CAPITULO XI
Como El-Rei Dom Affonso de Portugal depois de lhe ser dado o Algarve, tomou aos Mouros a Villa de Farão, em que foi em sua ajuda o mestre D. Payo Correa
E por El-Rei Dom Affonso não estar ouciozo de fazer alguma parte verdadeira a tenção com que pedira esta terra, mandou com grande diligencia preceber a gente de seu Reino, com a qual junta, e para logo ir ao Algarve, elle a gram pressa se foi a Beja, e da hi a Almodovar do Campo Dourique, e passou a serra, pelas Cortiçadas, e da hi levou seu caminho direito para a Villa de Farão, que era do Senhorio de Miramolim, que era Rei de Marrocos, e tinha a Villa por elle um seu Alcaide mór, que chamavam Aloandro, que era seu Alxarife, outro Mouro principal dito Abombarram, aos quaes para sua segurança não faleciam dentro grandes percebimentos de muita gente, armas, e mantimentos, e mais no alcacer da Villa tinham uma fusta, que por um arco, que era feito no muro a lançavam ao mar quando queriam, e nella enviavam seus recados ao seu Rei, quando delle, e de suas ajudas tinham alguma necessidade, e por esta cauza, e porque a Villa era mui forte os Mouros della estavam muito esforçados, e com pouco medo dos Christãos, e o Mestre Dom Payo Correa, que por prazer del-Rei de Castella era já Vassallo del-Rei Dom Affonso de Portugal, sabendo de sua ida o foi com suas gentes aguardar na Villa de Selir antre Loulé, e Almodovar, e ali se viram, e o Mestre lhe fez sua devida reverencia, e acatamento, e El-Rei a elle muita honra, com sinaes de grande amor, porque eram Compadres, e dali com suas gentes concertadas foram logo cercar a Villa de Farão, sobre que pozeram fortes estancias, e repartiram seus ordenados combates por esta maneira, a saber, o primeiro combate tomou El-Rei para si no alcacer, e um lanço do muro da Villa até a porta, que agora dizem dos Freires, e o segundo combate do Mestre de San-Tiago com toda sua gente, foi desta porta dos Freires com outro lanço do muro até a porta da Villa, e ca um rico homem, e bom Cavalleiro, que havia nome Pedro Estaço, mandou El-Rei dar outro lanço do muro até uma terra que depois chamaram de João de Buim, e a este mesmo João de Buim, que era pessoa de grande estima, foi dado outro lanço desta sua terra até o alcacer, onde era o primeiro combate del-Rei.
E além destes Capitães aqui nomeados, eram com El-Rei outros Cavalleiros, e pessoas mui principaes do Reino de Portugal, a saber, Dom Fernão Lopes, Prior do Esprital, e o Mestre Daviz, e o Chançarel Dom João Davinhão, e Mem Soares, e João Soares, e Egas Coelho, e outros, e por estes lugares, e lanços mandou El-Rei combater a Villa, ca tão aturadamente o fizeram, que de dia, e de noite nunca os combates, e afrontas cessavam, nem davam aos Mouros algum lugar, e repouzo, e porque perdessem a grande esperança, e ajuda, e socorro, que tinham no mar, El-Rei lha tirou; porque mandou sua frota de Navios grossos estar no mar, e assi ordenou que no canal do Rio se atraveçassem outros Navios fortes, e bem armados, e forrados de couros da banda do mar, por tal, que se por cazo algumas Galés de Mouros viessem contrairas, e entrassem no Rio, que ellas com fogo, ou com outros engenhos não denificassem os Navios dos Christãos, e desta maneira o Lugar ficou cercado em torno por mar, e por terra, pelo qual vendo os Mouros que o mar onde tinham o ponto principal de sua salvação e socorro era de todo impedido, e atalhado, e assi não podendo já sofrer os aficados, e perigosos combates que com grande seu dano sempre recebiam dos Christãos, e que posto que bem, e esforçadamente se defendessem, como faziam, não tinham emfim esperança de se salvarem, ouveram por bem commetter partido, a El-Rei para que sahiram de dentro os sobreditos Alcaides, e Alxarife, que na Villa eram dos Mouros as maiores cabiceiras.
E andando elles nestre trato sem amostrarem aos do Arraial, que era acabado, El-Rei foi falando com elles até o alcacer, onde por concerto já antre elles praticado, e prometido, El-Rei foi delles recolhido no dito Castello com os que elle quiz, que seriam até dez Cavalleiros, e como El-Rei entrou, porque assi era corcordado, logo o alcacer foi livre de todolos Mouros que nelle estavam, e se recolheram para a Villa, e por mais segurança, o alcacer foi logo buscado e despejado por aquelles Cavalleiros del-Rei, de maneira, que dentro delle não ficaram dos Mouros salvo os sobreditos Alcaides, e Alxarife, e porque El-Rei por cumprir aos Mouros sua verdade, e para se fazer o trato com mais assecego não deu desta parte ao Mestre de San-Tiago, nem aos outros Cavalleiros, que tinham os combates, e estes achando menos El-Rei, e sabendo que era dentro no alcacer, não sendo certos de sua vida, e segurança, antes vendo, que contra sua vontade, e por seu mal o retinham, foram por esso anojados, e por esse cazo foi no arraial feito grande alvoroço com que (posposto todo o perigo) determinaram os Christãos combater a Villa, que sem embargo da resistencia, e setas, e pedras dos Mouros, que o contrariaram passaram, e ajuntaram-se com os Mouros, e as gentes do Mestre trouxeram logo muita lenha, e outros materiaes ás portas da Villa para com o fogo as queimaram, e entrarem por ellas, e por este dezavizo, de que não sabia a verdade morreram nestes cometimentos, que poderam ser escuzados muitos Mouros, e mais Christãos.
El-Rei depois que ouvio os grandes rumores do arraial, e soube a causa delles, logo com grande trigança se sobio em uma torre, e dando-se a conhecer alçou o braço direito, e na mão amostrou a todos as chaves do alcacer, que já tinham a seu serviço, e com esso mandou o Mestre, e a todolos outros Capitães, que logo cessassem de seus combates, e porque já era em concerto com os Mouros, e assi o Alcaide Mouro Abembarram sahio do alcacer, e dice aos Mouros da Villa, que fossem seguros, e não fizessem algum mal aos de fóra, e com esto ficaram todos assossegados, e El-Rei mandou lançar pregões pelo raial que algum Christão não fizesse nojo aos Mouros, posto que antre os Christãos andassem, nem entrassem pelas portas da Villa; posto que abertas as achassem, salvo o Mestre, e outros Capitães, porque estes entrariam com aquelles, que quizessem, e que os outros Christãos estivessem sobre as portas dos combates, e estancias, que lhe foram ordenadas.
E o concerto que El-Rei fez com os Mouros foi, que elles Mouros da Villa lhe fizessem, dessem e pagassem juntamente aquelle mesmo foro, e serviço, e todalas outras cousas, que faziam, e pagavam ao seu Rei Amiramolim, e que com elles ficassem todas suas cazas, vinhas, e Cidades assi como dantes as tinham, e que El-Rei os amparasse, e deffendesse assi de Mouros como de quaesquer outras gentes, e nações, que lhe mal, e nojos quizessem fazer, e que aquelles que para alguns Lugares de Mouros se quizessem ir, que livremente com todas suas cousas o podessem fazer, e andassem com El-Rei quando lhe comprisse, e que lhe fizesse por esso bem, e mercê. E por esta maneira cobrou El-Rei a Villa de Farão no mez de Janeiro de mil duzentos e setenta (1270).