1.º VOLUME

EDIÇÃO DA
«RENASCENÇA PORTUGUESA»
PORTO

AOS MORTOS

PREFACIO

Janeiro de 1918.

Agosto de 1910.

Setembro de 1910.

Fevereiro de 1918.

Cantareira, Foz do Douro—1918.

ALGUMAS FIGURAS

Janeiro—1900.

—A paciencia é uma virtude de capote e lenço.
—Quanto mais leve é a cabeça da mulher, mais pesada é a do marido.
—Os homens publicos são como os papeis de credito—o que hoje tem uma alta cotação, amanhã não vale, e inversamente.

—Quando tiveres muitos argumentos, não empregues senão os melhores. Quando não tiveres nenhum, emprega todos.
—A paternidade é, muitas vezes, um rotulo. A garrafa é a mesma, mas o vinho é outro.
—Viuva rica, com um olho dobra, com outro repica.
—No coração mora-me Deus, no figado o diabo.
—Mortal é o contrario de imortal. Imortal é o que é sempre. Logo, mortal—é o que não é nunca.
—Theologia—a arte de fazer comprehender aos outros aquillo que nós não entendemos.
—De todas as armas, a mais dificil de manejar é o pau... de dois bicos.
—Jornalista—fabricante da opinião publica. Cada um afirma que a unica genuina é a da sua lavra.
—Se os homens de mais juizo pensarem a serio em muitos dos seus actos hão de reconhecer que não teem juizo nenhum.
—O suicida tem para mim um lado sympathico—não se julga insubstituivel.

Junho—1903.

Fevereiro—1900.

Fevereiro—1903.

Columbano.—Auto-retrato.

Junho—1903.

Dezembro—1900.

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Maio—1903.

POVOA DE LANHOSO, 29—Faleceu, sepultando-se hoje, o sr. dr. Joaquim da Boa Morte Alves de Moura, da freguezia de Santo Emilião, bacharel formado em philosophia e mathematica pela Universidade de Coimbra.
O povo apelidava-o de santo, pelas suas sublimes virtudes christãs. Tinha 92 annos de edade; o falecido fôra frade agostinho.

Julho—1903.

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Fevereiro—1904.

Março—1904.

Abril—1903.

Setembro—1903.

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Março—1900.

Tolstoi o meu sapateiro...

Março—1904.

D. João da Camara.

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Dezembro—1907.

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Março—1903.

Eça de Queiroz.—Desenho de Antonio Carneiro.

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o monumento

Já noticiamos n'outro numero do nosso jornal com todos os seus detalhes e pormenores, como foi a festa d'inauguração do monumento a Eça de Queiroz. Damos hoje um reflexo do humor da multidão que assistiu ao acto. Porque, emfim, a nosso vêr, tudo é documento para a historia.

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—Emquanto a Camara não mandar pôr, de roda da figura um resguardo pintado de cinzento.

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4 de Janeiro—1908.

18 de Março—1900.

Antonio Nobre no caixão.

30 de Janeiro—1911.

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Setembro—1907.

Corrêa d'Oliveira em 1903.

Janeiro—1911.

1 de Fevereiro.

PÓ DA ESTRADA

Março—1902.

Junho—1902.

Fernandes Thomaz.

Março—1903.

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Março—1903.

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Abril—1903.

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Maio—1903.

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Maio—1903.

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Maio—1903.

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Maio—1903.

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Junho—1903.

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Junho—1903.

As recepções em casa do sr. conselheiro João Arroyo, constituem sempre um acontecimento na nossa sociedade elegante. O talento multiforme do illustre parlamentar, que é um artista de raça, converteu o antigo palacete da rua do Telhal em uma das residencias mais notaveis de Lisboa, tanto sob o ponto de vista da decoração dos salões, como pelas preciosidades do mobiliario e valiosas collecções de arte ornamental que elles encerram.
Não se encontra ali um “bibelot„ que não seja um objecto de arte ou não faça parte de uma collecção, paciente e sabiamente reunida e disposta com perfeito gosto e conhecimento. De todos aquelles raros objectos que se agrupam pelos tampos dos buffetes, das commodas e dos contadores seculares ou nas prateleiras dos armarios e «vitrines», resalta sempre uma vibrante nota de arte, que define o criterio do colleccionador e marca fundamente o seu temperamento esthetico. A sala dos xarões e dos cobres e bronzes esmaltados e «cloisonnés» é por certo a mais bella que existe no nosso paiz, e só por si basta para aferir o elevado grau que occupa o colleccionador no nosso meio artistico. Ha, porem, muito mais, tão bom ou melhor que admirar nas salas do sr. João Arroyo, as quaes dão aos «gourmets do bric-a-brac» a impressão de verdadeiros escrinios de arte. Nestes casos estão a graciosa collecção de figuras e mascaras chinezas, a preciosa exposição de leques, cujos pannos ostentam as mais lindas illuminuras dos pintores francezes do seculo XVIII ou são apenas formados de finissimas rendas a ponto, de Allençon ou de Bruxellas; os limpidos cristaes da Bohemia e os finissimos vidros de Veneza; as raras faianças da China, e de Saxe; as soberbas «boiseries» da casa de jantar, bello trabalho decorativo no estylo Renascença, do architecto Bigaglia, com o seu fogão monumental, o seu grande lustre de ferro forjado e as prateleiras dos «lambris» repletas de exquisitas pratas, faianças e cristaes.

