SCENA II

Os mesmos e Ruy

Ruy, entrando

Bons dias, Senhor Cura.

A Joaquina

E a mãe Joaquina, então,
como passou a noute? Aposto que sonharam
muito commigo, sim?

Padre

Foi tal qual!...

Joaquina

Pois eu, não;
tive mais que fazer, dormi regaladinha
durante a noite inteira...

Ruy

E bem conchegadinha?

Joaquina

Nem mais!...

Ruy

E claro então que nem, sequer, cuidaram
de Talitha...

Joaquina

Cuidei, sim senhor...

Ruy, prazenteiro

Não entendo...
se dormiu toda a noite...

Padre, a rir

É, eu não comprehendo
tambem como se possa, a um tempo só, dormir
e velar!... É bem certo o rifão: mais depressa
se agarra um mentiroso...

Ruy, concluindo

Exacto; do que um coxo...

Ambos riem muito

Joaquina

Mas eu é que não sei que tanto tem que rir!

A Ruy

Nem é da sua conta

ao Padre

e nem da sua! Peçaa Deus Nosso Senhor que dê mais tento aos dois:

batendo com um dedo na testa

talvez haja por lá um parafuso frouxo...

Padre, com gravidade comica

Ó mana, isso é demais...

Ruy, abraçando-a

Não vá subir á serra;
deixemos essa historia a resolver depois
e vamos conversar da luz que se descerra
e que hoje ha de fazer toda a nossa alegria...

Padre

Fallava eu nisso mesmo antes da sua entrada.

Joaquina

E quer saber, menino, o que elle me dizia?...

Ruy

Pois diga, francamente, e não esqueça nada...

Padre

Não havia segredo, era tão natural
e tão simples, meu Deus, o que eu dizia ha pouco...

Joaquina

Deixe-o fallar, menino, anda que é mesmo um louco;
não diz coisa com coisa, a tudo julga mal
e já pelo peior!

Contando pelos dedos

Primeiro, que a pequena
breve nos deixará, que o Ruy vae desposal-a,
e depois, o convento: ora veja se cabe
uma cantiga assim na cabeça d'alguem?
Se ella ha de preferir aquella quarentena
á casa dum marido!... A mim já não abala
essa ideia!...

Ao Padre

Você nunca soube, nem sabe
um marido bonito os encantos que tem...

A Ruy

Finalmente, receia...

Padre, interrompendo

Eis onde pega o carro!...
E sabe Deus, Doutor, que se não fôsse a crença!!...

Ruy

Pois bem, Joaquina, diga, em que é que o Cura pensa?

Joaquina

Que depois de casada...

Padre, interrompendo

Ouça-me então, eu narro:
Receio, é natural, que ella siga o marido,
e venha a solidão morar nesta choupana
onde eu mesmo não sei como tenho vivido!
E que será de mim e que será da mana,
diga-me, Ruy, tambem o que será de nós,dois velhos, nesta casa, enfermos e tão sós?...
vendo, a cada momento, a lucta nos escolhos
da saudade e da dôr, sem ter no dia extremo
aquella mão leal que feche os nossos olhos?!...
Fique sabendo, Ruy, porque motivo eu tremo...

Ruy

Sim, mas não tem razão, pensemos na ventura,
nessa immensa ventura...

Joaquina, interrompendo

É mesmo assim que eu penso...

Ruy

Que vae sentir Talitha ao vêr a luz do sol,
tantos annos depois de longa noite escura,
envolto o dôce olhar num véo pesado o denso!
Vamos fallar de nós, deste novo arrebol
que nos ha de banhar o coração e a alma,
como um luar de outomno, uma alvorada calma,
quando ella abrir á luz a languida pupilla
dos olhos ideaes, tão doces e tão flavos,
que são como um casal de abelhas que assimilla,
nas flôres dos jardins, o loiro mel dos favos.
Pensemos na expressão que o seu olhar vae ter
quando ella vir ao sol tão brancos os cabellos
do Senhor Cura...

Padre

Assim como a neve a descer
sobre a minha cabeça, em flócos e novellos...

Joaquina, saudosa

E nós dois a curvar ao peso da nevada,
o corpo já pendido, a procurar a estrada
que váe á eternidade...

Ruy, interrompendo alegremente

E já pensou, Joaquina,
no famoso jantar?

Joaquina

Não, depois se combina.
Como faltam ainda uns dias ao Natal
vamos tratar primeiro...

Padre, atalhando

Isso! do nosso almoço,
porque eu já estou sentindo um enorme alvoroço
cá por dentro.

A Ruy

Que diz?

Ruy

Tudo quanto fizer
a mãe Joaquina, está bem feito.

Joaquina, ironica

Agradecida!
Eu já volto.

Sae