I. PARTE.
CAPITVLO I.
Das differenças, & propriedades das amoreiras.
Como o fundamẽto principal da seda, depende das amoreiras, esta rica aruore, cujas folhas seruem de sustento aos bichos, serà o assumpto dos primeiro Capitulo deste Tratado.
Duas sortes de amoreiras se conhecem, hũas brancas, & outras negras. A differença, que as primeiras fazem das segũdas, começa pello fruto, porque produzem cõmumente amoras brancas, ou pardas, mais pequenas que as negras, & menos saborosas; as folhas saõ de hum verde mais claro, a casca, & a madeira mais branca, & he a razam, porque conseruam o nome de brancas, ainda que algũas produzão amoras negras.
Posto que as folhas de hũas, & outras, siruaõ à nutritura dos bichos, as folhas das amoreiras brãcas se preferẽ às das amoreiras negras, por quatro razoẽs. Primeira, porque saõ mais tenras, & delicadas, & de melhor gosto, & alimẽto aos bichos: Segunda, porque produzem a folha vinte dias primeiro, que as outras, & se anticipa com ellas a criaçaõ dos bichos, de vinte dias, às calmas do mez de Iunho, que lhe saõ cõtrarias: Terceira, porque ellas aruores crecẽ, & se cultiuão mais facil, & breuemente, que as outras: Quarta, porque em algũas terras, a experiencia tem mostrado ser a seda dos bichos, que se sustentaõ da folha destas amoreiras, mais fina, & de mais valor. Porém a experiẽcia tem mostrado, que a seda de Portugal, aõde sô se vza das amoreiras pretas, he melhor, que a mais fina de Italia, como que se podem só plantar as amoreiras brancas, pela segunda calidade de anticiparem as folhas, & suposta esta razam se podem pôr entre dez amoreiras pretas, duas brancas.
Ella aruore he a mais fermosa, & a mais vtil de todas as aruores, que seruem ao ornato dos cãpos, & ao proueito dos homens, quanto à fermosura, o proua bem a sua vista, quanto à vtilidade, o manifestaõ os seus effeitos, que saõ a vnica riqueza de muitas, & grãdes Cidades.
Os seus troncos nam differem dos choupos, & de todas as outras aruores fortes, & resistem à agoa mais que todas, donde se segue, que seruẽ a todo genero de obras de terra, & mar, & alguns naturalistas escreuẽ, que a sua casca serue para fazer cordas, & para hũa fabrica de panos grosseiros.
A natureza prouida na criaçam dos bichos da seda, que hauiam de seruir ao ornato do mundo, izentou esta aruore de toda a sorte de animaes immundos, & venenosos, que comem as folhas, & os frutos de todas as outras aruores, porque nenhum se vio jà mais nas amoreiras; este attributo, & este priuilegio da natureza, he propriedade especifica desta nobre planta.
He esta aruore taõ fertil na producção de seus ramos, que quem tem copia de amoreiras, tem lenha em grande abundancia para o fogo, sem incommodar as aruores.
A riqueza das suas folhas he tal, que duas aruores de justa grandeza, bastaõ para o sustẽto de meya onça de graõs de bichos, os quaes criandose mediocremente, produzem seis, ou sete arrateis de seda, que de ordinario se vende por tres mil reis, o arratel.
As suas folhas, saõ o melhor alimento, que a terra produz para o gado, & o seu fruto o melhor, que se conhece para seuar galinhas, frangos, capoens, & toda a sorte de Aues.
CAPITVLO II.
Varios modas de plantar as amoreiras brancas, & pretas.
Ha quatro modos de plãtar, & criar esta vtil aruore.
Primeiro, por semẽte tirada das amoras.
Segundo, por mergulho dos ramos, que sahem ao pé da aruore, junto à terra.
Terceiro, por estacas, & ramos cortados, & plantados em outro lugar.
Quarto, por enxerto de amoreiras brãcas em pretas, ou em quaesquer outras aruores proprias para sofrer o enxerto.
Quanto ao primeiro modo, he conueniente que seja em lugar fechado, defendido, & abrigado dos ventos frios, & em terra cauada, mouida, & estercada com esterco meudo, & depois lançarlhe a semente na altura de hum dedo, de sorte que os graõs fejão bem cubertos.
O mesmo effeito produzem as amoras inteiras, postas hũa noyte de molho em agoa clara, & nam se meta, ou junto, ou entre as sementes, algũa outra planta.
