CAPITULO CXXX

De como a judaria de Lisboa foi roubada, e a causa porque

E no fim d'este anno de mil e quatrocentos e quarenta e nove, certos moços christãos por travessura fizeram algum mal, ou sem razões a alguns judeus que andavam na ribeira de Lisboa, sobre que se agravaram á justiça e ao doutor João d'Alpoem, que era corregedor, o qual provendo sobr'isso, mandou publicamente açoutar alguns d'elles, de que algum povo meudo e a voltas d'elle outras gentes que eram na cidade, assi se escandalizaram dos judeus, que sem mais outro acordo nem conselho, antes com grande onião e alvoroço, dizendo matalos e roubalos, cometeram a judaria pela porta que vem ao poço de Fotea, e a roubaram toda até o Poio, em que dos judeus que supunham em resistencia houve alguns mortos, ao qual insulto logo acudiram com muita força os officiaes da justiça, e principalmente D. Alvaro conde de Monsanto, que com suas forças atalharam o mais roubo e dano que se determinava fazer.

Foi El-Rei d'isto logo avisado por Pero Gaçalvez seu secretario, estando já com a Rainha na cidade d'Evora. E pedido com grande instancia, que a esta necessidade em pessoa quizesse prover, porque os rumores e alvoroços eram já taes na cidade, a que sem sua pessoa não se esperava resistir, á qual cousa El-Rei veiu em pessoa, e de muitos que pelo mesmo caso achou presos, mandou fazer publicas justiças, de que contra sua real pessoa se alevantavam oniões tão irosas, que houve por bem cessar de fazer mais cruas execuções; porque prendiam e puniam principalmente as pessoas, em cujas mãos as cousas do roubo por qualquer maneira se achavam; porque muitos que as não roubaram innocentemente padeciam.