SCENA VIII
Padre e Talitha
Padre, abraçando Talitha
Não te apoquentes, filha! A dôr que te devora
eu já previra ha muito. A noite tambem chora
no calice da flôr, e o céo que tem a luz
das estrellas sem fim, chorou, quando Jesus
abriu por sobre a terra a sombra dos seus braços,
abençoando a dôr que vaga nos espaços...
Mas os teus olhos, ha pouco illuminados,
não devem, por emquanto, andar annuviados
que se pódem cegar de novo, sem remedio...
Talitha, rapidamente, entre alegre e chorosa
Então se eu lhe pedisse...
Padre
O quer que seja, pede-o...
Pede, Talitha, pede, e poupa o teu olhar...
Talitha, lacrimosa
Pois bem, eu pedirei, que deixe-me chorar!
Padre
Não te apavora a noite immensa e tenebrosa?!
Talitha
Não me amedronta mais! A lua carinhosa
vive na escuridão. Fui tão feliz na trevaque chego a ter saudade e o coração me leva
a pedir que me deixe ind'outra vez banhar
na sombra eterna e mésta a luz do meu olhar...
Padre
Que blasphemia, Talitha!
Talitha
O meu labio não erra,
e o que elle disse, Padre, o meu fervor encerra.
Padre
Medita, minha filha, e Deus Nosso Senhor
envolva a tua crença em seu divino amor!
Talitha
Pois ouça-me um instante a confissão singela
da incomparavel dôr que a minha vida gela:
Padre senta-se e Talitha ajoelha-se ao lado
Tinha soffrido muito; o immenso desespero
de um dia de tortura, afflictivo e severo,
me fez allucinar e, erguendo para os céos
as mãos de quem supplica, eu implorei a Deus
clemencia a tanta dôr. A noite de flagicio,
que dava á minha vida o aspecto de um supplicio,
parecia sem fim, sem luz e sem aurora.
E, como a flôr que á noite exhala, espaço a fóra,
o aroma delicado e puro do seu seio,
vencendo o meu temor e o natural anceio,
eu dei, como penhor da luz que supplicava,
a minha mocidade e o porvir que eu sonhava;
e prometti á santa e casta Samaritavotar-me para sempre ao burel carmelita...
Mas presenti, depois, que dentro de minh'alma
despontava, sorrindo, uma esperança calma
que innundava de luz o coração da céga,
e commigo pensei:—Deus, de certo, não nega
que veja agora a luz quem sempre foi escrava:
e nesse pensamento a vida concentrava.
Foi quando Ruy me fez a esmola caridosa
de uma dôce affeição que tem a côr da rosa;
e, sem pensar, jámais, em vêr de novo o mundo,
o meu amor cresceu e fez-se tão profundo
que para desprender-lhe as tumidas raizes
eu rasgarei, talvez, mais largas cicatrizes...
Depois a mão de Ruy abriu para os meus olhos
o véo da madrugada e eu vi sobre os escolhos,
toda em pedaços feita, a minha pobre herança,
perdida para sempre a querida esperança
que eu havia sonhado em dias de cegueira...
Se sacrifico o amor pelo burel de freira
eu desço á sepultura em plena mocidade;
se não cumpro a promessa e minto á santidade
do voto que levei á pedra de um altar,
não devo conservar a luz do meu olhar
e rogo novamente a Deus que m'a desfaça
e á Virgem que conceda a pequenina graça
de receber de novo esse penhor tão puro,
deixando-me, outra vez, o mesmo olhar escuro!
Padre
Escuta, minha filha.—A Providencia, ás vezes,
se manda aos corações as dôres e os revezes
não é que se compraza em opprimir as almas
para lhes dar mais tarde as viridentes palmas
do martyrio, não! Não, minha ingenua Talitha.
Eras ainda tu mimosa e pequenitaquando ficaste céga. Abrira para o mundo,
apenas, a tua alma e o teu olhar jocundo
sorria para a luz. Assim, innocentinha,
tu ias de manhã commigo á capellinha
e, emquanto eu murmurava as orações da missa,
tu rezavas, sorrindo, angelica e submissa,
á Virgem que te ouvia, a Salvé Magestosa,
bem como se a rezara o labio de uma rosa...
