PROLOGO.
QUalquer que seja o estado, ó amicissimos Leitores, em que a sórte tenha collocado o homem, nunca já mais o pode dispensar de Fazer bem aos da sua raça: foi este devêr gravado no coraçaõ humano pelo dedo da propria Natureza; nem taõ pouco o Author Supremo lhe permittio a feia liberdade de derribar os alicerces mais seguros da ordem social. Estes motivos, julgo, obrigáram a meu avô a fazer suas viagens a differentes ilhas, donde vos trouxe bellos, e interessantes documentos, os quaes, a meu ver, muito vos aproveitariam, se bem trabalhasseis pelos entender. Eu pois naõ querendo deixar só em taõ louvavel projecto hum illustre progenitor, que honrou ainda mais a sua naçaõ, que a sua familia, fui, depois de alguns estudos sérios o unico patrimonio, que recebi de meu pai, passear pelo mundo, a fim de{VI} recolher os fructos, que a minha terra naõ houvera produzido. Agitado por isso destas boas intenções, viajei por todas as partes do orbe; e lá virá tempo, se a Parca o quizer, que eu deleite a vossa curiosidade com bocados bem gostosos. Entre tanto desfructai estas bem adubadas lições dos Grammaticos defunctos, que vos trago da ilha dos Mortos, á qual apportei naõ sei como, depois de haver naufragado dois dias antes, junto da Arcadia. Naõ me foge ser este presente bem digno da minha amada patria, e confio, que ella naõ rejeite as provas mais sinceras do meu affectuoso coraçaõ; ainda que por outra parte naõ desconheço mais quereria, que eu a mettesse de posse da dita ilha; mas naõ podendo ser a sua conquista senaõ depois da morte, só lhe dou o que cabe em a minha alçada: isto he, lições mui precisas, que a benignidade de Crates Mallotes, e de outros Grammaticos fallecidos muito me recommendou; e as quaes eu terei sem algum{VII} rebuço, e com a mesma franqueza de vos manifestar; já por ter lido isto expressamente mandado, como vereis, por gente da outra vida, com quem naõ se deve brincar; já por ser contra o meu decóro naõ pizar a feia, e çuja lisonja com os mesmos pés que correram pelas ingenuas provincias da eternidade.{VIII}
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