CAPITULO CXV

De um cumprimento que o Infante D. Pedro acerca de sua innocencia por meio de religiosos fez com El Rei

E o Infante D. Pedro por muitas esmolas e bemfeitorias que aos mosteiros e casas d'oração sempre fazia, era dos religiosos d'ellas sempre em suas orações e devoções muito encommendado a Deos, em especial n'este tempo de sua tanta afflição, os quaes sabendo a determinação errada e perigosa em que o Infante estava de partir, recorreram muitos a elle, e como officiaes da alma o amoestavam, e lhe requeriam da parte de Deos aquellas cousas de que sua maior segurança e salvação se podia seguir, e principalmente que não partisse nem fizesse de si alguma mudança, e antes esperasse a fortuna, que acometer.

E ao Infante crendo que o conselho dos taes poderia vir da vontade de Deos, prouve obedecer-lhe, e quiz finalmente poer seus feitos em suas mãos, e d'elles apartou um Frei Antão, prior do mosteiro de Aveiro, e outro Frei Dinis que depois foi confessor d'El-Rei, pessoas de grande doutrina e mui santa vida, aos quaes disse os fundamentos que o moviam a sua partida, e as razões que lhe contrariavam esperar cerco, e menos andar como fugido pelo reino, e assi as injurias e sem razões que d'El-Rei por induzimento de seus imigos tinha por extenso recebidas. Porém que lhes parecesse que isto podiam remediar, que elle sobreseria em sua partida, e por maior cumprimento com El-Rei e mais sua limpeza faria o que elles ordenassem, e que para firme segurança de manter sempre o que prometia, e que se fizesse d'elle justiça se a merecesse, que ante de ser ouvido lhe prazia mais que todos seus filhos fossem entregues em poder d'El-Rei.

Estes religiosos vendo tanta justificação, esforçaram-se acabar esta concordia, crendo que não podia ser homem tão sem juizo, e tão fóra de humanidade que a denegasse, e acordaram que com isto Frei Antão por mais secreto fosse só a El-Rei, o qual partiu logo com inteira crença e instrução do Infante, dando graças a Deos por elle se someter a tanta razão, com a qual esperava tudo acabar a serviço de Deos, e d'El-Rei, e bem de seus reinos e vassallos, mas este padre por muito que apressou sua ida, já diante achou o imigo da razão e os contrairos do Infante, com que não pôde nem ousou dar a El-Rei as cartas do Infante, e muito menos lhe falar; porque os imigos do Infante de que El-Rei em todolos lugares e todalas horas era cercado, como sentiram que um religioso de tanta autoridade, que em tal tempo ia de mandado do Infante, não podia se não levar cousas de muita concordia e conclusão, de que lhes muito pesava, não sómente o impediram e ameaçaram para mais alli não estar, mas ainda lhe defenderam que não tornasse com a resposta ao Infante, pelo qual se foi triste e mui espantado para o mosteiro de Bemfica, d'onde avisou de todo o Infante.