Desse labio subia um fervor tão intenso
como a espiral azul e timida do incenso...
Depois... faltou-te a luz, mas tu nunca faltaste
á mesma hora de sempre, á missa. E que contraste;
tu, pequenita e céga e o Sol com tanta luz!
Muitos annos pediste á Madre de Jesus
que te restituisse um dia o teu olhar,
como se a Virgem fôsse autora da desdita
que te ferira assim, minha meiga Talitha...
Pois creança, tu crês que a Mãe que soffreu tanto
no dia em que perdeu o filho casto e santo
te pudesse roubar dos olhos transparentes
a luz que illuminava as pupillas ardentes?
Pois ella que te viu de rastros, a rezar,
em todas as manhãs, aos pés do seu altar,
levando-lhe, a sorrir, tantos ramos de flôres,
podia assim voltar a crueldade e as dôres
sobre a tua cabeça ingenua e piedosa,
Ella que foi a Mãe mais dôce e generosa!?
Escuta, minha filha:—o livro do Senhor
descreve que, uma feita, andava na Judéa
o divino Jesus prégando a sua idéa...
Acercou-se do Mestre uma infeliz proscripta
a quem a dôr matara a filha pequenita,
e, em lagrimas, pediu que lhe voltasse á vida
o cadaver da filha extremosa e querida.
Abençoando a mãe que aquella dôr humilha
disse Jesus então: «a tua pobre filhaestava adormecida e agora está acordada;
volta que a encontrarás a rir, já levantada».
E a pobre mãe, que vira a pequenina morta,
depois, ao regressar, foi encontral-a á porta,
sorrindo alegremente, entre as demais creanças,
como um bando gazil de cordeirinhas mansas!
Pois bem, minha Talitha, o teu olhar dormiu
sómente, não morreu. Quando a céga pediu,
á Virgem Mãe de Deus, que um dia t'o salvasse,
o seu divino olhar fitava a tua face
e despertou do somno o teu formoso olhar
que nunca fôra cégo e, apenas a sonhar,
adormecera. E agora, agora que acordou
póde fitar a mão de quem lhe descerrou,
em nome de Jesus, a noite que o toldava,
que te fazia triste e lacrimosa, escrava...
Talitha
E a Virgem que me ouviu quando eu lhe prometti
votar-me ao seu burel, por tanto que soffri,
quererá perdoar a minha negra falta?
Padre
Escuta-me, Talitha:
Ruy surge ao fundo e escuta
O coração exalta,
pergunta-lhe o que sente, o que deseja; pensa
muito, muito, em silencio, indaga a tua crença
e faze o que disser a tua consciencia,
mas não esqueças, filha, a dôce confidencia
de Ruy que illuminou o teu escuro olhar,
e lembra-te, depois, que, só por muito amar,
o Christo perdoou á pobre Magdalena.
E agora, que a tua alma está bem mais serena,attende-me!—Rezando adormeci. A aurora
despertou-me, sorrindo, e entrevi, áquella hora,
um sonho que fugia, em busca de outros lares!
Subia docemente, ao claro azul dos ares,
o vulto da Senhora, abrindo pelo Céo
o palio virginal do seu materno véo,
desnastrado o cabello, um manto de rainha
recamado de sóes; a nuvem que a sustinha,
toda cheia de luz, deixava atraz de si
um rastro de fulgor. E eu lembrei-me de ti...
Curvaram-se a tremer as pernas fatigadas,
ao peso esmagador das longas invernadas;
e assim, postas as mãos, olhando para o vulto
da Virgem que eu adoro em fervoroso culto,
pedi-lhe que mandasse um raio de luar
ás lagrimas de fel da tua dôr sem par...
Talitha começa a sorrir
E a Virgem, a sorrir, do seio do infinito,
baixou por sobre o meu um dôce olhar bemdito
e eu vi rolar no azul da immensa vastidão,
no fulgor de uma estrella, o beijo do perdão...
Talitha, correndo para a porta
Ruy!
Encontra-se com Ruy e pára, pudibunda, de olhar no chão
Padre, só, á frente da scena, mãos postas, a olhar para o céo
Perdôa, Senhor, se lhe menti, perdôa;
o meu labio peccou, mas a intenção foi boa!
CAE O PANNO