Por toda a parte, emfim, desde o vestibulo e da galeria da escada até ás salas do jogo, quadros a oleo das escolas italiana, flamenga, hollandeza e franceza, tapeçarias de Gobelins e do Oriente, colchas da India e da Persia, tudo quanto o persistente e criterioso esforço de um artista e o bom gosto de um homem elegante poude colleccionar, tudo chama a nossa attenção, que só encontra ali maior attractivo no bondosissimo tracto da illustre dona de casa, a sr.a D. Maria Thereza Pinto de Magalhães (Arriaga) e na conversa scintillante de seu marido, um dos mais espirituosos e interessantes cavaqueadores da nossa sociedade, e que tem tido naquella senhora uma valiosa collaboração artistica, assignalada em mais de uma das preciosidades que se contem na sua bella residencia.
Por tudo isto, o «raout» de hontem esteve concorridissimo e encantou todos os convidados dos illustres amphitriões, entre os quaes estavam:

Conselheiro Hintze Ribeiro e esposa, ministros da justiça, obras publicas, guerra, fazenda, marinha e esposas, nuncio de S. S. e secretarios, Rouvier, ministro da França e esposa, ministro de Hespanha e esposa, conde e condessa de Azevedo, Miguel da Motta e esposa, monsieur e madame Bruno, marquez da Foz e filha D. Marianna, duqueza d'Avila, condes d'Avila, marquezes de Guell, marqueza de Bellas, conselheiro Schroeter e esposa, Costa Pinto e esposa, conselheiro José Vianna, Pedro Diniz e filha, Carlos Ribeiro Ferreira e esposa, viscondessa de View e filhas, José Sassetti e esposa, viscondes de Santo Thyrso, conselheiro Germano Sequeira e esposa, condes de Paçô Vieira, almirante conde de Paço d'Arcos, Sarrea Prado, conselheiro Achilles Machado e esposa, conselheiro José de Azevedo e esposa, conselheiros José e Antonio Arroyo, conselheiro Matheus dos Santos e esposa e filha, condes de Sabroso, conselheiro José Ribeiro da Cunha e esposa, José E. de Barros e esposa, Joaquim Lima, Alberto Braga, João de Freitas Rego, F. Baerlein e esposa, Albino Freire d'Andrade, viscondes de Mangualde, conselheiro Ferreira Lobo Francisco d'Aguiar, conselheiro Souza Monteiro, Barbosa Colen, conselheiro Deslandes e esposa, Terra Viana, esposa e cunhado, Carlos Blanch e esposa, D. Elisa Pinto de Magalhães e D. Luiza Pinto de Magalhães, Alberto Monteiro, conde de Mesquitella, Dr. Furtado e esposa, Virgilio Teixeira, marquezes de Funchal, monsenhor Santos Viegas, conselheiro Moraes de Carvalho, Henrique Burnay, conselheiro Francisco Mattoso, Henrique Anjos e esposa, Carlos Soares Cardoso e esposa, conde de Verride, D. Juan de Castro e filha, Condes de Tattenbach, Alvaro Rego, conselheiro Poças Falcão e esposa, José Fernando de Sousa, barão de S. Pedro, conselheiro Thomaz Rosa, condessa d'Almedina e filha D. Luiza, Antonio Caria e esposa, M. Emygdio da Silva, etc., etc.

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Guerra Junqueiro.

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Junho—1903.

Junho—1903.

Junho—1903.

Junho—1903.

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Junho—1903.

Junho—1903.

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Junho—1903.

Junho—1903.

Junho—1903.

Junho—1903.

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Junho—1903.

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Junho—1903.

Junho—1903.

Junho—1903.

Julho—1903.

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Setembro—1903.

Outubro—1903.

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José Luciano encerra o Parlamento.—Caricatura inedita de Celso Herminio.

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Outubro—1903.

Outubro—1903.

Dezembro—1903.

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Fevereiro—1904.

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Março—1904.

Março—1904.

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Março—1904.

Abril—1904.

Março—1904.

Abril—1904.

Abril—1904.

Abril—1904.

Abril—1904.

Abril—1904.

Maio—1904.

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Junho—1904.

Julho—1904.

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Celso Herminio.

Dezembro—1904.

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Dezembro—1904.

...«Ha uma lei que domina todas as outras na historia da humanidade: nenhuma instituição vive, se sustenta e se radica senão pelo amor á liberdade. A lei, em virtude da qual existem instituições liberaes, cumpriu-se nos nossos annais contemporaneos. De 1851 a 1885 tivemos um periodo de liberdade e de paz. Foi um periodo de ascensão liberal.
«Aboliu-se a pena de morte, e só por esse feito se proclamou pela lei o direito á Vida. Proclamou-se esse direito com toda a sua elevação, dando a todos, inclusivamente aos indigenas das nossas colonias, onde se acabou com a escravatura, a faculdade de existir espiritualmente, como uma personalidade moral. Alargou-se a liberdade religiosa, tornando-a efectiva com o registo civil. Alargou-se a liberdade economica pela extinção dos bens de mão morta, pela abolição dos monopolios e pela criação legal das associações de socorro mutuo e das cooperativas. Dilataram-se as liberdades politicas com a extensão do sufragio e representação das minorias. Descentralizaram-se os municipios, deram-se as maximas franquias aos distritos e até se exarou na Constituição o principio liberal da eleição parcial da Camara dos Pares. Nesse periodo, que começou ouvindo-se a voz do grande tribuno José Estevão, parece que resoaram até ao final os acentos do seu verbo eloquentissimo.

«Essa epoca venturosa termina com a morte de Sampaio, Braamcamp e Fontes. E a prova de que todos os partidos colaboravam nessa grande obra de pacificação e de liberdade, está em que foi o conservador Fontes quem mais contribuiu para ella.
«Os partidos de governo definem-se pela sua concepção da constituição nacional: Constituição liberal, partido liberal; Constituição arbitral, partido reaccionario. Porque o arbitrio póde ser, num dado momento, a liberdade; mas sempre se converte por fim em absolutismo.
«No periodo de iniciação liberal fez-se a Constituição quasi republicana de 1822, e, em troca, os constitucionais da campanha da Terceira, do Cerco do Porto, de Almoster e da Asseiceira, tiveram a carta outorgada de 1826, que foi, consoante o livre alvedrio do imperante, a liberdade com D. Pedro IV, e a opressão com D. Maria II. Em oposição á carta outorgada, Passos Manuel e os setembristas fizeram a democratica constituição de 1838, decretada pela vontade da nação.
«No segundo periodo da nossa vida constitucional, que abre com José Estevão e se encerra pouco depois da morte de Sampaio, periodo que inaugura entre nós o parlamentarismo, os regeneradores fizeram os actos adicionaes de 1852 e de 1885, que são verdadeiros pactos constitucionaes, e não intervalos historicos, mas reformistas, constituintes, republicanos, que apresentavam os seus projectos, qual delles mais avançado, da reforma constitucional.
«De 1886 até hoje sopra um vento imperialista. A inspiração, em vez de vir da Inglaterra liberal, vem da Alemanha cesarista. O partido progressista faz a centralisação dos serviços materiaes. Segue-se-lhe, no Poder, o partido regenerador, e faz a centralisação dos serviços espirituaes na instrucção, e depois dissolve as associações, rasga as liberdades municipaes, acaba com as representações das minorias, legisla dictatorialmente... E, por fim, para que toda esta centralisação não suscite uma revolução violenta, promulga a lei sobre o anarquismo, que é uma ameaça sempre suspensa sobre todos os liberaes.

