III

Estudos que mais me preocupavam tinham feito com que, havia muito, não fosse visitar os meus. Devendo em breve tomar ordens de prima tonsura, este successo, que fatalmente determinava a minha vida trouxera-me entretido, não poucos mezes. Finalmente déra o primeiro passo solemne, e por conselho de Fr. João, parti a congratular-me com meus paes, da conquista que alcançára: e a viver por algum tempo a vida de familia antes que de todo me apartasse do mundo.

Parti; e com a indifferença que de mim se apoderára, desde que me haviam destinado para o convento, passei os humbraes d’aquellas portas que então já eram minhas, e que não se me poderiam cerrar mais de todo, embora quizessem.

Grandes alegrias havia em minha casa. A minha chegada encareceu-as mais ainda. Meu irmão estava breve para casar e a sua escolha fôra tanto do agrado de meus paes, que os bons velhos não cabendo em si de contentes não achavam mimos que lhe parecessem bastantes para com elles cercar a esposa futura de seu filho.

Margarida era o que em linguagem commum se chama um bom casamento.

Filha unica devia herdar de seus paes uma fortuna consideravel. Os seus haveres juntos aos bens de minha casa formariam a primeira propriedade da provincia.

Sorria a opulencia a meus paes e embevecia-os a contemplação de um futuro placido e desassombrado de cuidados.

Vi Margarida, e ao vêl-a, ao trocar com ella as primeiras palavras conheci, que tinha no peito coração, e que me corria o sangue dos vinte annos nas veias tremulas e agitadas.

Margarida aproximava-se tambem dos vinte annos, mas toda a candura infantil fulgurava n’aquelle rosto, que não desabrochára ainda. Não tornei, por vida minha, a encontrar olhos que mais dissessem ao coração, quando mesmo quasi sem querer fallar se volviam serenos entre um denso veu de pestanas compridas e encurvadas. Toda a sua formosura estava nos olhos, mas esses não cediam em primores a quantos hei visto em mulher ou em pinturas. Fazia vontade de chorar olhar para elles, sentia se devoção fitando-os muito. Porque não ha como a mulher para nos fallar do ceu, de Deus, das coisas sagradas. Se creaturas assim corressem mundo a resgatar almas, se para os mais apartados da religião dirigissem um olhar d’aquelles dizendo magua, enthusiasmo e amor, e depois d’ahi os volvessem ao ceu como rasgar caminho para a alma renitente, não haveria atheu que resistisse, nem coração que se não dobrasse.

Vendo Margarida lembrava-me do ceu, lembrando-me do ceu, accudia-me que professára votos que me condemnavam a um perpetuo celibato. Um circulo de espinhos me apertava a imaginação: e padecia, como nem os condemnados no inferno poderiam padecer assim.

Com a candura de creança Margarida reconheceu-me desde logo como seu irmão. Não houve segredo que em mim não depositasse, esperança que me não dissesse, planos de futuro sobre que me não ouvisse, queixumes de meu irmão, que comigo não lastimasse.

Filippe casava porque tinha de casar, estimava Margarida como podia estimar uma irmã ou uma parenta, e nada mais. Margarida ao contrario não via, não suppunha, que podesse haver homem, que valesse o seu noivo. Amava-o com a cegueira, com o arrebatamento, com a loucura de um primeiro amor.

Não imagina como padeci com essas confissões arrebatadas, que me denunciavam um mundo de felicidades, que nem sequer entrevêra. Não imagina que dôr tão funda me ia direita ao coração, quando ella animada por aquelle amor que a aquecia e transformava, olhando-me, com as suas mãos nas minhas, com o seu halito a confundir-se com o meu, transfundia-me a electricidade que irradiava, e descrevia-me o amor que lhe chammejava na alma.

Deixava-a como louco e ia, quantas vezes sósinho, de noite, correr por aquelles descampados, andar muito sem saber por onde, cançar o corpo para descançar o espirito, e para depois, cedendo á fadiga, poder cerrar os olhos por algumas horas e tentar um somno mais attribulado mesmo do que fôra a propria vigilia.

Envelheci muito n’aquelles dias que duraram até ao casamento de meu irmão. Via approximar-se a epocha e não acreditava, não sei que louca esperança, não sei que desvario me dizia que tal casamento se não chegava a realisar. Parecia-me um sacrilegio, que tanto amor fosse empregado em tanta indifferença, parecia-me impossivel que Deus consentisse em tal.

Sacrilegio era o meu amor, sacrilegio duas vezes, por que era de padre e porque era por uma irmã.

Pelo modo como o tio Joaquim narrava a sua historia conhecia eu quanto elle teria padecido, e bem conforme ao que disséra antes de começar, presentia que outros tormentos deveria haver maiores do que as minhas duvidas e incertezas sobre o futuro, do que os meus sonhos e aspirações.

Chegou entretanto o dia, proseguiu o velho, e não sem que a estrada dolorosa tivesse sido para mim bem cheia de agonias e de provações. Margarida não suspeitou nunca quanto eu a amava, nem sob o gelo apparente, em que a tanto custo me sepultava, poude perceber os ardentes lumes de um amor desvairado. Occasiões houve em que rasgava o peito com as unhas até fazer sangue, em que tremia em convulsões para resistir, em que me exforçava com sobrehumano impeto para não desatar em suluços; outras em que tive de fugir para evitar a sua presença, porque já não podia luctar com o impulso que me arrojava para os seus pés a dizer-lhe quanto a amava.