Se a terra he humida, nam he necessario regalas, porque cria hũa codea que impede, que a plãta saya; & por conseruar a humidade da terra, he bom cubrir o lugar, aonde està a semente, cõ palha, ou jũco, & se se semear na Primauera, conuem defender o lugar de Pardais, ou outras quaesquer Aues.
Ha duas sezoens proprias para esta cultura, por semente.
Primeira: Abril, & Mayo.
Segunda Iulho, & Agosto.
E em Portugal se pode anticipar, de hum mez a primeira.
A sesaõ da Primauera, he a melhor; em hũa, & outra sesaõ, se he possiuel, se deue escolher no quarto crescente da Lua hum dia claro, & sereno; meterseham as sementes em distancia de quatro pés de hũa a outra, & depois de pegadas em dias quentes, se pôdem, & deuem regar com instrumentos de arame, que tenham os buracos meudos.
Nas terras frias, ha outras cautelas, contra giadas, & neues, que entre nòs saõ inuteis.
CAPITVLO III.
Modo de transplantar as amoreiras, nascidas por semente.
Depois de plantadas as amoras (como fica dito) he necessario mouer, & trabalhar a terra, pello menos tres vezes cada anno, nos mezes de Abril, Iunho, & Agosto, quando a terra esteja, humida ou pella chuua, ou pello orualho, mas de sorte, que este trabalho da terra, nam toque as raizes. Quando for necessario, se regaràõ sómente, porque a demasiada agoa, nam faça apodrecer as raizes.
Nos mezes de Março, & Abril seguintes, he necessario podar, & cortar cõ hum instrumento muito fino, os ramos que os troncos lançarem, o que se continuar à todos os annos, cortandose tambẽ o tronco no mais alto, meyo palmo sômente, & quando for crescẽdo, se lhe deixaràõ ao mais, tres ramos.
E como cõ este cuidado, & beneficio, chegarem à altura de seis pés, & à grossura de hum braço, se transplantaràõ nos lugares aonde se quizerem pôr, aduertindo quese se houuerem de transplantar em campo descuberto, & exposto a todo o genero de animaes, serà conueniente deixar crecer as aruores, a outo pés de alto.
Isto mesmo, se obseruarà com as aruores, que vierem de Prouincias distantes, & lugares estrãgeiros; se vierẽ pequenas, se meteràõ em lugares serrados, & defendidos, com distancias proporcionadas, & se terà o mesmo cuidado de as cultiuar.
E se vierem da grandeza de seis, ou outo pès, as transplantaràõ logo (como fica dito) fazendo, se puder ser, que cheguem nos mezes de Setẽbro, Outubro, & Nouembro, que he o tempo em que hũas, & outras se deuem transplãtar, ou ao menos nas Luas nouas de Março, & Abril.
Quando se transplantarem, se abriràõ cauas à proporçaõ das aruores, deixando as aruores mais na superficie, que no fundo da terra; mas he conueniente, que as cauas sejaõ mais altas, porque a agoa da chuua, que nellas entrar, farà pegar mais fortemente as raizes, & se lançaràõ nas cauas eruas arrancadas do campo, que vindo a apodrecer, lhe seruẽ de esterco; mas estas eruas, naõ tenhaõ raizes, & quaesquer outras immundicias, saõ proprias para o mesmo effeito.
Serà necessario regalas no mesmo tempo, que se metem na terra, & nos mezes seguintes de Iulho, & Agosto, para que peguem bem, & cercar o tronco da aruore de alguns paos, & espinhos, da altura de hum pé para as defender nos primeiros mezes, & se mouerà, & trabalharà a terra nos primeiros annos.
A mà, & a boa terra he igualmente fructifera para estas aruores, mas a seca, & ligeira mais propria para a bõdade da folha, ainda que na humida, nos valles, & junto a Ribeiras, saõ mayores as aruores, & crecem mais facilmente; & nisto tem as amoreiras a natureza das vinhas, junto das quaes vem com perfeiçaõ, sem serẽ danosas às vinhas.
Os lugares mais expostos ao Sol, saõ os melhores. Em toda a parte, onde se puzerem, se lhe darà distancia de hũas a outras, de duas, ou tres braças ao menos, porque naturalmente esta aruore he muito copada, & o tronco muito grosso; mas ainda que se ponhaõ mais junta, naõ deixaõ de crecer da mesma sorte.
CAPITVLO IV.
Modo de plantar as amoreiras por mergulho.
