CAPITULO VIII

Como houve treguas antre os Christãos, e Mouros, e com que fundamento cada uns o outrogaram, e como foi a morte dos sete Cavalleiros Martyres, e o Mestre tomou Tavilla

Os moradores de Tavilla, e assi os Mouros das outras Villas seus comarcãos, vendo-se perseguidos, e mal tratados do Mestre, por seus meos que antre si tiveram concordaram, que por quanto a este tempo estavam já cerca do mez de Junho em que haviam de recolher seus pães, e dahi a pouco se achegava o outro de seu alacil para secarem e aproveitarem suas passas, e fruitas, era bem de procurarem poer com o Mestre tregoas até o São Miguel de Setembro, que vinha, no qual tempo acabariam inteiramente de recolher suas novidades, e dahi por diante teriam milhor disposição para lhe fazer a guerra, e o lançar fóra da terra. Da qual tregoa que pelos Mouros foi requerida, e apontada prouve muito ao Mestre, e lha deu, de que fizeram suas certidões com fundamento, que não sómente neste tempo daria descanço aos seus dos muitos trabalhos que tinham passados, mas que ainda nelle se perceberia das mais gentes, que para o dezejado fim de sua empreza lhe eram neccessarias.

E sendo por bem desta tregua os Christãos, e os Mouros de uma parte, e da outra seguros, D. Pedro Rodrigues, Commendador mór de San-Tiago, que era na companhia do Mestre dice aos outros Cavalleiros, que por seu desenfadamento, pois estavam em tregoa fossem com suas aves á caça ao lugar das Antas, que era terreno de Tavilla, e está dahi tres legoas. Ao que foi o Mestre como pessoa mui prudente, contrairo, dizendo-lhe que escusassem em tal tempo sua ida, porque os Mouros, por suas condições, não eram menos ciosos da terra que das molheres, e por esto com qualquer paixão destas sendo homens sem fé, e sem verdade lhe poderiam fazer dano, que custaria depois mui caro. A que o Commendador-mór tornou dizendo, que pois estavam com os Mouros em treguas delles tão desejadas e requeridas, que não havia rezão para elles se recearem, quanto mais que elles para segurar esse pejo iriam á caça de paz, e de guerra.

Com esta confiança o Commendador, e cinco outros Cavalleiros com elle a cavallo se partiram de Cacella, e trazendo o caminho direito de Tavilla, passaram pela ponte, e entraram, e seguiram pelo meio da praça da Villa, e chegaram ás Antas, lugar da caça, que é uma legoa da Villa a cerca da ribeira, onde começaram de caçar, e haver prazer sem alguma maginação nem sospeita da morte, que se lhes aparelhava, porque os Mouros de Tavilla quando daquella maneira viram passar os Christãos, havendo que era em seu manifesto desprezo, receberam por esso grande dor, porque sua vista lhes fizera viva lembrança das mortes, e males, que delles já muitas vezes tinham recebidos, e diceram antre si: «Certamente os homens, que somos, que sofrem tanta mingua, e tanto desprezo quanto estes Christãos com soberba nos fazem são mais que mortos, e não tem siso, vergonha nem coração, assi passam por aqui os Christãos nossos imigos tão seguros como se fossemos bestas, e elles senhores da nossa Villa».

Sobre as quaes palavras de murmuração se ajuntaram muitos com grande honra, e determinaram ir logo como foram com grande ira, e com passos mui apressados sobre os Christãos, os quaes andano á caça, quando viram tantos Mouros, ca a grande sua pressa, e alvoroço com que iam, em cazo que ainda fosse de longe logo presumiram a má, e indinada tenção, com que vinham, pelo qual leixadas as aves, e seu officio ocioso se ajuntaram, e diceram: «Claro é que estes Mouros vem sobre nós, e o principal remedio é o de Deos, que por sua piedade nos queira esforçar, e soccorrer, e apoz este concelho seja que nos percebamos, e esperemos como Cavalleiros qualquer afronta, que nos vier, e prazerá a Deos, que pois somos Christãos, que não sómente nos defenderemos, mas que com sua ajuda os venceremos, e quando a ventura for tão contraira que não possamos salvar as vidas, ao menos vínguemol-as primeiro com mortes destes, e hajamol-as por bem empregadas em seu serviço».

