LICENÇAS.

Por ordem dos muito Reuerendos Padres Consultores de nossa Religiaõ, vimos este Liuro intitulado: Instrucção sobre a cultura das amoreiras, & criação dos bichos da seda, composto pello P. D. Rafael Bluteau, Clerigo Regular, Theatino da diuina Prouidencia, Calificador do S. Officio, & muito conhecido nesta Corte, por seu singular engenho, & admirauel eloquencia, nos melhores pulpitos della, & não achamos contenha cousa algũa contra a nossa S. Fè, & bons costumes. He pequeno o Liuro na materia, pello que trata de hum bichinho, não conhecido de muitos, & pouco estimado de quasi todos, & he muito grande na calidade, porque a se obseruarẽ bem os documẽtos, que dà o Author, he certo resultaràõ grandes vtilidades ao Reyno, que por falta das manufacturas se vè taõ exhausto, & diminuido de dinheiro, com gèral dor de todos os zelosos do seu acrecentamento; & quando a obra por si só naõ fora de tanta estimação, o seria pella elegancia com que o Author a escreue, com clareza, verdade, & compendiosas regras, & nam duuidamos, que o particular gosto, com que a lemos, abranja a todos os que a lerem, & assim nos parece muito digna de se dar à estampa, para que o Reyno logre as prosperidades, que ella lhe promete, & o Autor o nome de zeloso, & amante do Reyno de Portugal, que he o de que mais se preza, & com que em parte lhe quer pagar os aplausos, & affecto, com que o ouuem. Lisboa em o Conuento de N. S. da Diuina Prouidencia aos 28. dias do mez de Março de 1679 annos.

D. Luis Maria Sacchi, Clerigo Regular Theatino da Diuina Prouidencia, Doutor na sagrada Theologia.

D. Nicolao Barby, Clerigo Regula Theatino Diuina Prouidencia, Doutor na sagrada Theologia.


Consultores Clericorum Regularium.

Hoc opus inscriptum (Instrucção sobre a cultura das amoreiras, & criação dos bichos da seda) à P. D. Raphaele Bluteau Anglo. nostræ Congregationis Theologo, Lusitano idiomate compositum, & juxta assertionem Patrum, quibus id cõmisimus approbatum, vt Typis mandetur, quoad nos spectat, facultatem concedimus. In quorum fidem præsentes litteras, manû propria subscriptas, solito nostræ Congregationis sigillo firmauimus. Romæ die 2. Nouembris 1678.

D. Leonardus Duardus Consultor C. R.
D. Emmanuel de Puteo Consultor C. R.
D. Michael Pignatellus Consultor C. R.

D. Ioannes Augustinus Griti, Secretarius.


Por ordem dos Senhores do Cõselho geral do S. Officio, vi a Instrucção sobre a cultura das amoreiras, & criação dos bichos da seda, que cõpoz o M. R. P. Doutor D. Raphael Bluteau, Clerigo Regular Theatino da Diuina Prouidẽcia, Prégador da Rainha mãy de Inglaterra, & Qualificador do S. Officio em este Reyno, sogeito taõ conhecido, que naõ só nas Naçoens estrangeiras, como he para elle a nossa, mas até na propria patria he celebrado seu talento, por peregrino; naõ contẽ o Tratado cousa, que offenda a nossa S. Fè, ou bons costumes; antes cõ elle seu Author, não só instrue, mas anima as almas cõ muitos documentos para a virtude, & aos Portuguezes cõ muitas liçoẽs para o augmento do bẽ cõmũ porque ainda que este estiuera por hũ fio, mostra que cõ os fios de hũ bichinho, pode a industria humana ajudada da Prouidencia Diuina, não sô sustentar, mas enriquecer a Monarchia, cõ o que ficarà immortal seu nome na nossa memoria, pois nũca dirà Portugal de seu engenho, o que disse da arte do bicho da seda, Ioão Ouuen no liu. 2. dos seus Epigramas: Epigram 178.

Arte mea pereo, tumulũ mihi fabricor ipse,
Fila mei fati duco, necemque neo.

Este he o meu parecer. Carmo 8. de Nouẽbro de 1678.

O Doutor Fr. Gregorio de Iesus.


Vista a informação, podese imprimir a Instrucção sobre a cultura das amoreiras, & criação dos bichos da seda, Author o P. D. Raphael Bluteau, & impressa tornarà para se conferir, & se dar licença, para correr, & sem ella não correrà. Lisboa 8. de Nouẽbro 1678.