Avara, ou ramo da amoreira, que estiuer mais perto da terra, & se poder melhor dobrar, se meterà na terra o mais distante da aruore, que puder ser, sem se arrancar da aruore, nem quebrar, de sorte, que nam possa receber a substancia della, fazendo sahir à superficie da terra hum, ou dous botoens do mesmo ramo, que poderiaõ produzir outros ramos o anno seguinte, & junto do lugar onde se deixarem de fora, se meterà hũa estaca, a qual dentro da terra se atarà ao ramo com hum junco molhado; he necessario regar esta planta, como fica dito das sementes, até que lance raizes.
Esta sorte de planta por mergulho, se farà no outono, no vltimo quarto da Lua, ou na Primauera, a tempo que a aruore comece a mostrar, que quer florecer.
No anno seguinte, quando se entender, que o ramo mergulhado tem lançado raizes, se cortarà da aruore, & se deixarà no mesmo lugar, ou se passarà a outro, para depois se transplantar, cultiuada como fica dito, até seis, ou outo pés de alto, & se se deixar ficar no lugar do mergulho se cortarà sẽpre o ramo do tronco da aruore, no segundo anno, porque de outra sorte tirarà a si a substancia da aruore, & a enfraqueceiâ.
CAPITVLO V.
Modo de plantar as amoreiras por estaca.
As amoreiras nacem com a mesma facilidade por estaca, que por semente, & mergulho.
Quando a amoreira quizer florecer se cortarà hum ramo, que desse jâ dous annos flor, & fruto, & que haja ao menos outo annos, que tenha sahido da aruore, & sẽdo possiuel seja torto, & tenha duas pontas na parte por onde se cortar, para que metido na terra, o ramo saya direito, & o pé entre torto, & possa formar duas raizes.
Estes ramos se meterâõ na terra em regos, como se plantam as vinhas, hum pouco profundos, nam deixando fora da terra mais que dous, ou tres botoens do ramo.
He conueniente fender, & abrir a ponta deste ramo, que entra na terra, de tres, ou quatro polegadas, & meter entre as fenda algũs graõs de trigo, ou ceuada, porque vindo a humedecerse, conseruarâm fresco o tronco, & o farâõ pegar mais facilmente, conuem regalos, quando for necessario, até se entender que tem raizes, & crecendo he necessario podalos, & cultiualos, como fica dito, & diante se dirà.
CAPITVLO VI.
Modo de plantar as amoreiras por enxerto.
Onde ha amoreiras pretas, este he o mais facil meyo de hauer as brancas, enxertando nellas garfos das brancas, & aonde faltaõ, se podẽ enxertar em quaesquer outras aruores.
Os modos dos enxertos, sam os cõmuns, que se tem cõ as outras aruores, o tẽpo mais proprio he na Primauera, mas todo o tempo que serue para os enxertos das outras aruores, serue às amoreiras.
He necessario escolher o garfo das aruores mais velhas, & daquellas que dam a mais fermosa, & a melhor folha, escolhendo os garfos mais nouos, & que estaõ na aruore mais expostos ao meio dia, & mais nas extremidades da aruore, que no meyo, & que tenham a folha muito verde, redõda, & nam manchada.
CAPITVLO VII.
Como se deuem entreter as amoreiras.
Todas as precauçoens necessarias para tirar da amoreiras hum proueito annual, & ter grandes, & fermosas aruores, he de as limpar todos os annos das branchas, & ramos mal formados, & secos, cortar, & podar os ramos, que se separão muito das aruores, & desiguaes aos outros, a fim de fazer a aruore copada, & mais facil de colher a folha.
O primeiro anno, que as aruores seràõ transplantadas ao lugar, aonde haõ de ficar, se deuem cortar todos os ramos, & branchas, deixando sô cinco, ou seis, os melhor situados na aruore.
No anno seguinte, destes cinco ramos, se deixaraõ sò tres os melhores, & em situação triangular, & igual, a fim que a producçaõ da aruore seja igual, & formada sô de tres branchas principaes.
He bom cortar na estremidade do tronco principal, entre as tres branchas, tudo o que estiuer seco, & as branchas, que se cortarem, se forem grossas, a dous, & tres pés de longo da aruore, & tronco principal, a fim de que vindo a secar, naõ se cõmunique à aruore, & se cortaràõ de alto abaixo, por dar queda à agoa da chuua, que naõ penetre o interior; & se as branchas cortadas tiuerẽ no anno seguinte muitos ramos, se cortaràõ sem deixar a cada huma mais que dous, ou tres na forma, que se terà feito às branchas.
