DECIMA.

Senhor, venho perguntar
Quando ides ficar no Paço:
Para que á força de braço
Lanceis esta náo ao mar.
Sabe montes aplanar
Vossa discreta portia:
E pinta-me a fantasia,
A qual nem sempre me engana,
Que só na Vossa semana
Me ha de chegar o meu dia.

Ao Juiz do Crime de Andaluz, dando-lhe este
parte que estava para casar, e mostrando-lhe
versos, que fizera á Noiva. He o
de que trata o soneto 33, Tom. I. pag. 35.

Manoel, muda o cuidado,
Abafa essa chamma ardente:
Não falla hum são a hum doente;
Falla-te outro exp'rimentado.
Já servi ao Deos do engano,
Fórte com forças alheias.
Passei nas suas cadeias
Apoz hum anno outro anno.
Prometteo-me alto favor;
Mas sabe, pois que começas,
Que o que tive das promessas
Forão lagrimas, e dôr.

Não te deixes enganar
Do rosto brando, e sereno:
Tempéra em riso o veneno;
Afaga para matar.
Com mil modos attractivos
Chama a cega, e incauta gente:
Lança-lhe dura corrente,
E escarnece dos cativos.
Como trata os infelizes,
Que andou outr'ora amimando,
Meu peito to está mostrando
Nesta frescas cicatrizes.
Até em cousas de peta
Quer mostrar o seu rigor:
Faz entrar n'hum prosador
A mania de poeta.

Mas esses laços que trazes,
Dom desse Deos inimigo,
Talvez que sejão castigo
D'outras prizões, que tu fazes.
Fere a muitos tua mão,
Inda que tanto a reprimes,
E vens a pagar teus crimes
Com pena de Talião.