«Antes de 86, o partido republicano, como partido de tal natureza, não era um perigo. Caminhava-se lentamente, pacificamente, para a Republica, e não haveria ninguem tão insensato que sonhasse fazer uma revolução para conseguir pela força o que se conseguiria, num prazo fatal, pela lei e pela liberdade. Além disso, ninguem faz revoluções por meras fórmas. Nós, os verdadeiros liberaes, duvidamos se não é preferivel uma monarchia, com todas as liberdades efectivas, com todas as descentralisações vivas, ou uma Republica como a francesa, em que o Poder central é omnimodo, e o regimen autonomo local nulo.
«Depois de 86, fracassadas todas as tentativas para regressar ao antigo caminho constitucional; fracassada a grande, generosa e derradeira tentativa de 93 a 94; com a fazenda publica em bancarrota; com todas as liberdades suprimidas; com a pena de morte restabelecida para os delictos militares e até para certos delictos civis; com a politica do engrandecimento do Poder Real no seu auge,—toda a gente pensa na Republica, porque ella não é já uma questão de mera fórma mas sim um problema organico de vida ou de morte para Portugal...

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«Os partidos estão em dissolução. O regenerador, com dois chefes; o progressista, com a perspectiva tremenda de uma herança tempestuosa. Mas poder-se-hão reconstituir dentro da monarchia? Andam varios nomes de boca em boca: os dos srs. Dias Ferreira, visconde de Chancelleiros, Costa Lobo, Augusto Fuschini, Anselmo d'Andrade e Augusto de Castilho. Viu-se, porém, o caso da monarchia rodear-se d'esses homens de positivo merito? São convidados sequer para as suas festas, que são oficiaes e não particulares?
«Entenderá e quererá a monarchia apoiar-se nas classes trabalhadoras, visto a burguezia estar contaminada? Foi esse o sonho do socialismo do Estado de Oliveira Martins e talvez o do militarismo democratico de Mousinho de Albuquerque. Mas a monarchia não soube aproveitar-se nem de um nem doutro. Oliveira Martins morria politicamente poucos mezes depois de ser chamado ao governo. Mousinho de Albuquerque não chegou sequer aos conselhos da Corôa, e suicidou-se. A monarchia tinha para a realização desse programma, alem d'esses homens, a voz mais eloquente dos nossos dias, a de Antonio Candido, successor de José Estevão, que teria sabido conquistar as massas populares, e para captar as simpathias internacionaes um diplomata, o marquez de Soveral, que pelas suas maneiras e espirito, é da raça dos Palmellas. Aproveitou-os, porventura? Antonio Candido, desiludido, emudeceu. O marquez de Soveral nada mais pode fazer do que abrandar o protectorado inglez.
«Hoje as massas afastam-se cada vez mais da monarchia, porque, como tudo se concentrou no Poder Real, todas as responsabilidades se lhe atribuem; o protectorado inglez serve para salvaguarda da monarchia; a ruina financeira do paiz vem da confusão dos dois erarios, e até o jesuitismo, se bem que não se imputa ao rei, é comtudo imputado aos que o rodeiam.

«Não é licito pois esperar a salvação dentro da monarchia. Por grande que seja a cultura do chefe do Estado, por muito que seja o seu valor, a empreza da nossa regeneração não é para um individuo só. Só a nação é que pode erguer sobre os seus hombros tão imenso peso.
«E não se diga que a monarchia está identificada com a independencia da patria. A nação foi, com efeito, sempre monarchica; mas desgraçadamente a monarchia tem-se encarnado na monarchia usurpadora dos Filippes, no governo napoleonico de Junot, no governo de Beresford, sob Jorge IV. A monarchia teve um papel soberano no começo da nossa Historia, mas foi-se gradualmente divorciando do povo.
«E as nossas alianças? Essas não são dos reis, mas dos povos. A aliança da Inglaterra é com Portugal, e não com as suas fórmas de governo.

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«A Republica em Portugal é necessaria para elevar a sua cultura, para acabar com o numero incrivel de analfabetos, para se consagrar á educação do povo. O estado actual o demonstra: tanto é certo que quando sofre a liberdade sofre tambem com ella a instrucção.
«A Republica em Portugal é necessaria para que a religião seja a união das almas pelo amor, como na economia social o é pelo trabalho. As ordens religiosas atacam não só o Estado como a verdadeira religião, cujos primeiros vinculos devem ser o amor da familia, a cooperação economica e o progresso politico da sociedade. O primeiro é combatido e negado pelo voto de celibato; o segundo pelo voto de pobreza, e o terceiro pelo voto de obediencia servil.
«Torna-se necessario defender a religião como um principio immanente de justiça e de bem, e não como uma superstição e um instrumento politico. O partido republicano não pretende destruir a religião; o que nós pretendemos é tornal-a sincera e pura, tornando-a voluntaria e livre.
«A aspiração do partido republicano encerra-se nestes tres principios: liberdade politica, liberdade economica e liberdade religiosa. Em nome de todos que querem saber, e não podem, oprimidos pela reacção politica, essa infinidade de creaturas analfabetas; em nome de todos os que querem trabalhar e não podem, oprimidos pela reacção economica, essa infinidade de proletarios; em nome de todos os que querem amar e ser bons e em cujo seio a reacção religiosa lança a semente de odio; em nome dessa infinidade de santas e piedosas mulheres que o clericalismo tenta desvairar e arrastar para fóra dos seus deveres; pelos pobres, pelos humildes, pelos fracos, saudemos a Liberdade e com ella o unico partido que hoje a sustenta e defende em Portugal: o partido republicano.
«Se a Republica que não pede senão o restabelecimento e o respeito á lei, não vier bem depressa, corromper-se-ha e perder-se-ha o santo fundo deste povo exemplar, um dos modelos de virtude, de paciencia e de resignação que existem sobre a face da terra».

