II. PARTE.
CONTEM O MODO DE criar os bichos, até tirar a seda.
CAPITVLO I.
Do lugar proprio para criar os bichos.
Para fazer hũa copiosa criação de bichos de seda, se deue preparar hum lugar cõmodo, em que se alimentẽ sete semanas, que tem de vida, ao menos nos vltimos trinta dias, porque nos primeiros, se podem criar em lugares mais estreitos, & em quaesquer camaras, a que não fazem nenhum genero de dano, como não sejão sotaõs, ou lugares humidos, mas em camaras claras, & liures ao vento.
Conuem que as camaras, se for possiuel, tenhão janellas hũas defronte das outras, algũas ao meyo dia, porque nos dias calmosos entre o ar liuremente, mas tambem que tenhão vidraças, ou encerados porque nos dias tempestuosos, & frios estejaõ abrigados.
He necessario, que não haja nenhum mao cheiro, & he preciso cerrar todos os buracos de ratos, & impedir, que não entrem na camara, galinhas, frangos, ou pardais.
Na camara destinada a esta criação, se armaràm junto das paredes, partileiros da altura, que se quizer, segundo a criação que se faz, & nelles se meteràm taboleiros diuididos huns dos outros, meyo palmo, & huns sobre outros em distãcia de hum couado, & pello meyo da caza, se pode tambem armar, deixando espaço entre hũs, & outros, capaz de poder andar liuremẽte a pessoa, que tiuer cuidado delles, & para poder meter escadas para sobir aos taboleiros mais altos, a lhe meter folhas.
Os taboleiros, tenhão as bordas altas, para impedir, que os bichos nam cayam, & para maior preuẽçam, he conueniente que os taboleiros debaixo sejão maiores, que os primeiros, porque vindo a cahir os bichos do taboleiro alto, fiquem no baixo, & se nam percam.
Os partileiros, sobre que se ham de armar os taboleiros, em altura de quinze pés, podẽ ter seis ordẽs de taboleiros.
As pessoas que costumão fazer esta criação todos os annos, fazẽ por hũa sô vez a despeza destes partileiros.
He bom pôr sobre elles, papeis, assim para a conseruaçam, & limpeza delles, como para a facilidade, que com elles se tem em mudar os bichos, quando he necessario; muitos escuzão esta despeza a qual nam he considerauel, & toda a casta de papel serue a este effeito.
As pessoas pobres, a que falta a cõmodidade de caza separada, de partileiros, & taboleiros, fazem a criaçam sobre a mesma caza, como seja de taboado, dentro de arcas, cestos, alcofas, ou sobre taboas postas de parede a parede, sem outro cuidado mais, que de os guardar a todos os bichos, & passaros, que os comem.
A frequente entrada de gẽte nas cazas, o fogo, & o fumo não lhe fazem dano, o que lhe faz dano, he o grande estrondo de sinos, a vesinhança de officios mecanicos, como Ferradores, Ferreiros, & outros semelhantes, que lhe causaõ o mesmo dano, que os trouoens, pello que serà conueniente de os apartar, o mais que puder ser, destes estrondos, suposto que sendo nascidos entre elles, lhe naõ fazem dano.
CAPITVLO II.
Regras para conhecer, & escolher os melhores graõs, & fazer sahir os bichos.
Os melhores graõs, sam os que vem de Sicilia, do Leuante, & de Hespanha; sam pequenos, pardos escuros, & muito redondos, & para conhecer sesaõ mortos, ou falsificados, se quebrara hum entre as vnhas, & se lãçar bem de humor luzente, he sinal de bondade.
Os graõs de Piemonte, nam saõ tam bons, como os de Hespanha.
Os de Bolonha saõ iguaes na bondade, pello cuidado, que naquella Cidade se poem, em os tirar, como ordinario trato della.
Os de Messina saõ os que mais se estimaõ em Europa.
Em conhecer os graõs ha algũa difficuldade, porque a semente das borboletas, que se nam jũtarão com os machos, tem a mesma cor, o mesmo pezo, & quebrada lança a mesma humidade, & nam tem seruiço algum, como tambem a semente feita de borboletas, sahidas de casulos pequenos, cuja seda nam tem a bondade ordinaria.
