CAPITULO CXL
Das cousas que passaram n'este cerco, até que de todo se alevantou
E n'estes tempos foi a villa d'Alcacere pelos mouros com bombardas e trons e outras armas, e com uma irosa porfia muitas vezes combatida e afrontada, e com a graça de Deus não faziam dentro o dano de que elles tomavam de fóra muita vã gloria, e porém a verdadeira pena elles a recebiam com muitas mortes e feridas, que dos christãos de noite e de dia sempre padeciam.
E porque viram que com os mui apressados e furiosos tiros que faziam, os muros da villa não caiam como maginavam, ordenaram trazer uma bombarda grossa, das que no tempo do palanque ficaram aos christãos em Tangere, em que já tinham a sua só confiança, a qual lançava pedra de quatro quintaes de peso, e logo foi armada e ensarada e fez alguns tiros, de que os mouros vendo ficar as paredes mui sãs, e os christãos sobr'ellas com muito prazer e alegria, ficaram mui tristes e desesperados, e por isso vendo que sua empresa não sobdecia como esperavam, elles a risco das graves penas que por sua fugida lhes eram postas, de dia e de noite não leixavam de fugir, de que D. Duarte por elches e mouros que se na villa lançavam, era logo avisado.
E no tempo da maior afronta chegou á vista d'Alcacere Luiz Alvarez de Sousa, vedor da fazenda do Porto, que El-Rei mandou aos cercados com esperanças e confortos, que enviava do mar com escriptos em virotões. E D. Duarte fez um aviso a El-Rei, e por mór cautella escripto em francês, notificando-lhe a extrema necessidade em que estavam, e sómente por mingoa de mantimentos e polvora, e pedindo remedio com as palavras que em tal affronta cabiam. O qual escripto enviado a Luis Alvarez com outro virotão, cahiu no arraial dos mouros, entre quem não falleceu quem lh'o logo leu e interpretou inteiramente, de que elles ficaram mui alegres, e tendo sobr'isso seu conselho, acordaram ser bem d'El-Rei de Fez, por seu Marim requerer a D. Duarte que se desse e lhe entregasse a villa, para que lhe mandou uma carta, e dentro della a outra que tomaram, e dizia n'estas maneira:
«Porque eu já sei tua puridade, mais por modo de compaixão que de necessidade que tenha, conhecendo de ti que és bom christão e esforçado cavalleiro, filho do outro bom velho de Ceuta, defenda-te Deus e te mostre o caminho da verdade por melhor e mais direito, se te quizeres poer em nossas mãos com algum honesto trato farás cousa a ti proveitosa, e a esses que hi tens mais que a nós; porque a ti e a elles guardaremos de mal, e vos faremos o que o vosso Rei fez aos nossos mouros, que estavam n'essas casas em que tu agora estás. Conselhe-te Deus de conselho são, e se tu isto não quizeres, sabe que Deus é grande e justiçoso, e quererá dar ás mãos de seus servos as casas em que nasceram, e as herdades que seus padres e avós fizeram e prantaram, e manda logo a resposta com toda tua vontade».
D. Duarte recebeu a carta que era do Marim, e a fez lêr para si só secretamente, e perguntado dos fidalgos pela sustancia d'ella lhes encobrio a verdade, e disse que lhe cometiam trato de paz como mouros fracos que eram, e que estavam já de todo perdidos, para segurarem a terra de mais dano, com fundamento de se quererem alevantar, mas que lhe responderia, como respondeo de si mesmo ao Marim n'esta maneira:
«Tu sabe que El-Rei meu Senhor não leixou a mim e a estes seus fidalgos e a outra nobre gente n'esta sua villa para t'a entregarmos como cuidas, mas para a defendermos como defenderemos a ti e ao teu rei, e com elle a todolos Reis mouros do mundo quando sobre nós viessem, e crê que nossa determinada vontade pela defender é sofrer não sómente o trabalho que nos dás, que por tua covardice é assaz pequeno, mas outros muitos maiores, até sobr'isso morrermos. E para conheceres se estas palavras saem da boca ou do coração, chega-te melhor aos combates do que fazes e ve-lo-has, e porque me dizem que o teu Rei manda fazer escadas para subir aos muros e nos combater e entrar, dize-lhe que eu o escusarei d'esse trabalho; porque se n'elle e em ti ha coração para isso, eu entre torre e torre lhe mandarei poer muitas que El-Rei meu Senhor aqui trouxe para tomar a villa, e manda subir aos teus por ellas, e verás que força põem em nós o serviço do nosso Rei e o enxalçamento de nossa fé, e a estima de nossas honras, e d'esta graça se a de nós quizeres receber não queremos de vós outros outra paga, se não que não sejaes tão covardes e tão fracos como até qui mostrastes, cá não é honra nem gloria vencer-vos».