Dezembro—1907.

Dezembro—1907.

Dezembro—1907.

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Janeiro—1908.

Janeiro—1908.

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Janeiro—1908.

Janeiro—1908.

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Janeiro—1908.

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Janeiro—1908.

Gomes Leal.—Desenho de Antonio Carneiro.

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Janeiro—1908.

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28 de Janeiro—1908.

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30 de Janeiro—1908.

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31 de Janeiro—1908.

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1 de Fevereiro—1908.

Senhor—São bem conhecidas de Vossa Magestade as occorrencias dos ultimos mezes, em que uma pequena minoria d'elementos revolucionarios criminosos tem ultimamente procurado impedir a vida politica e representativa do Paiz, alterar a ordem publica e pôr em perigo a segurança das pessoas e das propriedades.
Imperturbavelmente tem o governo obedecido ao proposito de limitar a acção das medidas de circumstancia á esphera restricta de legitima defeza social, reduzindo-as ao que de momento se tem afigurado absolutamente indispensavel, sempre na esperança de que essa publicação fosse um meio preventivo sufficiente e constituisse aviso efficaz aos agitadores.
D'essa ordem d'ideias derivaram o decreto de 21 de Junho sobre publicações attentatorias da ordem publica e o de 21 de Novembro sobre crimes contra a segurança do Estado, das pessoas e das propriedades.
Factos dos ultimos dias vieram, porém, demonstrar que as tentativas e propositos criminosos, longe de afrouxarem, se teem mantido obstinadamente e aggravado a ponto de ser urgente e indispensavel o rapido afastamento do nosso meio social dos principaes dirigentes e instigadores d'esta pertinaz conspiração contra a paz publica e segurança do Estado antes que perdas lamentaveis de vidas venham accrescentar se ás desgraças já occasionadas e, porventura, originar prejuizos irremediaveis ao credito publico e á fortuna nacional.
Ha poucos dias ainda, o governo da Nação vizinha apresentou ás côrtes um projecto de lei que auctoriza a fazer sair do reino por deliberação do conselho de ministros, sob prévia informação das auctoridades locaes, as pessoas que pertençam a associações hostis á ordem social e que de semelhantes principios façam propaganda, e como sejam estes factos muito graves e perigosos, seguramente não o são mais nem podem ter mais larga, mais profunda repercussão em toda a vida nacional que os tramas e attentados para mudar violenta e criminosamente a forma de governo de Estado.

N'essa ordem d'ideias, procuramos com o presente diploma, habilitar tambem o governo com a faculdade d'expulsar do Reino ou fazer transportar para uma provincia ultramarina aquelles que, uma vez reconhecidos culpados pela auctoridade judicial competente, importe á segurança do Estado e tranquillidade publica e interesses geraes da Nação afastar, sem mais delongas, do meio em que se mostrarem e tornarem perigosa e contumazmente incompativeis.
Não podem, por egual, gosar immunidades parlamentares aquelles que contra a segurança do proprio Estado se manifestam ou que como inimigos da sociedade se apresentam.
Taes são, Senhor, as principaes disposições do diploma que tenho a honra de submeter á apreciação de Vossa Magestade.
Paço, em 31 de Janeiro de 1908. João Ferreira Franco Pinto Castello BrancoAntonio José Teixeira d'AbreuFernando Augusto Miranda Martins de CarvalhoAntonio Carlos Coelho Vasconcellos PortoAyres d'Ornellas de VasconcellosLuciano Afonso da Silva MonteiroJosé Molheira Reymão.

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1 de Fevereiro—1908.

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D. Carlos I de Portugal.

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3 de Fevereiro—1908.

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Fevereiro—1908.

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8 de Fevereiro—1908.

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Morte aos Sanguinarios
Afonso Costa, Alpoim, Ribeira Brava,
os Verdadeiros Assassinos
DE EL-REI E DO PRINCIPE REAL.

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11 de Fevereiro—1908.

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Oliveira Martins.—Desenho de Antonio Carneiro.

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Fevereiro—1908.

20 de Fevereiro—1908.

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Fevereiro—1908.

Fevereiro—1908.

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Fevereiro—1908.

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Fevereiro—1908.

Março—1908.

9 de Março—1908.

Março—1908.

Março—1908.

Março—1908.

Abril—1908.

Novembro—1908.

Dezembro—1908.

Janeiro—1909.

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Janeiro—1909.

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Janeiro—1909.

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Fevereiro—1909.

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Fevereiro—1909.

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25 de Fevereiro—1909.

Março—1909.

6 de Março—1909.

Boas noites, meus senhores...

Março—1909.

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Março—1909.

Março—1909.

Março—1909.

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Março—1909.

Março—1909.

Abril—1909.

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Novembro—1909.

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Dantas Baracho.—Caricatura inedita de Celso Herminio.

Novembro—1909.

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«Um caso singularissimo poz recentemente a policia na pista d'uma conspiração de aventureiros que punham o seu braço ao serviço do radicalismo, promptos para tudo quanto lhes fosse ordenado em nome... da utopia. Uma longa serie de crimes politicos que datam do regicidio e cujos auctores até agora tinham ficado envoltos no mysterio, coloca em evidencia os factos preteritos e abre um caminho seguro para a liquidação das responsabilidades. Hoje ninguem duvida da existencia d'uma sociedade secreta que, sob a aparencia de loja maçonica, é o verdadeiro poder executivo do partido revolucionario, o braço sempre prompto a ferir, a espada que cae traiçoeiramente sobre as victimas designadas pelos dirigentes da politica radical?

