CAPITULO XC

Como o Infante D. Anrique entendeu nas cousas do Infante D. Pedro para seu favor, e assi o conde d'Abranches

Partiu-se El-Rei de Santarem para Lisboa, onde o Infante D. Anrique que era no Algarve lhe veiu fallar, e porque sentiu que a vida e honra do Infante seu irmão com maneiras falsas de seus imigos era maltratada, e se despunha a destruição e perigo, atalhou a isso algum tanto, mas não com aquella fortaleza e escarmento, que elle a seu irmão devia e o mundo esperava, o que lhe fôra bem possivel se quizera; porque achou contra o Infante artigos formados em que se afirmava que com cobiça de reinar matara El-Rei D. Duarte seu irmão, e em Castella dera ordem á morte da Rainha D. Lianor, e assi á do Infante D. João. Com outras muitas abominações de que se tiravam inquirições, em que por seu sobornamento lhe não falleciam testemunhas falsas com que parecia que o provavam. Mas o Arcebispo e o conde d'Ourem com outros de sua parcealidade, receiosos se o Infante D. Anrique segundo era no reino poderoso e de grande auctoridade pendesse á banda do Infante D. Pedro, que suas maginações ficariam com damno d'elles muito áquem de seu proposito, trabalharam de fazer a El-Rei suspeitosas suas muitas virtudes e segura lealdade, afirmando-lhe que nas desculpas do Infante D. Pedro o não devia crêr. Porque na culpa do engano e desterro da Rainha sua madre, e em outros desmandos que por morte d'El-Rei D. Duarte no reino se fizeram foram ambos causadores e participantes, mas como isto era falso, não damnava na limpeza do Infante D. Anrique.