E tive de assistir impassivel a todos aquelles pormenores, que me fallavam da felicidade futura de ambos, tive de escutar as singellas narrações de Margarida sobre todas essas minuciosidades, que me retumbavam na cabeça com estridor horrivel, porque em todas ellas descortinava, ou pretextos para uma caricia, ou commodos para um transporte, ou logar finalmente para aquelles dôces e para mim desconhecidos mysterios do thalamo nupcial.

Os primeiros clarões da alvorada no dia do casamento, encontraram-me accordado ainda. Na vespera mesmo não acreditava que podesse chegar: via raiar a manhã e cuidava estar sonhando. Pois Margarida havia de casar!

Minha familia, sem comprehender nem de leve, porque não recata mais cuidadosamente a abelha os seus lavores do que eu escondera de todos e de tudo o meu insensato amor, minha familia, digo, só experimentava uma pena: não ser eu quem casasse meus irmãos, porque a minha benção, cuidavam os credulos paes, havia de forçosamente attrahir felicidades sobre os esposos.

Na verdade seria o ultimo sacrificio, depois do qual poderia dizer a Christo: tambem sei o que é o Golgotha!

Pareceu-me tudo um pesadello, persuadi-me que acordaria breve de tão cruel illusão. Vi, ouvi, fallei, dirigiram-me perguntas, tornei respostas, e não soube nem sei ainda o que vi, o que ouvi, o que me perguntaram e como respondi. Dizem que pessoas ha que dormindo andam e fallam, assim devia ser o estado em que estive todo o dia.

Mal poude fugir á noite, corri, corri, e quando me vi bem longe, desatei a chorar como me não lembrava em minha vida de ter chorado assim. Parecia que me estallava a alma n’aquelles soluços, mas ao correr das lagrimas um grande peso saia de sobre mim. Não sei como, mas chorando sempre achei-me de repente deante das janellas do quarto de Filippe. Estavam illuminadas, fitei-as com o pavor com que daria de rosto com a entrada do inferno; vi passar dois vultos por dentro das vidraças, reconheci-os e com a razão de todo perdida atirei comigo a terra, agarrei com ambas as mãos a cabeça, e comecei a bater com a testa, como desesperado de encontro ao chão.

Com a força da dôr perdi os sentidos e para alli fiquei banhado em sangue, até que os raios do sol, já bem alto, me fizeram tornar em mim. Olhei machinalmente para a janella. Estava cerrada ainda; senti nova vertigem mas d’essa vez, sem me lembrar que ia banhado em sangue deitei a correr, o mais rapido que podia, em direcção do meu convento.

Disse que uma quéda no caminho me fizera o sangue que trazia, e facilmente me acreditaram. A verdade, se o dissesse, é que fôra para duvidar.

Encerrei-me na minha cella, pretextei uma doença para não sair e pedi ao meu bom mestre, que me ouvisse de confissão. Contei-lhe a minha historia, tal como se passára n’esses dias e pedi-lhe que me accudisse, pois que não sabia de mim. Ouviu-me o santo velho com lagrimas nos olhos, depois:

—«Deus me perdôe se errei, disse-me, e mais ainda se fiz a tua infelicidade, Joaquim, chamando-te para o serviço do Senhor. Mas era impossivel que assim não fosse. Ha homens condemnados fatalmente pela desgraça, e tu és um d’elles. Lê-se no rosto esse infeliz condão, adivinhei-t’o eu, que tambem sei o que é padecer.

Para dôres como a tua, para outras bem maiores ainda, se fizeram as solidões dos claustros e o gelo d’estes vastos carneiros. Sepulta para ahi a tua alma, emquanto não te sepultam o corpo, sob essas lages que hoje calcas, e morre já que foste condemnado a não viver. Não julgues cruel esta linguagem, é a que te póde fallar um amigo, quasi um pae.—O que sômos nós outros, pobres frades, n’este mundo? Fantasmas erradios que arrastamos a mortalha em vida, arrebentos solitarios, que medrâmos entre pedras. Para nós não ha familia, não ha esposa, não ha filhos, tudo que é morre comnosco, nada deixamos n’este mundo, que se lembre de que vivemos.

Mais um numero n’uma pedra, um nome no livro do registro, alguns ossos mais n’uma cova. Torna impenetravel o teu tumulo, calafata com o maior cuidado qualquer orificio por mais pequeno que seja, que dê para o exterior, e já que nada podemos ter com o mundo aparta-te d’elle de todo.

Já que não pódes ser feliz esquece, já que não pódes gosar, não sintas.»

Segui á risca o seu conselho. Graças á sua protecção deixaram me na minha cella, mesmo porque, segundo dizia, assim me preparava pelo estudo e pela meditação para ordens maiores. Passou um anno. Trabalhei, estudei muito e como disse Fr. João da Soledade, se não fui feliz, não senti; não me lembrei e não padeci.