Se depois de dous annos, as folhas que as nouas aruores produzirem sahirem manchadas, & de pouca substancia, serâ bom cortar as extremidades dos ramos, & meter nelles enxertos de bõs garfos, & quanto mais garfos lhe enxertarem, serà melhor, mas este enxerto he mais vtil, que necessario.
Ha hũa especie de amoreiras; como terceiras, entra brancas, & negras, a qual tem a folha mais larga, que a das outras, differente em côr, mais tenra, & de melhor gosto aos bichos. As amoras saõ de hum pardo escuro, maiores que todas as outras.
As folhas destas amoreiras sam mais naturaes aos bichos, mas não a comem com tanto apetite, como as folhas das amoreiras brancas. Com tudo he conueniente ter algũas aruores desta terceira especie, para a dar aos bichos na vltima muda, porque o muito que comem da outra folha, lhe faz algũas vezes dano.
Além de que, a experiencia tem mostrado que fazem a seda mais forte, estas amoreiras se chamão cõmumente de Hespanha, posto que a planta he natural de Sicilia.
Onde ha copia de amoreiras, & mais folhas, do que he necessario para o alimento dos bichos, he cõueniente deixar de colher a folha de algũas aruores, ou colher de todas com moderação, porque ainda que o colher a folha, nam trata mal as aruores, no anno seguinte, as folhas saõ de melhor substancia, & vem em maior abũdancia.
He conueniente, deixar as aruores que tẽ melhor, & mais grossa a folha, & o fruto maior, & em grande quantidade, para dar aos bichos nos vltimos dias, por duas razoens.
Primeira porque sendo as folhas melhores, & mais substanciaes, se deue guardar para a vltima muda dos bichos, quando estão mais perto de formar a seda.
Segunda, porque tendo as amoreiras quantidade de amoras, & não lhe tirando logo a folha, chega o fruto a toda a perfeição, & serue para semente de aruores, & para ceuar as Aues; & muitas vezes sucede, que algũas aruores carregão tanto de fruto, que he inutil colher as folhas, por serem muito pequenas.
Como succede, que alguns annos, os bichos sahem, & se animão primeiro que as aruores tenham folha capaz para o seu sustento, se pode com industria apressar a folha, metendo esterco meudo dentro da raiz das aruores, & à roda do pé, na Lua noua de Feuereiro, & regando as com agoa morna em hum dia bom, & de Sol.
Das aruores nouas, & (se puder ser) tambem das velhas, se deue colher a folha, com tal ordẽ, que se nam quebrem os ramos grandes, & dos pequenos se nam devem cortar, os que estão na extremidade da vara, ou ramo grãde.
Os mais curiosos da cultura das aruores, fazem cortar as folhas pello pé, com hũa thesoura, por saluar os ramos, & poẽ lançois ao pé das aruores, para que caya sobre elles.
Mas quem tem muita criação de bichos, não pode guardar esta regra, pella muita folha de que necessita. Mas sempre he necessario, guardar o que fica dito sobre os ramos, pondo cuidado em não quebrar os grandes, & se se quebrão, conuem cortalos por baixo, donde saõ fendidos.
Quando a folha de toda a aruore he colhida, deue visitarse a aruore, & cortar tudo o que nella ha de ramos secos, & podar todos os ramos, que se separarem muito da aruore.
Quem quizer cortar as aruores, ou por velhas, ou por lhe parecer, que necessitão deste beneficio, o não deue fazer pello tronco, mas pellos ramos; porque pello tronco, he totalmente renouala, & perder a folha, por alguns annos, porque nem he boa para os bichos, os primeiros tres, ou quatro annos da aruore noua, nem se pode tirar sem dano da aruore.
O melhor modo de cortar para as melhorar, & o que se vza em Sicilia, he mandar subir à aruore hum homem com hũa fouce de pé longo, & cortar os ramos mais distantes, até onde pode alcançar, no mez de Março em hum bom dia, da Lua noua, ou por não perder a folha daquelle anno, nos mezes de Mayo, & Iunho, ao mesmo tempo, que a folha se vai colhendo.
Os homens practicos na Agricultura, fazem isto mesmo, não só às amoreiras, que he a aruore mais vtil, mais a toda a forte de aruores de fruto.
Se se cortarem os ramos cõ folha, conuem cortarlha logo, porque separada dos ramos, se pode guardar dous dias, & conseruada nelles, se perde em poucas horas, & se nam quizerem separala dos ramos, se conseruarà metendo os ramos em vazos de agoa.
