIDÃO

Tira-me já do p'rigo, amigo honrado,
Depois solta a prelenda.

(Filinto Elysio--Apologo)

É menos vulgar a existencia do homem grato do que a do homem sabio; mas a compensação do rigor d'este axioma, está na raridade com que se faz um favor desinteressado. Contam-se em pequenissima quantidade as pessoas reconhecidas; mas é grande o numero das que sabem calcular o provento, mais ou menos proximo, de suas generosidades.

O genero de maior consumo no mercado da vida humana, é o egoismo, a que chamaremos, por antonomasia, o verme do coração.

Os factos, porém, de todos os tempos, levam-nos a exceptuar a mulher da regra geral do egoismo do homem, por que é d'ella, na maior parte das suas acções, a santa abnegação: a mulher perde-se pelo amor, o homem gloria-se com elle; a mulher serve á ambição do homem, e é por elle escravisada; a mulher morre sempre por seus filhos, e o homem renega-os muitas vezes....................................................

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Quasi á mesma hora em que tinham logar as tragicas scenas do final da segunda parte d'este livro, e quando ellas ainda eram ignoradas pelos restantes habitadores do palacio, recebia D. Maria da Gloria, recolhida nos seus aposentos, uma carta que abrira, sobresaltada, com prévio consentimento de sua mãe, e que dizia assim:

«Exc.ma e respeitavel senhora:

«O meu camarada Arthur Soares, retido no seu leito por virtude de um ferimento grave, mas não mortal, que recebeu em um ataque dado pelo inimigo ás linhas d'esta cidade, incumbe-me de escrever a V. Exc.a em seu nome, para que termine o cuidado com que deve estar a Exc.ma Snr.a D. Anna, pelo silencio d'elle, depois de um formal chamamento. Só uma impossibilidade absoluta, como aquella que se deu logo em seguida á recepção da carta que o chamava, é que estorvaria o meu camarada e amigo, como elle affirma, de voar a cumprir as ordens de sua exc.ma irmã adoptiva. Muito mais do que as consequencias do seu ferimento, tem o meu camarada sentido o vêr-se até impossibilitado de escrever; e eu, accedi aos seus rogos, para o tranquillisar, e abreviar a sua cura; podendo V. Exc.a ficar certa--pela cruz da minha espada o juro--que, finda esta carta, esquecerei completamente o seu conteudo. Não vae dirigida á snr.a D. Anna, porque tendo sido roubado, quando cahira no campo, o meu camarada Arthur, fez parte do roubo a carta que aquella respeitavel senhora lhe escrevera; e o ferido receia que ella fosse parar ás mãos d'alguem, que, por má interpretação, tenha ficado com suspeitas, as quaes augmentariam, por certo, sendo mais esta interceptada.

«Não obstante estar o meu camarada livre de perigo, os homens da sciencia recommendam toda a cautela, e marcam ainda alguns dias de recolhimento ao ferido.

«É de V. Exc.a m.o att.o v.or e cr.o

«O tenente da 2.a comp.a de voluntarios do Minho

Desde o começo da leitura, que D. Maria da Gloria ficára excessivamente pallida e trémula; mas a sua dôr, por demasiado violenta, não deu accesso ás lagrimas. D. Isabel que sentira o estado da filha, perguntou-lhe o conteúdo da carta, que ella teve a coragem de lêr segunda vez, de modo que fosse ouvida por sua mãe.

--Assustas-me, querida Maria, mais com essa dôr surda, do que se te vira coberta de pranto... É então incuravel o affecto que nutres por Arthur?

--Só a morte o póde curar, minha respeitavel e muito presada mãe e senhora: se até agora o podesse duvidar, recebia n'este momento a mais solemne das provas... É a primeira vez que lastimo a minha condição de nobre, que me embarga o vehemente desejo de ir ser a enfermeira de Arthur... Dava ametade da minha existencia, para ser hoje uma camponeza, livre dos preconceitos e obrigações sociaes, que podesse seguir os impulsos do coração sem constrangimento nem temôr...

--E conheces bem, filha, as qualidades do homem por quem assim queres sacrificar-te?!...

--Conheço, e vai tambem avalial-as a minha querida e santa mãe: Arthur, sabe que é amado por mim, adora-me, e nunca da sua bôcca sahiu uma palavra, que meus paes não podessem ouvir. Podia estar ao meu lado, gosar a todo o instante d'esses prazeres innocentes e celestes, que só dá o verdadeiro amor, e fugiu-me, para não prejudicar a minha reputação, porque receia não poder desposar-me. Todas as acções de Arthur, são de uma fidalguia exemplar, unica, inimitavel. Encarregado por meu illustre pae de saber como a Annitas era tractada pelo marido, obteve a convicção de que ella era desprezada por ser plebêa e pobre: disse-o, por carta, a seu padrinho; esperou que o brioso fidalgo acudisse logo á sua protegida, á que adoptara por sua filha, á que obrigara a casar-se com o seu tyranno; demorou-se a protecção, e Arthur, que apenas fôra companheiro de infancia da nossa Anna, sem nenhuma obrigação legal ou moral, só porque ella não tivesse de soffrer mais alguns dias, alcançou do thio, o venerando padre Alvaro, todo o importe do futuro d'elle--trinta mil crusados--que veiu entregar a Leopoldo, dizendo que era o dote de sua mulher, enviado por meu respeitavel pae!...

--É grande, muito grande, o que me contas, Maria!... Por isso tu o amas, filha, e creio agora comtigo na impossibilidade de venceres o teu amor... Meu primo já sabe d'esse facto?

--Não sabe, minha senhora, porque Arthur rogou muito que se lhe occultasse.

--Então, Maria, sou eu que te digo, que pódes ter esperança de casar com Arthur. Teu pae é um fidalgo excessivamente orgulhoso da sua raça, bem sei; mas é tambem pela sua excedente alma, bom apreciador de todas as acções que ennobrecem quem as pratica.

--Não podêmos contar com este segredo, minha querida mãe, porque jurei a Arthur que o não revelaria, e não sei faltar aos meus juramentos.

--Mau é isso: no entanto, confiemos em Deus.

--Agora, minha boa mãe, deixe-me dizer-lhe mais, que outro sentimento, não menos forte do que o meu amor por Arthur, me obriga, e me domina: é a gratidão pelo generoso procedimento da nossa Anna. Escrever uma carta a chamar o homem que eu amo, por vér, talvez, na sua vinda aqui a minha salvação, arriscando-se a ser suspeitada pelo marido, e a soffrer-lhe as terriveis consequencias do seu ciume,--é a mais irrefragavel prova de uma verdadeira dedicação... Estou inquieta com a perda da carta; bate-me o coração com uma violencia desusada, e presinto grande desgraça... Vamos já ao quarto da Anna...

--Pois ajuda-me a terminar o meu vestuario... Vamos lá, filha, e socega, que Deus tudo fará por melhor.

Quando a mãe e a filha entraram no quarto mortuario, estava lá o cadaver só com os romeiros ajoelhados, porque o padre Alvaro fôra procurar o medico da localidade, ainda na vaga esperança de salvar a desditosa esposa.

As duas senhoras, consideraram-se por muito tempo victimas de um pesadêlo horrivel, ao depararem com aquelle funebre espectaculo. D. Maria da Gloria, sem bem saber o que fazia, acercou-se do leito, fitou-o com vistas desvairadas, apalpou-o automaticamente, fechou n'uma das mãos um papel manchado de sangue, curvou-se depois sobre o cadaver, pousou-lhe os labios na fronte, nos olhos, na bôcca, tudo feito como em delirio, levantou lentamente a cabeça, olhou para as mãos, abriu aquella que encontrara e fechara o papel, acompanhou a quéda natural d'elle com a incerta curiosidade de um innocente que deixa cahir o brinquedo, apanhou-o outra vez, examinou-o e, ao conhecer-lhe manchas de sangue, um tremor violento se apoderou d'ella...

D. Isabel, conservara-se immovel, como se fôra uma estatua, olhando, simultaneamente, e como louca, para o cadaver, para os romeiros e para a filha.

Os romeiros levantaram-se, e foram collocar-se, um ao lado de D. Maria da Gloria, e outro de D. Isabel; como para lhes servirem de amparo.

O que ficara juncto de D. Maria, tentou brandamente arrancar-lhe da mão o papel, ao que ella resistiu, com a reacção dos dementes contrariados, procurando em seguida lêr o seu conteúdo. Quando, após uma demorada leitura e indeciso exame, a fidalga donzella levantou a fronte, e fechou os punhos, o seu aspecto aterrava. Aquella feminil belleza, transformada pela dôr, afugentaria de si, n'aquelle momento, o seu mais apaixonado amante!

Demorou-se ainda alguns minutos silenciosa, e terrivel de vêr-se; até que, tomando uma deliberação repentina, curvou outra vez a cabeça, e disse ao ouvido do cadaver, n'um tom de voz indiscriptivel:

--«Assassinaram-te por minha causa, irmã!... O teu assassino, o monstro que nos roubou e te seduziu, ama-me... entendes?!!... Oh!... como tu vaes ser vingada!... Ha-de o infame soffrer mil mortes em cada segundo, até ao seu ultimo sôpro de vida... Juro-t'o pela honra do meu nome!...»

Em seguida tirou o punhal do peito do cadaver, metteu-o no seio sem o limpar, guardou a carta fatal, e, agarrando nas mãos de sua mãe, sairam ambas repentinamente.

Tiveram apenas tempo de transpôr os umbraes da porta d'aquelle recinto, quando um grito unisono, dos dous romeiros, as teria feito retroceder, se o estado em que fugiam lhes podésse deixar ouvil-o.

Aquelle grito fôra occasionado por ter parecido aos romeiros, que o cadaver abrira os olhos:--Ao tentarem verificar a sua illusão, estavam já acompanhados do padre Alvaro e do medico.

II
MYSTERIO

«Os conegos da sé de Evora, conduziram, sem pompa, á igreja de S. Domingos, entoando as orações dos finados, o cadaver truncado do duque de Bragança.»

(Chronica do seculo xv.)

Algumas horas depois que o padre Alvaro, os romeiros e o medico, tinham ficado no quarto mortuario, junto do cadaver, era publica a morte da infeliz D. Anna, que fôra attribuida a um ataque cerebral. Os creados e os visinhos do palacio, lamentavam sinceramente o funebre succedimento, e a fatal consequencia d'elle, que fôra a immediata loucura do extremoso marido.

Para que esta mentira fosse a versão publica da repentina morte de uma das nossas heroinas, fôra preciso que o padre Alvaro empregasse com D. Maria da Gloria e sua mãe, a sua auctorisada e respeitavel palavra, para as convencer da necessidade de, por aquelle modo, estorvarem a acção da justiça, e a deshonra que o facto, commentado pelos ociosos, traria a todos; e tambem o grave desgosto, que elle causaria ao velho fidalgo Sebastião da Mesquita.

Accordado em que assim se publicasse ficou o bom do padre incumbido de tudo remediar, e assim o fez.

