V

Entrados apenas na povoação, começaram os guerrilheiros a saquear e a devastar tudo. Do logar, em que estavamos, podia-se conhecer de seus movimentos pelo vaguear dos archotes, pelo soltar de gritos afflictivos, e pelas columnas de fumo, que se ennovellavam aqui e além, sobre os telhados das habitações a que lançavam fogo, quando a preza os não satisfazia.

A lembrança de Margarida, que não me tinha desamparado nunca, confesso-lh’o, nem mesmo quando mais fervorosas supplicas levantava ao céo, accudiu-me ao pensamento.

—Meu pae, exclamei, fujamos, antes que caiam sobre o convento e nos surprehendam aqui; sigâmos pela estrada, que vae por fóra da povoação, e vejamos se podemos, esta noite ainda, chegar a nossa casa, avisaremos depois sobre o que temos que fazer.

—Vamos, filho, e o Senhor se compadeça de nós.

Não era o amor á vida que me apartava d’aquelles logares. Por minha vontade ficaria sepultado sob as ruinas do convento e fizera da minha cella um sepulchro. Mas a essas horas quem sabe o que seria de Margarida! Tremia só de o pensar, e o quadro que tinha ante os olhos mais me apavorava ainda; porque d’ahi concluia dos horrores, que ella poderia ter presenciado, se é que d’elles não tivesse sido victima.

Não imagina nem por sombras o que seja uma guerra civil. Por muito que lhe contem, tudo fica muito abaixo da realidade. Aquella porém era guerra de exterminio.

Desencadeavam-se odios, que estavam em incubação, havia dezenas de annos. Aggrediam-se visinhos, parentes, amigos e irmãos, e aggrediam-se tanto mais cruelmente, quanto melhor sabiam, onde haviam de ferir. Não poupavam ninguem, não havia recanto que valesse, não havia esconderijo que salvasse, não havia nem idade, nem sexo, que pozessem a coberto do insulto, da affronta, da violencia, tanto mais crueis quanto partiam dos que dois dias antes comiam á mesma mesa, e bebiam no mesmo copo.

Ao romper da manhã estavamos deante da casa de meu pae. Tinham-me preparado para terriveis surprezas as scenas, que presenceára pelo caminho; o que vi, porém, sobrelevou muito ao que eu esperava.

Tudo em terra, tudo saqueado, tudo roubado, e os cadaveres de meu pobre pae e de minha velha mãe a meio da casa, crivados de feridas...

As lagrimas suffocaram o velho narrador, que teve de descançar por momentos antes de poder proseguir.

—Descance, tio Joaquim, disse-lhe já quasi arrependido da minha indiscreta curiosidade, não continue, custa-lhe tanto... Outra vez me contará o resto.

—Não, para quê? Tem de ser. Não é o contar que custa, é lembrar; e raras vezes me esqueço. Isto já passa, um momento de descanço e continúo.

Tinham entrado em casa, e dado rigorosa busca para encontrarem os thesouros; que, segundo era fama na terra, havia em casa. Desesperados por não acharem o que esperavam, voltaram-se contra os dois velhos, que por mais que quizessem não os podiam satisfazer; por quanto apenas havia começado a guerra tinham escondido n’outra parte o seu dinheiro.

Não lhe acreditaram nos juramentos, e mataram-nos barbaramente para se vingarem das suas negativas.

—E Margarida?

—Havia dias que partira para uma fazenda d’ali distante em companhia de meu irmão, salvára-se da morte, e da deshonra.

—Pois quê?...

—A tudo se atreviam aquelles homens implacaveis. Não havia barreira que se lhe puzesse deante, nem consideração, que os demovesse, pareciam furiosos.

Pela convivencia soube o que eram esses desalmados, a quem o amor da patria servia de pretexto, e o amor da rapina estimulava unicamente.

—Pois o tio Joaquim?...

—Fui guerrilheiro tambem. A vista dos cadaveres de meus paes operou em mim uma revolução pavorosa. Tive sêde de sangue, de destruição, de vingança. Enterrei os dois velhos sem derramar uma só lagrima. A febre do exterminio requeimava-me por dentro, cravei uma cruz sobre a cova onde ficaram, unidos como o haviam sido sempre, e jurei que não descançaria emquanto tivesse forças para uma espingarda.

Fr. João, que era perseguido tambem como lobo, porque todos o conheciam, juntou-se comigo; reunimos os mais enfurecidos do logar, aggravámos as feridas dos que mais haviam padecido, e levantámos uma guerrilha das mais afamadas n’aquelles tempos, e bem conhecida pelo nome de—guerrilha do frade.—

Luctámos, luctámos com encarniçamento sem egual, e parecia que as forças se nos augmentavam com a lucta. Andei n’aquella vida errante perto de um mez, sem dormir uma noite somno que aproveitasse, sem ter duas horas de descanço, sem ter um momento sequer para pensar no passado, ou no futuro.

Seguiam-se os combates, as embuscadas, as fugas, os ataques, sem descontinuarem, sem interrupção alguma. Era preciso homens de ferro para aquella vida, e entretanto, de tal fórma o furor nos trazia incendidos, que ao cabo do mez parecia que mal haviamos começado.

Um dia ao amanhecer, um dos nossos, que andava por fóra veiu avisar-nos de que outra guerrilha se approximava, da qual se contavam proezas inauditas.

Esperámol-a e saimos-lhe a caminho, desejosos de nos medir com esses tão celebrados inimigos.

Durou quatro horas o fogo, batemo-nos como desesperados de parte a parte, até que fugiram em debandada, deixando o campo juncado de cadaveres. Dos nossos a perda fôra consideravel tambem, e Fr. João agonisava com uma bala nos pulmões. Saia-lhe da bocca sangue e espuma, soluçava que fazia horror ouvil-o, e expirou-me nos braços, procurando debalde articular algumas palavras.

Corremos a revistar os mortos que os contrarios haviam deixado insepultos. Entre os cadaveres reconheci meu irmão!...