ILL.^MO E EXC.^MO SENHOR.
V. Excellencia se digne de não julgar atrevimento ir eu aprezentar hum Livro de inuteis Versos naquellas mesmas mãos, em que se apresentão Papeis, que decidem dos interesses do Estado, e dos destinos dos homens. A Poezia, Senhor, só he odioza a quem nella não he instruido. V. Excellencia sabe a origem, e os progressos desta Arte divina; sabe que de seu berço foi consagrada ao uzo da Religião, e da Politica; que por meio della o homem natural, que nutria vagamente entre fragas, e penedîas hum coração tão contrario ao do homem civil, conheceo a humanidade, e tomou sobre seus hombros o jugo da Razão, e da Justiça.
Que os primeiros Legisladores escrevião as Leis em verso, para que a harmonia lhes aplanasse, ou encubrisse aquelles passos escabrozos, que ferem, e revoltão a nossa natureza, sempre amiga da liberdade; que os Filosofos, e Sacerdotes do Egypto ensinavão em Poezia os seus Dogmas; que os bons tempos dos Gregos, modélo dos Seculos de Augusto, e de Luiz XIV, ao mesmo passo que se alargavão os limites do seu Imperio, vírão levadas á ultima perfeição, de que são capazes as obras dos homens, a Lirica, a Epica, e a Poezia de theatro.
V. Excellencia sabe, que os Poetas de Augusto, mais do que as Victorias de Farsalia, fizerão chamar-se o seu seculo, o seculo de Oiro: que a passagem do Rheno, e a conquista da Hollanda jazerião no esquecimento, com o nome de Luiz XIV, se Corneille, e os que o seguírão, não mandassem ás extremidades do Mundo a fama de suas Victorias; que ainda hoje a França conta, com prazer, entre as acções daquelle Monarca, a protecção, e acolhimento, que achárão ante elle as Artes, principalmente a da Poezia; e que as ultimas palavras do grande Corneille moribundo, forão agradecimentos ás liberalidades de Luiz XIV.
V. Excellencia sabe, que a Augusta Theologia da Escritura nos instrue muitas vezes dos Attributos de Deos por imagens inteiramente poeticas; que os Profetas, unindo maravilhosamente o simples ao sublime, fallão da existencia, e da Omnipotencia de Deos, com a locução, e com as figuras da mais alta Poezia.
Mas, SENHOR, eu insensivelmente vou fazendo de huma Dedicatoria huma Dissertação. V. Excellencia se digne attribuir este erro de methodo á desordem de animo, em que me põe a ingrata sem-razão de ver os Poetas desfavorecidos de alguns homens, talvez sem mais crime, que serem favorecidos das Muzas.
V. Excellencia, em cuja alma raia a razão illustrada, limpa das sombras do abuzo, não faz cahir sobre o Poeta os defeitos, que são do homem: a inconstancia de genio, o desconcerto das acções, a filozofia mal entendida, que caminha a passo cheio á devassidão de costumes, são os crimes de que o vulgo errado accuza indifferentemente todos os Poetas; mas se vemos que estas más qualidades brotão no coração de tantos homens, que não são Poetas, para que hão de elles sós levar o ferrete, que a Natureza corrupta põe indistinctamente sobre todos os que não deixão guiar-se da Religião, e da honra? Sempre houve Poetas, bem, e mal morigerados, assim como o resto dos outros homens: e porque lei barbara ha de pagar a Poezia as fraquezas da humanidade? Porque falsa Logica havemos inferir, que o commercio das Muzas, a suave lição dos Antigos, em que vemos pintada a Natureza, e explicada docemente a boa filozofia, ha de affogar no coração do Poeta as virtudes, que a índole, ou a educação talvez alli plantárão?
V. Excellencia julga mais rectamente; sabe, que em todos os ramos da vida Christã, e Civil tem havido Poetas, que hum talento não exclue os outros; que Richilieu fazia Versos, e foi grande Ministro; que entre os Poetas, como entre todos os mais homens, huns são venturozos, outros desgraçados; huns chamados aos grandes Empregos, ontros inteiramente esquecidos; que se houve hum Camões, e hum Bernardes, cuja memoria posthuma foi a unica paga do seu merecimento; tambem, houve hum Sá e Menezes levantado a Camareiro Mór dos Senhores Reis D. João o III, e D. Sebastião; hum Pedro de Andrade Caminha, Camareiro Mór do Infante D. Duarte; hum Garcia de Rezende muito estimado do Senhor D. João o II; hum Sá de Miranda feito Commendador pelo Senhor D. João o III; e para não fazer hum catalogo quazi infinito, houve o grande Ferreira, e Gabriel Pereira de Castro, os quaes, cada hum no gosto do seu Seculo, misturando Bartholo, e Accureio com Homero, e com Virgilio, forão tão estimados pelos Versos, que fazião no seu gabinete, como pelas Sentenças que lançárão nos diversos Tribunaes a que forão promovidos.
O conhecimento da Historia Portugueza, huma das lições, que recreão o espirito de V. Excellencia, talvez concorra junto com o gosto, que tem pelas Artes, a que, seguindo o exemplo de tantos Reis, se não despreze de ouvir os Poetas: eu sou huma prova viva de que V. Excellencia os ouve, e os protege: nos tempos da antiga Roma Augusto fazia o mesmo, nos tempos da moderna, lemos, que Benedicto XIV. não se envergonhou de fazer a apologia aos Versos de hum Poeta Francez com aquella mesma mão, de que pendião as Chaves do Ceo.
Esta justiça, e bom acolhimento, que V. Excellencia faz á Poezia, foi quem me esforçou a pôr nas respeitaveis mãos de V. Excellencia hum Livro de Versos; o terem alguns agradado a V. Excellencia, faz o seu unico merecimento: hum tal voto fez com que eu julgasse bem delles, e os levantasse á grande honra de serem offerecidos a V. Excellencia. Não me acovardão alguns assumptos joviaes, que nelles trato; V. Excellencia sabe, que se a Tragedia castiga os costumes pelos grandes afectos da compaixão, e do terror, tambem a Sátyra os castiga pelo meio do rizo; e este trabalho de minha penna, com que eu entretinha os meus cançados dias, passará a ser o mais feliz, se tiver a fortuna de divertir alguns instantes a V. Excellencia, para que com mais força torne depois a metter mão nos importantes Negocios, de que os Reis, prevenindo os dezejos do Público, se dignárão encarregar a V. Excellencia: isto dezeja, Senhor
DE V. Excellencia
O Criado mais humilde, e mais venerador.
Ao mesmo Senhor no dia dos seus Annos.