O que se passou entre o medico, os romeiros e o padre, antes que este viesse pactuar a util e generosa mentira, é, por emquanto, vedado aos leitores.

Houve desde logo todo o cuidado de não deixar penetrar pessoa alguma no quarto da finada, e de fazer desapparecer todos os vestigios do crime. Aos que notaram ser o cadaver conduzido immediatamente, em caixão fechado, á capella do palacio, sem preceder a demora, e a exposição costumada, foi-lhes revelado, que a defuncta deixára disposta antecipadamente a condição de não ser visto do publico o seu cadaver, e de se evitarem, no enterro, todas as pompas.

Até ao momento do caixão descer ao jazigo de familia, foi constantemente guardado por um dos romeiros.

Concluida a funebre ceremonia, voltou o padre Alvaro para junto das consternadas senhoras. O tranquillo aspecto do ministro de Deus, as suas palavras persuasivas, e a força de seus concludentes raciocinios, deram ás fidalgas mulheres a coragem necessaria, para continuarem com firmeza a encobrir o crime.

D. Maria da Gloria, deixou transparecer a ideia da sua medonha vingança, que o padre rebateu com evangelicas razões: foi um combate de palavras, entre dous adversarios valentes e convictos, que só teve em resultado firmar-se mais cada um d'elles no seu proposito. A donzella tinha n'alma a gratidão, e o padre a caridosa doutrina de Christo: D. Maria queria vingar de um monstruoso crime, a companheira e amiga, que por sua causa fôra victima; o bom Alvaro queria o perdão do criminoso, e pedia-o, a exemplo do que o Christo implorára para os seus matadores.

No mais caloroso do debate, entrou Leopoldo vagarosamente no local d'elle. D. Isabel teve medo d'aquelle homem, e conchegou-se á filha; o padre Alvaro ficou impassivel, e D. Maria da Gloria teve força para concentrar a sua cólera.

Leopoldo, com todos os modos de completo idiotismo, disse a D. Maria:

--Vá reconhecer o inimigo, snr. ajudante... Tenho um plano que nos dará infallivelmente a victoria... É um segredo que só direi a meu filho, por que vae commandar a emboscada... É verdade... peça a meu filho que me não bata... pede?... Eu sou tão amigo d'elle... Coitadinho!... está doido!... diz que lhe matei a mãe, e fustiga-me sem piedade!... Peça-lhe muito, sim?... Vá... vá, que eu espero a resposta no quartel general...

E sahiu com o mesmo vagar com que entrára, deixando as mulheres estupefactas, porque ainda ignoravam o facto da loucura de Leopoldo.

--Este homem está effectivamente louco?!...

--Está, sim, snr.a D. Maria da Gloria...

--Eu julguei, que o snr. padre Alvaro teria combinado com elle o fingir-se demente por algumas horas, para melhor encobrir o seu crime...

--Não, minha senhora, era essa uma calúmnia desnecessaria, e pouco digna. O infeliz perdeu a razão, logo em seguida ao crime. Antes da sua vingança, senhora D. Maria, appareceu o castigo da Providencia...

--É preciso curar-lhe a loucura, e hade curar-se... Empregarei, para conseguil-o, todos os carinhos que dispensaria ao homem idolatrado... Quero vingar a minha querida Anna...

--Desconheço-a, snr.a D. Maria da Gloria!... Pois, que vingança quer V. Exc.a tirar, no estado d'aquelle infeliz?!...

--O snr. padre Alvaro não sabe o que é o coração da mulher de raça quando ama ou quando odeia... O castigo que eu reservo áquelle malvado, se poder conseguir fazel-o recuperar a razão, a mim propria causaria terror, não me dominando a ideia de vingança...

--E não receia, com o seu procedimento, descobrir o crime a seu exc.mo pae?...

--Socegue, que a dissimulação é a mais forte defeza das mulheres.

--Mas, minha filha, o snr. padre Alvaro diz bem... Tu não deves querer o que Deus não quer...

--Perdão, minha santa mãe.....Se não deseja vêr sua filha morta pela dôr, e pela saudade, deixe-a dar largas á sua gratidão...

Tres dias depois de ter logar o enterro, chegava áquelle formoso e triste domicilio, o velho fidalgo Sebastião da Mesquita, já sabedor pela voz publica, que se antecipára á parte dada pela familia, da morte de D. Anna e da loucura de Leopoldo.

III
BRIOS DE RAÇA

«Se de imitar meu nome te gloreias,
As façanhas me imita,
Ou na Patria Nação, ou nas alheias,
O meu valor te incita:
Ségue os meus passos, segue a meu exemplo,
Se morar quéres, n'este honrado templo.»

(Filinto Elysio.)

Decorreu um mez, após a chegada do velho fidalgo ao palacio de Leopoldo.

Sebastião da Mesquita, já bastante alquebrado, e mal convalescido, cahira de novo na cama, muito magoado com a morte de D. Anna, e com a loucura do marido. Tornou-se grave o seu padecimento, que dava sérios cuidados ao seu assistente. Mais do que á sciencia, aos desvelos de sua esposa D. Isabel d'Abendanho, que passava dias e noites á cabeceira do enfermo, deveu o velho fidalgo as leves melhoras que sentia.

D. Maria da Gloria, toda entregue ao seu pensamento dominante, procurava fazer recuperar o juiso a Leopoldo. Consultara todos os medicos que visitaram seu pae, e ouvira d'elles opiniões de que os muitos cuidados e carinhos empregados com o louco e, mais tarde, algumas impressões violentas, poderiam, talvez, trazer-lhe a razão.

Quem presenciasse o cuidado permanente, que a fidalga donzella empregava com Leopoldo, diria que, a não ser uma sua extremosa amante, era uma filha dedicada ao triste dementado. E conseguira já muito: Leopoldo tinha alguns lucidos intervallos, em que parecia conhecer a sua gentil enfermeira, e em que vertia copiosas lagrimas. Succedia mesmo, nos curtos instantes em que a donzella se afastava, ser chamada pelo nome de filha, em altos gritos, e até procurada pelo infeliz, com a pertinacia da loucura.

Sebastião da Mesquita teve uma longa e religiosa conferencia com o padre Alvaro, despida de apparatos que, aos timidos, encurtam as horas de vida; conversação que augmentara as melhoras do velho fidalgo, e o predispozéra para este dialogo:

--Agora, meu bom amigo, que as suas evangelicas palavras conseguiram fazer-me esperar mercê da Providencia para os meus êrros, consinta-me que lhe falle do nosso Arthur...

--V. exc.a assusta-me com esse modo solemne!.. Sabe alguma coisa má do seu afilhado?...

--Sou eu que peço agora resignação e coragem, áquelle que ha pouco me fallava com desprendimento das cousas terrenas... Bem sabe que tenho soffrido muito: posso, pelas minhas, avaliar as dôres alheias; mas tambem sei que o padre Alvaro é um martyr a quem Deus concedeu forças superiores ao commum dos homens...

--Acabe, senhor, se não quer vêr-me morrer de impaciencia!... Que desgraça pésa sobre meu filho?!...

--Póde ser mentira... Os periodicos muitas vezes desmentem no dia seguinte, o que asseveraram na vespora... Comtudo, eu li, em Guimarães, uma gazeta, que noticiava ter sido... gravemente ferido o meu afilhado n'um recontro com as tropas da rainha...

Um grito de suprema angústia, foi a unica resposta que ouviu o fidalgo, vendo em seguida fugir-lhe o padre, com a rapidez e o vigor da mocidade!

Deus por certo se amerciou com a mágua de aquelle pae, porque logo deparou com D. Maria da Gloria, que o susteve, e lhe disse que Arthur Soares estava livre de perigo, mostrando-lhe as cartas que tinha em seu poder, e pondo-o ao facto de quanto succedera.

--Obrigado, minha querida filha! O céu lhe compensará o bem que fez a este peccador... Não se póde vencer a natureza, e eu sou pae... De certo eram ficticias as forças que me deu o desespero, e eu não chegaria ao Porto com vida... não veria ainda uma vez o filho do... Perdôe-me v. exc.a esta revelação do meu criminoso passado...

--Já sabia o que me diz... adivinhou-o o meu coração...

--É magnanimo o seu coração, minha senhora, e receio que d'essa extrema bondade lhe resultem sérios dissabôres... Arthur não é nobre, snr.a D. Maria, nem sequer é um filho legal!... V. exc.a fez mal em dar entrada ao sentimento que nutre por elle...

--Seu filho possue a mais verdadeira e sólida das nobrezas--a da alma--e eu amo-o!...

--E seu pae, minha senhora?!... Não sabe V. Exc.a quanto elle é orgulhoso da sua raça?!...

--Diligenciarei convencel-o e, se não o conseguir...

--Por Deus, senhora D. Maria, não pense em desobedecer a seu illustre pae!... Desgraçados d'aquelles que na sua mocidade se deixam arrastar pelas paixões! Eu sei o que tenho soffrido, senhora!... Não queira augmentar os remorsos d'este pobre velho, com o mal causado por meu filho!... De joelhos lhe peço que me jure, que nunca procederá de encontro á vontade paterna...

--Quer, então, a minha morte?...

--Quero a sua salvação, senhora D. Maria da Gloria! Quero o cumprimento de um dever sagrado, que póde até tornar respeitavel o seu amor por meu filho. Se V. Exc.a soffresse a maldição paterna, não haveria posição que lhe désse tranquillidade: infelicitava-se, e fazia seu cumplice aquelle que ama... Já não quero que attenda a este velho, que a implora, e que dentro em pouco será pasto dos vermes...

--Basta, snr. padre Alvaro!... Juro-lhe que serei sempre filha obediente e respeitosa, ainda que isso me custe a vida!...

--Obrigado, querido anjo!... Hade viver e ser muito feliz, porque Deus é justo... Deixe-me pedir-lhe perdão de ter estranhado a sua dureza, para com o desgraçado marido de D. Anna... Eu ignorava a causa do seu criminoso proceder e os motivos de gratidão que levavam V. Exc.a á vingança... Ainda assim, peço-lhe que o deixe entregue ao castigo providencial que o pune...

--A esse respeito, é inabalavel o meu proposito, e serei tanto mais cruel, quanto mais contrariado fôr o meu affecto por Arthur... Vae de certo ao Porto, snr. padre Alvaro, e eu atrevo-me a pedir-lhe noticias do doente... Concede-me este pedido?

--Cumprirei essa obrigação, minha senhora.

Poucas horas depois de ter logar o encontro que acabamos de escrever, foi D. Maria da Gloria chamada por seu pae, que lhe dirigiu a palavra n'estes termos:

--É tempo, querida Maria, de te explicar alguns dos meus actos, e de te dar a minha opinião sobre o teu futuro. Deus sabe se me tornarei a levantar d'este leito, e desejo que o meu passamento seja o mais tranquillo possivel...