Esta resposta foi lida na tenda d'El-Rei, perante elle e seus merins e alcaides, de que ficaram mui maravilhados, atribuindo tudo á soberba, como fôra a do cerco outro de Tangere, que apontaram. Mas Xarate, alcaide de Tangere que hi era, disse:
«Sabei vós que esses em que fallaes que d'essa vez vieram a Tangere, se dentro de taes paredes se acharam, e de mantimentos tiveram razoado soportamento, podera ser segundo o que vi, que mais caro nos custaram. E porém na continua alegria d'estes christãos sentireis bem sua fortaleza, e que n'aquelle escripto confessassem ao seu Rei suas mingoas e trabalhos, são maneiras que os cercados sempre tem para obrigarem com mais piedade e mór trigança a seu socorro, mas não é de crêr que tomando-se hontem a villa, e estando aqui o seu Rei com muitos navios, que a não leixassem açalmada para muito mais tempo do que nós podemos aqui estar».
E porém o Marim tornou a replicar a D. Duarte, que ao messegeiro mandou tirar ás bestas e não lhe quiz vêr a carta; porque receou tendo tão pouca esperança de socorro, parecerem a alguns bem suas palavras e cometimentos, e enfraquentarem-se por isso na defesa da villa e esforçarem-se para o dar d'ella.
Aos mouros porque o tempo era de grandes frios, morriam e atereciam os cavalos, e assi os camelos e bestas de sua carriagem, e tambem elles padeciam asperezas incomportaveis. E com isto eram tão cansados e tristes, como os christãos pelo contrairo; porque no testemunho e prova de seus alegres rostos e esforçados corações, em especial na segurança e valentia de seu capitão, tomavam todos esperança de sua honra, resistencia e desejada defesa.
Os mouros porque as cousas em nada sobcediam a seu proposito, eram postos em grande cuidado, fazendo entre si grandes lamentações pela triste e deshonrada memoria que d'elles ficaria, não acabando feito de tão pequena estima para a presunção e confiança com que vieram, e sendo já minguados de polvora e muito mais da esperança que tinham de lhe já aproveitar, determinaram dar por todalas partes e a uma só hora um grande combate á villa, e assi o fizeram. Mas o capitão D. Duarte, porque logo nos aparelhos e alvoroço dos mouros que viu, sentiu bem o que queriam fazer, assi se percebeu e os recebeu, que d'alli por diante assi pelo grande estrago e mortindade que n'elles fez, como porque a gente sem o poderem resistir lhe fugia, e principalmente porque a polvora lhe falleceu e seus tiros e artilharias não jugaram mais, não houve mais rebates nem cometimentos porque ficaram de todo cortados.
E até então se lançaram na villa por todas, oitocentas e dez pedras grossas, XXXII de bombarda grande, e as outras das outras meãs, de que foram muitos christãos feridos, e alguns poucos mortos. E porque o mantimento fallecia já muito, e não sabiam da detença que os mouros no cerco fariam, depois de pedir socorro ao capitão de Ceuta, que lh'o não deu e podera dar, praticou D. Duarte com esses fidalgos que seria bem matarem os cavallos; porque não lhe comeriam trigo nem cevada, que tanto haviam mester, e mais salgados lhes poderiam em sua extrema necessidade muito socorrer, e mais que não dessem de comer á gente mais de uma só vez no dia, e ainda esta com temperança que cada um com os seus tivesse, com outras prudentes cautelas e provimentos que concordaram e tudo pareceo bem, salvo o matar dos cavallos, a que acordaram que sómente por mantimento se desse palha, e que porém antes de os meterem n'esta provisão, determinaram dar primeiro com elles uma escaramuça e rebate aos mouros; porque elles tinham já por muito certo que eram mortos e com fome comidos.