Ninguem ignora em Portugal as circumstancias em que se desenrolou o regicidio. Na confusão da tarde tragica, a policia cae sobre dois dos regicidas e mata-os em legitima defeza. Mas permanece sempre firme a convicção de que os regicidas não eram sómente Buiça e Costa, que pagaram com a vida o seu delicto! Esta convicção fundava-se em factos de ordem material e moral, sobre os quaes não havia duvida de especie alguma. A prova moral da existencia d'outros cumplices reside na impossibilidade do atentado haver sido organisado e levado a efeito apenas por dois homens. A prova material forneceram-na numerosissimas testemunhas que viram a carruagem real ser alvejada, simultaneamente, de varios pontos e observaram a fuga de alguns dos cumplices do regicidio, um dos quaes, perseguido pela policia quando fugia, com o rewolver fumegante em punho, conseguiu perder-se de vista ao voltar uma rua, confundindo-se depois com a multidão espavorida que fugia do logar do crime.
É um vulgar principio de investigação judiciaria que os deliquentes se devem procurar entre aquelles a quem o delicto aproveita. Ora quem podia aproveitar com a carnificina da familia real? Se houvesse produzido uma mudança politica, aproveitavam evidentemente os republicanos cujo triumpho teria sido d'esta arte facilitado. Se tivesse originado apenas (como realmente produziu) uma substituição de governo resultaria proveitosa para os mesmos republicanos aos quaes João Franco havia fechado todos os caminhos. Vendo presos os seus principaes chefes e ameaçada toda a sua organisação, os republicanos esperavam reconquistar, com um golpe de mão, as posições primitivas. Não ha outras hypotheses a considerar, visto que o crime não podia ter sido perpetrado por uma conspiração de monarchicos nem representa um caso individual de terrorismo porque os regicidas não eram anarchistas.

O Buiça e o Gosta eram republicados militantes: trabalhavam nas ultimas filas dos revolucionarios. Livres pensadores, pertenciam á sociedade de propaganda d'onde, de resto, teem sahido todos os criminosos politicos. Homens de acção, pertenciam a uma loja secreta, a «Montanha», mixto de instituição maçonica e de comité revolucionario, sem local fixo e sem estatutos, que se reune a um simples convite dos jornaes da seita, ninguem sabe onde e que se compõe de homens capazes de tudo. Tudo deixa crer que o regicidio foi ahi deliberado e que, como é costume, os executores foram tirados á sorte, visto que apenas o sorteio explicava a escolha d'um dos regicidas, cujo passado se não ilustra com actos de grande coragem individual.
Mas sobre o regicidio, que inaugura a conhecida série de delictos politicos, não mais se tratou de fazer luz. Não se chegou a apurar quem foram os cumplices da emboscada e, se porventura se tentou esclarecer o caso, acabaram por concluir que era melhor guardar silencio sobre elle. No entretanto, occorriam novos factos que vieram documentar melhor a existencia d'uma organisação que liquidava pelo assassinio as dificuldades susceptiveis de embaraçar o movimento revolucionario. Poucos mezes depois do regicidio, um humilde engraxador apresentava-se á policia perfeitamente apavorado e narrava que dois republicanos lhe tinham proposto lançar uma bomba no coche que devia conduzir D. Manuel ao Parlamento. A declaração era verdadeira? Ignoro-o. Mas a policia prende os dois mencionados instigadores, um dos quaes é fulminado por uma congestão cerebral no gabinete do juiz. Este, quando se prepara para colher do denunciante novos esclarecimentos, vê o engraxador morrer envenenado n'um hospital no meio de horriveis aflicções. O desventurado declarava que morria por haver dito a verdade. Por falta de provas o processo foi archivado, o que poz de bom humor a imprensa revolucionaria, que já se dispunha a desviar a opinião publica com um diversivo.

Poucos mezes depois outro crime vem afirmar a existencia da seita. Alguns militares acusados de terem tomado parte no movimento revolucionario de 28 de janeiro, foram condenados a penas graves pelo tribunal, graças ao depoimento d'um sargento chamado Lima, que se insurgiu e referiu o facto aos seus superiores. O sargento passeava um dia em Setubal, para onde fôra transferido, quando um revolucionario se lançou contra elle e lhe cravou um punhal no coração. O assassino, preso quando fugia, allega uma historia inverosimil de rivalidade que as investigações policiaes desmentiram. Quanto á opinião da auctoridade e dos que conhecem de perto as scenas, referidas anteriormente, da quadrilha revolucionaria, é clara e expressa: o sargento foi condemnado á morte por ter denunciado a existencia da conspiração.
Dois suicidios mysteriosos—um sob o comboio de Cascaes, outro na redacção d'um jornal revolucionario—parecem ter intimas relações com a existencia da Mão Negra local.
Diz-se que os suicidas, designados para certos cometimentos, preferiram escapar pela morte ás intimações d'uma implacavel organisação secreta. Não faço aqui menção do caso das bombas explosivas com que ultimamente pretenderam alvejar algumas egrejas, depois da execução de Ferrer. Não ha provas da intervenção da Mão Negra, mas simples indicios de presumpção. Mas o que acabou de esclarecer o paiz sobre a existencia d'uma formidavel e perigosa associação secreta foi o recente crime de Cascaes, a que os jornaes independentes dedicaram longas columnas.
Vão decorridos alguns mezes depois que na administração das alfandegas se descobriu um importante furto de armas, que estavam para chegar ao seu destino. A ausencia d'um operario da fabrica de armas provou a sua responsabilidade no furto, logo confirmada pela captura d'um cumplice—um dos implicados na revolução republicana de 28 de janeiro—que era o receptador das armas roubadas. Já a policia averiguou o destino das armas, que se reservavam, com a complacencia de empregados aduaneiros, ao movimento revolucionario, quando no meio dos rochedos das arribas de Cascaes, a oito kilometros de Lisboa, se encontra assassinado mysteriosamente o empregado da alfandega, auctor do furto.