--O meu bom pae, e senhor, está livre de perigo, e ha de viver ainda muitos annos, para a nossa felicidade:

--É para que sejas feliz, que eu vou remecher no meu passado, e despertar factos que me remordem na consciencia. Quero que a minha vida sirva de exemplo á tua, seguindo-a no bem, e fugindo ao mal que os seus erros me trouxeram... Escuta-me: tive na minha mocidade sérias ligações, que acabaram com a morte de filhinhos que estremeci; e, já depois de casado, vi uma encantadora menina, cheia de virtudes, vivendo na companhia de seus paes de quem era o unico enlevo. As demandas da nossa casa, fizeram-me travar relações com o pae, o melhor jurisconsulto que então existia em Penafiel. Abusei da confiança que me deram, para me insinuar no animo da gentil e innocente criança, que em breve sentiu por mim um d'esses affectos, que são a felicidade ou a completa desgraça dos que os nutrem, segundo o bem ou o mal empregado d'elles. Amei-a... amei-a levianamente!... Quando os meus brios me fizeram conhecer a infamia do meu procedimento, quiz fugir-lhe, mas já não era tempo!... Um dia, a vigilancia paterna, arrebatou a infeliz Laura ao meu amor, e fez encerral-a num recolhimento... Mais tarde, entrava eu furtivamente, e a deshoras, na casa sagrada, para receber nos meus braços duas gêmeas recem-nascidas... E sabes quem eram aquellas criancinhas, que a minha criminosa leviandade fez vir a este mundo?... Eram as tuas discipulas Rosa e Anna...

--Minhas irmãs!!...

--Sim, tuas irmãs... uma das quaes está morta, e a outra... perdida!...

--Que diz, meu pae, perdida?!! A Rosa está perdida?!... Perdida, como?!...

--Ha muito que eu andava suspeitando da profunda melancolia de Rosa, e dos seus modos inteiramente oppostos á indole viril e folgasã que sempre lhe conheci. Antes da minha partida para Guimarães, procurei-a em casa dos suppostos paes, quando estes choravam a sua inopinada e inexplicavel ausencia... Esquecia-me dizer-te, que aquellas infelizes crianças encontraram carinhosas mães, em duas das minhas caseiras, cujos maridos tiveram a bondade de consentir na alimentação de seus verdadeiros filhos a peitos estranhos, para que as minhas filhas podessem ser amamentadas por suas esposas, e tidas como filhas d'elles por toda a povoação... Foi assim que sempre as pude ter perto de mim, ignorando, ellas e o mundo, que eram gêmeas, e que eu era seu pae...

--E é á simples ausencia de Rosa, que o meu bom pae e senhor chama perdição?!...

--Encontrei-a em Guimarães, entregue a um homem desconhecido, talvez o seu amante, fazendo gala da sua liberdade... Soffri muito!... Os brios da minha raça, fizeram com que mais uma vez esmagasse o coração; mas tive forças para a desprezar publicamente... Já vês, que está perdida, e bem perdida!...

E uma torrente de lagrimas, serviram de epilogo á narração do velho fidalgo.

D. Maria da Gloria, estava cadaverica, mas não vertia uma só lagrima. Tinham sido tão violentos, e seguidos, os choques que soffrêra, havia n'aquella fidalga indole tamanha reacção contra a má sorte, que a donzella, imitando os que a adversidade torna heroes, reprimia todas as dôres, e concentrava todas as suas forças para a lucta.

--Minha irmã não podia entregar-se voluntariamente a qualquer homem, pisando aos pés a sua dignidade... V. Exc.a, meu respeitavel pae, deixou-se illudir por falsas apparencias, e o tempo hade esclarecer o mysterio, provando-lhe que uma filha de Sebastião da Mesquita, não sobrevivería uma hora á sua deshonra...

--Como tu és boa, minha querida Maria!...

--Sou apenas justa, meu bom pae. Espero, com plena confiança, vêr um dia resurgir minha irmã Rosa, tão digna como eu da sua benção, e do seu affecto... Agora, se V. Exc.a o consente, dir-lhe-hei, que lamento o não se poder legitimar o nascimento de minhas irmãs, pelo enlace de V. Exc.a com a senhora que foi mãe d'ellas...

--Estamos chegados ao ponto principal d'esta solemne conferencia, minha querida filha... Peço-te que continues a escutar-me com a maior attenção, porque é de todo o melindre o que vou dizer-te... Para nós, os homens que na bruma de tempos immemoriaes temos escondida a nossa gloriosa origem, a nobreza não é o echo de pomposos nomes, nem o apparato de vaidosos titulos, nem a fama de notaveis feitos: é uma questão de raça. O rei póde fazer nobres; mas os fidalgos só os faz a casta... Não ha memoria de existir na minha familia uma alliança inconveniente... Gira em nossas veias um sangue tão puro, como possuira o primeiro fidalgo d'esta raça: é uma herança, que só póde deixar de transmittir-se pela morte da ultima vergontea da nossa arvore gigante...

--Meu Deus! que pesada herança!...

--Dizes bem, Maria, muito pesada... Senti-lhe todo o rigor, quando tive de sacrificar-lhe o coração... Poupa-me a narrativa de alguns detalhes, que me fariam córar de pejo... Basta saberes, que não obstante a existencia de ligações graves, que tive de quebrar, conduzi aos altares minha prima e tua santa mãe... Cumpri o legado da minha casta á custa de permanentes remorsos, aggravados depois com a existencia de tuas irmãs!... Vou hoje exigir de ti, minha presada filha, e unica representante do meu nome, não um sacrificio igual ao meu, porque de certo tens livre o coração, mas sim a tua palavra de receberes por esposo o distincto fidalgo que te escolhi...

--É impossivel, meu pae e senhor!... Eu tenho já o coração cheio de affecto por um homem dignissimo, e a nenhum outro posso entregar-me...

--Custa-me isso, filha, porque dei a minha palavra, embora reservasse o ter de ouvir-te primeiramente... Comtudo, o cavalheiro por mim escolhido, hade acceitar-me as rasoaveis desculpas, e tudo poderá combinar-se, sendo o teu preferido, como é de crer, um fidalgo de verdadeira raça...

Felizmente para a enleiada donzella, ao soarem as ultimas palavras do velho fidalgo, entrou sua mãe no quarto, acompanhada por João de Lencastre, e foi a bondosa fidalga das chaves que respondeu ao marido:

--Não sei a que raça pertence o homem que nossa filha ama, meu presado primo e senhor, mas conheço-lhe as acções, e posso affiançar-lhe sob a minha palavra de verdadeira fidalga, que ninguem as tem mais illustres... Peço ao meu esposo, que desculpe a esta curiosa velha o ter escutado a sua conversação com a nossa filha... Sabia da sua bocca o que se havia de entre ambos passar, é certo; mas tinha maternaes razões, para não deixar só no campo esta sensivel criança...

--Então, pelo que escuto, era uma conspiração!... Entrou tambem n'ella o senhor meu primo João de Lencastre?... Ora deixem estar, que lhes hei-de fazer pagar caro o segredinho... Vamos lá a saber o nome do feiticeiro, que assim me roubou a melhor parte do coração de minha filha, e que teve artes para chamar a minha sancta prima ao seu partido... Venha, venha esse nome magico...

--Chama-se, simplesmente, Arthur Soares...

--O meu afilhado?!!... Deus não quiz que V. Exc.a, snr.a D. Maria da Gloria, calcasse aos pés as venerandas cinzas de seus avós, e matasse seu pae já proximo do tumulo... O snr. Arthur Soares, não póde ser... seu marido, porque... morreu!...

--Engana-se, meu pae, e senhor!... Arthur vive, e sempre viverá na minha alma!... Foi gravemente ferido, mas está livre de perigo... Ha-de viver longos annos... Ha de ser muito feliz, porque o merece, porque tem uma alma, que vale por todas as nobrezas da terra... Ha-de chorar todas as infelicidades que talvez esperem a minha raça, conservando-se constantemente á altura dos seus nobilissimos sentimentos... Affirmo-lhe, senhor, que nunca partiu d'elle a minima palavra ou o mais insignificante gesto, que v. exc.a não podesse presencear... Amei-o, e hei-de amal-o eternamente... Mas sou fidalga!... Sou a herdeira de um nome que deve passar immaculado á posteridade, continuando em mim uma infinda série de aristocraticas allianças!... Seja!!... V. exc.a que diz de um Lencastre para meu esposo?...

--São de boa casta os Lencastres, minha filha; mas...

--Muito bem, meu pae e senhor!... Com quanto eu receba a cruz da minha herança, a escolha agora é minha... Findo o lucto pela morte de minha irmã Anna, serei esposa do snr. Leopoldo de Lencastre!...

Ficaram de tal sorte aturdidos os restantes personagens, com este inesperado desenlace, que nem uma palavra se ouviu mais, retirando-se a donzella cheia de magestade.

IV
VISÃO

«Um presentimento de terror, d'aquelles que batem no coração de repente, sem saber por quê nem d'onde vêem...

«Tem sempre fé em Deus, que hade querer o que fôr melhor para nós.

«E é trovoada isto, que se escurece tudo?... Não, são as sombras da Eternidade que vêem sobre mim.»

(Visconde de Almeida Garrett--Fragmento de um romance inedito.)

Conseguido o quietismo dos animos pela retirada de D. Maria da Gloria, veiu a cada um a consciencia do que lhe ouvira affirmar, com uma invencivel força de pasmosa vontade.

Sebastião da Mesquita, embora tivesse triumphado no seu principal proposito, não ficára tranquillo, porque lhe era antipathico o genro; mas o seu orgulho de raça podia mais n'elle do que todos os bons sentimentos que possuia: conheceu que sua filha era mulher de não retrogradar, e resolveu conformar-se, guardando silencio.

D. Isabel de Abendanho, comprehendendo mal o que se passára, esperava os acontecimentos com a confiança das almas puras.

João de Lencastre, ficára engolfado nos seus pensamentos, e só usou da palavra, passado bastante tempo, para responder a algumas perguntas que lhe fez Sebastião da Mesquita, e despedir-se dos velhos fidalgos, dizendo-lhes que ia seguir a sorte da guerra.

