QUINTILHAS

Em louvor de huma Senhora.

Lyra minha, rouca lyra,
Hoje afinada consente,
Que a tremula mão te fira:
Cante huma só vez contente
Quem por costume suspira.
Louvemos Anarda bella;
Eu vejo aos astros subir
Meus versos em honra della,
E possa quem os ouvir
Adora-la antes de vê-la.
Já lédo as vozes desato:
Ouve, ó Nynfa, os teus louvores:
Não pertendo ser-te grato
Traçando com vivas cores
Teu angelico retrato.

Permitte, Anarda piedosa,
Que se farte o meu desejo
N'outra empreza mais gloriosa;
Que o menor dom que em ti vejo,
He o dom de ser formosa.
Rubra boca, os olhos bellos,
Que brandamente movidos,
São de Amor agudos zelos;
Sobre alvo collo esparzídos
Louros ondados cabellos;
Braço airoso, a mão de neve;
Proporcionada cintura;
Eis a tua copia breve:
Porém vôa a formosura
Nas azas do tempo leve.
Outros bens mais duradouros
Não são á tua alma esquivos,
Bens que nos annos vindouros
Valem mais que huns olhos vivos,
Que huns soltos cabellos louros.

A destruir a belleza
A curva velhice corre:
Nada conserva firmeza;
Só a virtude não morre:
Vence as leis da Natureza.
Tu, que prezas a verdade;
Que tratas falsos sujeitos
Só com a côr de amizade,
E para os sinceros peitos
Mostras ter sinceridade;
Tu, que os enganos deslizas;
Que sabes vencer desgostos;
Que a lisonja ufana pizas;
Que não vês sómente os rostos;
Que até corações divizas;
Tu, que da seria prudencia
Segues os dictames puros;
Que tens amado a innocencia,
E nos conselhos maduros
Mostras de idade experiencia;

Teu nome eterno ha de ser
Estampado entre as estrellas;
Has de as mais Nynfas vencer,
Que sómente em serem bellas
Fundão todo o seu poder.
Amão a fofa vaidade;
Dos homens a seu sabor
Prendem a solta vontade:
Trazem nos olhos amor,
No coração falsidade.
Muitas fingem desprezar
Finezas de amante rude;
Fingem os sabios amar:
Não o fazem por virtude,
Querem talentos mostrar.
De que serve huma alma pura,
Se os pezados membros cobre
Rota humilde vestidura?
Nada val hum peito nobre
N'huma grosseira figura.

Corpo esbelto, onde ajustado
Brilha, cheio de ouro immenso,
Curto fraque afrancezado;
Cheiroso, candido lenço;
O cabello apolvilhado;
Jocosas palavras ôcas;
Estes os dons relevantes,
Que deixão de vencer poucas
Das que fingem ser amantes,
E não passão de ser loucas.
Tu tens outro entendimento:
És sempre igual: não te vales
Das côres do fingimento:
Quer séria, quer rindo falles,
Não fundas torres no vento.
Rís da baixa adulação,
Mal que os teus ouvidos toca
A contrafeita expressão:
Conheces na falsa boca
O enganoso coração.

Ver sobre molle tapete,
Curvando as pernas, e os braços,
Peralta de alto topete,
Com destros miudos passos,
Dançar Francez minuete;
Vê-lo nutrindo esperanças
Entre agradaveis parceiras,
Fazer rapidas mudanças,
Torcendo as mãos nas ligeiras
Buliçosas contradanças;
Fervente rebeca ouvir,
Que infunde vivos prazeres,
Jámais te faz distrahir;
Pois antes dos Sabios queres
Sabios conceitos ouvir.
Só te vejo attenta em quanto
Ouves palavras discretas;
As Musas estimas tanto,
Que até dos tristes Poetas
Te commove o triste pranto.

Conheces seu duro mal;
Que sempre tributão fé
A coração desleal:
Que por isso em todos he
A tristeza natural.
Que ás Nynfas endurecidas
Lhes não causão terno effeito;
Que triunfão das fingidas,
Guardando dentro do peito
Inda frescas as feridas.
Porém já que ouzei fallar
De Amor nas sanguineas reixas,
Vou a lyra pendurar:
Não quero com minhas queixas
Teus louvores misturar.
Tu dirás que não tens parte
No meu mal cruento, e fero;
Que vou tristezas lembrar-te;
Dirás que affligir-te quero,
Quando desejo louvar-te.

Não te deves admirar:
Sei que em vão me estou queixando;
Mas quem sente o seu pezar,
Se principia cantando,
Sempre acaba a suspirar.