OS CATAVENTOS
| Quando deus queria, Do Norte chovia. | Quando Deus quer, com todos os ventos chove. | Vento e ventura, Pouco dura. |
Figs. 1 a 3
Chuvas de verão,
É como amores em vão.
Figs. 4 a 6
Figs. 7 a 10
| Figs. 11 a 12 | Ainda outro impedimento de orientação, mas mais ephemero, vem com a nevoa. Ha a esperar que se dissipe. E entretanto afugentam-a com esconjuros, com formulas rimadas. Em Meirinhos, no concelho de Mogadouro, os rapazes, quando pela manhã a olham, increpam-a e mandam-a para a Villariça: |
Névoínha peidorreira,
Vae para os cantos da ribeira,
Que está lá uma porca parida com leitões.
Come-lhe os leitões,
E manda a porca para os berrões.
| As grimpas, emtanto, sempre que as ha, são naturalmente observadas, uma vez que este simples apparelho, limitado frequentemente a uma bandeirola movendo-se em torno d'um eixo vertical, indica a direcção do vento e, derivativamente, certos estados atmosphericos. Rara é a torre que não remata em veleta. De dia, pois, e sem nevoa, a freguesia tem na séde o instrumento que logo a elucida, mais ou menos grosseiramente, sobre o tempo provavel. | Figs. 13 a 14 |
| Figs. 15 a 16 | Este apparelho, a um tempo orientador e ornamental, procede da alta edade-media tendo sido a principio um signal de nobresa[1] e portanto um privilegio senhorial[2]. Além das edificações nobilitarias, só tinham direito a exhibil-as as construções ecclesiasticas. De sorte que figuravam muitas vezes as armas do mosteiro e do senhor em recorte na chapa, pintadas ainda e douradas, ou outros symbolos da heraldica, como corôas e leões rompantes. Nos seculos XIV e XV as grimpas convertem-se em verdadeiros ornamentos. E como desde os fins do seculo XI a torre, depois de ter sido uma fortificação que protegia a egreja, comece a prestar-se ás funcções se multipliquem com uma liberdade cheia de phantasia, tornando-se um poderoso instrumento de decoração e de orgulho para cathedraes e mosteiros[3], as proprias ornamentações dos remates mais se acuminam e alindam. Umas vezes a decoração exclue a ventoínha e apenas consiste em combinações de folhas e flores, aves e outra fauna de imaginação, figuras humanas e cupidos, de loiça, ferro, chumbo ou zinco e do mesmo passo notaveis pela belleza de execução e graça[4]. É a estes ornamentos em ponta que correspondem, nos monumentos arabes, as terminações aceradas que um crescente fecha[5]. As mais das vezes, porém a veleta apparece sob a forma de monstros alados, dragões e animaes phantasticos[6], do archanjo S. Miguel, anjos e navios[7], do gallo principalmente[8], tudo mais ou menos historiado e até, da Renascença ao seculo XVII, com a assignatura ou inspiração d'um artista emerito[9]. |
Figs. 17 a 19
Figs. 20 a 23
Figs. 24 a 27
Figs. 28 e 29
Figs. 30 e 31 | A serralheria portuguesa concorreu tambem, com a humildade
caracteristica da industria popular nacional, para a indigente
ornamentação dos acumes das torres e, mais restrictamente, de
castellos, de pharoes, de pelourinhos (Rates), de chafarizes
(Barcellos), de moínhos, de telhados, de chaminés (Alemtejo) e até
d'um mastro ou varo ao alto, em campos e quintaes. Dominam, todavia,
as de ferro nas egrejas. A flecha, designadamente adstricta a indicar
o rumo do vento, é simples, associada a folhagens, á cruz e á esphera
armillar, recortada outras vezes e até modificada na sua configuração
habitual, substituindo-se por um sol a massa posterior e mais pesada.
São exemplos as que se vêem em muitas habitações particulares ([fig. 1]),
a do convento dos dominicos de Amarante ([fig. 2]) e a do santuario da
Senhora da Abbadia ([fig. 3]).