Não conuem colher as folhas, quando choue, nem logo depois de chouer, porque tem mostrado a experiẽcia, que colhidas, ou cortadas com agoa, he de grande prejuizo às aruores.
Por euitar este inconueniente, conuem ter folha de resto em tẽpo chuuoso, ou que promete chuua, & guardala em lugares frescos, mas não tão humidos, que se humedeça a folha, porque humida, he danosa aos bichos, & quando està humida, he remedio darlhe ar, & mouela.
Emfim as amoreiras, como todas as outras aruores, amão estar em terra laurada, cauada, & estercada, & he vtil fazerlhe este beneficio de tẽpos em tempos: Guardandose esta regra na agricultura desta rica planta, se tirarà hum proueito inestimauel, se criaràm boas aruores, que duraràõ seculos, como experimentamos nas quese plantarão em França, no Delfinado, Langadoc, Prouença, & outras Prouincias, por ordem de Henrique IU. que hoje se cõseruão perfeitas com grande vtilidade dos proprietarios, os quaes tirão de tres modos o interesse dellas.
Primeiro, criando os bichos, & tirãdo a seda.
Segũdo, alugando as aruores, ou vendendo a folha, sogeitandose quem as aluga, ao dano considerauel, que por descuido, ou malicia se fizer nellas.
Terceiro, dando a folha, & caza para a criação dos bichos, & outra pessoa dando os graõs, & tomando o cuidado de os criar, & sustentar até formarem os casulos, & seda, cuja quantidade se separa, ficando a ametade para o senhor da caza, & aruores, & outra para quem deu os graõs, & criou os bichos.
CAPITVLO VLT.
Modo de colher a semente das aruores, para as semear.
As amoreiras brancas, produzem de ordinario grande quantidade de amoras, particularmente as brãcas, cujas amoras saõ pardas escuras, ou pretas.
As amoras de que se houuer de tirar a semente, se deuem colher maduras, & de aruores, de que se nam colhesse folha, porque o fruto das amoreiras de que se colheo a folha, não chega a inteira perfeição, como fica dito.
Todas as amoras de amoreira branca, que tem semente (porque nem todas a tem) saõ boas, mas as amoras pretas de amoreiras brancas, saõ as melhores.
As amoras, de que se houuer de guardar a semente, se deuem colher na forma seguinte.
Estenderse-hà hum lançol de pouco valor, ao pé da aruore (digo de pouco valor, porque as nodoas das amoras, saõ difficeis de tirar,) & abanarse-ha a amoreira sobre elle, o que baste para que cayão as amoras maduras.
He conueniente, que sejão colhidas sobre hum lançol, porque cahindo no chão, se enchem de terra, & area, de que depois se não distingue a semente.
Colhidas do lançol, se passaràm a hum taboleiro, ou se poràõ sobre hũa meza estendidas, & em caza alta, & de sobrado, onde se deixaràõ cinco, ou seis dias para amadurecerem bem, mouendo as todos os dias para euitar a podridão.
Passados os seis dias, se meteràm em hum saco molhado, ou em huma peneira muito fina, & molhada, & se espremeràõ, & amassaràõ bem com as mãos, para separar as sementes das amoras, & depois se tomarà tudo o que fica no fundo do saco, ou na peneira, & se lançarà em hum alguidar cheo de agoa clara, no qual em breve espaço se distinguirà a semente, porque deceao fundo da agoa, & tudo o mais que fica das amoras, està nadando em cima.
Depois de colhida a semente, se estenderà sobre hũa toalha de linho, & se porâ hũa hora sómente ao Sol, donde depois de passada a hora se limparà de todo o pô, que tiuer, & se guardarà para se semear na sesão, & forma, que fica dito no Capitulo II. onde tambẽ se disse, que basta semear as amoras, que tenhão semente, colhidas por abano, & postas a amadurecer o tempo necessario.
Quem quizer escuzar este trabalho, pode mandar vir de Sicilia, & outros lugares de Italia, as sementes, ainda que ordinariamente não são boas, por duas razoẽs, ou por muito velhas, ou por serẽ colhidas sem cuidado, de amoras podres.
Mas he facil de conhecer, & separar a boa de mà semente, metendo-a em hum vazo de agoa, & a que depois de tres horas cahir no fundo do vazo, he a boa, & a que ficar em cima, se lançarà fora, como inutil.
