CAPITULO XXIV
Como ElRei, e ho Ifante foram concordados por meio, e intercessaõ da Rainha Dona Isabel, e da maneira que nesso teve, e das menagens que pera segurança desso se fizeram.
E por esta discordia, que antre ElRei, e ho Ifante avia, ha Rainha Dona Isabel era triste, e anojada, e por aver antre elles booa paaz, e amor como era rezaõ fazia ha Deos, e mandava fazer muitas oraçoens, e devaçoens, e seendo certifiquada destas mortes, e maales tam grandes que desta desaventura se seguiam, ella de sua propria, e virtuoza vontade partio Dalanquer donde estava, e se veio ha Coimbra, e por si falou a todolos Senhores, que eram com ElRei, e com ho Ifante, e assi com ho Conde D. Pedro, e com elles por sua sancta intercessam banhada com piedozas lagrimas, asentou que era beem fazerse logo paaz, e concordia, e ha Rainha com ElRei, e com ho Ifante concordou, que ambos se partissem da li, e se fossem ha outros lugares, dõde por pessoas seem sospeita se veriam has couzas que ho Ifante requeria pera dellas lhe serem outorgadas aquellas que fossem de razam, e onestidade, e ElRei com prazer, e consentimento desto, se foi ha Leiria, e ha Rainha, e ho Ifante e se foram da i ha Pombal, e ali concertaram.
Que ElRei desse aho Ifante Coimbra, e Monte moor com seus Castellos, e ha Fortaleza da See do Porto, porque ha Cidade ainda entam nom era cerquada, e por ellas fez ho Ifante menagem ha ElRei, pera de todas fazer guerra, e manter paaz, como elle mandasse, e assi acrecentou aho Ifante pera seu soportamento, mais contia de dinheiro, e panos aalem do que tinha, e ElRei perdoou aho Ifante, e ahos seus todo ho passado, e ho Ifante ahos delRei, e ha rogo do Ifante foi tambem perdoado ho Conde D. Pedro, que foi restituido ha todo ho que tinha, e lhe era tomado, e destas couzas mostrou ho Ifante seer mui ledo, e mui contente, e dice, que nom menos obrigava, e tanta alegria tomava das mercees, e acrecentamentos, que delRei seu padre entam recebia, como de seer seu filho, pera por ellas dahi em diante, beem, e leaalmente ho servir sempre seem algum nojo, nem escandalo. E sobresto lhe fez pobriqua, e solene menagem, e tomou por esso juramento dos Sanctos Evangelhos sobre que poz has maãos e no Altar de S. Martinho do Pombal prezente ha Rainha, e muitos Fidalgos, que sobpena de seer tredor, e de encorrer na maaldiçaõ de Deos, e na sua, dali em diante sempre ho servisse, e lhe fosse obediente assi como deve seer boom filho, e leal vassalo ha seu padre, e ha seu Senhor, e que da i em diante nom acolhesse mais nhuns maalfeitores, antes hos que podesse aver prenderia, e entregaria ha ElRei, e ha suas justiças, e hos que trazia lançaria fóra logo de sua caza, e de seu favor.
E pera mais firmeza, e moor segurança rogou, e encomendou aho Conde D. Pedro seu irmaão, e ha Martim Anes de Souza, e ha Gonçale Anes de Briteiros, e Affonso Telles, e ha Gonçale Anes de Berredo, e ha Lopo Fernandes Pacheco, e ha Paio de Meira, todos riquos homens de Portugal, e ha outros nobres seus vassallos, que fizessem, como fizeram outro taal juramento, e menagem, como elle tinha feito, e ho Ifante tambem pedio aa Rainha por mercee, que pera maior, e mais seguro penhor desta concordia, e porque ElRei da i em diante mais descançasse sobre ello, que tambem ella quizesse fazer por elle este juramento, e menagem ha ElRei, e ella tambem assi ho fez, com cada hum dos outros. E outro si ElRei pera satisfaçam do Ifante, e de todos tambem fez no Altar da Capella de S. Simaõ de Leiria, solene juramento de nunqua falecer aho Ifante em alguma destas couzas, que lhe prometera, e outorgara. E foram estes juramentos feitos no mez de Maio, no anno de mil trezentos e vinte tres, (1323) e acabadas estas concordias de que todo Regno pareceo, que recebia muito prazer, e descanço, ElRei, e ha Rainha, e ho Ifante se foraõ ha Santarém, e da i ha Lixboa, onde todos estiveraõ atee Sancta Maria Dagosto, e da i ho Ifante se tornou pera as teerras, que ElRei lhe dera.