Para euitar estes inconueniẽtes, he preciso, valerse de correspondencias fieis, nos lugares aonde se compram.
Os primeiros a enganàr, & ser enganados, sam os que fazẽ trato desta mercancia, porque comprão quantidades grandes; o mais seguro he, quando se encontram nouidades boasde bichos, ter cuidado de guardar as sementes, na forma, que se dirà no fim deste Tratado.
Nam he necessario guardar, senão a quãtidade, que se pode criar; para hũa onça de graõs, bastaràõ duas, ou tres amoreiras grandes, ou cinco, ou seis pequenas.
Posto que os graõs dos bichos da seda, se animão de si mesmos, logo que o calor da Primauera os aquenta, he conueniente cobrilos, por duas razoens.
Primeira, por anticipar a criação às calmas de Iunho, & antes que as amoras sejam maduras, porque a folha he mais difficil de colher, & as amoras lhe communicaõ demasiada humidade.
A segunda he, porque os bichos sayam hum mesmo tẽpo, o que he mais facil com calor artificial.
Para euitar este inconueniente, costumão em algũas partes, depois de os benzer nas Igrejas, metelos em bom vinho, o espaço de meyo quarto de hora, & depois lançalos sobre hum linho branco, & polos a enxugar ao Sol, se nam for muito ardente, & ao fogo em distancia proporcionada: o tempo conueniente, he a Lua noua de Abril, mas nas terras quentes, aõde a folha se anticipa, a regra principal he, quando as amoreiras tiuerem folhas capazes de se colherem.
Depois que os graõs estiuerem secos, se meteràõ em hũa caixa bẽ cerrada, & limpa, com algodam pellas extremidades, & em que sô caiba a quãtidade dos graõs, que se quizerem cobrir, & se porâ a caixa abrigada, & aonde haja fogo se for em terra, & tempo frio, & nella se meterà a caixa em hũ cubertor de papa, ou de pano, & estando desta sorte dous, ou tres dias, se verà que os bichos começão a se animar, & mouer sobreo algodaõ, o que visto, se meterà sobre a boceta, hũa folha de papel branco com buracos, por onde possaõ caber os bichos, & sobre ella folhas de amoreiras, até que os bichos subaõ, & se peguem nas folhas.
Tanto que as folhas estiuerem cubertas dos bichos, que naturalmente sobem, & se pegam nellas, se tiraràõ com as folhas, & se passaràm aos taboleiros, aonde se ha de continuar a criaçaõ delles.
Esta preuençam de fogo, & vinho, se escuza nas terras quentes, aonde basta a das caixas cubertas em cazas abrigadas.
CAPITVLO III.
Das mudas dos bichos, & como conuem tratalos no tempo dellas.
Os bichos mudão quatro vezes desde o nacimento, até formarẽ os casulos; em cada hũa destas mudas, dormem o espaço de tres, ou quatro dias, & saõ como immoueis, ou doentes, & não comem até mudar as pelles, o que se conhece, quando parecem mais brancos, & mais curtos do que erão.
Depois que mudão, comem outo dias, até tornar a segunda muda, & assim até a quarta, em que chegaõ a toda a sua grandeza, que he a grossura, como de hũa pena de pato, & o comprimento de duas polegadas.
Acabadas as mudas, nam ha regra a guardar, para os mudar de cama ou lhe dar de comer, porque hũa, & outra cousa se deue fazer sempre que tiuerem necessidade.
A ordem, he passalos dos taboleiros, em que estam, a outros taboleiros naõ muito juntos huns dos outros, & darlhes a comer folhas frescas, & limpas de todo o pô, colhidas ao Sol, porque nam tenham orualho, metendo sempre folhas nos lugares vazios, & junto aos bichos, por euitar que se nam juntem huns com os outros o que não he danoso nos primeiros dias.
O modo de os mudar dos taboleiros, he com as folhas, em que estão pegados, hum quarto de hora, depois que estão pegados nellas, & no mesmo tempo meter folhas frescas no lugar donde os tiram, para os bichos, que ficam, porque estas mudanças se fazem para lhe dar mais espaço, quando crecem.
Os mais curiosos tem agulhas grossas de prata, ou latam, para os hir mudando, em quanto ha perigo, de os mudar com os dedos.
