SCENA IV
Os mesmos e Traviata
Traviata (entra espaventosamente, seguida do creado, tira a capa e a mantilha, ficando decotada, etc., trajo de baile).
Cá estou eu!
Todos
Viva Traviata!
Traviata
Tardei mas sempre appareci!
Alfredo (vendo Traviata, á parte)
Ella! A tal!
Traviata (vendo Alfredo, á parte)
Não me enganei,
Apaixonei-me afinal!
Fernando (a Traviata)
Sempre te has de demorar, a rasão… não te pergunto!
Traviata
Tem paciencia. Fui deitar umas bixas n'um defuncto. Venho tarde, sim, convenho, mas bem sabem que não tenho, nem tempo pr'a me coçar.
N.º 3
(Musica)
Sempre em pandegas e na orgia não descanço um só momento, quer de noite quer de dia é giro, giro qual catavento.
São passeios, jantares, caçadas
soirées, theatros e toiradas.
Sempre em pandigas e na orgia
quer de noite quer de dia.
Ah! que pagode! ah! que frescata! é a vida cá da Traviata!
Côro
Ah! que pagode! ah! que frescata! é a vida cá da Traviata!
Alfredo (áparte)
(Fallado) É linda! Linda de lei!
Traviata (referindo-se a Alfredo)
Quem é aquelle cavalheiro? não me é desconhecido.
Alfredo (áparte)
Oh! meu Deus! Eil-a comigo.
Fernando
Ah! Traviata. Perdôa, esqueceu-me de apresentar este nosso bom amigo, um rapaz exemplar! (Apresenta Alfredo).
Traviata
Meu senhor!
Alfredo (atrapalhado, gaguejando)
Mi… mi… minha senhó-nhó-nho-ra! (Áparte) Como é bellá! É adorável!
Fernando (a Alfredo, baixo)
Vamos! Seja mais amavel.
Alfredo (áparte)
Oh! meu Deus! Se eu podesse sumir-me pelo chão abaixo!
Anselmo (áparte)
Dava um doce a quem dissesse se elle é femea ou se é macho!
Gastão
Tenho a palavra, proponho, que á formosa Traviata, um brinde aqui já se faça.
Todos
Bravo, bravo! Apoiado! (Todos tomam os copos).
Anselmo
Venha de lá a morraça!
Fernando
Está dito então. É p'ra já, hip! hip! hip!
Todos
Hurrah!
Traviata
Tal gentileza reclama o dever de agradecer, eu porém já tenho fama de ser muito caprichosa, (tira uma rosa do peito) e quero offerecer esta rosa, a quem o brinde fizer!
Fernando
Faço eu!
Gastão
Ou eu!
Anselmo
Ou eu!
Traviata
Peço perdão por esta vez, decerto não é cortez, nem formal esta exigencia; quem o brinde vae fazer (A Alfredo) espero que seja vocencia!
Todos
Alfredo!!!
Traviata
Espero que o meu pedido não seja desattendido!
Alfredo (áparte)
Oh! meu rico pae do ceu!
Traviata (áparte)
Então! Peço-lhe eu!
Fernando (baixo a Alfredo)
Não recuse; a deferencia no ridiculo não cahe.
Alfredo (a Traviata)
Para agradar a vocencia, vae mal, mas emfim… vae!
N.º4
(Musica)
Á bella mais bella das bellas que eu vi, com prazer, com prazer eu brindo aqui. O jubilo e a minha alegria é tal que até julgo estar na mansão celestial.
Ao sentir tão doce sensação, á musa eu peço que, sem demora, me dê, sim, me dê a inspiração para brindar a esta senhora.
Bebamos, bebamos pois em louvor da rainha da formosura e do amor.
Côro
Sim, da rainha da formosura e do amor. (Bis)
Traviata
A quem tão gentilmente um brinde me fez, responder vou, já responder, pois me cabe agora a ves. Na mão tenho a taça, e ao divino licor peço agora que seja o meu inspirador.
Minh'alma se sente enleiada de commoção e de alegria. Quizera brindar, bem inspirada, a quem dedico a minha sympathia.
Bebamos, bebamos pois em louvor de tão amavel e sympathico senhor.
Côro
De tão amável e sympathico senhor. (Bis).
Todos
(Fallado) Bravo, bravo, bravo! (Applaudem)
Traviata (a Alfredo)
Agradeço-lhe o improviso, e creia que sympathiso deveras com o seu talento! (Dá-lhe a rosa e aperta-lhe a mão).
Alfredo (áparte)
Oh! que aperto de mão, senti-o no coração! (Ouve-se uma valsa. Sol e dó).
Fernando (ao fundo)
Chega n'este momento a orchestra ao jardim, vamos, amigos, depressa, eis a valsa que começa! Vem, Traviata?
Traviata
Vou, sim! (A Alfredo) Então! Não quer vir dançar?
Alfredo
Faz-me ter dôres de cabeça, eu prefiro antes ficar!
Traviata
É um pedido que faço, ao menos dê-me o seu braço!
Alfredo
N'esse caso… eu obedeço!
Anselmo (ao fundo, para Traviata)
Mas então que historia é essa? Tu estás lá ou és de gesso? (Traviata sáe pelo braço de Alfredo. Sahem todos).