Com os documentos que lhe encontraram nas algibeiras e com as indicações fornecidas pela familia do assassinado, a policia reconstituiu facilmente o crime. O pobre empregado, vendo descoberto o furto das armas, dirigiu-se aos que o tinham impelido e suplica-lhes que o salvem. Deram-lhe dinheiro para transpôr a fronteira com promessa de o sustentarem no estrangeiro e o homem refugiou-se em Badajoz, territorio hespanhol. Mas o dinheiro falta; as promessas não são mantidas e o refugiado escreve aos que o haviam levado ao crime, suplicando socorro. Como não obtivesse resposta, ameaça-os com declarações. A Mão Negra destaca para Badajoz um dos seus agentes, que o conduz a Lisboa enganado com promessas de continuar a viagem para Africa; na primeira ocasião levam-no a Cascaes a fim de seguir ocultamente para o seu novo destino e matam-no, arrastando-o para o mar e precipitando-o do alto das ribas.
O assassino foi preso na fronteira, quando tentava refugiar-se em Hespanha, e conduzido a Lisboa, sob rigorosa escolta. Aqui, depois de alguns dias de apertados interrogatorios, apanhado em contradição, não sabendo explicar as manchas de sangue que tinha no fato, confessa finalmente que cometera o crime,—e que, além de ser antigo empregado n'um centro republicano, é membro da associação secreta a «Montanha», como os regicidas, como os auctores dos outros crimes politicos. É a existencia da Mão Negra averiguada e confessada.

Os jornaes da seita, republicanos e revolucionarios, perante esta sensacional descoberta, mantiveram a principio o maior silencio; jornaes que costumavam ocupar columnas com o mais insignificante acontecimento, evitaram, por todos os modos, referir-se a elle. Depois, desesperados por não poderem conservar-se calados, começaram a agredir violentamente e, por ultimo, a ameaçar a imprensa independente que, mostrando-se bem informada, se ocupou dos factos com uma certa largueza. E, emquanto a imprensa vermelha assim procedia, a policia vinha a saber que os revolucionarios tinham projectado fazer evadir o preso e teve a finura de o transferir do deposito de segurança para uma caserna militar, onde está de sentinella á vista.
Por outro lado, diz-se que as declarações relativas ao crime de Cascaes revelaram uma nova pista para a descoberta dos regicidas e a policia afadiga-se no intuito de descobrir e prender os membros da Mão Negra. Alguns jornaes lembram, a proposito d'este facto, a fuga precipitada de certa personagem para o estrangeiro. A Mão Negra é uma especie de comité executivo, dentro do qual se encontra todo o elemento revolucionario. Disporá o Estado de força para resistir a esta formidavel organisação que nem sequer hesita ante o crime?
A experiencia da fraqueza dos governos, que se sucederam no poder após o regicidio, não auctorisa a responder tranquilamente a esta interrogação...»

Dezembro—1909.

Dezembro—1909.

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Dezembro—1909.

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Dezembro—1909.

23 de Dezembro—1909.

Dezembro—1909.

Do Imperador, de quem diz que é filho,
Tem o retrato na sala,
Mas da p... que o pariu
Não tem retrato nem fala...

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Janeiro—1910.

Janeiro—1910.

José Maria de Alpoim.

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Janeiro—1910.

Fevereiro—1910.

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Março—1910.

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Março—1910.

Março—1910.

Março—1910.

Abril—1910.

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1 de Maio—1910.

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Junho—1910.

PROPAGANDA ELEIÇOEIRA
DO BLOCO PREDIAL

(Musica—A MARSELHEZA)
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Ide escravos quebrar os grilhões,
As algemas da fome homicida;
Armas promptas contra esses ladrões,
Que nos roubam a bolsa e a vida! (bis)
Nova aurora de Paz, Redempção,
Vá doirar nossos valles e cerros,
Libertando os captivos dos ferros,
Dando aos pobres a luz e o pão.
Avante! Lusitanos!
Largae a servidão! Unir! Unir! contra os tyramnos, Salvemos a Nação!
Avante Lusitanos,
Salvemos a Nação.
Tareco.

«O rei D. João I da gloriosa dynastia de Aviz, enamorou-se da filha de Pero Esteves, sapateiro alemtejano, conhecido pela alcunha O Barbadão; d'estes amores nasceu um filho que foi conde de Barcellos e primeiro duque de Bragança; casando este com uma filha do condestavel Nun'Alvares, deu origem á nobre casa que ha 267 annos reina em Portugal.
A casa de Bragança foi-se engrandecendo á custa de doações regias, bens nacionaes que os reis cediam em usufructo apenas, e que o capricho do soberano ou a conveniencia do Estado, podiam fazer voltar ao seu legitimo proprietário: A Nação.
Não foram os serviços relevantes que engrandeceram esta casa, mas as intrigas continuas, salientando-se entre todas a que levou o glorioso infante D. Pedro á chacina de Alfarrobeira.
Com a revolução de 1640 que libertou Portugal do jugo da Espanha, o oitavo duque de Bragança foi aclamado rei com o nome de João IV; beato e poltrão liga-se aos jesuitas, e para salvar a pelle e o titulo de rei, não hesita em negociar por intermedio do padre Antonio Vieira (jesuita) a entrega do seu paiz á França, ou novamente á Espanha, a troco de o reconhecerem como rei do Brazil; a sua pessoa era tudo, o seu paiz era nada. Os melhores servidores do Estado foram lançados em prisões ou conduzidos ao cadafalso (o ministro Lucena, o marquez de Montalvão, Mathias d'Albuquerque vencedor de Montijo, etc.). O seu reinado foi coroado pelo presente que fez á Inglaterra, como dote de sua irmã, das cidades de Bombaim e Tanger, ricas flores de laranjeira que a infante portugueza levou prezas ao seu vestido de noiva!