Deu D. Duarte cargo da capitania d'elles, que eram pouco mais de XXX, a D. Anrique seu filho maior. E em dia de Santo Estevão primeiro dia das Oitavas de Natal sahiu D. Duarte fóra a pé, com certos homens todos fidalgos, com mostrança de recolher o almazem que na praia jazia; porque tivessem os mouros razão sahir do arraial, como sairam para lh'o defender, e com isto os offenderam. E como D. Duarte viu tempo, fez o signal que com D. Anrique seu filho tinha concertado, e elle com todolos cavalos enjaezados, e os cavalleiros bem armados e vestidos de livrés e gentileza, sahiu da barreira em que jazia em cillada, e com o nome de Santiago, deram rijamente nos mouros, que feriram com tanta força e ardideza, que certo o testemunho d'aquelle só dia, além d'outros muitos, deu clara prova de que capitães aquelle novo capitão por avoengas decendia, e que capitão se n'elle criava.
Foi a peleja d'este dia sobre todalas outras do cerco de mais dura e melhor pelejada; porque os que n'ella eram foram todos como disse fidalgos escolhidos, os quaes o capitão já não podia recolher, em que os mouros receberam muito dano e maior desmaio, vendo vivos os cavallos que cuidavam ser mortos, estimando-os por dez tantos com formosura e penso dobrado, o que deu muita causa aos mouros desesperarem da victoria do cerco, e proposeram de o mais não manter.
N'esta peleja usou Martim de Tavora de uma clara e verdadeira fidalguia; porque vendo n'ella entre os mouros Gonçallo Vaz Coutinho seu imigo capital, e sem alguma esperança de vida, só lhe foi socorrer, e com muito esforço e mais bondade, e com grande risco de sua pessoa como a um irmão o livrou e tirou de poder dos mouros, e d'hi em diante ficaram em sua imizade mortal.
N'estes danos e males que os mouros contra sua primeira maginação cada dia recebiam, e com esperança de os receber ao diante maiores, não os podendo soffrer, nem esperando de os poder mais contrariar, se queixaram e levantaram a um seu Cade, que entre elles é sacerdote maior, havido dos seus Reis e Marins em grande veneração como Papa, o qual com a grande congregação de cacizes falou a El-Rei e a seus Marins e alcaides, apontando com palavras prudentes as maldições e vituperios que os mouros e casa de Fez principalmente por tamanha fraqueza recebiam, e que porém ou determinasse não leixar de combater a villa de noite e de dia até que a tomasse e todos morressem, ou por não terem mais mortes e padecimentos se alevantasse do cerco d'ella.
E depois d'El-Rei e o Marim terem seu conselho, acordaram por muitas razões boas que apontaram, que o cerco por então se alevantasse, com voto de o tornar a poer dobrado para o verão que logo vinha, como fizeram e se dirá.
E ao derradeiro dia de Dezembro começou a gente de se levantar e partir, e a dois de Janeiro do anno que logo vinha de mil e quatrocentos cincoenta e nove annos, El-Rei de Fez com todo seu arraial partiu de todo do cerco, que durou cincoenta e tres dias, no qual dos mouros segundo a certidão maior morreriam até mil e duzentos, e dos christãos muito poucos. E da causa porque El-Rei de Fez se partira, e assi da determinação que levava, logo D. Duarte por alguns mouros e elches que do arraial na villa se lançaram, foi de todo avisado. Do que elle e todolos christãos não ficaram menos ledos e descarregados, do que ficaram honrados e louvados por toda a christandade. Da qual cousa D. Duarte avisou logo El-Rei, que do descerco era já por castelhanos d'Andaluzia avisado; porque com esperança das alviçaras que d'elle por isso recebiam, uns após outros não leixavam de correr este pario de cobiça. E porém o messegeiro de D. Duarte as recebeu dobradas, com honra, proveito e acrescentamento.
E por isso mandou em todo o reino fazer geraes procissões, em que se deram muitas graças a Deus, e assi ordenou esmolas a todolos mosteiros e casas piedosas. E respondeu a D. Duarte; e assi a todolos principaes fidalgos e cavalleiros que mantiveram o cerco, dando-lhe por estes cincoenta e tres dias que durou o cerco, tantos agardecimentos com esperança de mercês, como se foram outros tantos annos de mui assinados serviços. E mandou logo de dinheiro e mantimentos prover a villa. E que os fronteiros que n'ella fôra da ordenança estavam, se tornassem ao reino. E ante de se virem fizeram muitas entradas, e trouxeram á villa grandes cavalgadas e muitos mantimentos das aldêas dos mouros.