GLOZA.
Chegou finalmente a hora
De saberdes quem vos ama:
Rebente esta antiga chama,
Que ardeo occulta atégora.
Amar callando, Senhora,
Assaz o fiz atéqui:
As ancias, que padeci,
Sejão finalmente expostas...
Ah! não me volteis as costas:
Ouví, ó Senhora, ouví.
Perdei huma vez o horror
A ouvir ternos gemidos;
Nunca ferírão ouvidos
Brandas palavras de Amor.
Que hora, e que sitio melhor,
Do que este em que estamos sós?
Que culpa, que crime atroz
Temeis que ante vós farão
As queixas de hum coração,
Os suspiros de huma voz?
Meu coração vos adora;
Sem saber o conquistais:
Estas ancias, estes ais
São obra vossa, ó Senhora.
Em segredo amou atégora;
De amor vive; amor respira;
E se vós, depondo a ira,
Lhe prometteis compaixão,
Que melhor occasião,
Que quando por vós suspira?
Nelle, Senhora, não posso
Nutrir estranha paixão:
Em fim este coração
Foi feito para ser vosso:
Para encher-se de alvoroço
Basta ouvir a vossa voz:
Passa indiff'rente, e veloz
Por mil bellezas, que admira,
Nada o enche, a nada aspira,
Aspira sómente a vós.