[a]Fig. 32] A combinação da bandeirola e da flecha é patente na egreja de S. Victor, em Braga ([fig. 4]), pois a bandeira apenas, como as de Santo Thyrso, de Moreira da Maia, de Santo Ildefonso, no Porto, da Alcaçova, em Montemór-o-Velho, de Travanca ([fig. 5]) e da capella do Bom Despacho, em Ancêde ([fig. 6]), são menos communs na singelesa dos seus breves recortes. A regra é accusarem a suggestão da flecha, como a do pelourinho de Rates ([fig. 7]), a do Carmo de Braga ([fig. 8]), a da capella da Senhora da Graça de Villa Cahiz ([fig. 9]) e a do mosteiro de Refojos do Lima ([fig. 10]). E a desfiguração d'esse elemento sempre transparece, aliás, em exemplares como a da casa particular do Trasladario, nos Arcos de Val de Vez ([fig. 11]), ess'outra dos Arcos ([fig. 12]), a de Santo Antonio dos Frades, em Ponte do Lima ([fig. 13]), a do Populo, em Braga ([fig. 14]), a da Misericordia de Amarante ([fig. 15]) e a da matriz de Ancêde, em Baião ([fig. 16]). Com os mesmos accessorios da cruz e da esphera armillar, mas mais historiadas e accrescidas, são as da egreja do Espirito Santo, nos Arcos de Val de Vez ([fig. 17]), e a da capella de S. João do Souto, em Braga ([fig. 18])[10]. A do Oratorio da Senhora da Saude das Carvalheiras, n'esta ultima cidade ([fig. 19]), é apenas uma interessante substituição pelos cravos e a corôa de espinhos. |
Fig. 33
[a]Fig. 34]
[a]Fig. 35]
[a]Fig. 37]
[a]Fig. 36]
[a]Fig. 38]
[a]Fig. 39 a 41]
[a]Fig. 42]
[a]Fig. 43]
[a]Fig. 44]
[a]Fig. 45]
Fig. 46
[1] Viollet-le-Duc, Dict. raisonné de l'architecture française du X au XVI siècle, VI, voc. Girouette, pags. 28-9. Bauce ed. Paris, 1863.
[2] Camille Enlart, Manuel d'archéologie française depuis les temps mérovingiens jusqu'à la Renaissance, II, Architecture civile et militaire, pag. 177. A. Picard ed. Paris. 1904.
[3] Louis Gonse, L'art gothique, pags. 110-1. Quantin ed. Paris, s. d.—André Michel, Histoire de l'Art, capitulo de Camile Enlart, L'architecture romane, I, 2.ª parte, pags. 450-2. A. Colin ed. Paris, 1905.
[4] Henry Havard, Dict. de l'ameublement et de la décoration depuis le XIIIe siècle jusqu'à nos jours, II, voc. Épi, pags. 503-4 e figs. 339 a 342. Quantin ed. Paris, s. d.—Viollet-le-Duc, ob. cit., V, mesmo voc., pags. 271-87.
[5] Prisse d'Avennes, L'art arabe d'après les monuments du Kaire. Morel & C.ie eds. Paris, 1877.
[6] Havard, ob. cit., voc. Girouette, pag. 1099.—Viollet-le-Duc, ob. cit., VI, voc. Croix, pag. 427.
[7] Enlart, Manuel cit., pag. cit.
[8] Viollet-le-Duc, ob. cit., VI, voc. Croix, pag. cit., e voc. Coq, pags. 305-6.
[9] Havard, ob. cit., voc. Girouette, pag. 1100.
[10] Pela distancia e situação do desenhista em relação ao objecto esboçado, algumas das grimpas figuradas não apresentam o rigor de perspectiva nem a minucia de pormenor que os embaraços accusados explicam.
[11] Viollet-le-Duc, ob. cit., VI, voc. Coq, pag. 306.—Paul Sébillot, Les travaux publics et les mines dans les traditions et les superstitons de tous de pays, pag. 383. Rothschild ed. Paris, 1894.
[12] Viollet-le-Duc, ob. cit., VI, voc. Croix, pag. 432.
[13] Ribeiro Guimarães, Summario de varia historia, V, pag. 175. Rolland & Semiond eds. Lisboa, 1875.
[14] Filippe Simões, A Exposição retrospectiva de arte ornamental portugueza e hespanhola em Lisboa, pag. 78. Typ. Universal. Lisboa, 1882.
[15] Havard, ob. cit., II, voc. Girouette, pag. 1099.—Enlart, Manuel cit., II, pag. 177.
[16] Gabriel Pereira, O Campanario de S. Marcos, in Bol. da R. Assoc. dos architectos civis e archeologos portuguezes, serie IV, fasc. 5.º, pag. 32. Lisboa, 1902.
[17] Gabriel Pereira, Estudos eborenses, fasc. VII, pag. 25. Minerva eborense. Evora, 1886.
[18] Rocha Peixoto, Notas sobre a malacologia popular, in Revista de Sciencias Naturaes e Sociaes, I, pags. 75-90. Porto, 1890.