Manoel de Magalhaens de Menezes.
Manoel Pimentel de Sousa.
Manoel de Moura Manoel.
Fr. Valerio de S. Raymundo.


Podese imprimir. Lisboa 17. de Nouembro de 1678.

Fr. C. Bispo de Martyria.


SENHOR.

Este Tratado, não só he digno de impressaõ, mas necessario; os argumentos da vtilidade priuada, donde resulta a publica, saõ demõstraçoẽs visiueis. O seu Author, ainda que estrangeiro por origẽ, he bẽ nacional nos affectos, empregando o que estudou fóra, no edificio deste alicerse, aonde ha de estribar hũa grãde parte da prosperidade do Reyno, o que o faz digno de hum singular louuor, V. A. mandarà, o que mais conuier a seu Real seruiço. Lisboa de Feuereiro 10. de 1679.

Antonio Vellez Caldeira.


Qve se possa imprimir, vistas as licenças do S. Officio, & Ordirio, & depois de impresso rornarà à Mesa, para se taixar & conferir, & sem isso não correrà. Lisboa 11. de Feuereiro de 1679.

Marquez P. Roxas. Basto. Rego.

Visto estar cõforme com o Original, pode correr este Liuro. Lisboa 21. de Iunho de 1679.

Fr. C. Bispo de Martyria.

Taixão este Liuro em cem reis. Lisboa 27. de Junho de 1679.

Magalhaens de Menezes. Roxas. Basto. Rego.

ADVERTENCIA
AOS
PORTVGVEZES

As artes[7] liberaes, & mecanicas, saõ as fontes do bẽ commum, as bases das Republicas, & as columnas[8] dos Imperios; humas se empenhão no sustento da vida, como a agricultura; outras se armão contra as inuasoens dos inimigos, como a milicia; & outras se desuelão para o descubrimento, & conquista de terras estranhas, como a nautica; de donde se segue, que florecem as Monarquias com tanto maior gloria, & felicidade, quãto maior he o numero, & a perfeição das artes; que nellas se exercitão.

Nas artes mais nobres, sempre floreceo a Lusitania, admirou o Parnasso a elegãcia dos seus Poetas, estranhou Neptuno a ouzadia dos seus Argonautas, & Marte enuejou a valentia dos seus Capitaens, mas sempre se mostrou o pouo de Portugal descuidado das artes inferiores, em que comummente se occupão os pouos dos outros Reinos; Antipatia deue ser que o brio da nação tem com acçoens do vulgo, & conhecendo-se cortada para heroicas emprezas, se enuergonha de se abater a plebeios exercicios. Nisto saõ os Pouos de Portugal semelhantes aos de que escreue[9] Xenophonte, que nunca se occupauaõ em Artes mechanicas, para que naõ degenerasse a nobreza do animo, cõ a humildade do exercicio. Mas suposto que esta briosa liberdade aceredita a bizarria dos genios, he muito prejudicial ao bem cõmum dos Estados, porque della se occasiona hũa perpetua, & quasi natural ociosidade no pouo, & a ociosidade dos pouos, he causa da pobreza dos Reinos.

As tres materias, sobre que obrão todas as artes, (que genericamẽte chamão lanificas) saõ laã, linho, & seda, mas deixando as primeiras duas, que naõ saõ deste lugar, a mais nobre, a mais lucratiua, & a mais misteriosa, he a arte da seda.

A Nobreza desta arte serue de estimulo à altiua inclinação dos Pouos; o lucro que della se tira, alẽta as esperanças dos mercadores, & os misterios que nella se descobrem, despertão a admiração dos Sabios.

Em primeiro lugar, he esta arte tão nobre, que pode seruir de occupação à mesma nobreza, sem desdouro do seu luzimento, como se experimenta em quasi todas as Cidades d’Italia, porque nas partes aonde està introduzida a criação dos bichos da seda, naõ ha caza nobre, em que os senhores della, naõ se occupem neste apraziuel exercicio, & em muitas cazas ha teares, em que até as molheres tecem fitas, ou sedas ligeiras para adorno das suas cazas, & das suas pessoas. A nobreza das sciẽcias, & das artes, se mede pella calidade dos seus objectos, & que cousa mais nobre, que a seda, que he o objecto, & a materia, sobre que esta arte se exericita. A nobreza, serue a seda, nas galas; aos Senadores, nas Togas; aos Capitaẽs, nos Estãdartes; aos Sacerdotes, nas sagradas vestiduras; aos Bispos, nas Mitras; aos Cardeaes, nas Purpuras; aos Monarchas nos Diademas; & aos Pontifices, nas Tiaras.

