SCENA XIV
Traviata, Germano e Alfredo
(Germano vem cobrindo Alfredo com o capote).
Alfredo
Ah! papá! Eu amo-a tanto!
Já não posso mais, bem vê!
Germano
Pois sim, filho. Entretanto vou tirar-te o cache-nez. (Descobre-o).
Alfredo (tomando a mão de Traviata)
Oh! meu Deus! Está inanimada!
Germano
Não te afflijas, querido filho. Desaperta-lhe o espartilho: talvez esteja agoniada.
Alfredo
Oh! não! Está fria de morte!
Germano (áparte)
Vamos lá que estou com sorte.
Alfredo (tragico, arrepellando-se)
Morrrrta! Morrrrta a minha Traviata!
Germano (imitando-o)
Vae torrrrta! Vae torrrrta se elle se mata!
Traviata (a Alfredo, com voz de moribunda)
Alfredo, dá-me a tua mão. Fica sendo meu amigo; eu mereço o teu perdão.
Germano (áparte, amollando o caso)
Viva e forte como um mastro.
Não tem fim aquelle canastro!
N.º 9
(Musica)
Alfredo
Traviata, minha querida, não chores assim, senão em seguida dou cabo de mim.
Vou trincar meio biffe de boa vitella, deito-me n'um esquife e estico a canella.
Alfredo e Germano
Morte d'uma figa, bem te vejo, olá! que dôres de barriga que eu tenho já!
Germano
Meu filhinho, ouve cá, não queiras morrer, senão teu papá quanto vae soffrer! Se morreres, não é asneira para o caminho levar trincadeira; não te esqueça o vinho!
Alfredo e Germano
Morte d'uma figa, bem te vejo, olá! que dôres de barriga que eu sinto já!
Traviata (com voz sumida)
(Fallado) Olha, escuta o que te digo. Já pouco posso fallar, mas quero aqui te jurar que hei de fazer-me leiga na celestial mansão, e… (Expira).
Alfredo (a Germano)
Não poude continuar.
Germano
Cá estou eu para acabar: Torradinhas com manteiga, por cima café limão.
Alfredo
Morreu! Eu já sinto a morte em mim. Chegue-me aquella cadeira: vou sentado p'ro outro mundo.
Germano (dando-lhe a cadeira—Alfredo senta-se—)
Oh! que desgosto profundo! Não, não morras, tem cautella; olha que fico sósinho!
Alfredo (moribundo)
Não, papá; quero ir com ella, p'ra me ensinar o caminho. Socegue, papá; lá p'r'o anno, por um systema moderno, para o céo e p'r'o inferno, vae haver americano. Adeus, meu querido papá.
Germano (abraçando-o)
Filho do coração!
Alfredo
Não se esqueça de ir por lá. (Expira).
Germano (simples)
Passa p'ra cá meio tostão. (Vendo que Alfredo morreu) O que vejo?! Já morreu! Morreu, sim, tenho a certeza. Ora vejam que despeza vou fazer p'ra ir ao céo. Eu não resisto a taes dores; não, não as posso soffrer. (Despe o casaco, estende-o no chão, e deita-se sobre elle, dizendo) Boas noutes, meus senhores: eu cá tambem vou morrer. Vae tudo assim de uma vez. É melhor e mais depressa. (Estica a canella).
Alfredo (levanta-se e diz)
Mas não façam morrer a peça, já que morremos os tres. (Torna a morrer sentado).