SONETO XXI.

O vesgo monstro que co'a gente ralha

E de manhãa a todos atravessa,
A cuja hirsuta sordida cabeça
Nunca chegou juizo, nem navalha;

Que os gazeos olhos pela meza espalha

Por ver se ha mais comer que tire, ou peça,
Entrando nelle com tal fome, e pressa
Qual faminto frizão em branda palha;

Por crimes de alta gula, e pouco sizo,

De meza bem servida, mas severa,
Foi n'hum dia lançado de improviso.

Hoje chorando o seu perdão espera:

Perdêrão dous glotões o Paraiso,
O antigo por maçãa, este por pera.

Aos toucados altos.

SONETO XXII.[5]

Foi ao Manique hum homem accusado

Por contrabandos ter; elle sciente
Chama a quadrilha, corre diligente,
Entra, busca, e não acha o Malsinado.

Acha a mulher, que tinha por toucado

A torre de Belem: ella que o sente,
Banhada em pranto, desmaiada a frente,
Prostra por terra o corpo delicado.

C'o boléo se esbandalha a mata espessa,

Sahem della esguiões, cassas lavradas,
E de belbute trinta e huma peça,

Fivelas, espadins, rendas bordadas:

Até tinha escondido na cabeça
O marido, e tres arcas encouradas.

Mettendo a ridiculo humas contradanças.