Tudo o que fica dito das amoras de amoreiras brancas, se pode obrar com as amoras pretas, que se comem cõmumente.
De todas estas quatro sortes, se criaràõ amoreiras em grande cãtidade, em tempo breue, sem trabalho, nem considerauel despeza.
Para conclusaõ desta Primeira Parte, em que tratei do modo de plantar as amoreiras, aduirto que a cultiuação destas aruores, he, & foi sempre a mais geral, nobre, & vtil occupaçaõ dos homens.
Os antigos a começaraõ, & cõ ella se deuertiraõ no deserto os Anacoretas, como os mais Religiosos no principio de suas instituiçoens.
Das obras de S. Ieronimo colhemos, que entre-tinha nesta occupação os ocios dos estudos, & a encomendaua a hum de seus Discipulos, para que os frutos de que se sustentaua, fossem merecidos pello seu trabalho.
Todos os que seguirẽ este louuauel costume, & esta nobre occupação, tiraráõ della tres grãdes ventagens.
Primeira, a satisfaçaõ que teràõ de plantar as aruores, de as ver crecer, & de colher os frutos dellas, que nos sam mais saborosos quando sahem, como obras das nossas mãos.
Segunda, o interesse, & proueito, que resulta deste trabalho, porque he certo, & consta pella experiencia, que em dous campos de igual grandeza, & bondade, hum plantado de todas as aruores de que se pode tirar fruto, & proueito, & outro sô de amoreiras, o custo de cultiuar estas, he menor a ametade, & o proueito he quatro vezes maior.
Terceira, porque a cultiuaçam destas aruores, he vtil, nam sò a quem as plantou, mas a hum numero taõ grande de pessoas, como saõ as que obrão, & trabalhaõ nas sedas, desde a criação dos bichos até a tenda do Mercador.
E os vindouros viuiràõ agradecidos ao nosso trabalho, com a mesma razam, & justiça, com que nòs viuemos ao seu.
Cõmumente se desprezam no mundo, as plantas, & se descuidaõ os homens da cultura dellas, pella desconfiança, que tem, de lhe colher os frutos.
Deste erro, que justamẽte deueser condenado de todos, nos liura a consideração do que deuemos a nossos Auôs, que se tiueraõ, & seguiraõ aquella opiniaõ, nam lograramos hoje, o que elles com o seu trabalho, & com a sua cultura nos deixaram. Somos obrigados todos a cuidar na posteridade, os pays pello que deuẽ aos filhos, & todos pello que deuem à sociedade ciuil, & à terra em que nacéram.
Por que trabalhos passaram os antigos Portuguezes, no descobrimento de tantas Ilhas, Terras, & Reynos, de que hoje lograõ seus sucessores os frutos, & as riquezas?
Mais para nós, que para si, cultiuàraõ os primeiros descobridores as terras, que possuimos, & assim como, nôs abençoamos os seus trabalhos, & agradecemos o seu cuidado, assim os que vierem depois de nôs, teràm muito, que nos agradecer, em lhe deixarmos hũa vtilidade certa na terra, em que viuimos.
Digamos finalmente os louuores, & encomios, que dam os Authores a esta rica planta, a que chamão symbolo da prudencia, porque produz a folha, depois que passaõ as inclemencias do Inuerno, & no mesmo tempo, que os bichos (a cujo sustento a natureza a criou) começão a se animar, & sem produzir flor, produz mais fecunda que as outras, folha, & fruto.
A sua duraçam he tam grande, que se lhe nam sabe termo, em Italia, & em algũas Prouincias de França, ha amoreiras tam antigas, que se perdeo a memoria do tempo em que foram plantadas.
Os que escreuem as excellencias desta aruore, & dos bichos da seda, affirmão, que vieraõ das Prouincias Orientaes, em algũas das quaes, os bichos formão a seda nas campanhas, sem cuidado, & ajuda dos homens,[12] porque naquellas partes fauorece o Ceo esta criaçam com tam singular prouidencia, que nam choue no tempo, em que os bichos fazẽ nas aruores a seda.
Estes mesmos Authores escreuem, que ha cento, & dez annos, que foram trazidos a Grecia, & Italia, & na Prouincia de Prouança em França, como mais vesinha de Italia, ha cem annos, que se introduzio o vzo de criar os bichos; & as aruores, que se plantârão naquelle tempo, estão agora com toda a sua força, & vigor, saõ as mais fermosas, as mais lucratiuas, & as menos sogeitas ao rigor dos tempos.