As Damas, offerece a seda flores, que não murchaõ, nas primaueras; chamas, que naõ offendem, nos carmezins; no lauor dos bordados, labirintos sem confusaõ, & nas ondas dos chamalotes, mares sem tormentas, & sem naufragios. Serue a seda para as pompas funebres, & para os triumphos, he o enfeite das Cortes, o apparato dos Palacios, o ornato dos Templos, & dos Altares, & o adorno dos mesmos Sanctuarios, retratos da gloria, & hospicios da Diuindade.

Em segundo lugar, a vtilidade, que se tira da criação dos bichos da seda, melhor se conhece pella experiencia, que pello discurso. Duas amoreiras grandes, ou quatro pequenas, bastão para sustentar meia onça de bichos, que produzẽ seis arrateis de seda, a qual quãtidade posta em meadas, val tres mil reis o arratel, de sorte que hum trabalho, ou huma curiosidade, que naõ custa dous mil reis, no espaço de outo semanas ao mais, rende dezoito mil reis. Os pobres pois, que naõ tem campos para cultiuarem amoreiras, nem cazas sufficientes para a criação dos bichos, se podem occupar em tirar, & dobar a seda, & esta he hũa occupaçaõ honesta, & vtil, principalmente a muitas mulheres honradas, que em outros exercicios de maior trabalho, & de menos proueito, gastão a vista, a saude, & a vida. Nas Prouincias de Flandes,[10] se contaõ mais de doze mil pessoas, que se sustentão só de dobar a seda, que lhe vem em rama, nas frotas da companhia das Indias Orientaes. Com esta mesma occupação, jà se sustentam em Lisboa, mais de trezentas pessoas, que dobão a seda, que se laura nos cincoenta teares, das nouas manufacturas, & crecendo (como se espera) o numero das amoreiras, & teares, até se poder laurar toda a seda, que he precisa, para o Reyno, & suas Conquistas, serà tam vniuersal a occupação de dobar a seda, que poucas familias pobres hauerà em Portugal, a que falte o sustento, se se occuparem neste exercicio.

Além da ganancia, que a criaçam dos bichos, o dobar da seda, & todos os mais officios dependẽtes das manufacturas, prometem aos pobres, a cultura das amoreiras promete à Nobreza grandes vtilidades, & riquezas, porque muito mais facil, & proueitosa he a cultura destas plantas, que a das oliueiras, & larangeiras, em que muitas cazas de Portugal, tem hũa considerauel parte das suas rẽdas, porque as oliueiras naõ dam fruto, se nam depois de muitos annos, & as larangeiras, nam medram, se nam em terras mimosas, & hũas, & outras estam tam sogeitas às inclemencias do tempo, que hum vẽto, hũa neuoa, ou hũa chuua intempestiua, he sufficiente para destruir as nouidades. Pello contrario, a cultura das amoreiras, he tam facil, & tam breue, que em tres, ou quatro annos, se poem hũa amoreira, em estado de se começar com ella, a criaçam de muitos bichos, & a natureza lhe deu a propriedade, de lhe nam fazer dano, mas antes lhe ser vtil, tirar-lhe as folhas. A duraçam pois desta aruore he tal, que nas Prouincias onde se cultiua, nam ha memoria do tempo, em que foram plantadas. As amoreiras, se crião neste Reyno, em toda a terra, sem ser necessario occupar a melhor, nos mõtes, & ainda entre as areas; o publico pôde ordenar, se plantem junto dos caminhos, como se fez em França, & Italia, & os particulares podem cercar dellas as suas quintas, & vinhas, considerãdo que as folhas desta aruore, saõ mais proueitosas, que os frutos das melhores plantas, como se tem experimẽtado, estes dous vltimos annos, nesta Cidade de Lisboa, & em algũas partes da banda d’alem, aonde a folha de cada amoreira, rendeo a seus donos, cinco, seis, & até outo tostoens. Por onde augmentandose a criação dos bichos, ao mesmo passo que crecerem, & se cobrirem de folhas as amoreiras, nouamente plantadas, os rendimentos de hum moral de cinco, ou seis mil amoreiras, seràm muito maiores, & mais certos, que os de hum oliual, ou laranjal, de outras tantas mil oliueiras, ou laranjeiras, finalmente com a cultura das amoreiras, & criaçam dos bichos, se farà a Nobreza mais rica, ficarà a pobreza aliuiada, & a ociosidade desterrada, se euitarà a sahida do dinheiro do Reyno, se abrirà o caminho ao muito que entrarà pellas maõs dos Estrãgeiros, a troco da seda em rama, terà Portugal muitas Prouincias da Europa, tributarias à sua industria, & todas seraõ admiradoras da sua opulencia.

