GLOZA.

Não sei que outro mal profundo
Inda a desgraça me guarda,
Se me tirou em Anarda
O que tem de bom o mundo!
Foi este golpe tão fundo,
Que outro não tem que me faça:
Se em levar-me o gesto, e a graça
De huns olhos, por quem vivia,
Me fez quanto mal podia,
Não sei que quer a desgraça!

Debalde outros gostos pintas,
Amor, para cativar-me:
Já não tornas a enganar-me,
Por mais, e mais que me mintas.
Inda tens as settas tintas,
Inda enxugo inutil pranto:
Ao teu venenoso encanto
Novas victimas procura;
E dá-lhe dessa ventura,
Que atraz de mim corre tanto.
Fizeste, ó desgraça, hum erro
Em vires do Amor valer-te:
Como ha de elle socorrer-te,
Se eu já conheço o seu ferro?
Á sua voz o ouvido cerro:
Custou-me sangue o escapar-lhe:
E para melhor provar-lhe,
Que eu já sou dos seus cortados,
Sinaes inda mal fechados
Hei de parar, e mostrar-lhe.

Tu só me déste hum desgosto,
Outro já não pódes dar-me:
Já agora sempre has de achar-me
A mesma alma, e o mesmo rosto,
Se em ferros por ti for posto,
Verás que ao som delles canto;
Se envolta em sanguineo manto
Me pões a morte diante,
Notarás no meu semblante,
Que de ve-la não me espanto.