Com esto enviaram logo ao Mestre um mensageiro com grande trigança pedindo lhe que os soccorresse, e com aquella pressa, e deligencia que em tão breve tempo foi possivel, e para elles em tanto se defenderem e pelejarem, fizeram um palanque de paos de figueiras velhas a que se recolheram, onde os mouros com muita furia os vieram logo commetter, em que acharam muito esforço, e grande resistencia, e não tão leves como elles cuidavam, e estando os Christãos nesta afronta acertou-se, que Gracia Rodrigues, o Mercador, com que o Mestre se aconcelhara na vinda do Algarve, como atraz dice, indo de Farão para Tavilla com suas cargas de mercadorias segundo costumava, quando vio o desassosego, e ajuntamento dos Mouros seguio o fio delles para saber o que era, e quando vio a peleja, e grande perigo em que os Christãos estavam, volveu rijamente onde deixara suas cargas, e dice aos seus servidores: «I vos e leixai essas arrecovas, e tomai essas mercadorias que partireis antre vós, ca se eu viver não me falecerá de que viva, e se morrer esso me basta, pois é em serviço de Deus».

E com esto acabado, arremeteo, e se lançou ao palanque, e dentro delle se ajuntou com os Christãos, e que ajudou e esforçou quanto a um bom homem era possivel, onde por grande espaço se defenderam, e pelejaram, dando e recebendo muitas feridas, e assi eram afrontados, e por tantas partes combatidos, que um não podia dar fé do que o ouro fazia, e em fim por as forças dos Christãos serem já de grande trabalho vencidos, o seu palanque foi roto, e entrado, e elles todos sete por desfalecimento da virtude corporal cortados de mortaes feridas acabaram as vidas como Cavalleiros, e bons Christãos, o que não foi sem publica vingança de suas mortes, de que os corpos dos Mouros sem almas déram alli verdadeiro testemunho.

Durando a peleja dos Christãos chegou seu recado ao Mestre que era em Cacella, donde com grande trigança logo partio com desejo de os soccorrer, porque bem sabia que os Cavalleiros eram taes, que sem medo, nem outro seu desfalecimento, ou haviam de viver, ou morrer, e seguiu o caminho porque elles vieram, e sem contradição, nem defeza dalguma pessoa entrou pela Villa, e praça della, e tão intento, e acezo ia no dezejo que levava de soccorrer aos Chrystãos, que passando por ella não lhe lembrou, que dessa vez livremente, e sem perigo a podia tomar se quizera, e quando chegou ás Antas, onde achou, e vio todolos seus Cavalleiros mortos, anojado e mui iroso por tão feio feito houve com os Mouros, que ainda topou mui crua peleja, onde matou tantos, que os ossos delles foram depois por longos tempos ali vistos em grande soma, e aos outros, que fogiram, foi seguindo o alcance fazendo nelles grande estrago até á Villa, cujas portas os Mouros acháram fechadas, porque os visinhos, e gentes que em ella ficaram, quando viram passar o Mestre ao soccorro dos Cavalleiros a que ia, bem entenderam qual seria sua determinação como soubesse parte do cazo.

E por esso cerraram bem suas portas, que não quizeram abrir aos seus que vinham fogindo, e sómente lhe abriram um postigo pequeno, e escuro, que está contra a mouraria, sobre que deu o Mestre e os ferio tão rijo, e com tanta braveza, que não tendo elles acordo para se defenderem, nem de cerrar a porta entrou por ella o Mestre de volta com elles, e cobrou a Villa, e apoderou-se della dentro da qual, e fóra della o Mestre, e os seus fizeram nos Mouros grande estrago. E era neste tempo senhor de Tavilla Abenfalula, Mouro que não se sabe se morreo nestas pelejas, se ficou no lugar, como outros alguns ficaram. E esta batalha, e os Cavalleiros mortos, e a Villa tomada foi tudo a nove dias de Junho de mil e duzentos e quarenta e dous (1242). E o Mestre como de todo foi apoderado da Villa, e a leixou com boa segurança, com alguma gente darmas tornou ás Antas onde os Cavalleiros mortos jaziam, e chorando por elles muitas lagrimas, e dando grandes gemidos e tristes sospiros os mandou apartar dantre os corpos dos Mouros que elles mataram, e cheos todos de muito sangue das grandes feridas de que morreram, os fez levar á Villa, e na mesquita, que o Mestre fez consagrar em Egreja da Envocação de Nossa Senhora mandou logo fazer um grande Moimento de pedra, em que se pintaram sete Escudos, todos com as vieiras de San-Tiago, e nelles os seis Cavalleiros, e Gracia Rodrigues com elles foram todos sete sepultados, e seus nomes são estes, Pedro Rodrigues Commendador mór, Mem do Vale, Durão Vaz, Alvaro Gracia, Estevam Vaz, Beltram de Caya, e o Mercador Gracia Rodrigues, cujos corpos foram depois havidos em grande reverencia, e devação, e piedosamente não era sem cauza, porque como Martyres espargeram seu sangue, e como fieis Catholicos perderam as vidas pela Fé de Jesu Christo N. Senhor.