GRATIDÃO E SAUDADE
(Recitada no Theatro)
De candidos sonhos, de luz, e de flores,
Cercada a existencia começa a sorrir;
Alegre o presente nos falla de amores,
De amores nos falla brilhante o porvir!
Depois no horisonte sereno, e risonho,
Carregam-se as sombras, perturba-se a luz,
Esvae-se a ventura veloz como um sonho,
Que apenas instantes na vida reluz!
Assim penetrando no mundo das artes,
Ao tímido lume de frouxo clarão,
Olhava, e só via por todas as partes,
A meiga esperança sorrindo em botão!
De lyrios e rosas grinalda fragrante,
Cuidei mais ainda: cuidei vêl-a ahi;
Nos braços a aperto, convulsa, anhelante,
Aos labios a levo, na fronte a cingi!
Foi breve este sonho de amor, e de encanto;
Acordo, e procuro debalde uma flor;
Inundam-se os olhos de angustia e de pranto,
Ao ver que só restam espinhos e dor!
Só restam espinhos das pallidas rosas,
A quem pobre artista não ousa pedir
Os loiros frangrantes, as palmas viçosas,
Que a fronte de genio só devem cingir!
Só restam espinhos? ai, não! Se a ventura,
Não quiz que durasse tão meiga illusão,
Em paga deixou-me no peito a doçura.
De terna, suave, leal gratidão!
Que a voz do mais fundo, mais intimo d'alma,
Sincera tributa nest'hora o dever!
Embora outras palmas morressem,—a palma
De gratas memorias não póde morrer!
Desfeitos os sonhos, fanadas as flores,
Quebrado o encanto da pura illusão,
Que resta ao artista?—espinhos e dores,
Saudades! mais nada no seu coração!
Saudades da gloria, da luz, da ventura,
Dos magicos sonhos, presente dos ceos,
Saudades que attestam a funda amargura,
Que sente ao dizer-vos agora um adeus!
1853.
[XLIX]
Diante do tumulo de Salvador Corrêa de Sá (Visconde d'Asseca) e de sua filha.[1]
«Não sabe o que é padecer,
Quem o filhinho que adora
Não viu ainda morrer!»
(A. Garrett)
—«Bem sei que era exilio a terra
Para ti, anjo do ceo!
Porém, filha, abandonar-me
Quando toda a minha vida
Era a luz d'um olhar teu!
Ouvir essa voz infante,
Ver a impaciente alegria
De teu candido semblante!
«Deixar-me assim na existencia
Triste, só, desamparado,
Aquella flor de innocencia!
Que lhe fiz? tinha-a cercado
De quanto amor neste mundo
Pela mão da Providencia
A peito de homem foi dado!
Oh! que affecto tão profundo!
E tu pudeste partir?
Pois não tiveste piedade
D'esta solemne amargura,
D'esta infinita saudade?
Vi-te inda olhar-me, e sorrir,
Erguer os olhos aos ceos,
No instante de proferir,
O fatal e extremo adeus!...
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«Oh! volve outra vez a mim,
Desce á terra, anjo do ceo,
Vem dar-me a ventura emfim!
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Olha: o vivo sol de Abril
Já nestes campos rompeu;
As rosas desabroxaram;
O rouxinol desprendeu
A voz em saudosos cantos;
Os sitios onde passaram
Os teus descuidados annos,
Não os vês cheios de encantos?
São estes! a mesma fonte,
Ferve alem; naquelle outeiro
O mesmo casal alveja;
As ramas do verde olmeiro,
Dão sombra á modesta igreja
Onde tu vinhas resar,
Quando o som da Ave-Maria,
N'hora meiga do sol posto,
De vaga melancolia
Toldava teu bello rosto!
Tudo o mesmo!?... esta inscripção!...
Este nome!... anjo do ceo,
Este nome, filha, é teu!!
Oh! meu Deus, por compaixão,
Na mesma pedra singela,
Juntae o meu nome ao d'ella!»—
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E Deus ouviu a oração...
O mesmo tumulo encerra
Filha e pae. Na mesma lousa
Onde repousam na terra,
Uma lagrima saudosa
Vem hoje depôr tambem
A esposa, a viuva, a mãe!
1854.
[1] Quem tratou de perto Salvador Corrêa de Sá (Visconde d'Asseca) conheceu um dos caracteres mais nobres da nossa terra. Estes versos dedicados á sua memoria são um testemunho de saudade bem humilde, mas bem sincero. Um dia o braço da Providencia arrebatou-lhe uma filha, anjo que principiava a abrir as azas candidas, e que subindo ao ceo levava o coração d'aquelles que lhe haviam dado o ser. Em breve ao lado do estreito tumulo onde ella repousava ia juntar-se o cadaver do pae!