CRATES MALLOTES

Exembaixador do Rei Attalo, Exprofessor
de Letras Humanas em a Cidade
de Roma, Presidente Honorario
dos Grammaticos defunctos

Ao nosso amado Hospede Roberto Gúliver deseja muita Fortuna.

NAõ te posso explicar, amigo Inglez, as saudades, que deixaste em a nossa ilha, e quanto todos ficáram namorados do teu bom procedimento; por isto, e tambem pelo bom affecto com que te tractámos, he necessario, naõ te esqueceres das nossas recommendações, para que, depois do golpe da Parca, te associes comnosco. Muito bem observaste quantos homens grandes aqui habitam, Imperadores, Bispos, Condes, Generaes, &c. Depois disto aviva lá no mundo a nossa memoria, para naõ esquecer de todo:{121} o que te será pouco custoso, patenteando os justos açoites, que nos vistes descargar sobre o pedantismo deste seculo. Mas os Grammaticos Portuguezes, de quem muito nos prezamos, e os Hespanhoes, querem, que tu dívulgues as nossas lições em Portugal; naõ por necessitar mais dellas, do que as outras nações, mas porque lá ainda ha muitos sabios, a quem haõ de ser bem gostosas. Naõ temas nada: tudo o que disseres, he nosso, que nos lastimamos muito dos destemperos da humanidade. Se em fim por tamanha caridade houver quem te morda, de cá irá o medicamento, sem que pagues porte ao Correio. O portador desta he Despauterio, e pódes dizer áquelle amigo, que elle já naõ ralha dos outros, e que siga este exemplo. Ilha dos Mórtos 12 de Janeiro de 1800.

Apenas lí este passaporte, corrí como huma lebre a casa do Lord, que naõ sabia o que me fizesse. Logo me deu vestido, dinheiro, tudo. Mandou-me{122} sem perda de tempo pôr mãos á obra; e depois de a lêr carregou-me de elogios: e vai-se a imprimir por sua conta. Eu estou mui gostoso da sua approvaçaõ, por ser hum homem doutissimo, que naõ declaro para naõ cahir em incoherencia, que he o peor defeito de quem escreve.

FIM.