Nas maõs de Deos, os mais debeis, & despreziueis sogeitos, saõ os artifices das maiores marauilhas, tambem nas maõs dos Princepes, que saõ as imagens de Deos na terra, podem as materias mais humildes, & na aparencia mais inuteis, obrar prodigiosos effeitos; & se Deos antigamente destruyo ao Egipto com mosquitos, & gafanhotos, pode o Princepe nosso Senhor enriquecer a Portugal, cõ folhas, & com bichos, folhas de amoreiras, & bichos de seda.

Os bons Ministros dos Princepes, saõ como as Aguias,[11] que da mais sublime Regiaõ do ar, vem na terra, os mais pequenos insectos: D. Luis de Menezes, Conde da Eyriceira, na suprema eleuaçaõ da dignidade, em que attende desuelado aos interesses da Monarquia Lusitana, vio com perspicacia de Aguia, aquelle insecto, sutilissimo artifice da seda, nesta Corte apenas conhecido, & com igual agudeza preuio os grandes emolumentos, que podia dar à Republica a criaçaõ, & multiplicaçaõ desta industriosa creatura, para este effeito insistio o Conde, em que se prantassem amoreiras em todas as Prouincias do Reyno, deu ordem a que viessem de varias partes da Europa Officiaes para as manufacturas, & para esta noua introducçaõ, desfez tantas duuidas, venceo tantas opposiçoens, & se offereceo martyr do bem publico às penalidades de tantos, tam varios, & taõ impertinentes cuidados, que pode seruir de exemplar ao zelo, & amor da partia, de admiraçaõ à constãcia, & de perpetuo assumpto aos encomios da posteridade; jà se anticipa a fama em applaudir as virtudes militares, & politicas, com que chegou aos mais sublimes postos, sem mais diligẽcia, que hauelos merecido, & se a sua penna, he a mina das luzes cõ que se manifestaõ ao mundo as façanhas dos Heroes de Portugal, algum dia a multidaõ das suas gloriosas acçoens, serà a muitos volumes de Annaes, illustre, & ineuitauel embaraço.

Mas porque na gloria das victorias, que de ordinario se attribue ao valor dos Capitaens, naõ deixa de ter sua parte a valentia dos soldados; tambẽ na prudente Economia dos Estados, tal vez se acreditaõ os Ministros inferiores, sem prejuizo da gloria dos supremos Suposto isto, razam he, que para memoria dos vindouros, se faça aqui mençaõ do zelo, habilidade, & desuelo, com que Rolando du Clos tẽ proposto, solicitado, & adiantado esta noua introducçaõ das manufacturas da seda, com taõ euidentes experiencias, & cõ taõ felice successo, que toda esta Corte se admirou, de quese fizesse taõ vtil a Portugal, a industria de hum Estangeiro; mas a verdadeira patria dos sogeitos de talento, he a terra em que exercitaõ as suas virtudes, & entre as muitas differenças que ha entre os homens, & os animaes, hũa das principaes, he que os animaes achaõ a sua patria, & os homens a escolhem; aquelles achão por patria a terra, em que nacẽ, & estes escolhem por sua patria, a terra em que pretendem fundar sobre os alicerses da sua virtude, a sua fortuna; com esta consideraçam escolheo Rolãdo du Clos a Portugal por sua patria, & està taõ naturalizado, que atreuendo-se a hũa empresa maior, que as suas forças, parece tem tresladado em si os brios da nação Portugueza, que sempre fez facil ao seu valor, tudo o que conheceo superior, ao seu poder.

Cõ generosa, & discreta emulação, quizeram lograr juntamẽte com Rolando du Clos, a gloria desta empresa, como socios no mesmo negocio, & companheiros no mesmo trabalho, Francisco Lopes Franco, varaõ de muita virtude, & prudencia, muy conhecido nesta Corte, como benemerito do Reyno, & Ioão Soares da Costa, cuja intelligencia, & zelo do augmento do bem cõmum, promete grandes acertos, para o perfeito estabelecimento desta fabrica, não reparando ambos em contribuir largamente para ella com sua fazendas, para que a de S. A. & dos seus vassallos se acrecente.

