CAPITULO XV
Da morte do mestre Dom Payo Correa, e das causas que houve para El-Rei D. Affonso de Castella, pai da Rainha de Portugal ser desobedecido, e como foi ajudado de Portugal, que foi fundamento para se acrecentarem a Portugul os Lugares de riba Dodiana
Com esta Carta, e com grandes davidas que o Ifante D. Diniz recebeo del-Rei Dom Affonso seu avô se tornou a Portugal com que El-Rei seu padre foi muito alegre, e com elle veo o Mestre Dom Payo Correa, que depois de tornado a Castella não soube mais delle, nem o que depois fez, salvo que no fim de seus dias se recolheo á Villa de Ucles, que era Cabeça do Convento do seu Mestrado de San-Tiago em Castella, onde se diz que bem, e catolicamente acabou sua vida já velho a dés dias de Fevereiro de mil e duzentos setenta e cinco annos, (1275) e que mandou que morto o trouxessem a Tavilla, que elle ganhara dos Mouros, de que escondidamente foi ahi trazido, e sepultado na Egreja de Santa Maria antre o Altar mór, e a parede da Egreja.
E passados depois alguns annos andando a era de mil duzentos e setenta e um, havendo contenda na jurdição do Imperio de Roma, que vagara por morte de Federico o segundo, que foi mao, e erege Emperador dos Romãos, e grande perseguidor das cousas da Santa Egreja, alguns Eleitores elegeram a Rodufo Conde de Cambra, irmão del-Rei de Inglaterra, e outros elegeram, e chamaram logo para o Imperio este Rei Dom Affonso de Castella, o qual mui poderoso de armas, e gentes, e assi mui abastado de riquezas, depois que leixou em Castella jurado por Rei, e seu sobcessor ao Ifante D. Fernando de Lacerda seu filho primogenito, logo passou em França esperando de ser logo no dito Imperio sem contradição confirmado por o Papa Gregorio decimo, ao tempo em Lião Sola nova de França fez Concilio geral, onde o dito Rei D. Affonso achou já eleito e confirmado o dito Rodufo com quem competia, e agravando-se desso ao Papa, que encontrou na Villa de Belicaudo em França junto com Avinhão, finalmente confortado de Sua Santidade, e rogado, que por se evitar cisma, e guerras antre os Christãos, que renunciasse o direito que no dito Imperio tinha, e elle o fez, e tornou-se em Espanha onde achou falecido de peste o dito Ifante Dom Fernando, seu filho maior, que por assossego da sobceção de Castella, e de Lião sobre que os Reis de França, e de Castella competiram, fora cazado com a Ifante Dona Branca filha del-Rei S. Luis a que pertencia ter direito nos ditos Reinos Despanha por ser filho da Rainha Dona Branca filha del-Rei Dom Affonso o noveno, que venceo a batalha das Navas de Toloza, e desta Ifante Dona Branca o dito Ifante Dom Fernando tinha já havido dous filhos, a saber Dom Affonso, e Dom Fernando de Lacerda, a que muito mais claramente dizem da guedelha, porque este apelido de Lacerda não é de alguma geração, nem memoria passada dos seus progenitores de uma parte, nem da outra, mas sómente lhe foi posto nome aventicio, porque o dito Ifante Dom Fernando, que primeiramente se chamou de Lacerda, quando naceo trouxe do ventre da Rainha Dona Violante Daragão sua madre uma guedelha de cabelos nos peitos a que chamam Lacerda, e este Dom Affonso por contrato do cazamento, e por direito comum pertencia mais a sobcessão de Castella que outro algum.
Mas ao tempo que o dito Ifante Dom Fernando faleceo era tambem em Castella o Ifante Dom Sancho seu irmão lidimo, que a auzencia del-Rei Dom Affonso seu padre, e por morte do irmão tomou logo posse da governação, e defenção do Reino, em que trabalhou de ser como singular Principe, porque resistio com batalhas, e grandes forças aos Reis de Grada, e Marrocos, que entraram em Espanha, e não consentio que Dom Affonso de Lacerda seu sobrinho fosse jurado, nem obedecido por sobcessor de Castella, e El-Rei Dom Affonso em chegando de França, procurou logo que o dito Ifante Dom Sancho por todolos Estados do Reino fosse, como foi jurado, e havido por seu sobcessor, sem embargo doutro juramento, que ao dito Ifante Dom Fernando por si, e por seus filhos, e sobcessores era feito, e a Rainha Dona Violante molhar del-Rei Dom Affonso de Castella anojada por se denegar a sobcessão a seus netos, e principalmente a Dom Affonso o primeiro com receo que houve de os matarem em Castella, se foi com elles para El-Rei Dom James deste nome o primeiro, e dos Reis Daragão o decimo, que era padre della, donde enviou pedir a El-Rei Dom Affonso seu marido depois que veo de França, que pois elle por si ganhara dos Mouros o Reino de Murcia, que o désse ao Ifante Dom Affonso seu neto, com que para sua honra, e estado seria satisfeito, e renunciaria por esso todo o direito que tivesse na sobcessão de Castella, no que El-Rei levemente, e com san vontade consentia, mas o Ifante Dom Sancho em todo o contrariou, que com ameaças de morte, que fez não leixou ir ao Papa os Embaxadores que El-Rei seu padre sobre esso lhe mandava, dizendo que como o Ifante Dom Fernando seu irmão falecera, logo o Deos leixara por herdeiro de todolos Reinos, e couzas de que El-Rei seu padre era Rei, e Senhor.
