SCENA V
O mesmos, Joaquina e Talitha
Talitha entra de olhos vendados, pelo braço de Joaquina. Ruy e Padre vão ao seu encontro e tomam-lhe as mãos para conduzil-a a uma cadeira. Joaquina, deixando-a, vae cerrar as janellas e portas. Senta-se Talitha e conversam um pouco.
Padre
Como te sentes, filha?
Talitha
Afflicta, muito afflicta
por ver a luz do dia...
Ruy, tomando-lhe a mão
A mesma curiosa
de sempre!...
Talitha
Se parece á sua intelligencia
que não tenho razão!... Ha tantos annos céga!...
Joaquina
Deixa-o fallar, Talitha, isto é mais tagarella
do que as creanças, vês?
Ruy
Pois não creia, Talitha!...
Padre, tomando Ruy á parte
Prepare o coração e veja que anciosa
aquella vida está... tenha a maior prudencia!
Ruy
É muito natural; só emquanto não chega
o instante de tirar a venda que lhe vela
o dulcissimo olhar...
A Talitha
Diga, Talitha, ainda
sente alguma dôr?
Talitha
Não! apenas a impressão
do lenço que me causa a maior afflicção,
a vontade feliz, viva, crescente, infinda
de vêr de novo a luz...
Ruy
E não ha quinze dias
que lhe descubro a vista?
Talitha
Ha, sim, mas lá no escuro,
onde eu não vejo nada...
Padre
Assim é que convem...
Depois de tanto tempo, então, já pretendias
vêr livremente o sol? Seria prematuro...
Joaquina
É muito perigoso!...
Ruy
E sentia-se bem?
Chegou a distinguir, alguma vez, o aspecto
ou a forma geral de qualquer um objecto?
Talitha
Muitas vezes, pois não; primeiro vagamente,
depois com nitidez.
Padre, alegre
Mas então a doente
Recuperou a vista!?
Joaquina
Abençoada a hora
em que o menino entrou nesta pobre choupana!...
Ruy
Agradeçam a Deus!
Talitha
Doutor, porque demora
esta venda cruel que o meu olhar empana?
Ruy
Pois diga-me primeiro o que pensa de mim.
Talitha
Que é muito feio e máo...
Joaquina
Bem feito!
Ruy
E da Joaquina?...
Talitha
Penso della que é santa e que tem de setim
côr da neve o cabello, a pelle muito fina,
como eu creio que são as santas da capella.
Ruy
E o nosso Padre-cura?
Talitha
Um velhinho bondoso,
que vive para o bem e sobre os pobres vela!
Supponho que elle tenha a cabeça bem branca,
o olhar muito suave e d'expressão tão franca,
que appareça na face enrugada e senil
a dôce candidez da sua alma infantil...
E, cogitando assim, parece-me que vejo,
dos altos de uma torre, a uma enorme distancia,
como um jardim florido, a minha dôce infancia
vicejando a sorrir, a sombra do seu braço,
e o seu olhar de Pae enchendo todo o espaço
de luz, de muita luz, tão dôce e tão leal,
como o luar banhando as ondas de um trigal
numa noite estreitada, e o sangue me palpita
no seio, e o coração ardentemente agita
na immensa anciedade afflicta e pressurosa
de poder innundar a sua mão rugosa
de lagrimas febris e de beijos sem fim.
Ruy
Tantas coisas ao Cura e nada para mim!...
Talitha
Exactamente, Ruy; a saudade de vêl-o
augmenta a cada instante o meu triste flagello,
porque nos braços delle um dia adormeci
e não despertei mais... e ao Ruy...
baixando a voz
eu nunca vi...
Ruy, com caricia
Pois vae tornar a vêr a boa da Joaquina
que a trouxe ao collo, a rir, quando era pequenina.
Aproxima-se de Talitha para tirar-lhe a venda
Vae vêr o Padre-cura e matar os desejos
de lhe cobrir a face e as mãos de muitos beijos...
E vae me conhecer...
Tira-lhe a venda
Silencio. Commoção geral. Talitha, acostumada á treva, não supporta a luz; tapa os olhos com as mãos; depois habitua a vista, levanta-se, olha, procura anciosamente. Antes de Talitha distinguir cada uma das pessoas, encanta-se com a luz e com os objectos.
Talitha, á luz, correndo á janella
Céos! Vejo novamente
a luz que me faltou durante a meninice!
Ó Sol da minha infancia, a sorrir de contentetorno a vêr-te de novo. Azul do céo, meiguice
que ha muito não beijava o meu perdido olhar,
como deves ser lindo ao dôce despontar
da madrugada clara!
Ao oratorio
Oratorio velhinho,
junto ao qual, em pequena, eu tanto vez rezei,
como sinto vontade, agora que revejo
o teu branco Jesus, do amor e do carinho
com que pela manhã e á noite eu te beijei,
e hoje, meu velho amigo, a estremecer te beijo!
Passa as mãos nos olhos, como para certificar-se que vê bem
Mas parece-me um sonho!
Pausa. De novo esfrega os olhos
Eu já não sou a céga...
Pausa
Eu vejo tudo...
Estaca; olha as paredes
Sim, sim tudo...
Olha para o tecto, baixa os olhos ao chão, volta-se para os lados, palpa as cadeiras, palpa a meza, corre á commoda
Eu não me engano.
Eu vejo a minha mão!
Olha para as mãos
Mais branca do que o panno
pega o avental e examina
do meu lindo avental!
Põe a mão sobre o peito, como que desmaiada
Ah! coração, socega...
Neste momento Joaquina, receiando que Talitha caia, corre para amparal-a, dizendo
Joaquina
Credo! Jesus, Senhor!
Talitha, como que acordando aos gritos de Joaquina, ao vêl-a tem uma commoção e exclama
Joaquina! ó boa e santa
velhinha, dôce mãe que tanta dôr e tanta
lagrima derramaste, aos pés do meu bercinho!...
Vendo o Cura, lança-se a elle, soluçando; abraça-o, beija-o, vê-o, chora, ri, torna a abraçal-o, doida de alegria
Mas como eu sou feliz, meu Pae, meu Avôsinho!
Deixa afinal o Cura e corre para Ruy
E Ruy que me salvou...
Vae para abraçal-o, estaca: o pudor impede-a; baixa os olhos, em silencio
Ah!... Ruy... eu nunca o vi!...
Padre, soluçando e enxugando as lagrimas, aproxima-se della, toma-lhe a mão e leva-a junto de Ruy
Beija-o, Talitha; beija, elle é digno de ti,
emquanto eu vou render a Jesus Christo, filha,
graças por essa luz que nos teus olhos brilha.
Sae, enxugando os olhos
Joaquina, a Ruy
Á Virgem prometti uma lampada accêsa
durante uma semana, e por sua intenção,
se Ella daqui levasse as dôres e a tristeza,
fazendo este milagre. Hei de accender o azeite
e rezar a seus pés, com toda a devoção,
pedindo á Virgem Mãe que este meu voto acceite.
Louvado seja Deus! O Céo vos abençôe!
Sae