D. Maria da Gloria, mais do que nunca, ficára toda entregue ao tractamento do demente.

Ao dar meia noite do quarto dia, posterior áquelle em que a fidalga donzella tão inesperadamente desenlaçára o temivel nó, que seu pae lhe lançára ao collo, gemia Sebastião da Mesquita no seu leito as dôres de sua teimosa enfermidade, e as que procediam de um pesadelo medonho. Via as suas filhas bastardas, uma levantar-se do tumulo, e outra surgir do meio de uma turba de mulheres hediondas pela miseria e pela devassidão, pedirem-lhe contas dos carinhos maternaes, a que elle as arrebatara; de um nome que podessem usar sem pejo, que elle não podia dar-lhes; e de um futuro igual ao que esperava a sua filha legitima, que já não podia ser o d'ellas... O mais terrivel da visão, era o espectro da mulher de Leopoldo... D. Anna apparecia a seu pae, em todo o vigor da sua mocidade, criminando-o pela forçada ligação a que elle a levára, e que fôra causa da morte prematura que tivéra... O velho fidalgo, implorava o perdão de sua filha, e a victima exigia-lhe, em troca, nada menos que o completo aniquilamento da sua raça... Queria que seu pae désse por escripto o seu consentimento para D. Maria da Gloria poder casar-se com Arthur Soares... Apresentava-lhe penna, tinta e papel, e dizia-lhe, pela voz da eternidade:

«Em nome de Laura, a virgem que deshonrastes, e á qual nem foi dado depositar um beijo maternal nas faces de suas filhas!... Em nome das cruciantes dôres e das lagrimas de sangue, que levastes ao seio de uma familia honesta!... Em nome do desespero da filha, que o teu despreso atirou ao lôdo social!... Em nome, finalmente, d'esta outra filha, que fizestes morrer na flôr da vida; e para que todos te perdoem, e Deus se amerceie da tua alma,--escreve: «Dou voluntariamente o meu consentimento para minha filha D. Maria da Gloria poder casar-se com o meu afilhado Arthur Soares. Ás portas da eternidade, prestes a comparecer perante o pae commum, reconheço que só é verdadeiramente nobre, aquelle que segue no mundo os preceitos de Jesus Christo==«Não faças a outrem o que não queres para ti, perdôa as injurias, e ama o teu proximo como a ti mesmo.»==Sebastião da Mesquita.»

E o torturado velho, banhado em frios suores, sem ter já forças para affastar de si a vingadora visão, que o aterrava, sem poder distinguir se tudo aquillo era sonho ou realidade, pareceu-lhe que cedia ás ordens da filha, e que estava escrevendo o que ella lhe dictava................................

Succedeu-se á visão um quebrantamento, que teve o velho fidalgo prostrado, por algumas horas, como se estivera morto.

Ao abrir os olhos, viu Sebastião da Mesquita junto da cabeceira a sollicita e carinhosa esposa. Diligenciou recordar-se, e communicou o acontecido a D. Isabel, em voz fraca, e cada vez mais duvidoso, se um sonho fôra, ou se tudo se passára na realidade. A bondosa senhora, aproveitou aquellas disposições do marido, para advogar a causa da filha. Pintou Arthur Soares com as mais bellas côres; revelou o que elle praticára em beneficio de D. Anna, porque entendeu que o juramento de guardar segredo, dado por D. Maria, a não obrigava a ella; descreveu com enthusiasmo o casto amor da donzella, e o que ella soffreria tendo de o sacrificar ao dever de esposa de um homem aborrecido; foi, finalmente, sublime de eloquencia maternal.

No fim das suas expansões, olhou D. Isabel para o marido, a vêr se lhe lia nos olhos o assentimento, que os labios não tinham proferido. Não conseguiu o seu intento, porque os olhos de Sebastião da Mesquita estavam completamente fechados... O remorso fôra um poderoso auxiliar da enfermidade...

Áquella hora, já o velho fidalgo sabia se lá nas alturas Deus permitte a distincção de humanas raças...

V
TRES SOLDADOS POR AMOR

«Tomai pensar mais solido e sizudo:
O caminho segui que a honra indica;
Trabalhai pela Patria, a Patria é tudo.»

(Poesias de Antonio Joaquim de Mesquita e Mello).

Entremos na residencia do reitor de Santo Adrião de Penafiel.

Estamos na sala do oratorio, onde já vimos orar D. Isabel e o velho parocho, por occasião dos raptos, e do incendio, da primeira parte d'esta obra.

Ajoelhado aos pés de Christo, está um vulto de mulher, nova e bella ainda apesar do seu definhamento.

Assentados em um movel de junco de dous logares unidos, com as costas oppostas uma a outra, ficando por isso as pessoas a olharem-se de frente, estão a um canto Rosa e João Vidal ou de Lencastre.

A um lado, escrevendo, está o bondoso reitor.

Trajam todos rigoroso lucto.

Ouviremos o que dizem João e Rosa:

--Quando seccarão as lagrimas nos seus olhos, snr.a D. Rosa?...

--Não ha muito que chóro, meu amigo, e ainda bem que posso chorar... Sou muito mais forte do que me julgam, e do que eu mesma pensava ser... Tenho atravessado de olhos enchutos crises violentas, que nem todos os homens atravessariam de animo frio... Mas saber, na mesma hora, que era filha de um respeitavel cavalheiro, e que meu pae morrera considerando-me perdida... é de mais, bem o conhece!...

--Não posso asseverar-lhe qual foi a convicção com que seu exc.mo pae falleceu; mas ao despedir-me d'elle, julgando eu que ainda o veria muitas vezes, quando elle me pediu noticias suas, jurei-lhe, pelo meu nome, que v. exc.a era em tudo sua digna e honrada filha. Este meu juramento, pelo conhecimento que elle tinha do meu caracter, e dado poucos momentos depois de sua exc.ma irmã D. Maria lhe ter dicto, por uma sublime inspiração, que a snr.a D. Rosa havia de resurgir pura de toda a mácula,--devia ser bastante para o convencer de que fôra precipitado em julgar por apparencias. Não posso adiantar-lhe mais, porque me era impossivel mentir-lhe, mesmo para seu bem. Estive lá, como sabe, quando fui acompanhar aquella desventurada martyr, que implora a Deus o perdão dos que a sacrificaram, e desconheceram suas virtudes;--mas não fallei com pessoa alguma da familia, porque assim era preciso... Poucas horas depois, já seu exc.mo pae não era d'este mundo!

--Querido pae, e boa irmã!... É preciso que terminado o lucto, meu bom amigo, D. Maria da Gloria seja feliz.

--Sabe o que se fez, e o que se espera. O plano de v. exc.a foi rigorosamente executado. Admiro-a, snr.a D. Rosa!... Como Deus lhe dá forças para esmagar o coração!...

--Não me julgue de leve, meu amigo, que póde enganar-se nos seus juizos a meu respeito. É muitas vezes insondavel o coração da mulher... Eu mesma não saberia, talvez, dizer em verdade quaes sejam os estimulos do meu actual proceder...

--Quer a desgraça que os eu conheça, senhora, e que os sinta inabalaveis... São rarissimas as mulheres que sabem sacrificar o amor aos seus brios, á dedicação e amisade; mas ha exemplos, e v. exc.a é das que póde praticar todos os extraordinarios...

--E não tenho podido conseguir fazel-o feliz com a minha illimitada estima... Veja que apoucado poder é o d'esta extraordinaria mulher...

--O que quer, senhora?!... O ambicioso soffre e caminha continuadamente, até chegar ao cumulo da sua ambição, ou succumbir sem vêr realisadas as suas loucas esperanças... Cheguei a meio caminho do meu paraiso, é certo; deveria contentar-me, por que fôra alcançar já muito mais do que merecia; mas esse mesmo exito augmentou a minha loucura, e não posso ficar parado... Antes morrer com a esperança no pensamento, do que arrastar a vida sem essa dôce consolação dos que padecem...

--E como lhe ha de conceder esperanças, a mulher que o senhor salvou da perdição, onde ella se foi voluntariamente lançar por amor a outro homem?!...

--Não lhe tenho eu jurado muitas vezes, que seria o mais extremoso e dedicado dos esposos?... Suspeita-me capaz, mil annos que vivessemos juntos, de lhe fazer a mais remota allusão a um seu passo impensado, que nem erro se póde chamar?...

--E julga que me satisfaço com tão pouco?!... Avalia-me com a capacidade de o victimar, para salvar a minha virtude?!... Como é injusto, João!... Se fosse possivel ter entrada no meu peito, para lhe dar, um affecto ainda superior ao que me levou a affrontar os prejuizos sociaes, seria então sua esposa, creia-o... Mas posso eu sentil-o?... E sentindo-o, não deveria occultal-o a mim propria, para não ter de córar da minha versatilidade?...

--Sou, pois, infallivelmente condemnado, não é verdade?!... Um pedido então, senhora, e será o ultimo... Deixe-me ir batalhar pela nação... V. Exc.a já não carece dos meus serviços... tem a companhia d'aquella martyr, e d'aquelle respeitabilissimo ancião... Vou para junto do meu camarada Arthur... talvez que precise do meu auxilio, e juro-lhe que darei por elle a vida... Consente, não é assim?... Não me responde?!... Chora?!... Compadeça-se de mim, senhora, e deixe-me partir!...

Usando dos privilegios concedidos a todos os narradores, vamos agora lêr a carta, que o padre Alvaro acaba de escrever:

«Exc.ma Snr.a D. Maria da Gloria, escolhida filha do bondoso Deus:

«Não ha flôres por mais mimosas que a natureza as produzisse, que estejam ao abrigo das tempestades da terra; e por muito açoitadas e pendidas que ellas fiquem, o sopro de um Deus, mais poderoso do que o furacão da tormenta, em breve as alevanta e reanima. A minha linda flôr da Gloria, está sendo abalada pelos ventos do infortunio, com que o pae celeste costuma experimentar os seus escolhidos; mas, se como eu espero e creio, a christã resignação fôr uma das muitas virtudes de V. Exc.a, não virá longe o dia em que hade ser compensada dos seus dolorosos soffrimentos. Tambem eu sei carpir saudades do meu unico e verdadeiro amigo, que nunca julguei que me houvesse de preceder na viagem da eternidade!... Ora, pois, enchuguemos o justificado pranto, e fallemos um pouco de nós outros, interinos habitadores d'este valle de lagrimas.

«Venho da cabeceira do leito de Arthur, que está livre de todo o perigo: mais alguns dias de repouso, e a seiva da vida apparecerá de novo. Foram muito graves os ferimentos, perigosos mesmo: deixaram vestigios permanentes, que mudaram immenso a physionomia do meu caro Arthur. Perdôe a este velho padre o dizer-lhe, que o rapaz me pareceu assim mais formoso ainda!... Eu, que devo impugnar os ardores guerreiros, como indignos da caridade e da misericordia do Senhor, achei bello aquelle aspecto marcial!... Na hora das despedidas, sahiu-lhe espontaneamente da bocca o nome de V. Exc.a, proferido com igual respeito áquelle com que por vezes invocára o da sua querida mãe. Quizera responder-lhe com poucas palavras, mas foi impossivel. A despedida, durou mais tempo do que o resto da visita!... O padre, teve de ceder o seu logar ao homem, que, apesar de criminoso, é pae!... Que lhe direi mais, senhora D. Maria da Gloria?!... Arthur está preparado para todos os acontecimentos... Resignar-se-ha com tudo, afóra a ideia de que V. Exc.a possa ser menos feliz do que merece.

«Peço a transmissão dos meus profundissimos respeitos á exc.ma snr.a D. Isabel, á qual me atrevo a rogar o seu regresso a estes sitios, onde me será mais facil a realisação do desejo de as vêr todos os dias, e acompanhal-as nas orações pelo eterno descanço do nosso chorado esposo, pae e amigo.

