CAPITULO CXXXII
Da partida da Imperatriz d'estes reinos, e das pessoas que com ella foram
E finalmente sendo já todalas pessoas ordenadas, e navios e cousas prestes para a partida da Imperatriz, uma segunda feira XXV dias d'outubro ante de embarcar e se meter no mar, ordenou El-Rei que fossem todos ouvir missa á Sé, para onde El-Rei foi diante com a Imperatriz, e após elles a Rainha, e com ella o Infante D. Fernando, e logo a Infante D. Caterina que levava o Infante D. Anrique, e após ella a Infante D. Joanna com que ia o marquez d'Ourem, e estas pessoas reaes foram todas a cavallo, e a outra gente que era muita e mui nobre, assi homens como mulheres foram todos a pé.
E como entraram na Sé a Imperatriz se foi á cortina d'El-Rei, e com ella as Infantes suas irmãs, El-Rei se foi para a da Rainha, que por ser prenhe e ter na emprenhidão fortes accidentes se retraiu a uma capella da charolla em que ouviu missa.
Foi a principal missa dita em Pontifical e mui solemne, e com pregação á partida e auto consoante, acabada a qual, e dada a benção pelo Bispo de Ceuta com muita solemnidade e devoção á Imperatriz, abalaram todos até á porta da Sé, d'onde a Imperatriz com muitas lagrimas se despedio da Rainha que não pôde mais ir, e de hi El-Rei com todolos outros senhores e senhoras se foi com a Imperatriz a pé, até o cais da Ribeira, em que era feita uma ponte de toneis, porque entraram em uma carraca que para ella se armou e concertou em grande perfeição.
E á primeira era ordenado que com ella fosse o Infante D. Fernando, e elle o desejou e procurou assi pela acompanhar mui honradamente, segundo a pessoa que era, como por ir vêr El-Rei D. Affonso de Napoles seu tio que muito desejava. E em fim El-Rei o não houve por bem, e foram com ella o conde de Ourem, que então fôra feito novamente marquez de Valença de Minho, e a condessa de Villa Real a Velha com muitas donas e donzellas, e o Bispo de Coimbra D. Luiz Coutinho, e Lopo d'Almeida, e Pero Vaz de Mello, regedor da casa do civel de Lisboa, e Alvaro de Sousa, mordomo mór, e Affonso de Miranda, e Gomez de Miranda, e Gomez Freire, e João Freire, e D. Diogo de Castello o Velho, e Fernão da Silveira, e Martim Mendez de Berredo, e outros muitos cavalleiros a que então foram ordenadas quinhentas e oitenta emcavalgaduras, e para sua embarcação levaram duas carracas e seis náos, e duas caravellas; e porque depois da Imperatriz ser embarcada sobrevieram ventos contrairos, ella sem sair da carraca esteve no porto sobre ancora muitos dias; e porém como Deos deu vento de viagem, partiram de Lisboa e foram a Ceuta a cinco dias de Dezembro.
E a Imperatriz com todos sahiu em terra, e foi de pé em romaria a Santa Maria d'Africa. Era então capitão de Ceuta o conde D. Sancho, que com as festas que pôde lhe fez muito honrado recebimento, e deu banquetes na terra, e assi muito refresco para o mar. E d'hi fizeram vella, e passaram ao mar grandes e perigosas tromentas, e em fim aportaram a salvamento em porto Liorne, junto com Pisa, bespora de Santa Maria Candelaram, primeiro dia de Fevereiro.