CAPITULO LXXXIII
De como foi a morte do Infante D. Fernando que era captivo em Fez
E n'este anno outrosi de mil e quatrocentos e quarenta e tres, veiu certidão da morte do Infante D. Fernando, que era posto por arefens em Fez, e segundo o testemunho que de sua vida e morte deram os christãos que com elle ficaram, homens fidalgos e pessoas de muito credito, certo de crêr é piadosamente que morreu santamente, e com esperança de ser santo e bem aventurado. E porque Deus por sua piadade e em galardão de seus merecimentos, segundo fé de muitos fez evidentes milagres, e a morte antecipou os naturaes dias de sua vida com a aspereza do trato e máo captiveiro que padeceu por mandado de Lazarac Marym, crú e máo tirano de Fez, que por ser vil e de nenhum sangue real, com muita sede e grande fome o fazia servir em oficios baixos e vis, e com tal estreiteza, que em uma masmorra e prisão mui escura acabou n'este mundo a vida, para nosso Senhor lhe dar no outro outra melhor e mais viva, que em sua gloria durará para sempre.
A morte d'este Infante por sua calidade e desamparo foi muito sentida e pranteada n'este reino, e principalmente dos Infantes seus irmãos, que lhe mandaram fazer mui honradas e solemnes exequias e saimento, e seu corpo metido em um ataude, esteve muitos tempos pendurado por cadêas sobre uma porta da cidade de Fez, e depois por convenção que se fez, foram seus ossos trazidos a estes reinos em tempo d'este Rei D. Affonso, no anno de mil quatrocentos e LXXIII, e depois da tomada de Arzilla; os quaes de Lisboa foram levados com grande honra e solemnidade ao mosteiro da Batalha, em que tem sua sepultura especial e honrada na capella d'El-Rei D. João seu padre. Onde por signal que acabou como catholico e mui fiel christão, ha grande credito que nosso Senhor fez, e faz por elle muitos milagres.
Por morte d'este Infante D. Fernando ficou vago o Mestrado d'Avis, de cuja governança e administração, D. Pedro, filho do Regente, foi a suplicação d'El-Rei por auctoridade Apostolica provido.