Padre Alvaro.»

N'este mesmo dia, existiam só, além dos serventes, duas pessoas na residencia do padre Alvaro: elle, e a senhora que vimos orar, em quanto o padre escrevera e João e Rosa conversavam.

João de Lencastre, fôra o primeiro a retirar-se, com a morte no coração, porque de todo lhe fugira a esperança de ser correspondido no seu immenso amor.

Rosa, que o não prevenira da sua resolução, seguira-o pouco depois.

Quarenta e oito horas eram apenas passadas, quando, no Porto, a companhia de que era capitão Arthur Soares, contava mais dous voluntarios, que eram o tenente João de Lencastre, e um elegante sargento, que dizia chamar-se Paulo Virginio.

Arthur Soares, estava já completamente restabelecido.

VI
DENODO FEMININO

«Descavalgando, os dous guerreiros tomaram nos braços a irmã de Pelagio, e foram reclinál-a sobre um monticulo cuberto de relva e musgos.....

«O unico signal que n'ella revelava vida era o tremor convulso que violentamente a agitava.»

(A. Herculano--Eurico.)

A guerra civil havia chegado ao seu maximo desenvolvimento. Não existia em Portugal uma aldêa livre dos vexames da revolução. Os exercitos belligerantes entretinham-se em operações de pouca importancia, em conservarem para os seus governos os territorios occupados pela força, e não chegavam a travar uma lucta decisiva.

Um estado de coisas assim violento, não podia prolongar-se sem grave prejuiso da nossa nacionalidade.

O governo de Lisboa, fundado nas acclamações feitas a favor do snr. D. Miguel de Bragança, pedira a interferencia das nações signatarias do tractado da quadrupla alliança, por se achar em perigo a pessoa e dynastia da rainha.

Foi muito condemnada n'aquella epocha a medida extraordinaria da intervenção estrangeira, que é sempre um desaire para as nações a ella sujeita; mas é forçoso confessar, que lhe devemos immensos beneficios; e que, se não foi um bem absoluto a interferencia da França, Inglaterra e Hespanha, poupou comtudo a Portugal o derramamento de muito sangue, e os milhares de calamidades a que a duração da guerra nos tinha entregues.

No caso mesmo do vencimento provavel da causa popular havia a receiar que, após elle, a ambição do partido ante-dynastico, que se achava em força consideravel, désse muito que entender aos liberaes de boa fé, que apenas pelejavam pela prática genuina do systema constitucional, e que amavam de toda a alma a Liberdade, e a respeitabilissima pessoa da snr.a D. Maria II.

A excelsa filha do rei soldado, a mais exemplar senhora da Europa, como esposa e mãe educadora, foi inconsideradamente arguida de facciosa, pela exaltação partidaria, que se esqueceu de levar-lhe em conta dos seus actos politicos as constantes suggestões dos conselheiros que a cercavam, aos quaes não se fartava de fornecer terriveis documentos para a catechese, a imprensa licenciosa da opposição, cuja linguagem desenvolta e ameaçadora bastaria a resolver qualquer monarcha, por mais resoluto que elle fosse, a entregar-se nos braços dos que se lhe mostrassem dedicados e leaes.

O certo é, que alguns dos officiaes superiores da junta do Porto, não viram com máus olhos a conclusão da guerra, pelo modo que ella teve logar, como por sem duvida, a maioria sensata do paiz, a recebeu com jubilo.

O batalhão a que pertenciam Arthur Soares, João de Lencastre e o sargento Paulo Virginio, achava-se em Setubal, fazendo parte da brigada do commando do honrado e mutilado general, que servia ás ordens da junta do Porto. Succedeu haverem sido interceptados a bordo de um vaso de guerra alguns objectos, que do estrangeiro vinham dirigidos á rainha, e entregues áquelle general, que immediatamente os enviou ao Paço por um dos seus officiaes;[15] e foi Arthur Soares, elevado por seus serviços ao posto de major, o escolhido para os ir apresentar, commissão que desempenhou galhardamente.

A snr.a D. Maria II, commovida por um tão delicado quanto conveniente procedimento, acolheu o mensageiro com inequivocas demonstrações de estima. Não lhe fez graça nem mercê régia, porque, senhora como era de elevadissimos sentimentos e notavel intelligencia, não queria de nenhuma fórma melindrar o caracter de um soldado, que militava em campo que lhe era opposto; mas significou-lhe, em phrases insinuantes, o quanto estava reconhecida áquella fineza do bravo general, e o muito que desejava poder em dias mais felizes distinguir e galardoar o porte e delicadeza do attencioso mensageiro.

Dias depois, tivera logar a batalha de Setubal, que matou cerca de 600 homens de ambos os lados, em quatro horas que durou o fogo, e a que poz termo um armisticio, por uma especie de intervenção do coronel Wilde, que se achava n'aquellas paragens, a bordo do navio de S. M. Britanica Polyphemus.

N'esta batalha, achou-se o regimento de Arthur Soares fazendo parte da força que atacara a direita do inimigo, e que foi tomada de improviso pela cavallaria, que a fez debandar desordenadamente. O major Arthur Soares, o tenente João de Lencastre, e o sargento Paulo Virginio, fizeram desesperados esforços por conter os soldados, e tiveram de sustentar uma lucta desigual com a cavallaria inimiga. Na occasião em que o peito de João de Lencastre ia ser varado por uma bala sahida da pistola que lhe apontava um soldado, collocou-se de permeio o sargento Paulo Virginio, que recebeu o ferimento destinado ao seu superior. N'esta altura, ouvia-se por todo o campo da batalha o toque de retirada, e foi a elle que os dous officiaes deveram a conservação de suas vidas, e o poderem soccorrer o ferido, que tão denodadamente havia salvado um d'elles.

Imagine-se qual seria o espanto dos nossos heroes, ao reconhecerem, sob as vestes militares do sargento moribundo, o corpo mimoso da donzella Rosa!...

[15] Este facto foi publicado em alguns periodicos d'aquelle tempo.

VII
OS ESPINHOS DA FLOR

«Peço ao meu anjo da guarda,
Se hei-de aqui ficar perdida,
Que vá levar-te por sonhos
Esta minha despedida.»

(V. de Castilho--O acalentar da neta.)

Leopoldo havia recuperado a razão, graças aos cuidados da sua gentil enfermeira. Mal sabia o desgraçado, que novo supplicio lhe destinava a mulher que o salvára da demencia!...

Ouçamol-os:

--Diga-me muitas vezes que não sonho, querida prima, e que não é encantamento, ou uma nova crise da minha loucura, este celeste deslisar da existencia ao seu lado...

--É um facto muito real e verdadeiro, caro primo, que hade ter por desenlace o nosso casamento...

--Não posso crêr em tamanha ventura!...

--Duvída?!... Pois não sabe, que protestei a meu pae de sustentar o seguimento das nobres allianças da minha raça?... Não vê como já me abandono ao seu dominio, separada de minha mãe, que foi para o nosso solar chorar a perda do marido estremecido, e longe de todos que no mundo me são caros?... Duvída?!... Alguma razão tem para duvidar, porque não é com premios taes que se costumam castigar os assassinos...

--Tenha piedade, senhora!...

--Piedade?!... De quem, e porquê?!...

--De mim, que só fui criminoso por amor e por ciume... A ferida que fiz n'um peito desleal, causou-me estragos, que só a prima teve o poder de reparar... e bem conhece que não são de assassino estes soffrimentos...

--A ferida que fez n'um peito desleal, diz o primo?!... Illude-se, e é chegada a hora de lhe tirar a venda... V. Exc.a cravou ás punhaladas, com este villão instrumento que guardei para o sangue que o tinge me animar á vingança, o unico peito em que batia um coração que lhe era affecto... Minha irmã Anna amava-o, como ao seu unico e verdadeiro amor...

--Não brinque, prima, que me tortura!...

--Quer as provas?... Vá ouvindo... Passavamos aqui uma existencia relativamente feliz, eu a crear sonhos de ventura com o meu idolatrado Arthur, e minha irmã Anna a lamentar-se de não ser comprehendida por V. Exc.a no seu immenso affecto, quando veiu enluctar-nos uma carta de nosso pae, que me participava a resolução de casar-me em Guimarães... Soffri horrivelmente!... Fiquei em estado de não poder empregar sequer um raciocinio... A minha querida irmã, que era o symbolo da dedicação, imaginou conjurar a tempestade que ameaçava o meu futuro, chamando aqui o meu muito amado Arthur... Comprehende?... Foi essa carta fatal, roubada no campo da gloria ao meu idolo por um soldado do seu commando, que o tornou um assassino cobarde... Veja o sangue innocente, tornado ferrugem no seu punhal!...

--Misericordia, senhora, que me mata!...

--Não hade morrer, senhor meu noivo, em quanto não tiver bem esgotado o calix de amargura, que outros já tragaram por sua causa...

--É então o demonio vingador, em vez do anjo adorado?!... Mas como é que deseja unir-se ao homem que detesta, ao assassino de sua innocente irmã?!... Eu torno a enlouquecer, de certo!...

--Tambem não hade enlouquecer, porque me tem amor, e vae ser meu esposo... Socegue, que o aguarda uma existencia singular...

--Atterra-me o seu sangue frio, senhora! Não me dirá o logar que occupo no seu coração?...

--O meu coração está cheio, hade estal-o sempre, do unico homem que eu amo, e do qual me separa a fatalidade... Não hade passar um minuto da minha existencia, sem que eu pague um tributo de lagrimas ardentes e saudosas á memoria de Arthur Soares, do amor da minha infancia, da alma mais nobre que existe na terra, e que só no céu me será concedido unir á minha... Que importa isto ao meu futuro esposo, ao viuvo de minha irmã assassinada!...

--Cale-se, demonio!...

--Hei de entreter os ouvidos de meu caro primo, e feliz noivo, com a fiel narração do estado da minha alma, que todos os dias voará em busca da que lhe é igual... Hei-de fazer-lhe conhecidas muitas particularidades do nobilissimo caracter de Arthur... Quer saber?... Foi elle que deu um dote á sua primeira mulher, ajuntando e vendendo para esse fim, todos os seus haveres...

--Que tormentos do inferno me quer fazer passar, senhora?!!... Peço-lhe antes a morte como o supremo beneficio...

--Quer saber mais?... Lembra-se da musica que eu lhe tocava todos os dias ao pianno durante a sua convalescença?... É uma composição minha... Fiz-lhe tambem uma letra, que lhe não cantava, porque não estava ainda em estado de comprehendel-a... Vou dizer-lh'a agora, para que fique sabendo que só o amor é verdadeiro poeta... Oiça:

«LAGRIMAS D'ALMA
«Vida ditosa da infancia amena,
tornada pena, que me traz delirio!...
Meu terno amante, meu poderoso rei,
por amor fiquei n'um atroz martyrio!...
Ignora o mundo que cruel mysterio,
ao cemiterio casta virgem leva!...
Nem Elle sabe quanto hei penado,
Arthur amado, que minha alma enleva!
Aqui defronte do feroz tyranno,
que deshumano duas vidas sóme,
a irmã eu vingo, o amor vingando,
Arthur amando com ardor sem nome!...
Ai! que saudade dos meus sonhos bellos,
puros anhelos, que gostosa tinha!
Ai! que tormentos o presente encerra,
na crua guerra da vingança minha!...
Vida ditosa da infancia amêna,
tornada pena, que me traz delirio!...
Meu terno amante, meu querido d'alma,
recebe a palma d'este cru martyrio!...»