E querendo El-Rei por Cortes, e prazer dos povos remedear esta denegação do Ifante seu filho, e para que seu neto houvesse toda via o Reino de Murcia, fez ajuntar os procuradores dos Concelhos do Reino, a que o Ifante Dom Sancho requereo com muitas rezões, que faziam por elle, que por alguma maneira não consentissem no requerimento del-Rei, e assi descontente o Ifante antes de se tomar alguma concruzão, se foi para Cordova, e El-Rei depois de declarar aos povos as muitas cauzas, e razões porque de direito podia dar o Reino de Murcia a Dom Affonso seu neto, os Procuradores para no cabo responderem com madura deliberação, como elle requeria, pediram espaço dalgum tempo, para lhe tornarem reposta, os quaes sem lha darem se foram logo com medo ajuntar com o Ifante Dom Sancho em Cordova, onde sendo delle bem recebidos, concordaram, que por quanto em Valhadolid sobre este cazo se faria ajuntamento dos mais principaes Lugares, e grandes do Reino, elles dahi a certo tempo fossem, como foram ahi juntos, salvo os Concelhos Dandaluzia, que sempre tiveram com El-Rei Dom Affonso, os quaes assi juntos em Valhadolid era hi o Ifante Dom Sancho filho del-Rei, e o Ifante Dom João seu irmão, e o Ifante Dom Manoel seu tio, e Dom Lopo Senhor de Biscaya, e Dom Diogo seu irmão, e depois de muitas praticas, e apontamentos, que antre si fizeram leixaram todos a determinação da sentença ao dito Ifante Dom Manoel, o qual alevantado em pé, pronunciou a sentença, e dice, que por quanto El-Rei Dom Affonso seu irmão matara o Ifante Dom Fadrique tambem seu irmão, e a Dom Simão Rodrigues dos Cameyros seu sogro, e outros nobres do seu Reino sem cauza, que perdesse por esso a justiça, e porque se dezaforaram os Fidalgos, e os Concelhos com dano, e perda delles, que não comprissem suas Cartas, nem lhe pagassem os foros, e porque despertara a terra, e fizera más moedas, que não houvesse do Reino preitas, nem serviços, nem martineguas, nem moedas foreiras, e que dahi em diante o dito Ifante se podesse chamar Rei de Castella, e de Lião.
E preguntados os Procuradores, e povos se aprovavam esta sentença, respondeo por todos um Diogo Affonso Alcaide mór de Toledo, que a todos parecia bem a determinação do Ifante Dom Manoel, por as rezões que dicera, e mais por a prodigalidade del-Rei Dom Affonso, que para o resgate do Emperador de Constantinopla dera das rendas de Castella cincoenta quintaes de prata, e mais por dar o Algarve a seu genro El-Rei Dom Affonso de Portugal, e lhe quitar ajuda, e o serviço dos cincoenta Cavalleiros em que era obrigado, e porém que lhe parecia couza honesta, se ao Ifante Dom Sancho assi bem parecesse, que elle em vida del-Rei seu Padre senão chamasse Rei, no que o Ifante consentio; e com esto a obediencia de todos os Lugares logo foi alevantada a El-Rei, salvo a de Sevilha, onde El-Rei se recolheo; e perseguido de muitas necessidades enviando rogar, e encomendar aos Prelados, e pessoas de auctoridade do Reino, que pozessem concordia, e boa paz antre elle, e seu filho, elles segundo alguns dizem o não fizeram, antes o contrariavam.
Com esta tamanha necessidade enviou a pedir ajuda a El-Rei Dom Affonso seu genro, que por em tempo de tanta fortuna ser agardecido ás boas obras, e graças que delle tinha recebidas, lhe mandou trezentos Cavalleiros Portuguezes pagos á sua custa por muito tempo, que por honra, e serviço del-Rei o fizeram de maneira em Castella, que sua fama, e bom nome será sempre lembrada, e as Coronicas Despanha, que eu vi dão desso craro testemunho, e destes trezentos Cavalleiros de Portugal, que vieram, e andaram em serviço del-Rei Dom Affonso, creo que se tomou a opinião errada, que em alguns livros vi, em que tem, que a obrigação de que este Rei Dom Affonso relevou a El-Rei de Portugal seu genro, e a El-Rei Dom Diniz seu neto, era de trezentos Cavalleiros com que era obrigado de o ajudar, e servir quando lhe comprisse, a tal sentença, e opinião são errados, porque a obrigação, que El-Rei Dom Affonso, e Ifante Dom Diniz seu filho tomaram por a sobcessão do Algarve, do que foram relevados, era sómente de cincoenta Cavalleiros, que em vida del-Rei Dom Affonso de Castella, contra todolos Reis Despanha lhe haviam de dar, e a verdade desto eu Coronista verdadeiramente a vi nas proprias doações, quitações, e privilegios assellados, e auctorizados, que sobresso se concederam, os quais estão no Castello de Lisboa, na Torre do Tombo de Portugal, de que eu sou Guarda mór, e outros semelhantes deve haver nos Cartorios de Castella.
E porém a guerra, e desavença antre El-Rei Dom Affonso de Castella, e o Ifante Dom Sancho seu filho durou muitos annos, nem cessou, salvo por morte del-Rei, em cuja vida padeceo muitas necessidades, e foi sempre perseguido de mui contrairas fortunas, por as quaes meteo por sua ajuda em Espanha Abençaf Rei de Marrocos, e seus filhos a que se diz, que antes de entrarem empenhou sua Coroa por sessenta mil dobras, o qual com grandes gentes, e poder de Mouros correo a terra dos Christãos, e sem aproveitarem ao dito Rei de Castella fazendo primeiro nellas muitos danos, e estragos se volveo em Africa, como na Coronica de Castella esto milhor, e com mais particularidade se declara.