Seu filho Afonso VI que no throno lhe sucedeu, corria de noite as ruas da cidade, com a sua purria fidalga, assaltando os cidadãos indefezos; era doido, e d'isso se aproveita seu irmão Pedro II para lhe tirar a corôa e... a mulher, com o consentimento do papa; este (Pedro II) dominado pelos jesuitas tambem, desterra o conde de Castello Melhor, glorioso ministro (que por tres vezes salvou Portugal da dominação espanhola), e celebra com a Inglaterra o vergonhoso tratado de Methwen, que nos tira o comercio do Oriente e nos impossibilita de montar fabricas e oficinas.
João V que lhe sucede, gasta o oiro que do Brazil lhe vem, na construção de conventos, em festas de egreja e em presentes ao padre santo; deixa perder sem enviar socorros, as nossas colonias da India, Ceylão e Oceania, porque o dinheiro era pouco para presentear as freiras de quem fez amantes e o papa de quem se fez lacaio.
José I faz morrer no cadafalso toda a familia Tavora, por meio de horriveis tormentos, com o pretexto de serem cumplices na conspiração do duque de Aveiro, o que se não provou, sendo a causa verdadeira a oposição que essa familia fazia aos seus amores adulteros com a marqueza; nada escapou ao seu furor sanguinario: nem velhos, nem mulheres, nem creanças. Para dignamente coroar o seu reinado, abandona aos mouros as cidades que possuiamos em Marrocos, e que tanto sangue portuguez custaram.

Teixeira de Sousa.

Maria I tira o poder ao Marquez de Pombal, entrega-o aos frades e endoidece; seu filho João VI que em seu nome governou e lhe sucedeu, foge covardemente para o Brazil abandonando o povo de que era rei, quando os francezes invadiram o paiz; Junot entra em Lisboa á frente de 70 soldados!!! Portugal revolta-se contra os francezes, e o rei entrega-o aos desprezos de Wellington e ás brutalidades de Beresford; os inglezes protegendo-nos, fazem-nos peor mal que os invasores: arrazam as nossas provincias, queimam as nossas fabricas, conquistam a Madeira, e impõem-nos os vergonhosos tratados de 1810, ainda peores que o de Methwen. O general Gomes Freire, por tentar libertar o paiz das garras inglezas, é enforcado em S. Julião da Barra; outros 17 martires pagam com a vida, no Campo de Sant'Anna, a sua dedicação patriotica. A revolução popular de 1820 salva Portugal do leopardo britanico, obriga o rei a voltar ao seu posto e liberta o exercito do oprobrio de ser comandado por oficiaes inglezes.
D. Miguel foi quem primeiro estabeleceu em Portugal um governo de força, á semelhança do que desejam actualmente alguns idiotas barriguistas; nada lhe faltava: as alçadas, as forcas, o cacete, 80.000 homens de tropa e um povo fanatico e imbecil; contra si, em todo o paiz, apenas tinha alguns liberaes desarmados; o seu retrato figurava nos altares, e as mães pediam-lhe a honra de lhes desflorar as filhas. Prende, enforca ou manda fuzilar toda a gente de que suspeita, mas com toda a sua força, deixa que uma esquadra estrangeira lhe escarre na cara e no Paiz, sem que um só tiro partisse a repelir a afronta. Este idolo poderoso cahe do seu pedestal de sangue, é corrido do throno pela revolução triumphante; seu numeroso exercito pouco a pouco o foi abandonando, vindo para o lado do povo liberal, e o bronco tigre que ao começar a guerra civil tinha 80.000 homens ás suas ordens, perde a batalha de Asseiceira com os 5.000 homens unicos que até esse momento lhe ficaram fieis.
Pedro IV, o que tem estatua no Rocio, revolta o Brazil contra Portugal, faz-se seu imperador e manda fuzilar no Rio de Janeiro os soldados portuguezes á traição; corrido do Brazil, volta a Portugal a tentar fortuna, dirigindo a guerra civil contra o irmão; emquanto esta se não decide a seu favor, não tem vergonha de offerecer á Inglaterra, em troca de auxilio desta, o pouco que nos restava do nosso imperio indiano.

Maria II para se aguentar no throno chama marujos inglezes e 30:000 soldados de Espanha; faz invadir a sua patria e assassinar o seu povo, para satisfação do seu orgulho de rainha liberal.
Pedro V não poude passar sem irmãs de caridade, e deixa que mansamente de novo se estabeleçam entre nós as congregações religiosas; novamente, um almirante estrangeiro (Lavaud) nos faz o mesmo que Roussin fizera em tempo de D. Miguel.
Luiz I arvora o cynismo em governo e faz reinar a bandalheira; deixa que na conferencia de Berlim nos roubem a maior parte do nosso territorio Africano, e conduz o paiz á bancarrota que estala pouco tempo depois da subida ao throno de seu filho Carlos. Este, esbofeteado pela Inglaterra, curva-se rasteiramente, chama piolheira á nação que lhe paga, e... rouba-a; rouba-lhe o seu dinheiro e rouba-lhe a liberdade; no seu reinado perdemos vastos territorios nas nossas colonias de Moçambique, Angola e Guiné. O seu ultimo ministro João Franco, que queria pôr tudo isto no xão atirou com elle ao chão. Seu filho Manuel II que lhe succedeu, com sua bella e radiosa mocidade, já deu a seu povo uma explendida amostra do muito amor que lhe tem: a chacina de 5 de abril (14 mortos e 100 feridos!); em troca o seu primeiro ministerio entendeu que o povo lhe devia dar mais ordenado; ainda não roubou como o papá, mas paga-se melhor; passa a sua vida de rozario na mão, envergando a roupêta de jezuita, seguindo os conselhos das fraldas femeninas reaccionario-palatinas.