O todo de Leopoldo revelava um tal soffrimento, que o mais desalmado executor de alta justiça se compadeceria ao vêl-o! E D. Maria da Gloria estava impiedosa! Chegara a um estado de exaltação, em que a mulher senhora, se torna a mais temivel das féras. Havia por muito tempo concentrado o seu rancor ao homem que lhe matara a irmã, e fôra causa, ainda que indirecta, de se lhe sumir o delicioso porvir que sonhara, e por isso era terrivel n'aquelle seu primeiro manifesto do odio que lhe enchia o peito.

Um escudeiro veiu entregar uma carta á vingadora que, reconhecendo n'ella a letra de Arthur, a recebeu com transportes da mais intima alegria, praticados febrilmente em face de Leopoldo.

O conteúdo na carta, que D. Maria lêu em voz alta, era este:

«Depois que o meu velho Alvaro lançou n'este pobre coração o desespero, com a noticia da resolução que v. exc.a tomara de ser fiel á vontade de seu exc.mo pae, tenho procurado a morte no campo da batalha, porque só ella me libertaria dos tormentos, que me esperam ao saber que outro homem é o seu esposo... Mas superior á minha vontade está o dedo de um Deus todo poderoso, que me afasta os perigos, e me cérca de espectaculos insinuantes!... Poderei vêr n'isto uma esperança?...

«Na ultima batalha a que assisti, e na qual ganhei a patente de coronel, deu-se um acontecimento, que vou narrar-lhe, porque tambem lhe interessa. Alistara-se ultimamente no regimento do meu commando um joven sargento, sobrio de palavras, que dizia chamar-se Paulo Virginio, e que era a sombra do meu camarada, o seu bondoso parente João de Lencastre. Não fizemos caso da assiduidade com que o sargento seguia de perto o seu tenente, porque ambos nós tinhamos sérias preoccupações, que nos não davam tempo a reparos curiosos. Quasi no fim da batalha, e quando já se ouviam por todo o campo os toques de cessar fogo, e de retirada das forças combatentes, estavamos todos tres cercados por soldados da cavallaria inimiga, um dos quaes apontou a sua pistola ao peito de João de Lencastre. Rapido, porém, como se fôra uma frecha, o intrépido sargento, colloca o seu corpo em defesa do tenente, e recebe no peito o ferimento que lhe era destinado! Dentro em pouco, apenas restavam no campo os mortos e feridos de ambos os lados. Fomos em soccorro do sargento: quem imagina v. exc.a que descobrimos debaixo de um tal disfarce?... A heroica senhora D. Rosa, sua exc.ma irmã!...

«De certo que avalia o nosso espanto e viva sensação, ao reconhecermos a nossa companheira de infancia, a minha quasi irmã, a querida de todos nós!...

«Apresso-me a dizer-lhe que sua exc.ma irmã não morreu; mas antes de participar-lhe o desfecho d'esta tragica scena, preciso oriental-a de succedimentos anteriores.

«A snr.a D. Rosa, chegou a persuadir-se que sentia por este seu indigno criado, um affecto irresistivel; e como sabia d'aquelle que occupa a minha alma, e que ella considerava correspondido, entendeu dever oppôr entre mim e ella a barreira da perdição simulada, fugindo, n'este intuito, do seu lar domestico, e dando entrada em Guimarães n'uma casa de perdição!... Foi alli surprehendida por João de Lencastre que, após porfiadas luctas, conseguiu arrancar-lhe o segredo do seu procedimento. Este meu brioso camarada, e digno parente de v. exc.a, offereceu o seu nome, e a sua fortuna, á snr.a D. Rosa, indicando-lhe este meio como o melhor para o conseguimento dos seus fins; isto é, para que entre mim o v. exc.a nunca podésse haver suspeita do amor que ella julgava consagrar-me. Sua exc.ma irmã regeitou, e conservou-se na mesma casa, até que João de Lencastre, que a occultas alugara uma sala proxima, teve occasião de a salvar de uma affronta, que um infame tentava fazer-lhe. Desde um tal dia, que a snr.a D. Rosa abandonou completamente o seu arrojado e perigoso projecto, entregando-se á protecção do nobre salvador da sua virtude.

«O meu camarada, e honrado parente de v. exc.a, ha muito tempo, como elle me confidenciou, que déra entrada a um sentimento sério pela senhora D. Rosa; sentimento que todas estas peripecias tiveram o poder de augmentar, por conhecer em sua exc.ma irmã, a par de um genio viril, um nobilissimo caracter, e pouco vulgar talento. Ultimamente, em casa do meu prosado velho, tentou o meu camarada obter da senhora D. Rosa uma resposta decisiva aos seus vehementes desejos, que lhe foi negada.

«Dadas estas explicações indispensaveis, para a boa intelligencia do mais que tenho a narrar-lhe, vou dizer o que se deu em seguida ao ferimento do supposto sargento.

«A dôr e a desesperação que se apoderaram de João de Lencastre ao reconhecer na pessoa ferida a mulher que adorava, e que lhe parecia estar sem vida, sentí-as, mas não me é dado descrevel-as. Conduzimos o corpo inerte para a nossa residencia no quartel militar, e foram alli chamados os mais habeis facultativos da nossa brigada, que estiveram tres dias indecisos sobre o diagnostico que deviam dar. Ao quarto dia, o primeiro em que sua exc.ma irmã recobrou o uso da falla, consideraram-n'a os medicos livre de perigo, ainda que mui gravemente ferida. Durante o periodo de prostração da snr.a D. Rosa, não pude conseguir desviar o meu camarada da cabeceira do seu leito um só instante. Estava mais cadaverico ainda que a doente, e n'um quietismo idiota, que muito me assustou. Só deu accordo de si, quando sua exc.ma irmã abriu os olhos, e os fitou ternamente n'elle, levando-lhe a mão aos labios... Então, arrebentaram-lhe as lagrimas com espantosa força, e tive de o tirar arrebatadamente de ao pé do leito, para evitar damno á doente.

«Horas depois, fui testimunha da mais commovedora scena que tenho presenceado: a snr.a D. Rosa chamou-nos para junto de si, e fallou n'estes termos: «Não podia ser feliz n'este mundo, e louvo a Deus a sorte que me permittiu conservar a vida do homem que amo, a troco da minha... Agora, que vou morrer, hei de ser acreditada, por mais incomprehensivel que seja a minha confissão... Considerei-me presa de um amor invencivel pelo snr. Arthur Soares, que eu sabia cheio de um sublime affecto por minha irmã... Quiz pôr entre nós o impossivel, para conter-me, e fingi entregar-me ao vicio... Fui salva da minha temeridade, por uma affeição das que raramente os homens sabem ter... Esta dedicação, a que não tinha o menor direito, fez-me descobrir um novo rumo no sentimento que eu havia considerado immutavel!... Mas como fazer semelhante confissão?!... Segui o homem que amava, e ao qual devo a conservação da minha honra, na intenção de lhe dar a vida, como lhe havia dado o coração... Deus concedeu-me a ventura desejada... Crês agora em mim, Lencastre?...»

«O meu camarada, snr.a D. Maria, praticou as maiores loucuras, a que póde levar-nos uma alegria sem limites!... Eu... pensava em v. exc.a...

«Tenho dentro em pouco de ser padrinho da união d'aquellas almas angelicas perante o altar do Eterno... Partilho, por amizade, da ventura dos nossos amigos; mas que dôres não hei-de ter ao lembrar-me que igual ceremonia póde qualquer dia unir eternamente a snr.a D. Maria da Gloria a...

«Cahe a penna da mão ao fiel servo de v. exc.a

Arthur.»

A leitura da carta, que produzira em Leopoldo o effeito de um choque electrico, augmentou o mau humor da vingadora, que redobrou as pungentes ironias e os crueis sarcasmos, com que torturava o seu futuro noivo...

Quando o desgraçado estava de todo succumbido, appareceram alli, sem se fazerem annunciar, dois importantes personagens: eram o padre Alvaro, e uma senhora com o rosto coberto por expêsso véu.

O bondoso levita, dirigiu-se a Leopoldo n'estes termos:

--Nunca se deve descrêr da misericordia divina, snr. Leopoldo!... Se na sua alma entrou o remorso e o arrependimento do mal que tem causado, posso dar-lhe uma esperança de que será perdoado por Deus... O seu crime, não teve o resultado fatal, que o fizera enlouquecer... Sua esposa escapou do ferimento que o senhor lhe fez, e vive ainda para lhe perdoar, e amal-o como sempre o amou... Eu, seu irmão e a senhora D. Rosa occultos em trajes de romeiros, e o honrado medico d'esta localidade, que logo asseverou não ser mortal o ferimento, combinamos deixal-a passar por morta, na caridosa intenção de pouparmos toda a familia aos escandalos de um processo crime; fizemos convencer a todos de que v. exc.a enlouquecera com o desgosto; simulamos o enterro de um cadaver, e conduzimos secretamente a snr.a D. Anna á habitação do medico, onde se conservou até se achar completamente curada, passando depois para a residencia d'este humilde servo do senhor...

Leopoldo, forcejou por levantar-se e ir ter com o vulto de mulher, que elle adivinhara ser a sua, mas não pôde conseguil-o, porque a violencia d'estas scenas o fizera cahir sem sentidos nos braços do bondoso padre.

As duas irmãs, ternamente abraçadas, confundiam as lagrimas e os soluços.

VIII
A CONVENÇÃO DE GRAMIDO

«O partido popular fica livre da deshonra. Cedemos desde que nos era impossivel combater; cedemos á força de tres poderosas nações. Perdemos tudo, mas salvamos a honra.»

(O n.º 63 do Espectro)[16].

Leopoldo ficára prostrado no leito, acariciado por sua esposa, e assistido da medicina, que procurava prevenir a volta da loucura.

D. Maria da Gloria, antes de sahir, na companhia do padre Alvaro, para a casa materna, tivera com sua irmã largas conferencias, e recebeu d'ella um escripto do punho paterno, em que lhe era concedida licença para unir-se com Arthur Soares. Este documento, fôra aquelle que Sebastião da Mesquita lhe parecera ter escripto, e que effectivamente escrevera, durante a visão de que tracta o capitulo assim chamado. Alcançara-o D. Anna, entrando a deshoras no quarto de seu pae, em cumprimento de um plano concebido por sua irmã Rosa, e auxiliado por João de Lencastre. Levava de prevenção o necessario para aquelle escripto, que humildemente rogára a seu pae lhe fizesse, e que o velho fidalgo, aterrado pela apparição da filha que elle julgava morta, e considerando ordem o que era rogativa, escreveu com mão trémula.