Tres, ou quatro dias depois de animados, conuem mudalos, & que a caza nam esteja exposta a ventos frios; & nas terras frias, se fazem secar os taboleiros ao fogo, para lhe tirar a humidade, & depois de cinco, ou seis dias, os tornam a mudar.
Quando os bichos sam grandes, naõ ha perigo de os mudar, & tocar cõ os dedos, nẽ de os expor, & costumar ao ar, em bons dias.
As pessoas, que nam tem tempo & cõmodidade de mudar os bichos de lugar, & os separar antes que se mudem, he necessario separalos, & mudalos nas mudas, & obseruar com cuidado, quando sahem dellas, para os hir separando, & darlhe de comer logo, porque sahem com apetite, duas vezes no dia, quãdo sahem da primeira muda; quando da segunda, o mesmo; tres vezes no dia se lhe darà de comer, quando sahem da terceira muda, & quãdo da quarta, todas as vezes, que se virem as folhas pella maior parte comidas, porque lhe he danoso estarem sepaço considerauel sem comer, quando estão chegados ao tempo de subir, & para este tempo lhe guardaràm as amoreiras melhores, que tenhaõ as folhas mais fortes, porque lhe faz fazer a seda mais forte.
Deue obseruarse, que algumas amoreiras, antes do S Ioam, produzem segunda ordem de folhas, que sam muito tenras, & humidas, & naõ conuem dar destas aos bichos, porque a demasiada substancia, que lhes daõ, os faz entropecer, estando chegados a subir.
A melhor preuençam cõtra este dano, he começalos a criar com abundancia de boa folha, porque faràm a seda em seis semanas, ou quarenta & cinco dias.
CAPITVLO IV.
Modo de colher, & conseruar as folhas das amoreiras.
As folhas das amoreiras, se deuem colher depois do Sol secar o orualho, ou a agoa de chuua, em tempo chuuoso, porque aos bichos da seda, nenhũa cousa lhe faz maior dano, que folhas molhadas do orualho, ou da chuua.
A folha guardada doze, ou quinze horas, & até dous dias, he melhor para os bichos, do que se se lhe der logo, depois de tirada da aruore, & recen-colhida. E se não ouuer outra folha, que lhe dar, mais que a que se colher em tẽpo de chuua, melhor he fazelos jejuar, que darlhe folha molhada, & he preciso esperar, que se seque, & para este effeito, poràm a folha entre dous lançois, ou entre dous panos de linho, depois de secos ao lume, & os sacudiràm para fazer correr a agoa das folhas, que tambem por este modo se secaràm mais da depressa, com o vento que tomão nesta agitaçam; & depois de sacudidas as estenderàõ sobre camas, ou panos, para que acabem de se secar de todo.
Quãdo se vé, que tẽpo ameaça chuua, conuem fazer hũa boa prouisaõ de folha, para dous, ou tres dias, que he o tempo, que se pode guardar, se estiuer em lugar fresco, em que corra o ar, & he preciso mouela muitas vezes no dia, porque as folhas amontoadas hũas sobre as outras, se esquentaõ, & ficam humidas, & molhadas, como as que se colhem com orvalho, ou chuua, & porque esta sua humidade faz muito mal aos bichos nam podem servir, senam depois de enxutas; entre tanto, se os bichos necessitarem de folha, se lhe reuolueràm as camas, & elles acharàm que roer nas folhas, que tem debaixo de si.
A folha das aruores situadas em lugares humidos, & sombrios, aonde nam chegam os rayos do Sol, faz mal aos bichos, como tambem as folhas amarellas, ou manchadas de pardo escuro, como lentilhas; & naõ saõ menos danosos aos bichos, os renouos, que brotaõ do tronco da amoreira, ou dos ramos mais grossos do mesmo anno.
Conuem, que os que colhem a folha, tenhaõ as maõs limpas, que nam cheirem a cebollas, nẽ alhos, que antes de a hir colher nam tomem tabaco de fumo, & que naõ quebrem os ramos, quando a colhem.