De maneira que esta artificiosa maquina das sedas, que nos seus principios, estaua fundada sobre hũa só columna, tem hoje mais pessoas, que a sustentão, do que teue o fabuloso Ceo dos Poetas, porque descança nos hombros de tres Atlantes.

As obras da arte, tem como as da natureza, a sua infancia, & por debeis principios, sobem ao auge do seu augmento. A seda na boca do bicho, que a forma, he hũ fio; nas anafayas, he tea; nos casulos, he nouelo; nas dobadouras, he meada, & assim crece a seda em quantidade, & perfeição, até que nas vestiduras do homem, chega a ser, o ornamento de hum pequeno mundo.

Do mesmo modo, teue esta fabrica da seda, alicerses tão frageis, como os da mesma seda, no exordio do seu ser, porque começou por hum tear de fitas, em menos de hum anno se virão armados cincoenta teares, em que se fazem tafetàs, gorgoroens, galas, primaueras, cetins, & telas, breuemente trabalharàõ outros cincoẽta, & se correspõderẽ os progressos a estes principios, daqui a algũs annos, terà Portugal mais sedas, que lãas, & os que agora julgaõ esta empresa impossiuel, ou danosa ao Reino, conheceràõ a sua possibilidade, na euidẽcia do successo, & a sua vtilidade, na importancia do proueito.

Tenho mostrado como a arte da seda, he tão nobre, que pode seruir de exercicio à nobreza, & tão lucratiua, que nelle acharà o Reyno hũa mina de excessiuas riquezas, resta que vejamos como esta mesma arte, he tão misteriosa, que pode dar perpetuos motiuos de contemplação, & admiração, à intelligencia dos Sabios.

O nacimento, criaçam, & vida dos bichos da seda, encerrão em si tão profundos misterios, que não sô por interesse, mas por recreação, & por curiosidade, podem occupar as pessoas mais virtuosas, as Religiosas, as Damas, os Philosofos, & mais doutos Theologos do mundo.

Os principaes artigos, & misterios da Fé Catholica, saõ a existẽcia de hum Deos, a Trindade das pessoas na natureza diuina, a Encarnação do Verbo, o nacimento de Christo, a adoraçaõ dos Reys Magos, a transfiguração, a morte, & Resurreiçãõ do Senhor.

Todos estes misterios, no bicho da seda, admirauelmente se representam. Primeiramẽte aos Atheistas, filhos da incredulidade, & partos da cegueira, que nam tem olhos para o Deos, que os mesmos cegos adoraõ, mostra este insecto com palpaueis marauilhas, a existencia do Author da natureza; que se nam ha no mundo hum artifice supremo, qual he o Mestre das artes, que este prodigioso artifice, sem mestres exercita? fia, tece, & edifica, fia sem mãos, sem braços tece, & sem algum instrumento, edifica o seu domicilio, & se com a efficacia da sua palaura, Deos fez ao vniuerso, este milagroso Arquitecto, sem voz, & sem falla, fabrica no seu casulo, hum pequeno mundo. As luzes da verdade abre os olhos, ô incredulo Atheista, & jà que nas luzes dos Astros, & nos brilhantes Planetas, nam ves da Diuindade os rutilantes reflexos, confessa que para proua de que no mundo ha Deos, este bichinho basta.

Adoramos a Deos, hum na essencia, & trino nas pessoas; & neste insecto admiramos, tres sogeitos distinctos em hũa sô natureza, porque o principio do seu ser, he hum pequenino ouo da grossura de hum graõ de mostarda, do ouo nace hum bicho, & do bicho hũa borboleta; de maneira que em hũa sô substancia, se acham tres suppositos realmente distinctos; a substancia destes suppositos se cõmunica, mas não se cõmunicão os suppositos, & com tudo a substancia, & os suppositos saõ physicamente a mesma essencia, & esta essencia nos tres suppositos obra por differentes modos & do mesmo modo, que nas pessoas diuinas, hũa pessoa nam tem as perfeiçoens relatiuas da outra, suposto que cada pessoa he igualmente perfeita, mas antes fora imperfeiçaõ que a propriedade da primeira pessoa, se achasse na segunda, & na terceira, & assim não tem a pessoa do Pay a propriedade relatiua do Filho, nem o Filho possue a propriedade relatiua do Pay, nem ao Espirito Santo, se attribuẽ as perfeiçoens do Pay, em quanto Pay, nem as do Filho, em quanto Filho; tambem nos tres suppositos da substancia deste prodigioso insecto, nam tem o ouo as perfeiçoens proprias do bicho, nem o bicho, as da borboleta, nem a borboleta, as do bicho, nẽ do ouo, porque o ouo nam anda como o bicho, nem o bicho voa como a borboleta, nem a borboleta, & o bicho perseueram sem corrupção de hum anno para outro, como o ouo.