Até hoje 14 reis da casa de Bragança teem governado o Paiz, e como se vê são os legitimos representantes duma nação de idiotas, barriguistas e poltrões; tambem não resta duvida que esta dynastia é, como tem sido, a mais solida garantia da integridade do nosso imperio ultramarino. Grandes são os beneficios que a Nação lhe deve: uma divida colossal de oitocentos mil contos, nenhumas industrias, nenhum commercio, uma agricultura atrazadissima, um povo tuberculoso e analphabeto, esmagado com impostos á mercê dos pontapés estrangeiros; nem exercito nem marinha; estradas ao abandono e bufos com fartura, taes são as fontes de riqueza que os Braganças nos deixam, e tudo isto por pouco dinheiro, baratinho: 365 contos por anno só para elle, mais 60 contos para a mamã, outros 60 para a vóvó e 16 para o titi; tem tambem para alfinetes 160 contos a mais por anno que o generoso Amaral lhe deu, pagamos tambem á sua guarda real de archeiros, á orchestra da sua real Camara, e ao seu yacht, e como isto é pouco, damos-lhe dinheiro pela honra que nos faz em alojar os seus cavallos e carros nas nossas casas e pela licença que nos deu de utilisarmos em serviço do Estado os nossos palacios; tudo isto, bem entendido, nada tem com os rendimentos da casa de Bragança que disfructa. Quando casar, se S. M. nos der essa felicidade, dar-lhe-hemos mais 60 contos para os alfinetes de sua esposa; e se tiver meninos? então morreremos de alegria e daremos 20 contos annuaes por cada pimpolho.
Como veem, não é pagar cara a certeza que temos de ganhar o reino do ceu pela mão do nosso radioso soberano, com a benção de Pio X, as indulgencias de Merry del Val e as preces solemnes do sr. patriarcha e do reverendo bispo de Beja.

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Junho—1910.

Julho—1910.

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«O rei de Portugal está exautorado, está reduzido a uma chancella de quem lhe bate os pés.
«Podia ser um rei, e é um simulacro da realeza.

«Em tempo algum se curvaram os reis perante ameaças de qualquer natureza e ainda menos, quando tendentes a esquecer os nossos protestos e juramentos a que está ligada a propria dignidade e a honra de uma nação.
«Póde asseverar-se que o snr. D. Manuel não chegou a ser rei. No momento em que se [esqueceu] do que devia á sua dignidade de nós todos, que lhe confiamos um cargo, que é incapaz de conservar sem o deixar cair, o snr. D. Manuel deixou de ser rei».

A SOCIEDADE ELEGANTE

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O MUNDO POLITICO

Novembro—1918.

«No tempo da monarquia essa mesma maioria acomodaticia e pedinchona, só conhecia o caminho dos ministérios para ir importunar os secretarios de Estado com solicitações de empregos, de benesses, de estradas, de favores, até de escandalos. Não ia levar aos ministros uma ideia, um plano, a lembrança de um beneficio para o país. Ia procurar interesses, buscar comodidades, exigir condescendencias, sem se lembrar de que tudo isso custava, muitas vezes, dinheiro ao Tesouro Publico e só causava prejuizos á nação.
Depois, quando a tempestade bramia e as moscas varejeiras zumbiam em tôrno da montureira politica, essa mesma maioria, de larga guela e incomensuravel ventre, era a primeira a gritar contra as imoralidades que provocara, contra os atropelos da lei que impuzera, contra os êrros de administração que imperiosamente reclamara! Para essa maioria prudente... e de muito comer, os culpados de tudo—criminosos execrandos!—eram o Rei, os ministros, os deputados, todos, emfim, que tinham na mão as rédeas da governação publica. Ella, a maioria exigente e dificil de contentar, era inocente e de tudo lavava as mãos.
Ella, a maioria composta dos influentes, dos caciques, dos compadres, dos despoticos senhores do país, que hoje se encolhem, transidos de pavor, e então barafustavam do alto do seu pedestal de mandões; ella, a maioria que ordenava, que dispunha de votos, que sabia impôr-se com arrogancia—ella, de nada era culpada e escondia o rosto púdico na alva clamide de vitima dos maus politicos!...
Veiu, por fim, a queda no abismo, em que se evidenciou a traição de muitos e a incompetencia de tantos. A maioria dos portugueses, se não delirou de contentamento, remeteu-se ao cómodo e discreto silencio em que se comprazem os covardes e os maus cidadãos, para só os interromper com murmurios de reprovação, soprados nos centros de conversa contra os politicos... que ella empurrára para o mau caminho e ajudara a despenhar no precipicio.
Oh! a maioria dos bons cidadãos de larga pança!...»

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«Ha uma coisa que aos governos nunca deve esquecer, que a lição da historia a cada instante repete: á revolução do alto, pode muito bem suceder que responda a revolução de baixo». (Correio da Noite, 14 de Maio de 1907).
«O presidente do conselho blazona e conta com o auxilio, sem duvida, poderoso e eficaz do Rei, e zomba da opinião publica, que tanto pretendeu captar, antes de subir ao poder? Faz mal, porque ha-de chegar e oxalá que chegue a tempo o momento em que El-Rei se recorde das suas palavras de ha um anno:

A responsabilidade do decreto, ainda que aparentemente só acto do poder executivo, recahe mais uma vez sobre o Rei, a quem todos hão de pedir a responsabilidade da sua assignatura». (Correio da Noite, 15 de Maio de 1907).

«Do alto deve descer o exemplo, e quando as acções dos que governam são de preversão e de crime, de corrupção e de suborno, de desbarato dos dinheiros publicos e de abuso do poder, os actos dos governados não podem ser de veneração e de paz, de obediencia e de acatamento.

«Aqui d'El-Rei—se nos pode ouvir El-Rei—contra quem mandou assassinar o povo de Lisboa.» (Correio da Noite, tarjado de luto). «Aparecem hoje, segundo ameaças do governo e segundo as suas notas oficiosas sempre irritantes á imprensa, decretos esmagadores. Tanto peor para o Rei e para as Instituições. As responsabilidades d'esses decretos, ainda que aparentemente só do poder executivo recairão mais uma vez sobre o Rei, a quem todos hão-de pedir a responsabilidade da sua assignatura. (Correio da Noite, 20 de Junho de 1907).

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FIM DO 1.º VOLUME