ODE.
Não procura palacios sumptuozos
A brilhante Saude;
O seu rosto agradavel, e rizonho,
Até aos Reis se esconde:
Ella faz com que seja venturozo
O roto Peregrino,
Se entre a negra gadelha, lhe apparece
Hum semblante sádio.
O Captivo Remeiro fatigado,
Do ardente Sol não fuja:
Em ferros envolvido o duro corpo,
Trabalhe o dia inteiro:
O queimado semblante ande banhando
De violento suor:
Apressado mastigue, e poucas vezes,
O corrupto biscoito:
Mas tenha o rosto alegre, e socegado
Entre as duras prizões,
Se á pallida doença não tem visto
O macilento aspeito;
Se com braço membrudo, e vigorozo
Força o remo pezado.
Inda sinto inflammar-me em teus louvores,
Oh Saude aprazivel!
Tu és Filha do Ceo, Mãi da alegria,
Dom de Deus Piedoso.
Se os miseros mortaes expõem a vida
Por danozas riquezas;
Por ellas que farião, se servissem
De te fazer propicia?
Filha do Ceo benigno, se te déras
Por ouro, ou fina prata,
Eu não temêra as tempestuosas ondas
Do fervido oceano:
Nos occultos sertões iria entrando
Co'a mesma côr no rosto;
Não me assustára o dente venenozo
Da enroscada serpente;
Do fertil oriente nos outeiros
Cavaria anciozo,
Por ver se das entranhas te trazia
Abundantes thesouros.
Mas a bella Saude, he dom celeste;
Com ouro não se compra:
Ella foge dos impios, que se assentão
A saborozas mezas;
Que adormecem em leitos guarnecidos
De preciosas sedas;
E vai guardar, com próvido cuidado,
O simples Pescador,
Que sobre ásperas rochas, sem abrigo
Aos rigorozos tempos,
Vai nutrindo no corpo mal vestido
Hum coração sincero;
Que humilde sabe erguer ao Ceo piedozo
As innocentes mãos.