Naõ colheràõ as folhas, às mãos cheas, mas folha por folha (se for possiuel,) porque assim conuem para as amoreiras, & para os bichos; para as amoreiras, porque nam se arrancarâm os renouos do anno; & para os bichos, porque as folhas se colherám inteiras, & nam tomaràm o mao sabor dos ramos, com que se roção, quando se apanhão com violencia.
Em conclusaõ, poràõ as folhas em sacos, ou em cestos muito limpos, & nam as apertaràm muito, porque apertadas se quebraõ facilmente, & em menos de meya hora se esquentam, & ficam molhadas, como se foraõ tomadas da aruore, em tempo de chuva, ou com orvalho.
CAPITVLO V.
Das doenças dos bichos da seda, & dos remedios, que se lhe podem aplicar.
Os bichos estam sogeitos a dous generos de doenças, hũas naturaes, & outras accidentaes.
As naturaes, saõ as quatro mudas, que fazem até o tempo, em que começaõ a fazera seda; em cada muda, deixam a pelle, estam tres, ou quatro dias sem comer, ficam sem mouimento, & como adormecidos, & se apartaõ huns dos outros, quanto podem; & estas mudas, ainda que naturaes, sam causa de algũa quebra nos bichos.
As suas doenças accidentaes saõ causadas do rigor dos tempos; da mà calidade da folha; da pouco sadia situaçaõ do lugar, em que se criaõ; do mao trato, que se lhe dà; & do mao cheiro, que os offende.
Em quanto ao rigor do tempo, a calma lhe faz mais mal, que o frio.
Quando se leuanta algum vento frio, & desabrido, conuem ter a caza bem fechada, & no meyo della alguns fogareiros, com brazas acezas, & naõ caruoens, & cerrar todas as portas, & janellas por onde pode entrar o vento.
Ao excesso da calma, se remedearà com abrir todas as portas, & janellas, para os refrescar, & cõ lhe mudar muitas vezes as camas, porque lhe causaõ muito calor.
Se tal-vez deixarem de comer, ou se as folhas, que se lhe deram de hum pasto a outro, naõ forem comidas, não se lhe deue dar outras, & bom serà mudalos do taboleiro, ou partileiro em que estam, & darlhe nouas folhas, & não lhe pór outras, até que não sejão bem comidas.
E se não estiuerem em estado, que se possa bolir nelles, como quando estão na muda, em que não comem, por adormecidos, ou doentes, pouca folha se lhe deue dar, ou nenhũa, até naõ acabarem de roer a que se lhe deu, & bom he deixalos neste estado, sem lhe fazer mouimento algum, até que elles mesmos acordẽ do letargo, & madorna, em que estão.
Se os bichos não medrarem, & se muitos delles morrerem, bom ser à mudar lhe as camas, & perfumar os partileiros, & se ouuer lugar, melhor serà, mudalos para outra caza, & com particular cuidado, hir sẽpre apartando os doẽtes, darlhe a melhor folha, mas pouca, & mais a meudo, do que se costumaua, para os espertar, & naõ lhe dar folha, se não tiuerem comido a que tem debaixo de si, perfumalos cõ encenso, beijuim, & outros cheiros, & heruas cheirosas do campo, ou com o fumo de toucinho magro, presuntos, & chouriços fritos, ou postos sobre as brazas.
Tambem os perfumaràm pondo no lume hum ferro, & hum calhao, & apagando-o com vinho, ou vinagre, ou maluasia: Estes fumos, & vapores, despertam, alegrão, & sarão aos bichos.
Por esta mesma razam, bom serà borrifar algũas vezes a caza, em que os bichos estiuerem, as paredes, & os taboleiros, com vinho, ou vinagre, & esfregar tudo com eruas, & folhas de aruores, de bõ cheiro, como funcho, alecrim, louro, & outras semelhãtes, principalmente se estiuerem doentes, & se morrerem muitos, porque de outra sorte, estes cheiros seriam inuteis, & poderiam prejudicar, por serem fortes.
O bafo, dos que tiuerem comido alhos, cebollas, ou porros, ou dos que mastigam, & tomão tabaco de fumo, he danoso aos bichos, quãdo estão saõs, & muito mais, quãdo estão doentes, & por isso estes taes nam os tocaràm, nem bolirâm com as folhas, nem quem andar com sal.