Arthur Soares, e os noivos João de Lencastre e Rosa, estavam na cidade do Porto, onde a revolução agonisava.

Arthur acompanhara os representantes da junta provisoria do governo supremo do reino a Gramido, onde tivéra logar a convenção, que poz termo á guerra civil, e que foi resumido nestes artigos:

1.º O fiel e exacto cumprimento dos quatro artigos da medeação, incluidos no protocollo de 21 de maio d'este anno, é garantido pelos governos alliados.

2.º As tropas de sua magestade catholica exclusivamente occuparão desde o dia 30 de junho a cidade do Porto, Villa Nova de Gaya, e todos os fortes e reductos d'um e outro lado do rio em quanto a tranquillidade não estiver completamente estabelecida sem receio de que possa ser alterada pela sua ausencia, ficando na cidade do Porto uma forte guarnição das forças alliadas em quanto estas se conservarem em Portugal. No mesmo tempo o castello da Foz será occupado por tropas inglezas, e no Douro estacionarão alguns vasos de guerra das potencias alliadas.

3.º A epocha da entrada das tropas portuguezas na cidade do Porto será marcada pelas potencias alliadas.

4.º A propriedade e segurança dos habitantes do Porto, e de todos os portuguezes em geral, ficam confiados á honra, protecção e garantia das potencias alliadas.

5.º As forças do exercito de sua magestade catholica receberão as armas dos corpos de linha, e voluntarios que obedecem á junta, entregando-se guia ou passaporte gratuito ás pessoas que tiverem de sahir do Porto para as terras da sua residencia, e dando-se baixa aos soldados de linha que tiverem completado o tempo de serviço, e aos quaes se alistaram durante esta lucta para servirem só até á sua conclusão.

6.º O exercito da junta será tractado com todas as honras de guerra, sendo conservadas aos officiaes as espadas, e cavallos de propriedade sua.

7.º Conceder-se-hão passaportes a qualquer pessoa, que deseje sahir do reino, podendo voltar a elle quando lhe convier.

8.º As tres potencias alliadas empregarão os seus esforços para com o governo de sua magestade fidelissima afim de melhorar a condição dos officiaes do antigo exercito realista.

Esta convenção foi publicada por um decreto e proclamação da junta, que termina assim:

«A junta felicitando-se a si propria, e á nação, por vêr terminada uma tão longa, e tão dolorosa guerra civil, espera que nenhum portuguez que seguisse a sua bandeira conserve a lembrança de qualquer aggravo que, durante a mesma guerra, possa ter recebido.

«A junta lisongeia-se de que o seu comportamento, durante os difficeis tempos em que foi chamada a reger estes reinos, em nome da nação e de sua magestade a rainha, lhe tenha grangeado a estimação do povo portuguez e do mundo civilisado.

«A junta considera terminada a sua missão de uma maneira nobre, e honrosa. A junta vai dissolver-se.

«Seus membros, voltando de novo ao seio da vida particular, levam comsigo a convicção de que sempre desejaram o bem, a liberdade e a gloria do povo portuguez.

«Não querem maior galardão do que a lisongeira recordação de que por tanto tempo presidiram aos destinos do povo mais benigno, mais virtuoso, mais heroico, e mais nobre da terra.

«E farão sempre os mais sinceros votos pela gloria de Sua Magestade a rainha, pela sincera reconciliação de seus subditos, e pela liberdade, e felicidade do povo portuguez.»

Assim acabou a mais notavel das guerras civis portuguezas.

Arthur Soares, antes de seguir jornada, com os noivos, para Penafiel, escreveu a D. Maria da Gloria estas palavras:

«Acabou a guerra e com ella a esperança d'uma morte gloriosa para mim. Recolho-me á residencia do meu santo velho, onde tudo me recordará o tempo feliz da minha mocidade, passado ao lado de v. exc.a... Qual será o meu futuro?!...

«Acompanham-me os noivos, que tencionam pedir á snr.a D. Isabel e a v. exc.a um aposento no seu palacio.

Arthur».

Havia sido expedida esta carta ha poucos momentos, quanto Arthur Soares recebera outra d'este theor:

«Venha quanto antes abraçar a sua esposa. As barreiras que se oppunham á nossa ventura, quiz Deus sumil-as pela sua infinita bondade!

Maria

Avalie o contentamento de Arthur, aquelle dos nossos leitores, que tiver sinceramente amado.

[16] Referimo-nos por vezes ao Espectro, não só por ter sido o papel mais conhecido na epocha da revolta, mas tambem, e principalmente, para darmos ao seu redactor, e nosso primeiro jornalista, a honra, e a justiça, que se lhe devem. As más paixões teem querido desfigurar os factos, attribuindo a odio pessoal o que só fôra desharmonia politica; mas a verdade é--como já provamos--que o Espectro foi o unico periodico da opposição d'aquelle tempo, que teve a gloria de castigar os aleives da imprensa desenvolta, tributando o respeito devido á pessoa e virtudes da snr.a D. Maria II.

IX
BRIOS DE PLEBEU

«Uns homens ha, que, na paixão ardente,
Immolam tudo seu,
Menos a propria estima; e, felizmente,
D'esses homens sou eu:
Sou, que de tudo o que no mundo prézo,
Prézo mais não mer'cer o meu desprezo.»

[João de Lemos--Cancioneiro]

Uma d'estas revoluções moraes, que as grandes crises produzem no espirito humano, se operou em Arthur Soares. O filho do bom Alvaro era uma destas almas privilegiadas, ricas de sublime poesia, a que o mundo chama imaginações prodigas, porque lhe é vedado o entendel-as. Amara D. Maria da Gloria, que era rica e nobre, como se ella fôra a mais desprotegida camponeza. Prenderam-n'o os dotes moraes e physicos da fidalga moça, e nem por sombras o deslumbrara a fortuna e nobreza de sangue da sua amada. Tão prudente como gentil e cavalheiro, nunca d'elle partiria a iniciativa de uma declaração: era d'estes poucos homens, que sabem morrer com um segredo na alma, para não se exporem aos falsos juizos do vulgo, nem serem menos presados pelo alvo da sua estima. D. Maria da Gloria, possuidora d'uma alma semelhante á de Arthur, amando-o como era amada e manifestando o seu amor, seguira seus naturaes impulsos com feminil precipitação.

Sabendo que era amado pela filha do seu orgulhoso e fidalgo padrinho, a par do naturalissimo contentamento que uma tal certeza lhe deu, principiou Arthur Soares a comprehender o melindre em que o collocavam estes amores. Os acontecimentos, porém, precipitaram-se com tal velocidade, que, até ao momento do desenlace, não teve o nosso heroe o tempo material preciso para cogitar n'um procedimento digno de si.

Agora, que só da sua vontade estava dependente a sua ventura, Arthur hesitava, e sustentava uma lucta mortificadora, porque os seus brios de homem de bem lhe patenteavam, que no seu enlace com D. Maria não podia elle entrar com uma porção, se não igual, aproximada das conveniencias sociaes que ia receber. Se ao menos podésse apresentar as dragonas e condecorações ganhas no campo da batalha, seria já alguma coisa, e fôra provavel que acabasse a sua hesitação; mas o governo interino que lh'as concedera deixara de existir, e o de sua magestade não lh'as garantia.

Este brioso luctar contra o sentimento, se collocava Arthur Soares bem longe do bafo empestado das paixões mesquinhas e torpes, que são o apanagio de villões interesses, trazia-lhe a par a recordação dos tempos em que lhe soavam os alegres hymnos do amor e da saudade; em que era sustentado o seu affecto pela esperança de se tornar distincto no campo da honra, e poder assim encurtar a distancia que o separava de Maria; e o seu intimo soffrer tomava proporções assustadoras, que ameaçavam queimar-lhe ao fogo do coração os brilhantes sonhos de amor que o tinham embalado.

Ao passo que tudo respirava tranquillidade no palacio de D. Maria da Gloria, e que a vida prasenteira dos noivos se tornava communicativa aos demais habitadores d'aquelle nobre solar, existiam a dois passos d'alli, na residencia do padre Alvaro, duas almas consumidas pela melancolia; pae e filho eram victimas dos mesmos pensamentos, que nutriam sem os communicarem, e que nenhum d'elles sabia como destruil-os para o bem commum.

As forças physicas de Arthur tiveram de ceder ao prolongado e doloroso debate moral que elle sustentara, e cahiu em perigosa enfermidade. O triste pae, teve de envidar um resto de energia, para animar o filho querido, e chamou em seu auxilio aquella que era a involuntaria causa do soffrimento de Arthur.

D. Maria da Gloria, com a perspicacia inherente ás pessoas do seu sexo, educação e talentos, quasi que lia claramente na alma do seu amante e, por um fidalgo tacto, que só ensina o amor verdadeiro, desviara sempre as conversações do terreno em que poderiam declinar para expansões perigosas, esperando assim corajosamente o resultado da lucta, sem dar o menor indicio de querer accelerar o desfecho que tão grato era ao seu coração.

Assidua enfermeira do seu amante, pondo de parte as etiquetas e convenções do seu mundo, D. Maria não largava a cabeceira do seu querido enfermo. Nas crises mais perigosas da enfermidade, tinha a gentil e fidalga moça a coragem de mostrar-se risonha na presença do seu idolo, para dar, ás occultas, largas ao pranto, e á dôr que a definhava.

Os desvélos do pae e da amante, auxiliados pela constituição vigorosa de Arthur, arrancaram-n'o das bordas do tumulo. Já convalescente, tomou um dia as mãos do pae e de D. Maria, beijou-as religiosamente, e disse-lhes, com lagrimas na voz, e nos olhos:

--Porque me não deixaram morrer?!... Acabava tudo, e não os faria soffrer mais...

--Quer-me parecer, Arthur, que vão muito longe os teus brios, e que talvez degenerem em orgulho condemnavel... Ambos nós lêmos no teu intimo; eu, porque sou teu pae; e este incomparavel anjo, porque te ama, ainda além do que é permittido amar-se na terra... Querias morrer?!... E não será a manifestação de um tal desejo grave offensa á Divina Providencia, que tão prodiga tem sido em beneficiar-te?... Ou quererás tu tornar-me mais pungentes os remorsos, por te haver dado uma existencia a que chamas infeliz?... Mas fica certo, filho, que a tua ultima hora seria a minha, e que tu, deixando a vida, fugias á possivel felicidade n'este mundo, em quanto que eu, se um Deus misericordioso perdoar os meus peccados, encontro na morte o supremo bem!...

--Como são sevéras as suas palavras, meu querido pae!... E diz-me o coração, que os seus sentimentos são os meus, e que, no meu caso, seria em tudo semelhante o seu procedimento... A prova d'esta minha convicção, está no silencio que tem guardado, quando muito bem conhece que o simples enunciado da sua vontade seria para mim uma ordem terminante... Porque me não ordena o que devo fazer?...

