CAPITULO CXXXV
Como o Gram Turco tomou a cidade de Constantinopola, e o Papa publicou cruzada contra elle, e El-Rei D. Affonso a tomou
E no Maio d'este anno de mil e quatrocentos cincoenta e tres, o Gram Turco chamado Mafamede tomou por cerco a nobre cidade de Constantinopola em Grecia, cabeça do imperio no Oriente, e a cidade de Pera com muitos outros reinos e provincias de christãos de Europa e Asia, sendo Papa na Santa Egreja de Roma Nicolau sexto, que de muito velho e anojado do caso a que quizera prover, logo falleceu e sobcedeu em seu lugar o Papa Calisto terceiro, de nação valenceano, em virtudes, saber, e esforço homem mui singular, e com a dôr da perdição d'aquellas cidades e terras, e aceso em um santo ardor de as cobrar, convocou e encitou para isso por seus breves e messegeiros todolos Reis e Principes christãos. Entre os quaes foi El-Rei D. Affonso, que como era Principe mui catholico e de grande coração, e em que o real sangue para mais honra servia, sendo ainda a Rainha viva, acceitou a empreza com promessa de servir a Deus n'aquella guerra com doze mil homens por um anno á sua custa, para execução do qual, em fazimento de navios e compras d'armas, e em outras cousas a tal e tão longa viagem necessarias, fez grandissimas despezas, não sem grandes lamentações do reino, e em fim El-Rei por então desistiu d'aquella ida, assi porque lhe falleceu para isso muito dinheiro, como porque o Papa Calisto falleceu, que deu causa aos outros Principes christãos tambem desistirem. E assi juntamente porque foi certificado que El-Rei de Fez sabendo de sua partida fóra de seus reinos se aparelhava vir como veio sobre Ceuta; mas porque então achou a cidade com mais força e maior segurança do que fez fundamento, alevantou o cerco com proposito de logo tornar sobr'ella com mais artilharias, engenhos, e poder.
E tendo El-Rei muita frota e gente prestes, para a empregar como dizia, occorreram-lhe tres emprezas juntamente, a primeira era a necessidade que tinha de prover e remedear aos males e roubos que n'este tempo os francezes faziam no mar aos naturaes d'estes reinos, de que se os mercadores a El-Rei muito querelavam. A segunda cumprir sua promessa ácerca da guerra dos turcos, que já tinha publicada, e para que tinha feito muitos percebimentos. A terceira a ida d'Africa, com fundamento de tomar aos mouros algum lugar, com que de cercos e affrontas affrouxassem Ceuta, e sobre todas tres teve conselho.
E a primeira de tamanha frota andar pelo mar á ventura, houveram que era cousa duvidosa e não certa, e ainda com despeza e perigo. E a segunda de seguir a empreza do turco não menos por escusada, pois El-Rei ficava n'ella só, em que pela desegual comparação de poder que d'elle ao contrairo turco havia, sem duvida se perderia.
E porém o marquez de Valença e alguns que o seguiram aconselhavam El-Rei que esta sobre todas era razão que seguissem, pois o promettera e se esperava por isso em toda a christandade, tendo ainda por mór e mais forte contradicção, que devia ir por terra e não por mar, em cujo voto foi de todos confundido, e alguns tiveram que a tenção do marquez em dar e soster conselho de tantas contrariedades, não fôra se não por arredar El-Rei da affeição da Rainha, de que se muito receava por causa da morte do Infante D. Pedro seu padre, em que elle fôra o principal movedor. E finalmente a terceira de passar em Africa se houve por melhor, especialmente que presuppunha que El-Rei de Fez magoado de chagas novas, que com sua passagem tomando algum lugar receberia, viria sobre El-Rei que lhe daria batalha, e com ajuda de Deus o venceria, e porém as cousas sobcederam logo no reino de maneira, que este desejo e determinação se não pôde assi cumprir.