As moças, & mulheres, que andarem com suas menstruas purgaçoens, nam boliràm nos bichos, nem entraràm nas cazas, em que estiuerem, em quanto lhe durar este achaque, porque isto os mata.
He necessario que nas cazas, em que esta criação se fizer, haja muita quietação, & que seja em parte donde não se oução de perto tiros de armas de fogo, nem sons de sinos, tambores, ou trombetas, & sobre tudo não se dem pancadas grandes na caza donde estiuerem, deixando cahir algũa cousa de pezo, arrastrando bofetes, & cadeiras, ou outras cousas, que abalaõ os sobrados, porque qualquer destes estrondos, lhes causa doenças nas mudas.
Em quanto os bichos começarem a fiar, & tecer a sua seda & a formar o seu casulo, naõ façaõ bolir os estrados, ou partileiros, em que estiuerem por ser este o tẽpo da força do seu trabalho, em que começaõ a encolher o corpo, & as pernas, & qualquer mouimẽto, que lhe occasionarẽ, lhe faz quebrar o fio da seda, com que tecẽ o casulo, & depois andaõ buscando o fio em quãto o naõ achaõ, passa o tempo de tecer, & se reduzem â figura de hũa faua, & a maior parte rebentaõ nos casulos, que depois ficaõ molles, & naõ daõ a seda, que hauiaõ de dar, se naõ desinquietàraõ os bichos.
Das grandes chuuas com trouoens, que sobreuem, quando os bichos saõ crecidos, se lhe origina a maior parte das doenças, das quaes os poderà liurar o cuidado, que se terà delles.
As chuuas, sô lhe saõ danosas, pella grande humidade, que lhes causa ou pella difficuldade de ter boa folha.
Esta humidade se pode remediar cõ fogareiros de brazas acezas, & nam de caruoens, como fica declarado, & as folhas se poderàõ secar na forma, que tenho dito.
Pello que toca aos trouoens, em algum modo se pode euitar o dano, que fazem aos bichos, perfumando os com o cheiro de talhadas de presumto, ou chouriço fritos, ou postos sobre as brazas, & fazendo entrar na caza, em que se criaõ, muitas pessoas, que farâm algum leue rumor, & poderàm reuoluer os bichos, em quanto durarem os trouoens, isto os aliuia muito, & o estrondo dos trouoens nam os apanha com tam grande sobresalto.
Sinaes das doenças, são quando se fazẽ amarellos, quando inchaõ, quando sam luzidios, ou quando tem nodoas, como de pisaduras, & quando se achão molhados por baixo com humidade amarella, & he necessario separar os doentes dos saõs, & logo lançar fora os que se acharem com esta humidade, a estes bichos, chama o vulgo, Porcas; tem as pernas mui inchadas, & negras nas estremidades, & as nodoas do corpo auultam mais, & sam differentes das dos outros bichos, & hũ dia, ou dous, antes que este humor delles distille, sam muito molles da barriga, & das pernas, & suposto que se lhe pode dar algum aliuio, apartando os dos mais, antes que a inchação seja grande, & vzãdo dos remedios acima declarados, porque assim escapariam alguns; mais acertado he deitalos às gallinhas, do que gastar o tempo em os currar, borrifando os, & passando os pello vinagre, ou por outras agoas que os Authores apontão; & em todo o cazo, he absolutamente preciso, separalos dos saõs, antes que a agoa, que distillam, lhes saya da barriga, para que os mais se nam molhem, & que as folhas, a que a agoa chegar, nam tomem o mao gosto daquella humidade, que he todo o mal, que pode fazer aos bichos, por quanto esta enfermidade nam se communica, porque nam he contagiosa.
Tambem se deuem pôr de parte, os que de ordinario andão pellas bordas dos taboleiros, ainda que nam estejaõ em termos de fazer muda porque a penas podem chegar à quarta muda sem rebentarem por grande cuidado, que se tenha delles, & a causa porque chegam a viuer tanto, he o muito ar, que tomaõ, andando pellas estremidades dos taboleiros.
Eu para mim entẽdo, que a doença dos bichos, he incurauel, & para elles serem de algum proueito, os deitaràõ às galinhas, & para suprir a falta destes bichos inuteis, he forçoso, preuenirse cõ alguma semente mais, para que a criaçam se faça com a desejada quantidade; meia onça de mais, em dezouto, ou vinte onças, bastarà.