--Chega-me a minha vez de fallar, e principio por usar da minha auctoridade de enfermeira, lembrando ao impertinente doentinho, que não póde ainda entrar em conversações animadas... Sim, agora o mais bonito é isso!... Chorem, chorem ambos, mortifiquem-se bem, e não tenham pena de mim, que os heide aturar doentinhos!...

--És o melhor dos anjos, minha querida Maria!...

--Nem sou anjo, nem sou ainda sua, seu mau... Isso hade acontecer, quando se realisar um sonho que eu tive uma d'estas noites......O snr. Arthur Soares, figurava no meu sonho como um grande personagem, cercado de attenções e de respeitos, podendo dispensar protecção, e não tendo já que receiar dos maus juizos que o mundo fórma quando vê ligações entre duas pessoas que não pesam do mesmo modo na balança das conveniencias... Eu era sempre a mesma rapariga aldeã, que V. Exc.a se dignava elevar até á sua altura, e que caminhava para a capella tão contente por o meu esposo ser um potentado, como o estaria se elle fosse um simples operario...

--Basta, minha adorada Maria!... Fixa tu a epocha do nosso casamento...

--Está fixada, já lhe disse... Esperemos a realisação do meu sonho, que me diz o coração, que não havemos de envelhecer esperando... Quero que fiquem bem satisfeitos todos os seus caprichinhos... E agora, nem mais uma palavra, que te faz mal fallar...

X
VIAGEM DA RAINHA

«Foi então que se apossou da corôa.»

(A. Herculano--Eurico.)

«Crer e amar--é a unica religião verdadeira; crer e amar--a unica poesia verdadeira: uma não está sem a outra.»

(V. de Almeida Garrett--Helena.)

A guerra civil gastou a nossa energia, e converteu a dissenção armada em vinganças mesquinhas, em baixos enrêdos e ambiciosas abjecções. O povo, esmagado com o peso dos tributos e dilacerado pelas inglorias luctas dos bandos politicos, tinha perdido as crenças, e o amor ao systema liberal: o throno, á força de lh'o pintarem de ferro, figurava-se-lhe tyrannico. Foi então que uma feliz revolta militar levou ao poder os primeiros homens que pozeram em pratica a constituição.

Ferindo no ámago a roedora agiotagem por medidas energicas; apagando os odios politicos; equilibrando quanto possivel a receita com a despeza do estado; pagando em dia aos empregados da nação; garantindo as patentes aos officiaes do exercito, e fazendo este alheio aos baldões politicos; dotando o paiz de estradas e outros melhoramentos materiaes; dando accesso nos empregos aos homens de todas as côres politicas; segurando os direitos individuaes; e pondo, finalmente, em acção todo o machinismo de uma verdadeira monarchia constitucional,--o primeiro ministerio chamado regenerador, não desmentiu este nome redemptivo.[17]

Não contentes de haverem grangeado a estima publica pelos seus actos, aquelles vultos politicos do memoravel ministerio regenerador, quizeram dar ao povo portuguez um conhecimento perfeito das altas virtudes da familia real, e aconselharam-na a viajar pelo reino. Este passo teve o alcance meditado: o nobre povo portuguez ficou amando, como ella merecia, a senhora D. Maria II, e a sua dynastia.

Pouco tempo depois, a digna filha do rei soldado, foi chorada, na sua prematura morte, por todos os partidos; sendo para notar-se a parte distincta que tomou no lucto, o partido que era affeiçoado ao infeliz principe proscripto.[18]

Continuou, sob a regencia do sympathico e bondoso monarcha, o snr. D. Fernando, a sua bem assignalada gerencia, o ministerio regenerador.

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Era tudo rumor e gala no antigo solar dos Bandeiras, Mesquitas e Abendanhos. A respeitavel snr.a D. Isabel, parecia ter voltado aos seus vinte annos, pela rapidez com que dava ordens e movia as chaves que lhe pendiam do cinto. Era justificado o regosijo e o afan, porque a velha fidalga esperava a honra de hospedar a familia real em seu palacio. D. Maria da Gloria acompanhava a mãe nos precisos trabalhos com vivo contentamento. D. Rosa deixara de ter questões com o marido,--para resolverem qual d'elles devia ter mais tempo no collo um robusto rapaz, fructo do seu amor, que era afilhado de D. Maria da Gloria e de Arthur Soares,--e tambem dava o seu contingente para os preparativos do palacio. João de Lencastre fôra encarregado por D. Maria de uma commissão diplomatica: era forçoso conseguir que Arthur apparecesse, fardado, á rainha!... Innocente capricho, chamou o ex-coronel á exigencia da sua Maria e, embora estivesse sempre em projecto o seu casamento, folgava de obedecer á vontade d'aquella que era tudo para elle. O capricho, porém, não era tão innocente como parecia. João de Lencastre tornara-se fallador, como todas as pessoas felizes, e havia contado a D. Maria, que Arthur fôra o official escolhido em Setubal, para levar a Sua Magestade os objectos que lhe eram destinados, e que foram tomados com um navio de guerra. Ora, esta revelação, fez conceber um plano á fidalga moça, que devia tornar realidade o sonho precursor do seu casamento.

Chegou a familia real, e foi recebida alli, da mesma fórma que em todo o seu transito, com as mais festivas demonstrações de leal affecto da parte do povo apinhado na estrada, que entoava freneticos vivas aos reaes viajantes, e os cobria de flôres.

N'um intervallo das enfadonhas etiquetas, a que mesmo em viagem está sujeito o primeiro magistrado de uma nação, conseguiu D. Maria da Gloria fazer-se ouvir da rainha. Pouco depois, foi apresentado Arthur Soares a sua magestade, que logo o reconheceu:

--Felicito-me, snr. official, por ter chegado o tempo mais feliz, a que me referi em palacio quando tive de agradecer-lhe o modo nobre e attencioso com que se houve n'uma commissão delicada. Dizem que os reis constitucionaes não podem fazer mercês a seu bel-prazer; mas se isso é regra, soffre excepção quando os ministros responsaveis possuem as qualidades d'aquelles que ora me cercam... Fica o snr. official com as honras de coronel do exercito portuguez, cujo uniforme veste; pertence, desde hoje, aos fidalgos da minha casa, e póde desde já assignar-se conde de Setubal... Agora, consinta á sua rainha, que lhe manifeste a vontade de ser testimunha e protectora do seu casamento... Sei que as formalidades indispensaveis ha muito esperam por a sua resolução, está a dous passos a capella do palacio, e eu tenho aqui o meu padre esmoller-mór...

--Senhora! Toda a minha vida será dedicada a vossa magestade e á sua real familia, como ha-de ser transmittida por mim a meus filhos, a obrigação de darem todo o seu sangue em defeza do throno e dynastia da minha muito amada rainha a senhora D. Maria II!

--Obrigada, conde... Ame muito a sua esposa, que as Marias são dignas de um leal affecto... Levante-se condessa! É nos meus braços que eu costumo apertar as pessoas que têem a sua alma... Finda a ceremonia do casamento, quiz a rainha vêr, antes de retirar-se, o padre Alvaro, que foram chamar á residencia a toda a pressa. Logo que chegou, dirigiu-lhe sua magestade a palavra n'estes termos:

--Foi me descripto o seu caracter, por quem conhece as suas virtudes. Não lhe faço mercês porque sei que as regeitaria com evangelica abnegação; mas peço-lhe que distribua pelos seus pobres o dinheiro que lhe ha-de entregar o meu esmoller-mór... Peço-lhe ainda algumas orações para esta mulher corôada, que dentro em pouco tempo ha-de ser pó... Os medicos desenganaram-me... Queriam remediar o mal infallivel não sei com que medicinas preventivas, que eu recusei formalmente, porque não tremo de morrer no meu officio de mulher, que é tão nobre, pelo menos, como o de rainha...

--De que preces póde carecer uma santa como vossa magestade?!...

--Sempre rese, padre Alvaro; bem sabe que o maior justo pecca muitas vezes...

--Resarei, real senhora! e será meu o proveito das orações, como ha-de ser de vossa magestade o reino do céu!...

[17] Quando revemos as provas d'este capitulo, annunciam os periodicos a realisação de um emprestimo nacional, nas mais vantajosas condições para o thesouro, de reis quarenta e tres mil oito centos e oito contos--tres mil oito centos e oito a maior do que o governo solicitava para a consolidação da divida fluctuante! É geral o contentamento, esperançosa, e proxima, a organisação das nossas finanças, e notavel o credito que o emprestimo nos faz ter nas principaes bolças da Europa. Outros factos, igualmente importantes, em bem do paiz, estão succedendo sob a gerencia de um governo composto das reliquias d'aquelle que louvamos.

[18] O snr. João de Lemos, publicou, por occasião da morte da snr.a D. Maria II, a conhecida poesia--O Funeral e a pomba--da qual consignaremos aqui estes edificantes versos:

Soldados, que ha vinte annos
Com esforços sobre humanos
Batalhaes por vossa fé,
Soldados, eia, de pé!
Respeitem-se aquellas mágoas,
E do nosso pranto as agoas
Lavem d'odio o coração;
Não ha odios d'este lado,
Nem se deshonra um soldado,
Quando abraça seu irmão.
Ponham-se treguas á guerra,
E ninguém manche esta terra
Ao pé de funérea luz;
Soldados, olhai a cruz!
Demos pranto a quem prantêa,
Demos dôr á dôr alheia,
Nos dois campos lucto egual!
Nenhum, nenhum se envilece,
Unidos na mesma prece,
Junto á loisa sepulchral.
Solemne melancolia,
Seja n'hora da agonia
Nosso tributo cortez;
Que o tomem, que é portuguez!
Portuguez d'aquelles peitos,
Por tantos annos affeitos
Na lealdade a soffrer;
Portuguez que vem das eras,
D'aquellas crenças sinceras
D'antes quebrar que torcer.
Que o tomem; e nós, soldados,
Ao vêl-os tão consternados,
Respeitemos-lhe a sua fé;
Amigos, eia, de pé!
Era o seu chefe, e bandeira,
Diziam-n'a companheira
De infortunio e proscripção;
Comprehendemos, pois, seu grito,
Nós, soldados do Proscripto,
Vinte annos gemendo em vão!
A cada um sua crença e dôres,
Cada qual estreme as côres
Do pendão que traz por si;
Todo branco, é o nosso aqui.
Mas, se d'elle voz sagrada
Nos manda, por gloria herdada,
Ou morrer ou triumphar,
Tambem no alto do Calvario
Outro estandarte, um sudario,
Manda os tristes consolar.
Porque é de arraial opposto,
Não córa o tributo o rôsto,
A quem o toma ou quem dá;
Soldados, lucto de cá!
É tributo á monarchia,
Por dois campos n'um só dia,
Cada qual por sua lei;
Um faz honras á Rainha,
Outro á Princesa, sobrinha
D'aquelle que jurou Rei!»