No Verbo encarnado, estam vnidas duas differentes naturezas, a humana, & a diuina; & no bicho da seda se acham duas diuersas naturezas, porque como bicho he reptil, como borboleta he volatil; no reptil, se figura a humildade do ser humano, & no volatil, se simboliza a sublimidade do diuino.

Por virtude do Espirito Santo, tomou o Verbo Eterno carne nas entranhas de huma Virgem; & a semente dos bichos se anima, ou com o calor do Sol, ou com o calor natural, no peito de huma donzella.

Christo entre palhas naceo, & o bicho da seda entre folhas nace; naceo o Senhor no mais profũdo silencio da noite, & o bicho da seda no silencio viue, & com os estrondos, morre.

No presepio, os Reys sabios buscaraõ ao Senhor, & saõ sabios os Reys, que procuraõ no seu Reyno a criaçam deste insecto. No Thabor, Christo se transfigurou, & ficaraõ suas vestiduras brancas como a neue, tambem o bicho da seda se transfigura em hũa borboleta, que se iguala á neue na aluura.

O Senhor que a todos veste, morreo nù em hum madeiro, & o bicho da seda, que a todos dà de vestir, viue, & morre nù, retratto da paciencia, & da pobreza. Finalmente resuscitou o Senhor, & no sepulcro, deixou as mortalhas, & o bicho da seda rompe o casulo, em que estaua sepultado, & nelle deixa duas pelles, como despojos da morte, & trofeos da immortalidade. Mas he tempo que acabe, & acabo aduirtindo aos discretos, que cada acçaõ do bicho da seda, he hum jeroglifico, & em cada jeroglifico, se significa hũa virtude.

Todos os documentos de bem viuer, se aprendem na contemplaçaõ da vida, & morte deste Rey dos insectos, a charidade, a prudencia, a penitencia, & o desengano das vaidades do mundo.

Que charidade mais entranhauel pode hauer, que desentranhar-se para vestir os nûs; forma o bicho da seda com a substancia das suas entranhas, os defensiuos com que os homens, se armaõ contra as injurias do tempo, & para remedear necessidades alheas, conuerte em preciosas roupas, os seus proprios alimentos.

Que prudencia mais soberana, do que ordir innocentes enredos, para cõseguir gloriosas victorias; fia o bicho da seda os laço, em que se prende, & se encarcera a si mesmo, mas quando he tempo, quebra a prizam, & sahe victorioso. Nos labirintos da Corte, muitos se enredam no que tecem, mas nam se sabem desembaraçar, do em que se enredão.

Qual dos mais solitarios ermitaens pode competir com o bicho da seda, nas asperezas da penitencia? & qual contemplatiuo Anacoreta, viueo como elle em hũa cella sem porta, & sem janella, jejuando com tam grande rigor, que pello espaço de muitos dias, nam toma hũa folha verde para seu sustento, & tam apartado deste mundo, que viue retirado em hum outro mundo, morto na apparencia, & na realidade sepultado.

Em conclusam, este mesmo insecto, que parece nascido para fomento de pomposas vaidades, he aquelle, que melhor nos desengana da vaidade das pompas humanas, porque a riqueza das sedas que laura, nam he outra cousa, que o excremento das folhas, que come, & para nos aduertir, que a nossa vida depende de hum fio, à tecidura de hum o fio se reduzem todas as obras da sua vida; cuidemos todos na fragilidade da vida humana, para nòs assegurarmos hũa morte santa. A arte das artes he saber morrer, porque o premio desta arte, he o mesmo Deos na eterna bem-auenturança: Os erros, que nas mais artes se cometem, sam reparaueis, mas he irreparauel o desacerto de huma mà morte: Esta he a mais importante aduertẽcia, das que se encerrão nesta introducção, fiz as duas primeiras como zeloso do bem do Reyno, & remato com esta, como desejoso do bem das Almas.

D. Rafael Blvteav
Clerigo Regular Theatino da diuina Prouidencia.