CAPITULO CXIII
Como a Rainha houve d'El-Rei que perdoaria ao Infante seu padre se elle lhe pedisse perdão, e assi lh'o escreveu, e a causa porque não houve effeito
Vendo e ouvindo a Rainha em Santarem tantos alardos e ajuntamentos de gentes com tantos alvoroços e percebimentos para destruição e morte do Infante seu padre; porque n'ella se encerravam em grande perfeição todalas outras virtudes, esta de amor e piedade para elle tambem lhe não falleceu, e assi porque esta natural divida de sangue sempre a espertava por seu remedio, com vivas lembranças de muita dôr e grande compaixão, como tambem porque de sua innocencia d'elle era mui certificada, se pôs um dia ante El-Rei em giolhos, e com perseveradas lagrimas lhe disse:
«Senhor, cesset jam nanus tua, e pois minha desaventura quer que na destruição do Infante meu senhor e padre damnem as falsas culpas mais, do que aproveitam seus merecimentos, nem o grande e verdadeiro amor que vos tenho, peco-vos por mercê, que ao menos como Principe agardecido, vos lembre as obrigações em que por sua tão alta criação, e por outros muitos seus serviços lhe soes, cuja paga devia ser outra, e não esta morte e destruição tão deshonrada, e com isso para alguma mais temperança de tamanha ira tambem vos não esqueça que vos pode nosso Senhor dar de mim filhos que serão vossos ramos, cujas raizes para sua mais honra e louvor deveis desejar e procurar que sejam antes limpas e sãs, que magoadas e sujas como ordenaes.
E El-Rei como era de mui perfeita humanidade, allevantando-a do chão com grande acatamento, lhe respondeu:
«Senhora, de todo o que me dizeis eu sou em mui inteiro conhecimento, mas como quereis que nas cousas do Infante vosso padre eu me faça brando, sendo elle em sua contumacia e para minha obediencia tão duro, de que se não quer conhecer nem arrepender, antes cada vez o mais continuar. Mandei lhe muitas vezes requerer minhas armas, não m'as quiz entregar, outras tantas lhe encomendei e mandei que não impedisse o duque, que por meu mandado vinha a meu serviço, e por me desservir e anojar foi-lhe ter o caminho com outras muitas desobediencias, de que eu a elle nem ao Infante meu irmão não relevaria sem justo castigo. Porém pelo vosso amor principalmente, e porque n'isso sintaes o bem que vos quero, se o Infante vosso padre como quem errou me quizer mandar pedir perdão, eu me haverei com elle por outra melhor maneira de que sejaes contente».
A Rainha lh'o teve muito em mercê, e d'El-Rei houve logo licença para o assi escrever como escreveo ao Infante, o qual vendo a carta, porque acerca d'ella não deliberasse nada sem conselho, depois de aquelles principaes com que suas cousas consultava serem juntos e verem a carta, todos sem contradição concordaram ser bem e honesto que o Infante satisfizesse com o perdão a El-Rei na fórma que elle queria, pois em nada lhe perjudicava, cá parecia deseja-lo assi El-Rei para defesa sua, contra aquelles que para o contrairo o indinavam. E porém o Infante lastimando-se muito dos agravos e desfavores d'El Rei, e confiando muito em sua innocencia recusava muito de o fazer, afirmando-se «que tão novo meio, segundo as cousas estavam não era com fundamento de seu bem, mas que El-Rei com astucia de seus imigos lhe lançava esta cilada de mal, para que n'ella o tomassem como perdão, nascido e causado da confissão de suas culpas e crimes que elle não tinha, com que ao mundo justificassem depois os males passados que lhe ordenaram, e corassem os que ao diante lhe queriam fazer. E que por isso antes queria morrer em que receberia muitos beneficios; porque acabaria inteiro Infante duque de Coimbra, e em sua vida não veria a outrem possuir nada do seu, nem elle como desaventurado seria constrangido andar por terras estranhas pedindo o alheio. E que em fim não lhe tirariam, que a todolos bons que pelos tempos fossem não pesassem de sua morte, a qual segundo sua vida era trabalhosa, esperava que fosse grande descanso já para si mesmo, e certa segurança da vida da Rainha sua filha.» Com outras muitas e boas razões com que se escusava; e em fim vencido d'outras tantas e melhores, com que seus conselheiros como a cavaleiro e christão o aconselharam e requereram, prouve-lhe pedir como pediu a El-Rei o perdão por escripto, na fórma que a todos bem pareceu, e com que El-Rei se devesse satisfazer, e tambem respondeu á Rainha, apontando-lhe largamente algumas cousas com que sua segurança devia ser acautelada.
E tendo já El-Rei recebido sua carta, mostrou se com ella suspenso como arrependido do que tinha outorgado, e porque na carta da Rainha que lhe ella mostrou, entre outras eram umas palavras do Infante que diziam «e isto Senhora faço eu mais por vos comprazer e fazer mandado, que por me parecer razão que o eu assi faça», El-Rei tomou d'ellas achaque para o não cumprir, e rompeu logo a carta do perdão que o Infante lhe mandara, dizendo que pois aquelle arrependimento era fingido e não de vontade, que não queria desistir do que contra elle tinha começado, e assi o fez, do que o Infante foi logo avisado. Porém o que d'esta mudança e nova sanha d'El-Rei, verdadeiramente se pôde entender, foi se a vontade d'El-Rei estivera de todo firme e sã para o Infante, que as palavras da carta da Rainha na forma em que vinham lh'a não revolveram nem danaram contra elle, mas El-Rei tinha já um odio calejado ao Infante, e mais pejou-se por moço em que o espirito da honra já se levantava, de parecer o que lhe já diziam, que se sobjugava á Rainha mais do que era razão e ao Estado de um tamanho Principe cumpria, e para não cumprir o que prometera, tomou aquelle que foi mais achaque que causa verdadeira.