I
Era perto da noite. Voltava em companhia do tio Joaquim d’uma feira, que se fazia a duas leguas da quinta, onde estavamos. Tinhamos mettido os cavallos a passo, e depois de muito discorrer e matar tempo, a conversação, que esmorecera gradualmente, parára de todo.
Não o sei ao certo, mas quero o crêr; a tristeza que tanto se sente no campo na hora em que o dia desapparece pouco a pouco, influira para nos calar; e aquella doce melancolia, que acompanha o crepusculo da tarde, e que tanto nos faz scismar e crêr, obrigára-nos a interromper as fallas, que perturbavam aquelle silencio geral.
Só quem tem vivido fóra das cidades é que póde dar conta d’aquelle tempo de socego e de mudez, que determina a passagem da noite para o dia, e muito particularmente do dia para a noite.
As aves, os animaes, as arvores, as plantas e até a natureza insensivel, parece que entristecem n’aquelles momentos e que suspendem a vida, o movimento e o ruido: como que permanecem por instantes n’um estado de duvida e de receio, e temem vêr desapparecer de todo essa luz, que é a sua vida, e que então se some no horisonte, tinto por amor da sua ausencia com côres de tristeza e de dó!
Outras vezes, no meio da geral callada, alguns ruídos se apercebem; mas esses como a susto, como mais para significarem o esmorecer da vida do que a sua animação:—é o breve pio do mocho, é o som afastado dos chocalhos, são os timidos balidos dos rebanhos, é o ramalhar das arvores com a viração da tarde ou o murmurar longinquo e surdo das ondas do mar.
São essas as horas mais talhadas para a meditação, para a saudade ou para o amor; são as horas das aspirações vagas, dos desejos indefinidos, das fantasias e das expansões; são as horas em que se eleva em nós, um que quer que é estranho e superior a tudo que nos cerca e com que de habito lidamos; em que o homem soffre e gosa, sente e crê, folga e padece; em que o desalento e a esperança se travam em lucta; em que o amor nos falla de prazer, a saudade da dôr e a imaginação do infinito; em que se vive muito e se deseja morrer; em que se sonha muito e se receia accordar; em que a virgem presente a primeira paixão, o homem o primeiro amor, a creança o primeiro momento de viver, o velho a ultima hora; em que o passado e o futuro se enlaçam, um descoroçoado e sceptico, o outro enthusiasmado e crente; em que o mundo é pequeno para a alma, e a alma acanhada para o sentimento.
Em tudo isto eu pensava n’essa hora, e tão absorto ía, que nem dava pelo caminho que levava: parecera-me até que se me ía fugindo a vida, como me parecia fugir o mundo, se o som compassado das ferraduras dos cavallos sobre as pedras da calçada, me não chamasse á realidade, marcando de continuo com a regularidade d’uma pendula, a extensão do espaço e o correr do tempo.
De repente, n’uma volta que fazia a estrada, os cavallos fitaram as orelhas e pararam: sobresaltado, como que acordei, procurando descortinar que causa fôra a que os assustára.
Iamos passar pelo cemiterio da terra, separado da estrada por um parapeito de pouca altura, e limitado, da banda d’onde vinhamos, pela casa do guarda; do lado opposto, por uma egreja antiga, abandonada e em ruinas.
Nenhum logar mais adequado, nem accessorios mais accordes podia a morte escolher. Tudo alli fallava do seu poder, tudo concorria para a sua magestosa severidade.
Ruinas, desamparo e tristeza. A casa do guarda, que primeiro se offerecia á vista, ennegrecida pelo tempo, com as portas e janellas carunchosas e escavacadas, deixando devassar o interior desguarnecido e miseravel: o cemiterio sem aninho nem cultura, sem monumentos, nem flôres, nem pedras, nem ruas, nem disticos, nem retabulos; algumas cruzes toscas, por entre matagaes de ortigas, algumas arvores esgalhadas de longe a longe, umas e outras roidas pelos vermes, enfraquecidas pelos parasitas, mutiladas pela podridão: e ao longe a egreja, de tempos remotos, com as cantarias de grosso lavor lascadas ou caidas, as paredes esburacadas e musgosas, as grades ferrugentas e quebradas, as janellas sem vidros, as ogivas interrompidas, as arcadas soturnas a perderem-se na escuridão e a adivinharem-se pelos buracos da fachada, frias, nuas, sós e tristes.
Apertava o coração e confrangia a alma; fazia mal aquella vista.
Não havia sido entretanto nem a egreja, nem o cemiterio, nem a casa do guarda que tinham feito parar os cavallos, mas o proprio guarda, que estendido sobre um poial, deante da porta se levantou para nos cumprimentar.
Parecia que a influencia sinistra d’aquellas paragens se estendera tambem áquelle homem: condizia com tudo que o cercava.
Era alto e ainda novo; mas o tempo e os pesares tinham-n’o curvado e encanecido. As feições eram duras, carregadas e tristes, as faces cavadas e cheias de rugas, a pelle tostada e aspera, os cabellos mal tratados e grisalhos, as barbas compridas, em desordem e grisalhas tambem; o corpo estava coberto de farrapos, a cabeça resguardada por um velho chapeu já sem abas e os pés mettidos n’uns tamancos muito usados, que quando se levantou repercutiram por um modo estranho batendo nas pedras.
Era como a personificação do desconforto ao pé das ruinas, como a desillusão da vida junto á morte.
O tio Joaquim, ao dar com os olhos n’elle, resmungou por entre dentes—até os brutos o temem;—correspondeu a um—boas noites,—que nos dirigiu, metteu o cavallo a meio trote, eu imitei-o, e dentro em pouco tinhamos perdido tudo de vista.
Dias depois vim a saber pelo tio Joaquim quem era o guarda do cemiterio, e qual a sua historia.