Os que nunca criàram bichos, se poderàõ facilmente enganar, imaginando que alguns bichos, que naturalmente sam pardos, & escuros, tem a mesma doença, que os a que chamão porcas, mas esta casta de bichos, he a melhor de todas, & ha muitos delles nos graõs, que vem de Hespanha.
Quando perfumarẽ os bichos, tomaràõ sentido, que entre os perfumes, nam haja certas eruas, sementes, & cascas, que fazem hum cheiro muito danoso aos bichos, como faz o fumo de couros queimados, de sedas de porco, cabelos, & pelos de outros animaes, porque tudo isto, para os bichos, he peçonha.
Passo em silencio muitas outras cousas venenosas para os bichos, para nam dar noticias de hũ mal, que os mal intencionados poderàõ fazer, em dano dos que fazem esta criaçam, porque he tam grande a malicia de alguns, que de proposito vam borrifar de noite as folhas nas mesmas amoreiras, com certas agoas, que empeçonhentão os bichos & vem a ser esta malicia tam refinada, como a dos que vendem as sementes assadas no forno, ou lauadas cõ agoa feruente, com a qual misturão algũa boa para que se entenda, que se nam sahe toda à luz, he falta dos que fazem a criação, & nam dos que vendem a semente.
Isto pratica a gente de hũ Reyno para outro, & isto muitas vezes se experimentou na semente, que se mandou para França, sô a fim de que naquelle Reyno nam houuesse abundancia de sedas, & forçosamente se seruissem das das outras Naçoens.
Por isso ensinarei no seguinte Capitulo, o modo com que neste Reyno poderà hauer daqui em diante, tão boa semente, como nos Reynos estrangeiros, para que possamos escuzar a sua, & juntamente as sedas, que nos vem de fora.
CAPITVLO VI.
Segredo para fazer nascer muitos bichos da seda, sem semente, que daràm excellẽtes graõs com abũdancia.
Nas terràs, em que nam ha semente algũa dos bichos da seda, suprirà a Arte esta falta, com hũa prodigiosa metamorphosi, de que fallão muitos Authores, & que de ordinario se experimenta em muitas partes do Oriente.
No tempo da Primauera, quinze dias depois de começar a sahir a folha das amoreiras, tomaràm hũa vacca prenhe, & antes d’ella parir, vinte dias arreo, a sustentaràm com folhas de amoreira, nam lhe dando erua, nem feno, nem algum outro genero de alimento, nem tam pouco lhe daràm de beber, & depois de nascida a vitella, continuaràm outros outo dias, dar à vacca folhas de amoreira.
Depois disto, mataràm a vitella no tempo em que estiuer farta do leite da mãy, & a cortaràm em pedaços, até as patas dos pés, & das mãos, que deitaràm fora, & não tiraràm nada das mais partes do corpo, mas ajuntaràm tudo, a carne, o sangue, os ossos, a pelle; & as tripas, em hũa gamela de pao, & a porâm no mais alto sobrado da caza, para se nam sinta o fedor.
Toda esta mestura de carnes, ossos, & sangue, se corromperà, & desta corrupção naceràm hũs bichinhos, que se recolheràm com folhas de amoreira, em que naturalmente se pegão, & passados aos taboleiros, se criaràm na mesma forma, que os outros, até fazerem os seus casulos, dos quaes sahirâm borboletas, que ajuntandose, poràm graõs muito melhores, que os dos outros bichos.
Mas porque esta semente perde com o tẽpo a sua virtude, he opinião de alguns, que só pose seruir outo, ou dez annos, no cabo dos quaes, serà preciso renouar esta mesma producção, ou transformação cõ o sangue, carne, & ossos da vitella, como fica declarado.
Esta experiencia se pode fazer com muita facilidade, & cõ pouca despeza, & serà de grànde vtilidade, para os que a fizerem.
O insigne Poeta Ieronimo Vida, Cremonẽse, Bispo de Alba descreue esta marauilhosa obra da arte, & da natureza, no seu segundo Liuro de Bombice.
Eis aqui os versos do Author,[13] para satisfação dos curiosos.