CAPITULO XCIX
Do que o conde d'Ourem ordenou em favor do duque seu pae para não leixar de proseguir seu caminho, e dos recados que El-Rei ao Infante D. Pedro enviou
E o Infante D. Pedro vendo já por estas premissas passadas que o recontro e peleja com o duque em conclusão se não podia escusar, fez para isso aquelles percebimentos de gentes, armas, artelharias, mantimentos e cousas que sentio serem necessarias, e com aquella trigança e diligencia que o caso requeria. Das quaes cousas todas como passavam o conde d'Ourem foi logo na côrte avisado, e por favorecer a parte do duque seu padre não sendo bem seguro e confiado de muitos que n'aquella viagem o acompanhavam, temendo que na maior affronta o leixariam, fez crêr ao Infante D. Fernando, irmão de El-Rei, que por ser casado com a neta do duque, filha do Infante D. João, este caso era proprio seu. Pedindo-lhe que aos que com o duque vinham quizesse escrever e encommendar sua honra para que em tempo d'alguma affronta e necessidade se sobreviesse, como fracos o não leixassem.
E de ter o conde este receio e desconfiança não era sem causa; porque os mais dos fidalgos da companhia do duque com que refizera tanta somma de gente, não eram de sua casa mas vinham acostados a elle por aquella jornada sómente, e não com fundamento de tomarem por elle armas contra o Infante D. Pedro, mas pelo terem na côrte em sua ajuda e favor para seus negocios e requerimentos que esperavam fazer. E o claro conhecimento que o duque na vespera da affronta d'isto tomou, lhe fez não esperar o dia que para ella se aparelhava, como ao diante se dirá.
E porém o Infante D. Fernando como era de mui pequena idade em que o sangue fervia, não sómente satisfez ao conde com cartas que ordenou á sua vontade, mas ainda se offereceu ir em pessoa em ajuda do duque, e assi lh'o escreveu logo e aos seus, por Alvaro de Faria, que depois foi Commendador do Casal, cuja ida por então não houve effeito; porque as guardas que o Infante nos caminhos trazia o tomaram, e foi a elle trazido, e tomou-lhe as cartas e as leu, e o fez tornar para Santarem, e posto que do Infante nem dos seus não fosse em nenhuma outra cousa maltratado, elle depois de ser na côrte o não apresentou assi, antes no desbarato e destroço da sua pessoa e de seu cavallo, que de industria fingio, se mostrou ser de todo por mandado do Infante despojado, affirmando que dissera sobre tudo algumas palavras mui contrairás ás verdadeiras, e não do reprender com o despedio de si, com que poz os feitos contra o Infante em maior alvoroço e perseguição; porque El-Rei mandou logo riscar de seus livros o assentamento e todalas tenças que o Infante d'elle tinha, e deffendeu aos almoxarifes que d'hi em diante mais lh'os não pagassem. E assi escreveu ao Infante por João Rodrigues Carvalho, escudeiro de sua casa, defendendo-lhe com grande estranhamento «que não tivesse ao duque o caminho, e o leixasse passar livremente, pois o ia servir.» Do qual recado foi o Infante mui triste, e mostrou grande sentimento, e sobre a sem razão de seus agravos e perseguições fallou algumas cousas ao messageiro que pareciam de aspereza, mas não tão feias nem assi malditas, que se não podessem dizer de um agravado servidor a um Senhor mal informado. Mas João Rodrigues como tornou á côrte, ou de sua não boa vontade, ou por ser dos contrairos do Infante assi induzido, afirmou que o Infante publicamente dizia «que não era vassallo d'El-Rei de Portugal, mas subdito e servidor d'El-Rei de Castella, e que assi como podera desterrar d'estes reinos a rainha D. Lianor, que outro tanto saberia fazer aos filhos». Com outras enormes palavras mui contrairas ás que o Infante com elle fallou, com o teor das quaes se fizeram logo autos, e tomaram publicos estromentos, que para mais indinarem o povo contra o Infante, logo foram pelo reino enviados.
Após João Rodrigues, veio ao Infante D. Pedro de mandado do Infante D. Anrique, o Bispo de Ceuta D. João, que com quanto tinha afeição ao conde de Ourem por ser da criação do Condestabre, era porém homem de grande prudencia e de sã e justa tenção. E como quer que apontasse ao Infante muitas causas e razões, porque catolicamente, e segundo a obediencia em que a El-Rei era obrigado não devia impedir a passagem do duque. Em fim não o pôde mover da sua determinação, aprovando-a o Infante com outras razões de honra e cavallaria, e porém taes que não desfaziam nada de sua lealdade a El-Rei, afirmando-se «que se o duque quizesse vir em fórma de pacifico e amigo como sempre viera, que elle o receberia e lhe faria honra e acolhimento como a irmão e amigo, segundo sempre fizera, e que d'outra maneira lh'o não havia de consentir, como por Martim Affonso lhe mandara dizer.»
E estando as cousas n'este ponto, e esperando ainda o Infante D. Pedro em Penella pelo Infante D. Anrique, como lhe tinha enviado dizer, soube que elle sem lh'o fazer saber se partira para Santarem onde era El-Rei e sua côrte, de que o Infante D. Pedro recebeu muita torvação. E não sei como esta virtude de piedade falleceu n'este Principe para seu irmão, pois em seu coração todalas outras parecia que sobejavam, de que alguns disseram que El-Rei por enfraquentar a parte do Infante D. Pedro, o mandara chamar sabendo que o queria ajudar, e outros afirmaram que elle fingira tal chamamento por não ser com seu irmão, vendo já sua determinação de ir contra a defesa d'El-Rei, e por força d'armas resistir á vinda do duque.
E no começo do mez d'Abril d'este anno de mil e quatrocentos e quarenta e nove, veiu ao Infante em Penela Fernão Gonçalves de Miranda com uma grande instrução d'El-Rei, cuja conclusão foi estranhar-lhe muito algumas cousas, em especial seus ajuntamentos e o movimento contra o duque, mandando-lhe em conclusão «que se tornasse a Coimbra, d'onde sem seu mandado não saisse, e leixasse o duque sem contradição passar assi como vinha. E que se o não fizesse, que fosse certo que logo procederia contra elle assi rigorosa e asperamente, como tamanha desobediencia merecia.»
A esta embaixada d'El-Rei respondeu logo o Infante, justificando com largas razões seu proposito, concluindo «que pois sua Mercê o mandava contra sua honra e estado tornar atráz, que outro tanto devia mandar ao duque que primeiro começara, e que posto que na priminencia das pessoas de um e do outro havia em tudo tanta diferença, como ao mundo era notorio, que este caso d'ambos julgasse e houvesse por igual, e ao menos o que defendia a um, não consentisse ao outro. E que pois sua Mercê por então não tinha de gente d'armas tão eminente necessidade, mandasse que o duque passasse por sua terra em modo pacifico, e com a gente de sua casa ordenada, e que n'esta maneira o receberia como a irmão e amigo, e lhe faria e mandaria fazer muita honra e bom acolhimento, como sempre fizera, e que em outra maneira recebendo n'isso tamanha mingoa não o havia por seu serviço, pela grande parte e razão que com seu real sangue tinha» e com esta resposta o despediu.